Outro dia lí a afirmação de alguém que me fez pensar. Dizia que os pais da nossa época não querem ter filhos, mas sim filhotes. De fato há algo de muito sábio nessa afirmação. E não é a toa que o Papa Bento XVI, ainda quando cardeal, em uma entrevista cedida a um jornalista alemão, disse com ar de pesar que enxergava, infelizmente, uma mudança radical na visão que o mundo tinha dos descendentes. Filho, passara de sinônimo de benção para sinônimo de ameaça. Impossível discordar. Está em nossa volta, está na reação das pessoas, no olhar apavorado diante da hipótese de se ter algum filho nesta vida. Filho no singular, porque no plural, a reação passa de medo para um ar reacionário de quem julga irresponsabilidade ter vários filhos nos dias atuais.

A sociedade do bem-estar parece que colocou como valor supremo, digno de menção no Código dos Direitos Humanos, a expressão “qualidade de vida” como sublime direito e dever magno de todas as sociedades. Digo magno, porque se atreve a ocupar o lugar do ‘logos”, da razão fundamental pelas quais as sociedades ditas democráticas devem estar calcadas. Por isso, a partir dessa mentalidade, qualquer evento que se oponha a esse valor supremo deve ser eliminado.

Um idoso que sofre com problemas degenerativos se encaixa nos padrões de uma vida de qualidade? Não? Pode desligar os aparelhos. Um bebê que é gerado no seio de uma família modesta terá a oportunidade de calçar Nike, estudar em colégio particular e gozar de conforto desde a mais tenra idade? Não? Pode abortar. Um casal pobre que passa por dificuldades financeiras poderá dar a possíveis filhos uma faculdade, plano de previdência privada, lazer e cultura? Não? Pode laquear as trompas uterinas.

Graças ao pragmatismo vigente, que faz o mundo enxergar tudo sobre a relação útil/ inútil, serve/ não serve, presta/ não presta, graças a essa sublimação do bem estar social, não poderemos encontrar sentido para essas vidas se estas não se encaixarem dentro deste ideal materialista. Mais do que nunca a vida humana foi agregada ao valor da coisa e não demora para que seja tratada e vista como objeto. Quer dizer, o sentido da vida em nosso tempo foi relativizado aos dogmas da sociedade de consumo.

É por isso que o hedonismo, a busca do prazer como fim último, tão enraizado em nossa cultura, não tolera a presença de um tirano, como um filho. Dentro desta visão aonde filho é ameaça, ótica essencialmente cética e pessimista, no melhor estilo de Nietsch, a paternidade é realçada apenas pela característica que fere justamente o bem-estar e o conforto, seguindo a contra-mão de uma verdadeira “qualidade de vida’.

Eles, os filhos, chegam para atrapalhar a carreira, fazendo os pais voltarem para casa antes das 21h, para onerar a família e diminuir a renda no fim do mês, impedindo a troca de carro para aquele ano, para adiar os planos daquela viagem para a Europa etc.

É verdade que exigem bem mais cuidados que um animal de estimação. Um animal precisa de um banho por semana, os filhos precisam de um por dia. Um animal precisa de uma tigela com ração, filhos precisam de pelo menos 3 refeições diárias. Um animal precisa de passeios eventuais, filhos precisam sair de casa todos os dias. Um animal agüenta passar o dia sozinho, filhos precisam de afeto. Realmente, é muito mais difícil. Mas não tem problema. Pagando uma escola integral abaca o problema das refeições. Pagando um motorista acaba o problema com os passeios. Pagando uma babá acaba o problema com os banhos e com a companhia. E também com alguns mimos extras acaba o afeto perdido. Pronto. Até que é possível.

“Mas como gastam esses filhos! Realmente é melhor não tê-los.”

Não seria melhor dizer “como gastam esses pais”? Não seria melhor afirmar que a lei do menor esforço é que tem o preço mais alto de todos, e que esses gastos são para preservar a qualidade de vida dos pais a qualquer preço? E que o que se busca realmente é uma fuga das responsabilidades inerentes a paternidade, que exigem uma renúncia ao egoísmo e um abertura para a humanidade dos filhos, bem diferentes dos filhotes? E que uma verdadeira educação baseada no amor, na liberdade responsável, no ensino das virtudes da personalidade e de caráter exige pais dispostos a levantarem dos sofás, a renunciarem a balada pós-trabalho e a uma presença exigente?

Sem dúvida seria mais sincero e bem menos hipócrita.

Não, filhos não são filhotes da quais se possam dispor como objeto de serviço e mero entretenimento. Filhos são uma nova oportunidade dessa família dar certo; uma nova chance de fazer a vida valer a pena e ter sentido; uma nova chance para a humanidade chegar a ser aquilo que deveria. Cada novo filho neste mundo é uma nova realidade completamente original, que jamais existiu e que jamais existirá novamente, capaz de mudar a sí mesmo e o mundo ao seu redor. Cada novo filho no mundo é uma nova chance de redimirmos nossa sociedade corrompida pelo egoísmo.

É por isso que não existem razões para se acovardar diante dos filhos, pelo contrário, a abertura a eles deve nos recobrar a coragem e a fortaleza de sermos definitivamente humanos novamente. Porque dar um filho amado ao mundo é passar o bastão da vida que recebemos de nossos pais e dizer bem alto que a vida ainda vale a pena. Dar ainda, vários filhos amados ao mundo, de acordo com nossas sinceras possibilidades, é multiplicar a força criativa que caduca nas nossas sociedades, é injetar bolsas de sangue no organismo sedento do nosso mundo. Negar a verdadeira paternidade é negar a sí mesmo e decretar a falência da humanidade, é dizer que o desespero venceu e que a esperança morreu.

Um ótimo professor pode dar ao mundo, se tiver sorte, talvez 1 bom cidadão a cada classe com 50. Um ótimo pai e mãe, podem certamente, se assim desejarem, dar ao mundo 3,5,7 ótimos cidadãos capazes de transformar o mundo e o futuro. E que vão dizer aos filhos deles, que vovô e vovó fizeram o mundo valer a pena.

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