Muitos ardorosos seguidores da versão protestante inglesa da Bíblia, a versão do Rei Tiago (KJV), tentam negar a presença dos livros deuterocanônicos (“apócrifos”) na versão original de 1611. Eles afirmam que os tradutores não consideravam os livros “apócrifos” como Escrituras e, para provar este ponto de vista, utilizam a Bíblia de Geneva de 1560. Argumentam mais ou menos o seguinte:

“Algumas das primeiras Bíblias em inglês (anteriores a 1611), tal com a Bíblia de Geneva, continham uma nota de renúncia declarando que os livros Apócrifos não eram inspirados. Algumas edições da Bíblia de Geneva, de 1599, foram publicadas sem os Apócrifos. A primeira edição da Bíblia de Geneva trazia notas marginais criticando o texto dos Apócrifos”.

Uma observação bem importante: a Bíblia “de Geneva” foi rejeitada pela Igreja da Inglaterra (responsável pela tradução da KJV). Os tradutores anglicanos, no prefácio, também atacaram e abertamente denunciaram esta outra tradução protestante, por abandonar as palavras eclesiásticas tradicionalmente aceitas:

“Infelizmente, tivemos que evitar a escrupolosidade dos puritanos, que abandonaram as antigas palavras eclesiásticas, e se entregaram a outras, como quando usam ‘lavagem’ ao invés de ‘batismo’ e ‘congregação’ ao invés de ‘Igreja'” (cf. o prefácio original da KJV de 1611, p. 11, chamado “Ao Leitor”).

Foi exatamente por esse motivo que o pseudo-erudito rei Tiago da Inglaterra, em pessoa, declarou que a versão de Geneva era, para ele, “a pior coisa que já aparecera” (v. English Versions of The Bible, 1952, p. 229).

Aliás, uma das razões da criação da tradução da KJV foi competir e lutar contra a versão de Geneva, ao ponto que a posse de uma destas Bíblias puritanas “de Geneva” na Inglaterra Anglicana significava, quase sempre, naquela época, morte certa. Portanto, a existência ou não de uma “nota de renúncia” na Bíblia puritana de Geneva, não significa, absolutamente, que os tradutores da KJV assim faziam ou pensavam quanto aos livros deuterocanônicos, ainda que “algumas edições da Bíblia de Geneva, de 1599, foram publicadas sem os Apócrifos”.

Em 1615, o arcebispo George Abbott, membro da Corte de Alta Comissão e um dos tradutores originais da versão da KJV de 1611, “proibiu a qualquer um que publicasse uma Bíblia sem os Apócrifos, sob pena de um ano de prisão” (Moorman, Forever Settled, p. 183). Esta ordem mirava principalmente os possuidores da Bíblia de Geneva que, em 1599, fora impressa sem os deuterocanônicos.

Quanto ao argumento de que “a primeira edição da Bíblia de Geneva trazia notas marginais que criticavam o texto dos Apócrifos”, é preciso considerar o seguinte:

A Bíblia de Geneva possuía extensas notas marginais: aproximadamente 300 mil palavras, o que corresponde a um terço do próprio texto bíblico! Mas foram essas notas marginais também a razão de seu abandono. As notas, fortemente protestantes (calvinistas), enfureceram tanto o rei Tiago que ele as considerava “parciais, mentirosas, aliciantes, recheadas de perigos e conceitos traidores” e declarou como crime capital a sua posse. Tiago I estava particularmente preocupado com certas notas marginais como a de Êxodo 1,9, que indicava que a parteira hebréia estava certa em desobedecer as ordens do rei egípcio (o rei Tiago sentiu que isto minava a teoria do poder divino dos reis), e a nota de 2Crônicas 15,16, que dizia que o rei Asa deveria ter executado sua mãe e não somente depô-la pelo crime de adoração de um ídolo: “…supõe-se que a mente confusa de Tiago logo pensou que isto pudesse refletir desfavoravelmente para a memóra de sua própria mãe, a rainha Maria de Escócia” (Bruce, History of the Bible in English, p. 97). Consequentemente, o rei Tiago introduziu a versão do rei Tiago (KJV), que se aproximava muito da Bíblia de Geneve, exceto nas notas marginais, motivo de sua fúria. Assim, a versão do rei Tiago originou-se do desgosto do rei pelos breves, mas influentes, comentários doutrinais; ele considerava tais notas marginais uma ameaça política para o seu reino.

Para finalizar, qual era a posição dos livros deuterocanônicos na KJV? Vamos, então, conhecer a posição do próprio rei Tiago sobre os livros “Apócrifos”:

“Quanto às Escrituras, nenhum homem duvide: crerei nelas; para os Apócrifos, farei o mesmo que os antigos fizeram: continuarão a ser impressos e obrigatórios em nossas Bíblias, serão lidos publicamente em nossas Igrejas; eu os reverencio como escrituras provindas de homens bons e santos, mas como não eram encontrados no cânon, temos deles lição secundária (secundae lectionis) ou ordinis” [Thomas Fuller, The Church History Of Britain, Oxford, 1845].

Sabemos que o rei Tiago tenha a intenção de ter os “Apócrifos” em sua Bíblia, tanto que ele mesmo criou um Comitê de Tradução com uma estrutura bem específica, composto por seis equipes de tradutores, cada qual com 47 homens. Três equipes eram responsáveis pelo Antigo Testamento, duas pelo Novo Testamento e uma, especificamente, pelos “Apócrifos”.

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