Crônicas Sociedade

Pasteurizadora Brasil

Nos últimos anos a cultura brasileira tem se homogeneizado, isto é, tem perdido a saudável propriedade de conviver com expressões regionais absolutamente diferentes entre si. Há não muito tempo, o que se chamava “samba de raiz” convivia com o “sertanejo de raiz”, sem aceitar a redução dos respectivos gêneros e, por essa mesma razão, resguardando as riquezas e temas locais da superficialização produzida pela cultura de massa. Essa resistência cultural certamente produzia diferenças, justamente aquelas que protegiam a individualidade das expressões artísticas de cada região.

O mesmo acontecia com o rock de Brasília e o punk paulista. Esses gêneros musicais são expressões locais, mas muito importantes sociologicamente, pois destacam o sentido de pertença de que todos se ressentem. São inúmeros os exemplos atuais da simplificação dessa riqueza cultural e desse desterro, que se pode experimentar pelo predomínio do gênero pop na cultura. Eliminando as diferenças entre os temas e discursos nas expressões culturais, provoca-se o sentimento de não pertença nos indivíduos, assim como o desenraizamento dos temas e dos sentimentos que são caros a uma região e a uma cultura. E os jovens são os que mais sofrem nesse processo de uniformização. O fenômeno “universitário” é característico desse desterro e encontra nesse grupo etário seus exemplos mais eloquentes.

Em nossos dias prolifera, dentre outros exemplos, o sertanejo “universitário”, que já não canta as esperanças e desafios do homem do campo, mas as vantagens que o jovem agricultor aburguesado pode alcançar tendo colchonetes na caçamba do seu carro; o samba “universitário” abandona o tema da liberdade e da redenção humana para dedicar-se à burguesinha de Ipanema e seus fetiches. Esse fenômeno atual retira a juventude do seu lugar, do seu mundo, trazendo para si valores e objetos de um lado inalcançáveis, de outro desnecessários, esvaziando a vida. E paulatinamente se vê simbolicamente, não apenas no nível musical mas também em outros áreas da cultura, a purgação dos temas humanos mais profundos e universais, mais incômodos e desconfortáveis, por esse espírito burguês e superficial, que reduz matizes, que simplifica dificuldades, que elimina complexidade.

De fato, a condição para que haja qualquer show de nível nacional é a pasteurização dos elementos que o compõem. É necessário que se produza um fio condutor, um rosto comum que atinja a maioria dos espectadores – que está reunida no eixo Rio-São Paulo. Por esse motivo e com certeza inadvertidamente, os inúmeros especiais da TV aberta, as diversas festas de fim de ano, todos esses eventos promovem a simplificação dos estilos, dos gêneros e dos temas musicais escolhidos como símbolos da cultura brasileira. Reconhecer o fato não significa condescender com suas consequências. Infelizmente, ao final de cada ano assiste-se à alienação da música popular brasileira e – analogamente da cultura nacional – daquela reflexão necessária para a construção de um ambiente cultural mais fecundo, mais plural, mais rico de sentido. Essa talvez seja a pior consequência da atual cultura nacional, que também poderia se chamar “Pasteurizadora Brasil”.

 

  • Fonte: Jornal do Brasil, de 30.12.2012

 

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