Documentos da Igreja

Pastores dabo vobis – parte ii

CAPÍTULO II

CONSAGROU-ME COM A UNÇÃO E ME ENVIOU
A natureza e missão do sacerdócio ministerial

O olhar sobre o sacerdote

11. “Estavam postos sobre Ele os olhos de todos os que se encontravam na sinagoga” (Lc 4, 20).Tudo quanto o evangelista Lucas diz dos que estavam presentes, naquele sábado, na sinagoga de Nazaré, escutando o comentário feito por Jesus ao livro do profeta Isaías, por Ele mesmo acabado de ler, se pode aplicar a todos os cristãos,continuamente chamados a reconhecer em Jesus de Nazaré o cumprimento definitivo do anúncio profético:”Começou então a dizer:’Hoje se cumpriu o passo da Escritura que acabais de ouvir com os vossos próprios ouvidos” (Lc 4, 21). E o “passo da Escritura” era este: “O Espírito do Senhor está sobre mim; por isso me consagrou com a unção e me enviou a anunciar aos pobres a Boa Nova, a proclamar a liberdade aos prisioneiros, e a vista aos cegos; a pôr em liberdade os oprimidos e pregar um ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19; cf. Is 61, 1-2). Jesus auto-apresenta-se, por conseguinte, como cheio do Espírito, “consagrado com a unção”, “enviado a anunciar aos pobres a Boa Nova”: é o Messias, o Messias sacerdote, profeta e rei.

É este o rosto de Cristo, no qual os olhos da fé e do amor dos cristãos devem permanecer fixos. Precisamente a partir desta “contemplação” e tendo-a como ponto de referência, os Padres Sinodais reflectiram sobre o problema formação dos sacerdotes nas circunstâncias actuais. Tal problema não pode encontrar resposta sem uma prévia reflexão sobre a meta para a qual se orienta o caminho formativo: o sacerdócio ministerial, mais concretamente o sacerdócio ministerial enquanto participação na Igreja do mesmo sacerdócio de Jesus Cristo. O conhecimento da natureza e da missão do sacerdócio ministerial é o pressuposto irrecusável, e ao mesmo tempo o guia mais seguro bem como o estímulo mais premente para desenvolver na Igreja a acção pastoral de promoção e discernimento das vocações sacerdotais e da formação dos chamados ao ministério ordenado.

O recto e aprofundado conhecimento da natureza e da missão do sacerdócio ministerial é o caminho a seguir, e o Sínodo efectivamente segui-o, para sair da crise sobre a identidade do sacerdote: “Esta crise – dizia no meu Discurso final ao Sínodo – nasceu nos anos imediatamente sucessivos ao Concílio. Fundamentava-se numa compreensão errada, por vezes mesmo deliberadamente tendenciosa, da doutrina do magistério conciliar. Aqui se encontra indubitavelmente uma das causas do grande número de perdas então sofridas pela Igreja, perdas essas que feriram gravemente o serviço pastoral e as vocações ao sacerdócio, e em particular as vocações missionárias. É como se o Sínodo de 1990, descobrindo, através de tantas intervenções que escutámos nesta Aula, toda a profundidade da identidade sacerdotal, viesse infundir esperança depois destas dolorosas perdas. Tais intervenções manifestaram a consciência do ligame ontológico específico que une o sacerdote a Cristo, Sumo Sacerdote e Bom Pastor. Esta identidade está inerente à natureza da formação que deve ser ministrada com vista ao sacerdócio, e por conseguinte a toda a vida sacerdotal. Era precisamente este o objectivo do Sínodo” [18].

Por isso o Sínodo considerou necessário chamar a atenção, de modo sintético e fundamental, para a natureza e a missão do sacerdócio ministerial, tais como a fé da Igreja as vem reconhecendo ao longo dos séculos da sua história e o Concílio Vaticano II as apresentou aos homens do nosso tempo [19].

Na Igreja mistério, comunhão e missão

12. “A identidade sacerdotal – escreveram os Padres Sinodais – como toda e qualquer identidade cristã, encontra na Santíssima Trindade a sua própria fonte” [20], que se revela e autocomunica aos homens em Cristo, constituindo nele e por meio do Espírito a Igreja como “gérmen e início do Reino” [21]. A Exortação Christifideles laici sintetizando a doutrina conciliar, apresenta a Igreja como mistério, comunhão e missão: ela “é mistério porque o amor e a vida do Pai, do Filho e do Espírito Santo constituem o dom absolutamente gratuito oferecido a quantos nasceram da água e do Espírito (cf. Jo 3, 5), chamados a reviver a própria comunhão de Deus e a manifestá-la e comunicá-la na história (missão)” [22].

É no interior do mistério da Igreja como comunhão trinitária em tensão missionária, que se revela a identidade cristã de cada um e, portanto, a específica identidade do sacerdote e do seu ministério. O presbítero, de facto, em virtude da consagração que recebe pelo sacramento da Ordem, é enviado pelo Pai, através de Jesus Cristo, ao qual como Cabeça e Pastor do seu povo é configurado de modo especial para viver e actuar, na força do Espírito Santo, ao serviço da Igreja e para a salvação do mundo [23].

