Através dessa resposta a dois leitores esperamos, realmente, que todos possam entender o posicionamento do Veritatis Splendor!

Sou participante ativo da RCC, e acolhi com amor e carinho o que o VS comentou sobre abusos cometidos por membros da RCC principalmente na Santa Missa, o que não deixa de ser verdade!!

Ficamos profundamente felizes quando as nossas análises sobre a Renovação são entendidas como, de fato, são, ou seja, um ato de extrema caridade. Muitos fiéis católicos já esqueceram que não existe caridade sem Verdade; é o amor ao próximo e, acima de tudo, o amor à Verdade, que nos movimenta a escrever sobre os tristes acontecimentos que pululam dentro dos ambientes carismáticos. Será que os leitores que crêem que somos anti-RCC não percebem que se, realmente, fossemos contrários ao Movimento iríamos perder tanto tempo abordando a problemática? Os que assim pensam não devem compreender que é, justamente, a nossa fidelidade à Igreja de Cristo, ao Vigário de Cristo, a fidelidade ao Senhor, que nos faz lançar tais reflexões sobre a Renovação

Mas aproveito esta para tirar uma dúvida, as Missas carismáticas que acontecem na Canção Nova, que é transmitida ao vivo para todo o planeta via internet, nela encontramos abusos? E se tem abusos porque o Vaticano não se manifesta contra?

No Veritatis publicamos muitos artigos sobre as normas litúrgicas, abordando, com maestria, a necessidade de fidelidade ao Missal. Poderia fazer uma breve dissertação fundamentada numa linguagem normativa, centrada na crucial relevância da obediência às rubricas. Entretanto, para tornar o entendimento de mais fácil compreensão prefiro usar outra linha que resume todo o ethos sacrificial. Vale lembrar, antes de tudo, que não apenas as normas são desobedecidas, além disso o próprio espírito litúrgico se encontra totalmente degradado, como diria o Santo Padre, existe uma total secularização da Missa, uma perda de Sagrado, do Mistério, a subvalorização da comunicação vertical – Deus e homem – e a supervalorização da comunicação horizontal – homem e homem. Agora vejamos, o exemplo maior de decoro litúrgico vem de Roma, das Missas celebradas pelo Sumo Pontífice e pelos membros do Colégio Cardinalício na Cúria. Aqui, obviamente, não faço referência ao esplendor de ornamentos e paramentos, o que seria uma óbvia injustiça, afinal muitas realidades paroquias estão distantes dessa riqueza material – riqueza material esta que não dignifica o homem, mas serve para exaltar o Senhor; os homens dando a Deus o mais belo, o mais sublime, o mais caro, para a glória de Cristo. Não obstante, mesmo que não haja a possibilidade de ter em todo o orbe a reprodução dessa santa ostentação, pode-se perfeitamente imitar e se inspirar na sobriedade, dignidade e santidade das celebrações romanas. Infelizmente, o crescimento do pensamento caricato da Teologia da Libertação criou a idéia de que a pompa litúrgica entristece a Deus. Pois bem, o próprio Cristo escolheu um digno, limpo e arrumado local para a celebração da Ceia e, além disso, não reclamou quando a mulher ungiu seus pés com o caro perfume, ao contrário, Judas queira vendê-lo para dar o dinheiro aos pobres – o primeiro adepto da TL. Aqui em Salvador temos o Convento de São Francisco, erguido pelos franciscanos, que conta com uma Igreja totalmente coberta de ouro; seriam, então, os filhos do Pai Seráfico traidores da Dona Pobreza ou, apenas, estariam vivendo na mendicância pessoal mas buscando a exaltação de Deus por meio da suntuosidade e riqueza? A tresloucada paixão pela pobreza relativizada é, no fundo, egoísta. Se o homem pode construir uma Igreja de pedras preciosas porque, então, edificar uma Igreja de latão?

Quando falamos que os celebrantes devem se inspirar no Santo Padre é justamente porque o Vigário de Cristo personifica todo o espírito de contrição, reverência e piedade necessário para a correta exaltação do Sacrifício. Uma Missa celebrada numa capela em pleno sertão baiano pode ser uma cerimônia onde o esplendor Eucarístico se encontra mais perfeitamente presente do que numa Missa celebrada na riquíssima Catedral de Salvador pelo próprio Primaz. Não estamos falando da riqueza material – que é importante sim, ainda mais quando é fruto da sincera entrega e esforço da comunidade buscando a edificação de um majestoso templo de oração e celebração – mas da riqueza espiritual.

