Espaço do Leitor

Padre nos acusa de conservadorismo litúrgico

Boa Noite.

É lamentável, que depois do avanço do concilio vaticano II ainda existam correntes tão conservadoras na Igreja. Estes artigos de liturgia, são um extremo conservadorismo. São aberrações. Ainda bem que moro no Brasil e celebro com minha comunidade uma liturgia viva com a participação do povo. Salve Yone Buyst minha mestra. Nós temo de favorecer cada vez mais um aproximação do povo na liturgia, chega de práticas conservadoras.

Pe. R.

Resposta

Caro Padre R.,

O senhor iniciou sua carta afirmando que pertencemos a uma corrente liturgicamente conservadora na Igreja. Desta forma, posso concluir que o senhor, por sua vez, pertence a uma corrente “liberal”, o que, já de início, cria um sério problema: até que ponto o “liberalismo litúrgico” é válido?

Se o senhor fizer uma pequena pesquisa na Internet, encontrará de tudo. Padres celebrando Missas vestidos de palhaço (“a casula, jamais; mas um narizinho de palhaço até que vai bem!”). Paroquianos em Missas vestidos com fantasias de demônio (e distribuindo hóstias!). Padres fazendo seus sermões estirados em uma cadeira de praia. E por aí vai.

Pergunto: o senhor já celebrou (ou seria capaz de celebrar) Missa vestido de palhaço? Já permitiu (ou seria capaz de permitir) que seus paroquianos participassem da Missa em fantasias de “capetinhas”? Já proferiu (ou seria capaz de proferir) uma homilia deitado em uma como quem toma uma água de coco em Itapuã?

Se sim, então, que Deus tenha misericórdia da tua alma. E, principalmente, das almas de seus paroquianos.

Se não, então podemos, facilmente, imaginar estes outros padres escrevendo para o senhor acusando-o de conservadorismo litúrgico e de discrepância com os rumos litúrgicos pós-conciliares.

Acho que o senhor já me entendeu. Se as rubricas não são, todas elas, obrigatórias, então quem nos dirá o que pode e o que não pode ser feito na Missa? Será que o senhor, Pe. Rogério, se julga tão sábio a ponto de ser o árbitro nesta questão?

Não há saída: ou se celebra exatamente como diz a Igreja ou, então, nada do que diz a Igreja será tido como obrigatório. E tudo será permitido.

O senhor diz que participa de uma liturgia viva com o seu povo. Tudo muito bonito. Mas peço a tua permissão para duvidar da, digamos, vivacidade de tuas Missas.

Assim como Lênin fez a Revolução em nome do proletariado sem jamais ter perguntado ao proletariado se ele, ao final das contas, queria alguma revolução, os abusos litúrgicos que vocês, padres “liberais”, cometem em nome do povo são feitos sem qualquer consulta prévia a este povo para saber se ele, ao final das contas, não prefere uma Missa sem qualquer abuso. Por mais que vocês inventem coisas para ajudar na participação dos fiéis, os fiéis participam cada vez menos destas Missas inventadas.

É o mesmo dilema de Puebla: a Igreja fez uma opção preferencial pelos pobres, mas os pobres estão fazendo uma opção preferencial… pelas seitas. Assim como, garanto, muito de teus paroquianos fizeram, após as tuas invencionices, a opção de simplesmente não participar mais de tuas Missas.

Veja o que disse, recentemente, Malcolm Ranjith (secretário da Congregação para o culto divino) à revista “Inside the Vatican (fonte: www.unavoce-ve.it): “Le Chiese si sono svuotate”. “La disinvoltura liturgica è diventata all’ordine del giorno, e il vero significato di ciò che viene celebrato è stato oscurato“. Traduzo: “As Igrejas estão vazias”. “A desenvoltura litúrgica é a ordem do dia, e o próprio significado do que se celebra se torna obscuro.”.

E disse mais: “Non posso da sacerdote sognare ciò che farò a Messa il giorno dopo, andare all’altare e iniziare a celebrare con tutti i tipi di azioni che mi sono creato da me”. Ou seja: “não posso, enquanto sacerdote, sonhar o que farei na Missa do dia seguinte, ir ao altar e começar a celebrar com todo tipo de ação que eu mesmo criei.”

Isto é que é conservadorismo litúrgico, hein, Pe. R.?

Quer mais? Disse: “La Santa Eucaristia appartiene alla Chiesa. Ha, quindi, un significato proprio che non può essere lasciato alle idiosincrasie del singolo celebrante“. Traduzindo: “A Santa eucaristia pertence à Igreja (e não ao Pe. Rogério). Tem um significado próprio que não se pode deixar às idiossincrasias dos celebrantes”

Disse tudo isto e muito mais justamente quando discursava sobre a crise gerada pelos padres, digamos, liberais em matéria litúrgica. Crise esta que acaba se transformando, inexoravelmente, numa crise de fé, que está varrendo a Igreja de nosso país.

Prosseguindo, o senhor deu vivas à sua mestra Yone Buyst.

Piacere! Nunca ouvi falar.

Não me leve a mal, Pe. Rogério, mas é que, enquanto a tua mestra é a Dona Yone, o meu Mestre é Nosso Senhor Jesus Cristo. Espero que o senhor O conheça, ao menos tão bem quanto conhece a Sra. Yone Buyst.

E meu Mestre, ao celebrar a primeira Missa, não se mostrou nem um pouco preocupado em facilitar a participação dos fiéis ali reunidos. Preocupou-se em ofertar um sacrifício a Deus, sacrifício que ofertaria cruentamente no dia seguinte no altar da Cruz. E, também no monte calvário, não vejo qualquer preocupação dEle em aproximar a Missa do povo.