Assim se pode compreender a conotação essencialmente “relacional” da identidade do presbítero: mediante o sacerdócio, que brota das profundezas do mistério de Deus, ou seja, do amor do Pai, da graça de Jesus Cristo e do dom de unidade do Espírito Santo, o presbítero é inserido sacramentalmente na comunhão com o Bispo e com os outros presbíteros [24], para servir o Povo de Deus que é a Igreja e atrair todos a Cristo, segundo a Oração do próprio Senhor: “Pai Santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um só como nós (…) Como tu, ó Pai estás em mim e eu em ti, assim eles estejam em nós para que o mundo acredite que Tu me enviaste” (Jo 17, 11.21).

Não se pode, então, definir a natureza e a missão do sacerdócio ministerial, senão nesta múltipla e rica trama de relações, que brotam da Trindade Santíssima e se prolongam na comunhão da Igreja como sinal e instrumento, em Cristo, da união com Deus e da unidade de todo o género humano [26]. Neste contexto, a eclesiologia de comunhão se torna decisiva para explicar a identidade do presbítero, a sua dignidade original, a sua vocação e missão no seio do Povo de Deus e do mundo. De facto, a referência à Igreja é necessária, mesmo se não prioritária, na definição da identidade do presbítero. Enquanto mistério, a Igreja é essencialmente relativa a Jesus Cristo: é, de facto, a plenitude, o Corpo, a Esposa d’Ele. É o “sinal” e o “memorial” vivo da sua permanente presença e acção entre nós e para nós. Por isso o presbítero encontra a verdade plena da sua identidade no facto de ser uma derivação, uma participação específica e uma continuação do próprio Cristo sumo e único Sacerdote da nova e eterna Aliança: ele é uma imagem viva e transparente de Cristo Sacerdote . O sacerdócio de Cristo, expressão da sua absoluta “novidade” na história da salvação, constitui a fonte única e o insubstituível paradigma do sacerdócio do cristão, e, especialmente, do presbítero. A referência a Cristo é, então, a chave absolutamente necessária para a compreensão das realidades sacerdotais.

A relação fundamental com Cristo Cabeça e Pastor

13. Jesus Cristo revelou em Si mesmo a face perfeita e definitiva do sacerdócio da nova aliança [26]: fê-lo em toda a sua vida terrena mas sobretudo no evento central da sua paixão, morte e ressurreição.

Como escreve o autor da Carta aos Hebreus, Jesus, sendo homem como nós e ao mesmo tempo o Filho unigénito de Deus, é, no seu próprio ser, o mediador perfeito entre o Pai e a humanidade (cf. Heb 8, 9), Aquele que abre o acesso imediato a Deus, graças ao dom do Espírito: “Deus enviou aos nossos corações o Espírito de Seu Filho que clama: Abba, ó Pai!” (Gal 4, 6; cf. Rom 8, 15).

Jesus leva à plena actuação o seu ser mediador através da oferta de Si mesmo na cruz, pela qual nos abre, de uma vez por todas, o acesso ao santuário celeste, à casa do Pai (cf. Heb 9, 24-28). De fronte a Jesus, Moisés e todos os “mediadores” do Antigo Testamento entre Deus e o seu povo – os reis, os sacerdotes e os profetas – aparecem apenas como “figuras” e “sombras dos bens futuros” e não como “a própria realidade” ( cf. Heb 10, 1).

Jesus é o Bom Pastor pré-anunciado (cf. Ez 34), Aquele que conhece as suas ovelhas uma a uma, que dá a sua vida por elas e que a todos quer reunir num só rebanho sob um único pastor (cf. Jo 10, 11-16). É o pastor que veio “não para ser servido mas para servir” (Mt 20, 28), que, na acção pascal do lava-pés (Jo 13, 1-20), deixa aos seus o modelo de serviço que deverão realizar uns aos outros, e que livremente se oferece como “cordeiro inocente” imolado para a nossa redenção (cf. Jo 1, 36; Ap 5, 6.12).

Com o único e definitivo sacrifício da cruz, Jesus comunica a todos os seus discípulos a dignidade e a missão de sacerdotes da nova e eterna Aliança. Cumpre-se assim a promessa que Deus fizera a Israel: “Sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa” (Ex 19, 6). É todo o povo da nova Aliança – escreve S. Pedro – a ser constituído como “um edifício espiritual”, um “sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por meio de Jesus Cristo” (1 Ped 2, 5). Os baptizados são as “pedras vivas”, que constroem o edifício espiritual, unindo-se a Cristo “pedra viva (…) escolhida e preciosa diante de Deus” (1 Ped 2, 4-5). O novo povo sacerdotal, que é a Igreja, não só tem em Cristo a sua própria e autêntica imagem, mas d’Ele recebe também uma participação real e ontológica do seu eterno e único sacerdócio, ao qual o mesmo povo se deve conformar em toda a sua vida.

14. Para o serviço deste sacerdócio universal da Nova Aliança, Jesus chama a Si, no decurso da sua missão terrena, alguns discípulos (cf. Lc 10, 1-12) e, com um mandato específico e autorizado, chama e constitui os Doze, para que “estivessem com Ele, e para os enviar a pregar, e para que tivessem o poder de expulsar os demónios” (Mc 3, 14-15).

