Pedro então, pondo-se de pé em companhia dos onze, com voz forte lhes disse: Homens da Judéia e vós todos que habitais em Jerusalém: seja-vos isto conhecido e prestai atenção às minhas palavras. Estes homens não estão embriagados, como vós pensais, visto não ser ainda a hora terceira do dia […] Israelitas, ouvi estas palavras: Jesus de Nazaré, homem de quem Deus tem dado testemunho diante de vós com milagres, prodígios e sinais que Deus por ele realizou no meio de vós, como vós mesmos o sabeis, depois de ter sido entregue, segundo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de ímpios. Mas Deus o ressuscitou, rompendo os grilhões da morte, porque não era possível que ela o retivesse em seu poder […] Este Jesus, Deus o ressuscitou, e disso todos nós somos testemunhas […]Tenha, pois, por certo a casa de Israel que Deus fez Senhor e Cristo a Jesus, que vós crucificastes”. (Atos 2, 15. 22 – 23. 32. 36)

Temos diante de nós, proclamada por São Pedro – homem escolhido pelo próprio Cristo para ser o condutor visível de Sua Igreja neste mundo -, a primeira e majestosa declaração apologética existente e que aconteceu no instante em que começou a historia cristã, declaração esta que era também uma declaração de guerra ao mundo. Como entender esta certeza da mensagem que levavam e esta força, vinda de homens tão simples e de tão pequeno número, que estavam dispostos a dar a vida para mostrar ao mundo que o que acreditavam era a mais pura e única Verdade, aquela tão esperada e tão aguardada por todos?

Devemos nos recordar que o próprio Cristo os escolheu um a um, para serem seus discípulos fieis, que levariam adiante o anúncio de seu Reino que Ele acabara de inaugurar, para levar os homens de volta ao Pai e restabelecer a paz, a tudo que existia, na terra e no céu, morada de Deus. Este grupo de discípulos que eram chamados de irmãos, anunciavam intrepidamente a boa nova, viviam em harmonia, unidos numa fé viva e exemplar e que assiduamente frequentavam o Templo, rezando, jejuando segundo o costume e participando das refeições em comum, mas que para eles tinham agora, um novo significado.

Que laço, que mistério havia no meio deles para os tornar ao mesmo tempo tão fortes e tão acolhedores, já que diz as Escrituras que cada dia crescia entre eles o número de fieis, mesmo sendo eles tão perseguidos pelas autoridades? A resposta resume-se numa única frase: “O Messias veio para o meio de nós“. Lembremo-nos que a raiz messiânica era muito forte naquele povo de Israel e foi exatamente a espera deste Messias libertador, que fez com este povo se tornasse um povo forte, lutador e certo de sua eleição divina. Quantas batalhas travaram e nunca sucumbiram por causa da esperança que não enganava seus corações. Os profetas com muita propriedade O anunciava e fazia brotar nos corações uma certeza de que quando chegasse a plenitude dos tempos, o Altíssimo cumpriria Sua promessa e ela se realizaria na pessoa de um Ungido, de um Messias, de um Cristo. Cada um esperava um Messias a seu modo, o que não mudava o fato de que quando este chegasse, traria a paz, a dignidade muitas vezes perdida e a restauração deste povo, que afinal era a menina dos olhos de Deus.

Neste contexto que se inseria os apóstolos e discípulos, dizendo que tudo já havia sido realizado e que Aquele Jesus a quem mataram era exatamente Aquele que esperavam. Jesus verdadeiro Deus e verdadeiro homem chegou ao mundo mostrando e revelando o Pai com prodígios e milagres, e foi preso exatamente por ter-se considerado o Cristo, Filho de Deus e consequentemente Deus. São Marcos nos narra sua resposta ao Sumo Sacerdote ao ser inquerido sobre ser Ele o Cristo, Filho do Deus Altissímo, no qual obteve como resposta: – Eu o Sou, e vereis o Filho do homem sentado a direita do Todo-Poderoso e vir sobre as nuvens do céu (Mc 14,61-62). Por causa desta revelação foi sumariamente julgado e condenado, morto e sepultado. Seria seu testemunho de sangue forte o suficiente para unir o grupo que Ele havia chamado? Continuariam acreditando que o Crucificado do Calvário era realmente o enviado do Pai tão ansiosamente aguardado?

Sabemos muito bem pelo relato dos escritores sagrados, que Jesus foi traído, renegado e abandonado pelo seus discípulos, e que aos pés da cruz sobraram apenas um deles, o mais jovem e algumas mulheres. Mas por incrível que possa parecer, estes irmãos se uniram novamente apesar do desfecho humano tão inesperado e surpreendente, não por um apego sentimental, mas porque estavam na posse de provas flagrantes de sua messianidade e a respostas que davam se baseavem agora no plano de realidades sobrenaturais. Lembremo-nos de que conviveram com o Mestre durante três anos e que Este, os ensinou tudo que era preciso para se manterem unidos e fortes, apesar de muitas vezes não o entenderem. Essas garantias, esses penhores sobrenaturais eram três e todos os Evangelhos, os Atos e as Epístolas, os revelam e mostram claramente que era sobre elas que se repousava a fé daqueles homens, e que seriam a segurança da continuidade de sua mensagem a todos os povos de todos os tempos e nações. Estava nelas a raiz e a base de toda salvação humana, pois são baseadas nelas que todo homem pode crer no Filho de Deus usando a razão e aderindo a grandeza e loucura de Sua mensagem. A garantia da vida de todo homem consiste na fé em Cristo e esta se fundamenta nestes penhores tão divinamente revelados por estes homens tão carnais as vezes, mas ao mesmo tempo tão enraigados da graça e do poder do alto.

