Olá irmãos, a Paz de Cristo!

Na verdade tenho duas indagações a fazer:

1- Se Jesus é o primogênito dentre os mortos, então, em que estado estavam Elias e Moisés quando da transfiguração de Jesus?  De onde eles vieram?

2- Penso eu que, como os muçulmanos estão para os judeus (pois aqueles são uma pedra no sapato destes devido uma transgressão de Abraão), os protestantes estão para a Igreja (devido a transgressão de alguns filhos da Igreja).  Só que, na alegoria de Sara e Agar (as duas alianças nas Escrituras), São Paulo afirma que o filho da escrava não tem herança no reino de Deus pois esta pertençe ao filho da livre, sendo assim, também os protestantes (como os muçulmanos) não teriam herança no reino.  Estaria correto este raciocínio?

Gostaria de uma orientação dos irmãos.  Um abraço!

Caro José,

Que a Paz de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja sempre contigo.

Quanto à sua primeira pergunta, penso que não há uma resposta definitiva, muito embora algumas especulações sejam possíveis.

A revelação quanto ao destino eterno do homem permaneceu numa certa obscuridade até que Nosso Senhor Jesus Cristo a mostrasse com clareza. Num primeiro momento, os patriarcas sequer acreditavam em vida após a morte, razão pela qual a obediência a Deus nesta terra deveria ser recompensada com bens temporais, sendo que os males sempre eram tido como castigos infringidos em virtude de uma desobediência. Num segundo momento, passou-se a acreditar em uma ressurreição dos mortos e, portanto, numa recompensa e numa punição eternas.

Posteriormente, a Revelação tornou-se ainda mais clara e os judeus passaram a perceber que a vida humana não terminava com a morte. Ao contrário, os mortos continuavam como que vivos no “sheol” (ou habitação do mortos), local em que, privados de Deus, não havia alegrias.

Por fim, a Parábola do Pobre Lázaro dá a entender que, à época de Jesus Cristo, os judeus já percebiam, com clareza, que, mesmo no sheol, os justos recebia alguma consolação, estando (nos termos da parábola), no “Seio de Abraão”.

Muito provavelmente Elias e Moisés, como todos os justos do Antigo Testamento, estavam neste “Seio de Abraão”, local em que, privadas da Visão Beatífica de Deus (e, portanto, privadas de sua vida), as almas, recebendo algum consolo, aguardavam a vinda do Messias e Sua vitória sobre a morte.

Quanto á segunda parte da sua pergunta, devo tecer algumas considerações.

Ismael e Isaac são, ambos, filhos de Abraão, mas, como sempre acontece no Antigo Testamento, as promessas de Deus não se cumprem no primeiro deles (Ismael), mas no segundo (Isaac). Isto porque o primeiro filho sempre é, nos dizeres de Santo Agostinho, cidadão da cidade terrena (fundada no amor de si mesma levado até o desprezo de Deus), enquanto que o posterior sempre é cidadão da Cidade de Deus (fundada no amor de Deus até o desprezo de si mesma), pois o primeiro homem (o homem carnal) sempre quer gozar deste mundo, enquanto que o segundo homem (o homem espiritual) busca apenas gozar de Deus.

Sob outro aspecto, ambos representam as duas alianças: uma passageira (na qual as promessas de Deus não se cumpririam em plenitude) e outra eterna. A primeira, representada no Templo de Jerusalém; a segunda, cumprida em Cristo crucificado.

Não penso ser correto que ultrapassemos os limites propostos por São Paulo e tentemos abarcar, na prefiguração das duas Alianças, também os muçulmanos.

E, quanto a eles, algo deve ser dito.

Tornou-se lugar comum afirmar-se que os muçulmanos são filhos de Abraão. Tal entendimento é equivocado e se fundamenta numa equivocada tentativa de se aproximarem as religiões cristã e islâmica, aproximação esta de todo impossível, seja por terem crenças profundamente diversas, seja porque ambas visam à conquista do mundo, uma para Nosso Senhor Jesus Cristo, a outra, para Maomé. São crenças que, enquanto existirem, sempre estarão em choque e, ao final dos tempos, apenas uma prevalecerá: aquela que, sob a proteção de Nossa Senhora, prevaleceu na batalha de Lepanto.

Assim, é necessário dizer-se que a firmação de serem os muçulmanos filhos de Abraão é equivocada.

Os filhos de Abraão ou o são segundo a fé (isto é, aqueles que têm a fé de Abraão), ou o são segundo a carne (isto é aqueles que têm em Abraão um ancestral).

Os filhos de Abraão segundo a fé são os cristãos (especialmente, nós, católicos).

Os filhos de Abraão segundo a carne são os descendentes de Isaac e os descendentes de Ismael.

É bem conhecida a lenda segundo a qual os árabes seriam descendentes de Ismael, e, portanto, filhos de Abraão segundo a carne. Particularmente, não estou convencido da veracidade disto, mas, assumindo tal fato como verdadeiro, teríamos que os árabes (sejam eles maometanos, cristãos ou mesmo ateus) seriam, neste sentido, descendentes de Abraão. Todos os outros muçulmanos (a imensa maioria deles), então, não são descendentes de Abraão nem segundo a fé, nem segundo a carne.

Da mesma forma, entendo não ser correto que se englobem os protestantes na referida passagem de São Paulo. Afinal, se validamente batizados, os protestantes são filhos de Deus e, portanto, filhos da Igreja, ainda que a tenham abandonado imediatamente depois do batismo. Seria mais correto compará-los ao filho pródigo, que abandonou sua pátria (ou seja, sua fé) e desperdiçou seus bens com prostitutas, mas que, se a graça de Deus os mover, cedo ou tarde perceberão o erro cometido e retornarão à Igreja.

Espero ter ajudado.

Que Deus te abençoe,

Alexandre.

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