Por isso, já durante o seu ministério público (cf. Mt 16, 18) e depois em plenitude após a morte e ressurreição (cf. Mt 28, 16-20; Jo 20; 21), Jesus confere a Pedro e aos Doze poderes particulares relativamente à futura comunidade e à evangelização de todos os povos. Depois de os ter chamado a segui-Lo, tem-nos a seu lado e vive com eles, proporcionando-lhes com o exemplo e com a palavra a sua doutrina de salvação e, por fim, envia-os a todos os homens. Para levar a cabo esta missão, Cristo confere aos Apóstolos, em virtude de uma específica efusão pascal do Espírito Santo, a mesma autoridade messiânica que lhe vem do Pai e lhe é conferida em plenitude na ressurreição: “Foi-me dado todo o poder no céu e na terra. Ide, pois, e ensinai todas as nações baptizando-as em nome do Pai,do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a observar tudo o que vos mandei. E eis que estou convosco todos os dias até ao fim do mundo” (Mt 28, 18-20).

O Senhor estabelece assim uma estreita conexão entre o ministério confiado aos Apóstolos e a sua própria missão: “quem vos acolhe acolhe-me a Mim, e quem me acolhe acolhe Aquele que Me enviou” (Mt 10, 40); “quem vos ouve a Mim ouve, e quem vos despreza a Mim despreza. E quem Me depreza, despreza Aquele que Me enviou” (Lc 10, 16). Mais ainda, o quarto evangelho, à luz do acontecimento pascal da morte e ressurreição, afirma com grande força e clareza: “como o Pai Me enviou, assim Eu vos envio” (Jo 20, 21; cf. 13, 20; 17, 18). Como Jesus tem uma missão que Lhe vem directamente de Deus e que concretiza a própria autoridade de Deus (cf. Mt 7, 29; 21, 23; Mc 1, 27; 11, 28; Lc 20, 2; 24, 19), assim também os apóstolos têm uma missão que lhes vem de Jesus. E como “o Filho nada pode fazer por Si mesmo” (Jo 5, 19), pois a doutrina que prega não é d’Ele mas d’Aquele que O enviou (cf. Jo 7, 16), assim também Cristo diz aos apóstolos: “sem Mim nada podereis fazer” (Jo 15, 5): a sua missão não é deles, mas é a própria missão de Jesus. E isto é possível não a partir de forças humanas, mas só com o dom de Cristo e do Seu Espírito mediante o “sacramento”: “Recebei o Espírito Santo; a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, e a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (Jo 20, 22-23). Assim, não por qualquer mérito particular deles, mas apenas pela participação da graça de Cristo, os apóstolos prolongam na história até à consumação dos tempos, a mesma missão de salvação de Jesus em favor dos homens.

Sinal e pressuposto da autenticidade e da fecundidade desta missão é a unidade dos apóstolos com Jesus e, n’Ele, entre si mesmos e o Pai, tal como testemunha a Oração sacerdotal do Senhor, síntese da sua missão (cf. Jo 17, 20-23).

15. Por sua vez, os Apóstolos constituídos pelo Senhor associarão progressivamente à sua missão, de formas diversas mas no fim convergentes, outros homens como Bispos, Presbíteros e Diáconos para cumprir o mandato de Jesus ressuscitado que os enviou a todos os homens de todos os tempos.

O Novo Testamento é unânime no sublinhar que foi o próprio Espírito de Cristo a introduzir no ministério, estes homens, escolhidos de entre os irmãos. Por meio do gesto da imposição das mãos (cf. Act 6, 6; 1 Tim 4, 14; 5, 22; 2 Tim 1, 6), que transmite o dom do Espírito, eles são chamados e habilitados a continuar o mesmo ministério de reconciliar, de apascentar o rebanho de Deus, e de ensinar (cf. Act 20, 28; 1 Ped 5, 2).

Portanto os presbíteros são chamados a prolongar a presença de Cristo, único e sumo Pastor, actualizando o seu estilo de vida e tornando-secomo que a Sua transparência no meio do rebanho a eles confiado. Assim se lê, de modo claro e preciso, na Primeira Carta de Pedro: “recomendo aos presbíteros que estão entre vós, eu presbítero como eles, testemunha dos sofrimentos de Cristo e participante da glória que se deve manifestar: apascentai o rebanho de Deus que vos foi confiado, olhando por ele não constrangidos, mas de boa vontade segundo Deus, não por ganância, mas por dedicação; não como dominadores sobre aqueles que vos foram confiados, antes tornando-vos modelo do rebanho. E quando aparecer o supremo Pastor recebereis a coroa eterna da glória” (1 Ped 5, 1-4).

Os presbíteros são, na Igreja e para a Igreja, uma representação sacramental de Jesus Cristo Cabeça e Pastor, proclamam a Sua palavra com autoridade, repetem os seus gestos de perdão e oferta de salvação, nomeadamente com o Baptismo, a Penitência e a Eucaristia, exercitam a sua amável solicitude, até ao dom total de si mesmos, pelo rebanho que reúnem na unidade e conduzem ao Pai por meio de Cristo no Espírito. Numa palavra, os presbíteros existem e agem para o anúncio do Evangelho ao mundo e para a edificação da Igreja em nome e na pessoa de Cristo Cabeça e Pastor [27].

Este é o modo típico e próprio pelo qual os ministros ordenados participam do único sacerdócio de Cristo. O Espírito Santo, mediante a unção sacramental da Ordem, configura-os, por um título novo e específico, a Jesus Cabeça e Pastor, confirma e anima-os com a sua caridade pastoral e coloca-os na Igreja na condição de servidores do anúncio do Evangelho a toda a criatura, e da plenitude de vida cristã para todos os baptizados.