Ademais, talvez o que mais sintetize com perfeição o espírito litúrgico é a compreensão sincera e plena do que é, de fato, a Missa. Quando entendemos que estamos diante da renovação do Sacrifício do Calvário reconhecemos, imediatamente, a inoportunidade do oba-oba e da algazarra. Alguém, por acaso, bateria palmas e cantaria músicas melosas aos pés de Cristo Crucificado? Alguém dançaria a “dança do espetinho” tendo a Mãe das Dores em prantos ao seu lado? Alguém gritaria e agiria com desleixo depois de fitar as faces humilhadas de São João e Santa Maria Madalena? E não adianta falar que a Missa não é Sacrifício ou que também é Ressurreição; a Missa é atualização do Sacrifício e comemoração da Ressurreição! Como ensina o Catecismo: “O sacrifício de Cristo e o sacrifício da Eucaristia são um único sacrifício: “É uma só e mesma vítima, é o mesmo que oferece agora pelo ministério dos sacerdotes, que se ofereceu a si mesmo então na cruz. Apenas a maneira de oferecer difere”. “E porque neste divino sacrifício que se realiza na missa, este mesmo Cristo, que se ofereceu a si mesmo uma vez de maneira cruenta no altar da cruz, está contido e é imolado de maneira incruenta, este sacrifício é verdadeiramente propiciatório”.

Outro leitor também nos escreveu, mas esse já partiu de uma outra ótica. Vejamos! Ele disse:

“Mas analisem um ponto de vista interessante, a RCC apesar de fugir em muitas vezes ao padrão litúrgico que conhecemos e convivemos normalmente está dentro das nossas Igrejas. Participam da mesma comunhão e se sentam lado a lado nos mesmos bancos das nossas Igrejas. Calma que não estou querendo atiçar pontos de vistas inflexíveis! Mas vejamos se esse pessoal não estivesse conosco, onde estariam?”

O que o nosso leitor chama de “padrão litúrgico” é o fruto da vivência da Tradição de Cristo, dos Seus ensinamentos, da fidelidade às normas litúrgicas que chegaram até nós por meio da Igreja, responsável por zelar e interpretar o Depósito da Fé. O nosso ponto de vista “inflexível” não é o nosso, é o da Igreja. O interessante de certas mentalidades é que querem moldar e adaptar antiquíssimos e preciosíssimos ensinamentos cristãos usando como pretexto a necessidade de modernização. Ora, a Igreja passou 2000 anos ensinando a mesma Verdade, convertendo povos pagãos e transformando ignorantes em doutores em teologia dogmática, assim construiu nações católicas e edificou culturas embebidas na santidade. Será que estamos falando mesmo de uma modernização? Quer dizer que de 1950 até 1990, onde a crise social se fundiu com a ascensão do modernismo, ou seja, em quarenta anos, milhões de católicos, de forma repentina, passaram a achar a tradição e o espírito litúrgico católico enfadonhos e ultrapassados? É mais crível, e constatado factualmente, a epopéia da corrupção das mentes dos fiéis, tornando-se, estas, escravas do relativismo. Nem teria tempo hábil para que em poucas décadas houvesse uma transformação tão aguda, tão acentuada, que prejudicasse o conhecimento da Verdade da forma como era exposta.

Foi muito bom, e hoje continuo participando de missas tanto da RCC quanto da missa tipo “pasteurizada”, ou apaixonantes como nos Mosteiros Beneditinos, ou até daquelas onde padres celebram missas totalmente equivocados com a escolha que fizeram para isso.

Esse papo de Missa disso e Missa daquilo é estranho. A Missa é apenas uma, porque apenas um foi o Sacrifício de Cristo. As grandes distinções litúrgicas estão dentro das diferenças ritualísticas, ou seja, ritos formados ao longo do aprofundamento doutrinário e desenvolvimento litúrgico. No Brasil seguimos o rito romano e em todo o país as celebrações deveriam ser as mesmas. Muitas vezes usam o papo de “inculturação” para justificar “Missa sertaneja”, “Missa afro” etc. Ora, a nossa nação cresceu nos seus quinhentos anos sobre um solo católico. Os missionários jesuítas que aqui chegaram transformaram índios, negros e brancos em piedosos e dignos católicos, não apelaram para ferramentas de inculturação que não fossem a santificação das culturas e não a culturalização das Missas. Usar como justificava a inculturação num país a séculos católico, com um povo acostumado a realidade litúrgica, é um absurdo. Por acaso o Brasil apostatou da fé ou desconhece o catolicismo e eu não sabia? Por acaso os católicos brasileiros quando assistem uma Missa bem celebrada ficam se perguntando “o que é aquilo?” ? Se a resposta de ambas as perguntas foi negativa não há motivo coerente para endossar a inculturação.

