Ao contrário do que os apologistas protestantes querem fazer crer, os Padres da Igreja JAMAIS ensinaram a suficiência formal das Escrituras. Deste modo eles não ensinaram a “Sola Scriptura”, mas sim a suficiência material das Escrituras, tal como os apologistas católicos sempre defenderam.

Isso é confirmado por um erudito protestante chamado Timothy Ward em seu livro “Word and Supplement: Speech Acts, Biblical Texts, and the Sufficiency of Scripture” (“Palavra e Suplemento: Atos Discursivos, Textos Bíblicos e a Suficiência das Escrituras”), publicado em 2002:

  • “Em geral, os Padres afirmam a suficiência material das Escrituras, mas negam sua suficiência formal” (Timothy Ward. “Word and Supplement: Speech Acts, Biblical Texts, and the Sufficiency of Scripture”. Nova Iorque: Oxford University Press, 2002, p.25).

Para quem não sabe quem é Timothy Ward e prefira dizer que ele é um ignorante, deixo aqui algumas informações sobre ele:

  • “Reverendo Tim Ward, MA, PhD. Professor de Homilética. Tim se graduou em Oak Hill. Antes de retornar (regressar) para Oak Hill, deu aula no Curso de Capacitação em Proclamação da Verdade em Cornhill. Antes ainda, serviu no ministério pastoral por 14 anos. É autor de um livro sobre a doutrina da Escritura, ‘Palavras de Vida: Escritura como a Palavra Viva e Ativa de Deus’ (IVP). Obteve seu PhD na Universidade de Edimburgo na década de 1990, cuja tese foi publicada como ‘Word and Supplement: Speech Atts, Biblical Texts and the Sufficiency of Scripture’ (OUP)” (cf. https://www.oakhill.ac.uk/people/tim-ward).

Mas antes que o protestante afirme que trata-se de uma falácia de autoridade, vamos confirmar o que os apologistas católicos e Tim Ward afirmam; para tanto, usaremos como exemplo um Padre da Igreja que os apologistas protestantes costumam citar como prova do ensino da suficiência formal ou “Sola Scriptura” na Patrística.

Estamos falando de Santo Atanásio: os protestantes frequentemente citam as seguintes palavras deste Padre da Igreja:

  • “As sagradas e inspiradas Escrituras são suficientes para declarar a verdade” (Contra os Pagãos 1,3).

Por si só, esta declaração parece mostrar que Santo Atanásio acreditava que a Escritura era tudo que um crente precisava (=suficiência formal). Mas devemos lembrar que, para mostrar que um Padre da Igreja acreditava na suficiência formal ou “Sola Scriptura”, ele teria que acreditar que as Escrituras não exigem qualquer outra autoridade para determinar o seu significado, tal como o ensino da Igreja ou a Tradição, já que a “Sola Scriptura” afirma a suficiência formal da Escritura.

Ora, para Santo Atanásio as Escrituras contêm a verdade do Evangelho; porém, também para ele, a correta interpretação dessa verdade deve ser buscada por aqueles que ensinam a fé (=Magistério). É por isso que em sua Carta Festal ele escreve:

  • “Mas depois dele e com ele estão todos os inventores de heresias ímpias, que na verdade se referem às Escrituras, mas NÃO SEGUEM AS OPINIÕES QUE OS SANTOS DISSERAM; e recebendo estas como tradição humanas, estão errados, porque não as conhecem corretamente, nem o seu poder. Por isso, Paulo elogia com justiça os coríntios [cf. 1Coríntios 11,2], porque as suas opiniões estavam em conformidade com suas tradições” (Carta Festal 2,6).

Do mesmo modo, confessa a autoridade do Concílio Ecumênico de Niceia e como Deus também fala através dele (e não somente pelas Escrituras):

  • “Porém, as palavras do Senhor proferidas pelo Concílio Ecumênico de Niceia permanecerão para sempre” (Carta Sinodal aos Bispos da África 2).

E quando examinamos outros Padres que são citados na defesa da Sola Scriptura, percebemos confusões semelhantes entre sua veneração sincera e importância das Escrituras e a ideia protestante da suficiência formal das Escrituras.

Se um protestante deseja demonstrar a Sola Scriptura nos Padres, ele deve demonstrar a diferença e ainda uma afirmação muito mais forte de que a Escritura é tão clara que nenhuma informação externa ou autoridade é necessária para interpretá-la.

Portanto, a menos que o protestante mostre que Padres como Agostinho e Atanásio não declararam que os Concílios eram infalíveis e que a Igreja não tinha autoridade para interpretar as Escrituras, eu pediria a ele que não perdesse o seu tempo. James White, Jason Enwerg, Willian Webster, entre outros apologistas protestantes, em vários debates com apologistas católicos, não foram capazes de encontrar respostas para a acusação de que os seus argumentos eram direcionados apenas para demonstrar a suficiência material e não a suficiência formal.

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