A verdade do presbítero tal qual emerge da Palavra de Deus, ou seja, do próprio Jesus Cristo e do seu desígnio constitutivo da Igreja, é assim cantada, com jubilosa gratidão, pela Liturgia no Prefácio da Missa do Crisma: “Com a unção do Espírito Santo, constituístes o Vosso Filho Pontífice da nova e eterna Aliança, e quisestes que o seu único sacerdócio fosse perpetuado na Igreja. Ele comunica o sacerdócio real a todo o povo dos redimidos e com amor de predilecção escolhe alguns de entre os irmãos que, mediante a imposição das mãos, faz participantes do seu ministério de salvação. Vós quereis que em seu nome renovem o sacrifício redentor, preparem para vossos filhos o banquete pascal, e, servos primorosos do vosso povo, o alimentem com a vossa palavra e o santifiquem com os sacramentos. Vós lhes propondes Cristo como modelo, para que, oferecendo a vida por vós e pelos irmãos, se esforcem por se conformar à imagem de vosso Filho e dêem testemunho de fidelidade e de amor generoso”.

Ao serviço da Igreja e do mundo

16. O sacerdote tem como referência fundamental a relação com Jesus Cristo Cabeça e Pastor: ele, de facto, participa de modo específico e autorizado, na “consagração/unção” e na “missão” de Cristo (cf. Lc 4, 18-19). Mas, intimamente ligada àquela, encontra-se a relação com a Igreja. Não se trata de “relações” simplesmente justapostas, mas profundamente unidas numa espécie de mútua imanência. A referência à Igreja inscreve-se na única e mesma referência do sacerdote a Cristo, no sentido que é a “representação sacramental” de Cristo a fundamentar e animar a relação e referência do sacerdote à Igreja.

Neste sentido, escreveram os Padres Sinodais: “Enquanto representa Cristo Cabeça, Pastor e Esposo da Igreja, o sacerdote coloca-se não apenas na Igreja, mas também perante a Igreja. O sacerdócio, enquanto unido à Palavra de Deus e aos sinais sacramentais a cujo serviço se encontra, pertence aos elementos constitutivos da Igreja. O ministério do presbítero existe em favor da Igreja; é para a promoção do exercício do sacerdócio comum de todo o Povo de Deus; ordena-se não apenas para a Igreja particular, mas também para a Igreja universal (cf. Presbyterorum ordinis, 10), em comunhão com o Bispo, com Pedro e sob a autoridade de Pedro. Mediante o sacerdócio do Bispo, o sacerdócio da segunda ordem incorpora-se na estrutura apostólica da Igreja. Desta forma, o presbítero, como os apóstolos, exerce funções de embaixador de Cristo (cf. 2 Cor 5, 20). Nisto se fundamenta a índole missionária de todos e cada um dos sacerdotes” [28].

O ministério ordenado surge, portanto, com a Igreja e tem nos Bispos, e em referência e comunhão com eles nos presbíteros, uma relação particular com o ministério dos Apóstolos, ao qual efectivamente “sucede” ainda que, relativamente a esse, assuma diferentes modalidades de existência.

Não se deve, pois, pensar no sacerdócio ordenado como se fosse anterior à própria Igreja, porque ele existe totalmente em função do serviço da mesma Igreja; nem muito menos se pode pensar como posterior à comunidade eclesial, de modo que esta pudesse ser concebida como já constituída independentemente de tal sacerdócio.

A relação do sacerdote com Jesus Cristo e, n’Ele, com a Sua Igreja situa-se no próprio ser do presbítero, em virtude da sua consagração/unção sacramental, e no seu agir, isto é, na sua missão ou ministério. Em particular, “o sacerdote ministro é servo de Cristo presente na Igreja mistério, comunhão e missão. Pelo facto de participar da ‘unção’ e da ‘missão’ de Cristo, ele pode prolongar na Igreja a sua oração, a sua palavra, o seu sacrifício e a sua acção salvífica. É, portanto, servidor da Igreja mistério porque actua os sinais eclesiais e sacramentais da presença de Cristo ressuscitado. É servidor da Igreja comunhão porque – unido ao Bispo e em estreita relação com o presbitério – constrói a unidade da comunidade eclesial na harmonia das diferentes vocações, carismas e serviços. É finalmente servidor da Igreja missão porque faz com que a comunidade se torne anunciadora e testemunha do Evangelho” [29].

Assim, pela sua própria natureza e missão sacramental, o sacerdote surge, na estrutura da Igreja como sinal da prioridade absoluta e gratuidade da graça, que à Igreja é oferecida por Cristo ressuscitado. Através do sacerdócio ministerial, a Igreja toma consciência, na fé, de não vir de si mesma, mas da graça de Cristo no Espírito Santo. Os apóstolos e seus sucessores, como detentores de uma autoridade que lhes vem de Cristo Cabeça e Pastor, são colocados – juntamente com o seu ministério – perante a Igreja como prolongamento visível e sinal sacramental de Cristo no seu próprio estar diante da Igreja e do mundo, como origem permanente e sempre nova da salvação, “Ele que é o salvador do seu corpo” (Ef 5, 23).

17. O ministério ordenado, em virtude da sua própria natureza, pode ser exercido somente na medida em que o presbítero estiver unido a Cristo mediante a inserção sacramental na ordem presbiteral e, conseguinte, enquanto se encontrar em comunhão hierárquica com o próprio Bispo. O ministério ordenado tem uma radical “forma comunitária” e pode apenas ser assumido como “obra colectiva” [30]. Sobre esta natureza de comunhão do sacerdócio se deteve longamente o Concílio [31], examinando distintamente a relação do presbítero com o seu Bispo, com os demais presbíteros e com os próprios leigos.