As Missas “carismáticas” também estão na contramão dos ensinamentos da Igreja. Além de claramente se opor ao espírito litúrgico, o celebrante rasga o missal e os ensinamentos papais. Usando como medida a Tradição e tudo que dela provém; os documentos magisteriais e a identidade da Liturgia contida no missal, percebemos, com clareza, a incongruência entra a maneira carismática de celebrar e a maneira católica de celebrar. Alguns ainda tentam justificar os abusos da RCC dizendo que é uma forma jovem, moderna. Ora, é um círculo vicioso, gerações de jovem foram formadas na idéia de que a cara jovem da Igreja não é outra coisa que a algazarra litúrgica – Missa é Missa e salão paroquial é salão paroquial, isto sim. Este papo apenas favorece a infantilização da juventude, onde rapazes e moças com vinte poucos anos estão dando gritinhos e batendo palmas num ambiente que se pede a sobriedade e contrição, além de espiritualmente indigna, esta cena é esteticamente feia. Primeiro que o jovem não se encontra acima da própria Verdade, ou será que alguém deturparia a mensagem de Cristo dizendo que é para levar as pessoas para…Cristo? Óbvia contradição! Ou seja, existe, antes de qualquer coisa, uma crassa ignorância do que é a Mater Ecclesia, o Magistério, a Tradição, a Liturgia. Se os que alegam que modernizam a Missa para chamar os jovens soubessem que estão banalizando o Sacrífico de Cristo, desdenhando da Sua morte redentora e renegando séculos de mística muito provavelmente não se atreveriam a tamanho absurdo.

Portanto tenhamos paciência, pois é mais fácil corrigir a RCC e ajustá-la à realidade necessária do que ver nossos irmãos arrebanhados por seitas evangélicas alienantes e fanáticos pentecostais.

O Veritatis Splendor não vai colocar um banner na página principal dizendo que não é contrário ao Movimento Carismático. Uma simples busca no site vai te mostrar muitos artigos onde elogiamos e defendemos a RCC, entretanto, como a caridade sem Verdade é falsidade, reconhecemos, do mesmo modo, os problemas contidos dentro da Renovação. Já cansei de escrever dizendo que nossas críticas não têm como fim a destruição da RCC, ao contrário, o objetivo é o seu fortalecimento através da purificação e maior fidelidade à Igreja.  Ou será que alguém não acha que mais próximo da Mater Ecclesia o Movimento Carismático ficará mais vigoroso?

Deixa que dentro da nossa Igreja, quem comanda é o Divino Espírito Santo, e atitudes como essa que vimos servirá mesmo é para rachar mais, e arrebentar com nossas Igrejas. Portanto moderemos nosso ponto de vista, tenhamos paciência que certamente bom ou ruim estamos unidos dentro do mesmo teto.

Não existe caridade sem Verdade. O Veritatis Splendor estaria fazendo um desserviço à RCC se simplesmente não abordasse os problemas do movimento carismático ou, então, aplaudisse os abusos. Nós fazemos mais pela Renovação do que muitos que dizem não apontar o erro porque não querem julgar. Primeiro que o julgamento condenado por Cristo é o julgamento da consciência, subjetivo, não o julgamento objetivo, preso aos fatos, em segundo lugar, e mais importante, é que se eu sei o que é a Verdade por acaso me absteria de pregá-La em respeito ao próximo, em respeito ao erro? Ora, é justamente por amar e respeitar o próximo que devemos buscar a difusão da Verdade, do contrário é hipocrisia. Conhecemos a Verdade, sabemos que a Verdade é Verdadeira, mas não só declinamos na hora de difundi-La como nos calamos frente ao erro?

Realmente, é o Espírito Santo que ilumina a Igreja, assim como é o Santo Padre o Vigário de Cristo na Terra. Ora, se o Espírito Santo é quem assina e atesta todos os ensinamentos dogmáticos da Mater Ecclesia e quem autentica toda a Tradição concluímos, logicamente, que se opor à Igreja e à Tradição é se opor ao Espírito Santo!

Sou mineiro, resido em Salvador na Bahia, e precisam ver nossas Igrejas caindo aos pedaços, por falta de dízimos e de católicos realmente comprometidos.

Eu também sou de Salvador!

Continuo dizendo não rosnem para mim pois sou Católico tradicional também.

A questão não é dicotômica; carismáticos X tradicionalistas, isto sim é o verdeiro divisionismo que depois o leitor comenta – “Paremos com essas ideias divisionistas, e admiro em muito o VS e não acho que devam dar vazão a esse tipo de divisão entre irmãos.” Este tipo de análise não existe dentro da Igreja, deve haver uma mesma sintonia e um mesmo espírito. Nós do Veritatis Splendor não estamos levantando a bandeira da extinção da RCC, mas levantando a bandeira da Igreja, apenas. Ou seja, a purificação do movimento dos erros e dos abusos. Não é lícito se opor, por exemplo, às músicas de linha carismática, aos encontros de oração, à espiritualidade da Renovação, o problema é quando tais particularidades saem do salão paroquial e entram na Igreja, na Missa, atacando a Tradição e renegando as normas litúrgicas.

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