O Primeiro Penhor – A Morte Sacrifical de Cristo

O primeiro penhor foi dado pelo próprio Cristo, na véspera da sua morte, na noite da quinta-feira Santa, quando ao partilhar com os seus a sua última Ceia Pascal, partira o pão, tomara a taça de vinho e dera graças, dizendo: – “Este é o meu corpo, que é entregue por vós […] Este cálice é o Novo Testamento em meu Sangue, que é derramado por vós (cf Lc 22, 19-20). O gesto sintetizava numa fórmula sacramental um ensinamento em que muitas vezes Ele insistira dar e que mostrava a necessidade de sua morte num carater sacrifical de Si mesmo. Naquelas ocasiões não foi compreendido, talvez por estarem cegados pela espera do Messias glorioso e poderoso tão difundido e esperado por todos. Mas ao passar aqueles momentos trágicos, não foi difícil se lembrarem das tantas vezes em que Ele se referiu a sua morte e esta passou a ser uma ligação a mais entre eles, afinal se cumpriu o predito.

Compreenderam também o que significava seu sacrificio como o cordeiro imolado, já que estavam familiarizados com o mistério da Aliança, que desde o sacrifício de Abrãao até o Cordeiro pascal sempre estivera ligado a necessidade de sacrifício e assim eles puderam compreender o verdadeiro alcance da imolação do Calvário. No Antigo Testamento Israel se sutentou na Antiga Aliança, confiando nas promessas de Javé, enquanto no Novo Testamento os seguidores de Cristo, se apoiariam na certeza de que a morte de Jesus, era o ‘penhor’ de uma Nova Aliança: “Na antiga aliança, o pão e o vinho são oferecidos em sacrifício entre as primícias da terra, em sinal de reconhecimento ao Criador. Mas eles recebem também um novo significado no contexto do Êxodo: os pães ázimos que Israel come cada ano na Páscoa comemoram a pressa da partida libertadora do Egito; a recordação do maná do deserto há de lembrar sempre a Israel que ele vive do pão da Palavra de Deus. Finalmente, o pão de todos os dias é o fruto da Terra Prometida, penhor da fidelidade de Deus às suas promessas. O “cálice de bênção” (1Cor 10,16), no fim da refeição pascal dos judeus, acrescenta à alegria festiva do vinho uma dimensão escatológica: da espera messiânica do restabelecimento de Jerusalém. Jesus instituiu sua Eucaristia dando um sentido novo e definitivo à bênção do Pão e do Cálice” (Catecismo da Igreja Católica nº 1334)

Ainda hoje cantamos nós, cristãos deste tempo, na quinta-feira Santa quando relembramos a noite de Sua Paixão e Morte: “O Cálice por nós abençoado, é nossa comunhão com o Sangue do Senhor. Que poderei retribuir ao Senhor Deus, por tudo aquilo que Ele fez em meu favor, elevo o cálice da minha salvação, relembrando o Nome Santo do Senhor”. (Salmo 115)

O Segundo Penhor – A Ressurreição

Haveria de ter mais uma confirmação deste caráter sobrenatural do destino de Cristo, e podemos expressá-lo nas palavras de Sua Santidade João Paulo II sobre a Misericórdia Divina: “Que nos ensina a cruz de Cristo que é, em certo sentido, a última palavra da sua mensagem e da sua missão messiânica? Em certo sentido — note-se bem — porque não é ela ainda a última palavra da Aliança de Deus. A última palavra seria pronunciada na madrugada, quando, primeiro as mulheres e depois os Apóstolos, ao chegarem ao sepulcro de Cristo crucificado o vão encontrar vazio, e ouvem pela primeira vez este anúncio: «Ressuscitou». Depois, repetirão aos outros tal anúncio e serão testemunhas de Cristo Ressuscitado. Este é o Filho de Deus que na sua ressurreição experimentou em Si de modo radical a misericórdia, isto é, o amor do Pai que é mais forte do que a morte. [Carta Encíclica Dives in Misericordia]