O ministério do presbítero é, antes de mais, comunhão e colaboração responsável e necessária no ministério do Bispo, na solicitude pela Igreja universal e por cada Igreja particular para cujo serviço eles constituem, juntamente com o Bispo, um único presbitério.

Cada sacerdote, seja diocesano ou religioso, está unido aos outros membros deste presbitério, na base do sacramento da Ordem, por particulares vínculos de caridade apostólica, de ministério e de fraternidade. De facto, todos os presbíteros, quer diocesanos quer religiosos, participam do único sacerdócio de Cristo Cabeça e Pastor, trabalham para a mesma causa, isto é, “a edificação do Corpo de Cristo, que, especialmente em nossos dias, requer múltiplas actividades e novas adaptações” [32], e se enriquece, no decurso dos séculos, de carismas sempre novos.

Finalmente os presbíteros, dado que a sua figura e o seu papel na Igreja não substitui, mas antes promovem o sacerdócio baptismal de todo o Povo de Deus, conduzindo-o à sua plena actuação eclesial, encontram-se numa relação positiva e promotora com os leigos. Eles estão ao serviço da fé, esperança e caridade destes. Reconhecem e sustentam a sua dignidade de filhos de Deus como amigos e irmãos, ajudando-os a exercitar em plenitude o seu papel específico no âmbito da missão da Igreja [33].

O sacerdócio ministerial conferido pelo sacramento da Ordem e o comum ou “real” dos fiéis, que diferem entre si essencialmente e não apenas em grau [34], estão coordenados entre si, ambos derivando – em forma diversa – do único sacerdócio de Cristo. O sacerdócio ministerial, de facto, não significa, de per si, um maior grau de santidade relativamente ao sacerdócio comum dos fiéis; mas, através dele, é outorgado aos presbíteros, por Cristo no Espírito, um dom particular para que possam ajudar o Povo de Deus a exercitar com fidelidade e plenitude o sacerdócio comum que lhes é conferido [35].

18. Como sublinha o Concílio, “o dom espiritual que os presbíteros receberam na ordenação não os prepara para uma missão limitada e restrita, mas, pelo contrário, para uma imensa e universal missão de salvação até aos últimos confins da terra, dado que todo e qualquer ministério sacerdotal participa da mesma amplitude universal da missão confiada por Cristo aos Apóstolos” [36]. Pela própria natureza do seu ministério, eles devem, portanto, ser penetrados e animados de um profundo espírito missionário, “daquele espírito verdadeiramente católico que os habitua a olhar para além dos confins da própria diocese, nação ou rito, e ajudar as necessidades de toda a Igreja, dispostos a pregar o Evangelho em toda a parte” [37].

Além disso, precisamente porque no âmbito da vida da Igreja é o homem da comunhão, o presbítero deve ser, no relacionamento com todas as pessoas, o homem da missão e do diálogo. Profundamente radicado na verdade e na caridade de Cristo e animado do desejo e do imperativo de anunciar a todos a sua salvação, ele é chamado a encetar um relacionamento de fraternidade, de serviço, de procura comum da verdade, de promoção da justiça e da paz, com todos os homens. Em primeiro lugar, com os irmãos das outras Igrejas e confissões cristãs; mas também com os fiéis das outras religiões; com os homens de boa vontade, de forma especial com os pobres e os mais débeis, com todos aqueles que anseiam, mesmo sem o saber ou o exprimir, pela verdade e pela salvação de Cristo, segundo a palavra de Jesus: “não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes; não vim para chamar os justos, mas sim os pecadores” ( Mc 2, 17).

Hoje, de uma forma particular, a prioritária tarefa pastoral da nova evangelização, que diz respeito a todo o Povo de Deus e postula um novo ardor, novos métodos e uma nova expressão para o anúncio e o testemunho do Evangelho, exige sacerdotes, radical e integralmente imersos no mistério de Cristo, e capazes de realizar um novo estilo de vida pastoral, marcado por uma profunda comunhão com o Papa, os Bispos e entre si próprios, e por uma fecunda colaboração com os leigos, no respeito e na promoção dos diversos papéis, carismas e ministérios no interior da comunidade eclesial [38].

“Cumpriu-se hoje o passo da escritura que acabais de ouvir” (Lc 4, 21). Escutemos uma vez mais estas palavras de Jesus, à luz do sacerdócio ministerial que apresentamos na sua natureza e missão. O “hoje” de que fala Jesus, precisamente porque pertence – definindo-a à “plenitude dos tempos”, ou seja, ao tempo da salvação plena e definitiva, indica o tempo da Igreja. A consagração e a missão de Cristo – “O Espírito do Senhor me consagrou com a unção e me enviou a anunciar aos pobres a Boa Nova” (Lc 4, 18)- são a raiz viva de onde germina a consagração e a missão da Igreja, “plenitude” de Cristo (cf. Ef 1, 23): com a regeneração baptismal se infunde sobre todos os crentes o Espírito do Senhor, que os consagra em ordem a formarem um templo espiritual e um sacerdócio santo e os envia a dar a conhecer os prodígios d’Aquele que os chamou das trevas à sua luz admirável (cf. 1 Ped 2, 4-10). O presbítero participa na missão e consagração de Cristo de modo específico e de plena autoridade, ou seja, mediante o sacramento da Ordem, em virtude do qual é configurado, no seu ser, a Jesus Cristo Cabeça e Pastor, e partilha a missão de “anunciar aos pobres a Boa Nova” em nome e na pessoa do próprio Cristo.