Preocupava-se, antes, com a salvação de nossas almas.

E, para que o senhor não me acuse de machismo por não ter uma “mestra”, saiba que também eu tenho uma. É minha mestra e minha mãe. Mater et magistra.

Acho que o senhor já percebeu de quem eu falo, não é mesmo? E minha mestra (talvez contrariando a Dono Yone) ensina o seguinte em matéria litúrgica:

«Não há dúvida de que a reforma litúrgica do Concílio tem tido grandes vantagens para uma participação mais consciente, ativa e frutuosa dos fiéis no santo Sacrifício do altar». Certamente, «não faltam sombras». Assim, não se pode calar ante aos abusos, inclusive gravíssimos, contra a natureza da Liturgia e dos sacramentos, também contra a tradição e autoridade da Igreja, abusos que em nossos tempos, não raramente, prejudicam as Celebrações litúrgicas em diversos âmbitos eclesiais. Em alguns lugares, os abusos litúrgicos se têm convertido em um costume, no qual não se pode admitir e se deve terminar.”

Não é estranho que os abusos tenham sua origem em um falso conceito de liberdade. Posto que Deus nos tem concedido, em Cristo, não uma falsa liberdade para fazer o que queremos, mas sim a liberdade para que possamos realizar o que é digno e justo. Isto é válido não só para os preceitos que provém diretamente de Deus, mas sim também, de acordo com a valorização conveniente de cada norma, para as leis promulgadas pela Igreja. Por isso, todos devem se ajustar às disposições estabelecidas pela legítima autoridade eclesiástica.”

“O Mistério da Eucaristia é demasiado grande «para que alguém possa permitir tratá-lo ao seu arbítrio pessoal, pois não respeitaria nem seu caráter sagrado, nem sua dimensão universal». Quem age contra isto, cedendo às suas próprias inspirações, embora seja sacerdote, atenta contra a unidade substancial do Rito romano, que se deve cuidar com decisão, e realiza ações que, de nenhum modo, correspondem com a fome e a sede do Deus Vivo, que o povo de nossos tempos experimenta, nem a um autêntico zelo pastoral, nem serve à adequada renovação litúrgica, mas sim defrauda o patrimônio e a herança dos fiéis com atos arbitrários que não beneficiam a verdadeira renovação e sim lesionam o verdadeiro direito dos fiéis à ação litúrgica, à expressão da vida da Igreja, de acordo com sua tradição e disciplina. Além disso, introduzem na mesma celebração da Eucaristia elementos de discórdia e de deformação, quando ela tem, por sua própria natureza e de forma eminente, de significar e de realizar admiravelmente a Comunhão com a vida divina e a unidade do povo de Deus. Estes atos arbitrários causam incerteza na doutrina, dúvida e escândalo para o povo de Deus e, quase inevitavelmente, uma violenta repugnância que confunde e aflige com força a muitos fiéis em nossos tempos, em que freqüentemente a vida cristã sofre o ambiente, muito difícil, da «secularização».”

” Por outra parte, todos os fiéis cristãos gozam do direito de celebrar uma liturgia verdadeira, especialmente a celebração da santa Missa, que seja tal como a Igreja tem querido e estabelecido, como está prescrito nos livros litúrgicos e nas outras leis e normas. Além disso, o povo católico tem direito a que se celebre por ele, de forma íntegra, o santo Sacrifício da Missa, conforme toda a essência do Magistério da Igreja. Finalmente, a comunidade católica tem direito a que de tal modo se realize para ela a celebração da Santíssima Eucaristia, que apareça verdadeiramente como sacramento de unidade, excluindo absolutamente todos os defeitos e gestos que possam manifestar divisões e facções na Igreja.” 

” Coerentemente com o que prometeram no rito da sagrada Ordenação e cada ano renovam dentro da Missa Crismal, os presbíteros presidam, «com piedade e fidelidade, a celebração dos mistérios de Cristo, especialmente o Sacrifício da Eucaristia e o sacramento da reconciliação». Não esvaziem o próprio ministério de seu significado profundo, deformando de maneira arbitrária a celebração litúrgica, seja com mudanças, com mutilações ou com acréscimos. Em efeito, fala Santo Ambrosio: «Não em si, […] mas sim nos outros é que é ferida a Igreja. Por tanto, tenhamos cuidado para que nossas caídas não destruam a Igreja». No falar, que não seja ofendida a Igreja de Deus, pelos sacerdotes, que tão solenemente se têm oferecido, eles mesmos, ao ministério. Ao contrário, sob a autoridade do Bispo vigiem fielmente para que estas deformações não sejam realizadas pelos outros.”

Durma-se com um barulho destes, hein, Pe. Rogério? O que será que a Dona Yone pensaria disto?

Os textos acima foram extraídos da Instrução Redemptionis Sacramentum, que, desconfio, o senhor não leu (tavez porque não faça parte da bibliografia da Dona Yone). Mas que deveria ler. Foi escrita pelo Cardeal Arinze e pelo então Cardeal Ratzinger, hoje Bento XVI. E, a ambos, o senhor e nós devemos obedecer em matéria litúrgica.

Bem, como o senhor já percebeu, o VS não tem qualquer pretensão de agradar  nem ao senhor nem à Dona Yone (Deus me perdoe por esta ousadia!). Nossa única pretensão é transmitir ao fiel brasileiro um mínimo de informações acerca da nossa fé, informações estas que caberiam aos senhores padres transmitir.

E que muitos padres não têm transmitido.

Talvez por estarem ocupados demais inventando a Missa de Domingo.

Que Deus te abençoe (e te ilumine),

Alexandre.

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