São Paulo nos diz em sua Epístola aos Corinthios: ”Cristo ressuscitara como primícias dos que morreram” (I Cor 15,20). Insistindo na união entre Cristo e os cristãos, como membros de um mesmo Corpo, de que Cristo é a Cabeça, e com Ele constituimos um único Corpo. A ressusrreição de Cristo realizava a espectativa do homem manifestada pelos profetas ao longo dos séculos que esperavam a visão de Deus e também respondia à interrogação muito comum que se conhecia: “para que eu acredite na imortalidade, seria preciso que um homem ressuscitasse!”(Sêneca, o pagão, citado por: ROPS, Daniel: A Igreja dos Apóstolos e dos Martires, p.17) Ora, a promessa foi cumprida, porque Cristo ressuscitou ao terceiro dia, fazendo acontecer a certeza de que tudo o mais era possível, pois se Cristo ressuscitou podiam eles experimentar as coisas do mundo que havia de vir e suas vidas seriam atraídas por Cristo ao seio da vida divina “afim de que não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que morreu e ressuscitou.“ (2 Cor 5, 15). Se Cristo ressuscitou tudo o mais seria realizado, como a vitória sobre o mundo, sobre o mal, pois a morte foi vencida constituindo assim Cristo como Senhor do Universo e Redentor do mundo. A ressurreição passou a ser o centro da nova fé e tornou-se o arremate de todo edifício doutrinal da Igreja Santa e Católica. Tanto que ao substituir Judas no colegio que dirigia a pequena comunidade, insistiu-se que o novo membro fosse “testemunha da ressurreicão”e mais tarde São Paulo vem afirmar: Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, vã é a nossa fé”. (I Cor 15,14)

Um fato concreto, certo e constituído de excelsa vontade, culminaria também num grande sinal e que firmaria mais ainda os corações destes apostólos de Jesus: Sua Ascenção ao céu, à vista deles e que Ele também o havia predito: “Porque nunca ninguém subiu ao céu, senão Aquele que desceu do céu, o Filho do homem” (Jo 3,13).

O Terceiro Penhor – A Vinda do Espírito Santo

A morte foi consumada, a ressurrição era uma realidade, Sua Ascenção acontecera a vista deles, e estes homens precisariam de forças suficientes para enfrentar todas as barreiras que viriam, já que a luta que travavam era espiritual , luta em que almas seriam salvas, que Deus seria manifestado e que o Reino seria implantado com toda plenitude.

Para isso, o Senhor não os deixou sós e lhes deu o terceiro e definitivo penhor, enviando seu Espírito Santo, o Espírito da Verdade que revelaria a eles o que deveriam falar e os transformariam em testemunhas fieis. “Entretanto, digo-vos a verdade: convém a vós que Eu vá! Porque, se Eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas se eu for, vo-lo enviarei […] Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a Verdade, porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão.”(Jo 16, 7 – 13). Jesus cumpriu Sua promessa no dia de Pentecostes, quando enviou sobre Eles a força do alto, o Seu Espirito que estaria com eles todos os dias até a consumação dos tempos. Sabemos que o Ungido de Deus é que enviaria o Espírito, a sua Efusão seria o último sinal da era messiânica e este mesmo Espírito transformaria o mundo, a partir da transformação do coração do homem dando a eles um coração de carne, fazendo-os amar a Deus e os tranformando em filhos agradaveis ao Pai.

Ezequiel anuncia este tempo de graça onde Deus mesmo habitaria no coração do homem: ”Dar-vos-ei um coração novo e em vós porei um Espírito novo; tirar-vos-ei do peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne. Dentro de vós meterei meu Espírito, fazendo com que obedeçais às minhas leis e sigais e observeis os meus preceitos. Habitareis a terra de que fiz presente a vossos pais; sereis meu povo, e serei vosso Deus.Purificar-vos-ei de todas as vossas imundícies. Farei vir o trigo, farei com que seja produzido em abundância e isentar-vos-ei da fome”. (Ez.36,26 e ss).

Diante desta força nasceu nos Apóstolos um amor sem medidas e uma certeza de que Aquele a quem anunciavam era de fato o Cristo o Senhor, e Sua morte, Sua ressurreição e Sua Ascenção, tornou-se a partir daquele momento algo esplendoroso e tudo muito claro e com significado, já que seus olhos se abriram e tudo lhes foi revelado. Dali em diante, nada os impedia de anunciar e testemunhar, pois descobriram que já não eram mais um grupo de pessoas comuns, mas que faziam parte de uma entidade ao mesmo tempo humana e sobrenatural de almas escolhidas, completamente renovadas e prontas para assumir todos os riscos da defesa de sua fé; uma comunidade que se chama Igreja Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana

A vinda do Espírito transforma os homens em cristãos seguidores do Messias esperado, pois como diz São Paulo, ”quem não tem o Espirito de Cristo, não é de Cristo” (Rom 8,9). A partir de Pentecostes a fé destes homens não só se tornou inabalável como conquistadora, e eles compreenderam muito bem que dependeria deles a propagação da Verdade, mas que agora não estavam sós, o próprio Deus iria à frente, e muito mais que isso, Ele estava dentro de cada um deles, com uma força avassaladora e transformadora de almas, e que eram eles os chamados a bradar os céus para tirar os cativos do pecado que conduz ao inferno, onde estariam as almas sem Cristo.

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