Na sua Mensagem final, os Padres sinodais compendiaram em breves mas ricas palavras a “verdade”, melhor, o “mistério” e o “dom” do sacerdócio ministerial, afirmando: “A nossa identidade tem a sua fonte mais remota na caridade do Pai. Ao Filho, por Ele enviado, Sumo Sacerdote e Bom Pastor, estamos unidos sacramentalmente com o sacerdócio ministerial por acção do Espírito Santo. A vida e o ministério do sacerdote são a continuação da vida e da acção do próprio Cristo. Esta é a nossa identidade, a nossa verdadeira dignidade, a fonte da nossa alegria, a certeza da nossa vida” [39].

CAPÍTULO III

O ESPÍRITO DO SENHOR ESTÁ SOBRE MIM
A vida espiritual do Sacerdote

Uma vocação “específica” à santidade

19. “O Espírito do Senhor está sobre mim” (Lc 4, 18). O Espírito não está simplesmente “sobre” o Messias, mas “enche-o”, penetra-o, atinge-o no seu ser e operar. De facto, o Espírito é o princípio da consagração e da missão do Messias: “por isso me consagrou, e me enviou a anunciar a Boa Nova aos pobres” (Lc 4, 18). Em virtude do Espírito, Jesus pertence total e exclusivamente a Deus, participa da infinita santidade de Deus que O chama, elege e envia. Assim o Espírito do Senhor se revela fonte de santidade e apelo à santificação.

Este mesmo “Espírito do Senhor” está “sobre” a totalidade do Povo de Deus, que é constituído como povo “consagrado” a Deus e por Deus “enviado” para o anúncio do Evangelho que salva. Os membros do Povo de Deus estão “inebriados” e “assinalados” pelo Espírito (cf. 1 Cor 12, 13; 2 Cor 1, 21-22; Ef 1, 13; 4, 3), e chamados à santidade.

Em particular, o Espírito revela-nos e nos comunica a vocação fundamental que o Pai desde a eternidade dirige a todos: a vocação a ser “santos e imaculados na sua presença na caridade”, em virtude da predestinação para “sermos seus filhos adoptivos por obra de Jesus Cristo” (Ef 1, 4-5). Mais. Revelando e comunicando-nos esta vocação, o Espírito se torna em nós princípio e garantia da sua própria realização; Ele, o Espírito do Filho (cf. Gal 4, 6), conforma-nos a Jesus Cristo e nos torna participantes da sua vida filial, ou seja, do seu amor ao Pai e aos irmãos. “Se vivemos do Espírito, caminhemos segundo o Espírito” (Gal 5, 25). Com estas palavras, o apóstolo Paulo recorda-nos que a existência cristã é “vida espiritual”, quer dizer, vida animada e guiada pelo Espírito em ordem à santidade e à perfeição da caridade.

A afirmação do Concílio: “Todos os fiéis de qualquer estado ou condição são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade” [40] encontra particular aplicação no caso dos presbíteros: estes são chamados não só enquanto baptizados, mas também e especificamente enquanto presbíteros, ou seja, por um título novo e de um modo original, derivado do sacramento da Ordem.

20. Acerca da “vida espiritual” dos presbíteros e do dom e responsabilidade de serem santos, oferece-nos o Decreto Conciliar sobre o ministério e a vida sacerdotal uma síntese rica e estimulante: “Pelo sacramento da Ordem, os presbíteros são configurados a Cristo Sacerdote como ministros da Cabeça, para a construção e edificação do seu Corpo, que é a Igreja, na qualidade de colaboradores da Ordem episcopal. Já desde a consagração do Baptismo, receberam , tal como todos os fiéis, o sinal e o dom de tão insigne vocação e graça, para que, mesmo na fraqueza da condição humana, possam e devam alcançar a perfeição, segundo quanto foi dito pelo Senhor:’sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste’ (Mt 5, 48). Mas os sacerdotes são especialmente obrigados a buscar esta perfeição, visto que, consagrados de modo particular a Deus pela recepção da Ordem, se tornaram instrumentos vivos do sacerdócio eterno de Cristo, a fim de prosseguirem no tempo a Sua obra admirável que restaurou com divina eficácia a humanidade inteira. Dado, portanto, que cada sacerdote, no modo que lhe é próprio, age em nome e na pessoa do próprio Cristo, ele usufrui também de uma graça especial, em virtude da qual, enquanto se encontra ao serviço das pessoas que lhe foram confiadas e de todo o Povo de Deus, possa alcançar de maneira mais conveniente a perfeição d’Aquele de quem é representante, e cure a debilidade humana da carne a santidade d’Aquele que por nós se fez pontífice ‘santo, inocente, separado dos pecadores’ (Heb 7, 26)” [41].

O Concílio afirma, antes de mais, a vocação “comum” à santidade. Esta vocação radica-se no Baptismo, que caracteriza o presbítero como um “fiel” (christifidelis), como “irmão entre irmãos” inserido e unido com o Povo de Deus, na alegria de partilhar os dons da salvação (cf. Ef 4, 4-6) e no compromisso comum de caminhar “segundo o Espírito”, seguindo o único Mestre e Senhor. Recordemos o célebre dito de Santo Agostinho: “Para vós sou Bispo, convosco sou cristão. Aquele é o nome de um cargo assumido, este de graça; aquele é um nome de perigo, este um nome de salvação” [42].

Com a mesma clareza, o texto conciliar fala também de uma vocação “específica” à santidade, mais precisamente de uma vocação que se fundamenta no sacramento da Ordem, na qualidade de sacramento próprio e específico do sacerdote, portanto por força de uma nova consagração a Deus mediante a ordenação. A esta vocação específica alude ainda o mesmo Santo Agostinho, quando à afirmação “para vós sou Bispo, convosco sou cristão” acrescenta as seguintes palavras: “Se, portanto, é para mim causa de maior alegria o ter sido resgatado convosco do que o ter sido posto à vossa frente, seguindo o mandato do Senhor, dedicar-me-ei com o máximo empenho a servir-vos, para não me tornar ingrato com Quem me resgatou por aquele preço que me fez servidor vosso e convosco” [43].

O texto do Concílio vai mais além, pondo em destaque alguns elementos necessários para definir o conteúdo da “especificidade” da vida espiritual dos presbíteros. Trata-se de elementos que se relacionam com a “consagração” própria dos presbíteros, a qual os configura a Jesus Cristo Cabeça e Pastor da Igreja; com a “missão” ou ministério típico dos próprios presbíteros, que os habilita e compromete a serem “instrumentos vivos de Cristo eterno Sacerdote” e a agir “em nome e na pessoa do próprio Cristo”; com a sua “vida” inteira, vocacionada para manifestar e testemunhar de modo original a “radicalidade evangélica” [44].

A configuração a Jesus Cristo Cabeça e Pastor e a caridade pastoral

21. Mediante a consagração sacramental, o sacerdote é configurado a Jesus Cristo enquanto Cabeça e Pastor da Igreja e recebe o dom de um “poder espiritual” que é participação da autoridade com a qual Jesus Cristo pelo Seu Espírito conduz a Igreja [45].

Graças a esta consagração, operada pelo Espírito na efusão sacramental da Ordem, a vida espiritual do sacerdote fica assinalada, plasmada, conotada por aquelas atitudes e comportamentos que são próprios de Jesus Cristo Cabeça e Pastor e se compendiam na sua caridade pastoral.

Jesus Cristo é Cabeça da Igreja, seu Corpo. É “Cabeça” no sentido novo e original de ser “servo”, segundo as suas próprias palavras: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a própria vida em resgate por todos” (Mc 10, 45). O serviço de Jesus atinge a plenitude com a morte na cruz, ou seja, com o dum total de si mesmo, na humildade e no amor: “Despojou-se a si próprio, assumindo a condição de servo e tornando-se igual aos homens; aparecendo em forma humana, humilhou-se a si mesmo fazendo-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fil 2, 7-8). A autoridade de Jesus Cristo Cabeça coincide, portanto, com o seu serviço, o seu dom, a sua entrega total, humilde e amorosa pela Igreja. E tudo isto em perfeita obediência ao Pai: Ele é o único verdadeiro servo sofredor, conjuntamente Sacerdote e Vítima.

É a partir deste preciso tipo de autoridade, quer dizer, do serviço à Igreja, que a existência espiritual de todos e cada um dos sacerdotes é animada e vivificada, exactamente como exigência da sua configuração a Jesus Cristo Cabeça e Servo da Igreja [46]. Assim Santo Agostinho alertava um bispo no dia da sua ordenação: “Quem é posto à frente do povo deve ser o primeiro a dar-se conta de que é servo de todos. E não desdenhe de o ser, repito, não desdenhe de ser servo de todos, pois não desdenhou de se tornar nosso servo Aquele que é Senhor dos senhores” [47].

A vida espiritual dos ministros do Novo Testamento deve levar, portanto, a marca desta atitude essencial de serviço ao Povo de Deus (cf. Mt 20, 24-28; Mc 10, 43-44), destituído de qualquer presunção ou desejo de “assenhoriar-se” do rebanho a ele confiado (cf. 1 Ped 5, 2-3). Um serviço feito de ânimo alegre, de boa vontade e segundo Deus: deste modo os ministros, os “anciãos” da comunidade, isto é, os presbíteros, poderão ser «modelo» do rebanho que, por sua vez, é chamado a assumir, frente ao mundo inteiro, essa atitude sacerdotal de serviço à plenitude da vida do homem e à sua libertação integral.

22. A imagem de Jesus Cristo Pastor da Igreja, seu rebanho, retoma e repropõe, com novos e mais sugestivos matizes, os mesmos conteúdos da de Jesus Cristo Cabeça e servo. Tornando realidade o anúncio profético do Messias Salvador, cantado jubilosamente pelo Salmista e pelo profeta Ezequiel (cf. Sal 22; Ez 34, 11-31), Jesus auto-apresenta-se como “o Bom Pastor” (Jo 10, 11.14) não só de Israel mas de todos os homens (Jo 10, 16). E a sua vida é uma ininterrupta manifestação, melhor, uma quotidiana realização da sua “caridade pastoral”: sente compaixão pelas multidões porque estão cansadas e esgotadas como ovelhas sem pastor (cf. Mt 9, 35-36); procura as dispersas e tresmalhadas (cf. Mt 18, 12-14) e festeja o tê-las reencontrado, recolhe-as e defende-as, conhece-as e as chama uma a uma pelo seu nome (cf. Jo 10, 3), condu-las aos pastos verdejantes e às águas refrescantes (cf. Sal 22), para elas põe a mesa, alimentando-as com a Sua própria vida. Esta vida a oferece o Bom Pastor com a sua morte e ressurreição, como canta a liturgia romana da Igreja: “Ressuscitou o bom Pastor que deu a vida pelas suas ovelhas, e pelo Seu rebanho se entregou à morte. Aleluia” [48].

Pedro chama a Jesus o “Príncipe dos Pastores” (1 Ped 5, 4), porque a sua obra e missão continuam na Igreja através dos Apóstolos (cf. Jo 21, 15-17) e seus sucessores (cf. 1 Ped 5, 1-4), e através dos presbíteros. Em virtude da sua consagração, estes são configurados a Jesus Bom Pastor e são chamados a imitar e a reviver a sua própria caridade pastoral.

A entrega de Cristo à sua Igreja, fruto do seu amor, está conotada com aquela dedicação original que é própria do esposo no seu relacionamento com a esposa, como por mais de uma vez sugerem os textos sagrados. Jesus é o verdadeiro Esposo que oferece o vinho da salvação à Igreja (cf. Jo 2, 1-11). Ele, que é “cabeça da Igreja (…) e salvador do seu corpo” (Ef 5, 23), “amou a Igreja e se entregou a si mesmo por ela, a fim de a tornar santa, purificando-a por meio do banho da água acompanhado da palavra, de modo a fazer aparecer diante de si a Igreja resplandecente, sem mancha nem ruga ou qualquer coisa de semelhante, mas santa e imaculada” (Ef 5, 25-27). A Igreja é efectivamente o Corpo, no qual está presente e operante Jesus Cristo Cabeça, mas é também a Esposa, que surge como nova Eva do lado aberto do Redentor sobre a cruz: por isto mesmo, Cristo está “diante” da Igreja, “alimenta-a e cuida dela” (Ef 5, 29) com o dom da sua vida. O sacerdote é chamado a ser imagem viva de Jesus Cristo, Esposo da Igreja [49]: certamente ele permanece sempre parte da comunidade como crente, juntamente com todos os outros irmãos e irmãs convocados pelo Espírito, mas por força da sua incorporação a Cristo Cabeça e Pastor, encontra-se na referida posição de esposo perante a comunidade. “Enquanto representa a Cristo Cabeça, Pastor e Esposo da Igreja, o sacerdote coloca-se não só na Igreja mas perante a Igreja” [50]. Portanto ele é chamado, na sua vida espiritual, a reviver o amor de Cristo Esposo na sua relação com a Igreja Esposa. A sua vida deve iluminar-se e orientar-se também por este tratamento nupcial que lhe exige ser testemunha do amor nupcial de Cristo, ser, por conseguinte, capaz de amar a gente com um coração novo, grande e puro,com um autêntico esquecimento de si mesmo, com dedicação plena, contínua e fiel, juntamente com uma espécie de “ciúme” divino (cf. 2 Cor 11, 2), com uma ternura que reveste inclusivamente os matizes do afecto materno, capaz de assumir as “dores de parto” até que “Cristo seja formado” nos fiéis (cf. Gal 4, 19).

23. O princípio interior, a virtude que orienta e anima a vida espiritual do presbítero, enquanto configurado a Cristo Cabeça e Pastor, é a caridade pastoral, participação da própria caridade pastoral de Cristo Jesus: dom gratuito do Espírito Santo, e ao mesmo tempo tarefa e apelo a uma resposta livre e responsável do sacerdote.

O conteúdo essencial da caridade pastoral é o dom de si, o total dom de si mesmo à Igreja, à imagem e com o sentido de partilha do dom de Cristo. “A caridade pastoral é aquela virtude pela qual nós imitamos Cristo na entrega de si mesmo e no seu serviço. Não é apenas aquilo que fazemos, mas o dom de nós mesmos que manifesta o amor de Cristo pelo seu rebanho. A caridade pastoral determina o nosso modo de pensar e de agir, o modo de nos relacionarmos com as pessoas. E não deixa de ser particularmente exigente para nós” [51].

O dom de si mesmo, raiz e síntese da caridade pastoral, tem como destinatária a Igreja. Assim foi com Cristo que “amou a sua Igreja e se entregou por ela” (Ef 5, 25); assim deve ser com o presbítero. Pela caridade pastoral, que assinala o exercício do ministério sacerdotal como “amoris officium” [52], “o sacerdote que acolhe a vocação ao ministério, está em condições de fazer disto uma escolha de amor, pela qual a Igreja e as almas se tornam o seu principal interesse e, com tal espiritualidade concreta, se torna capaz de amar a Igreja universal e a porção dela que lhe é confiada, com todo o entusiasmo de um esposo na sua relação com a esposa” [53]. O dom de si mesmo não tem fronteiras, porque é marcado pelo mesmo dinamismo apostólico e missionário de Cristo Bom Pastor, que disse:”Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil; também as devo conduzir; escutarão a minha voz e então haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10, 16).

No interior da comunidade eclesial, a caridade pastoral do sacerdote preconiza e exige de um modo particular e específico o seu relacionamento pessoal com o presbitério, unido no e com o Bispo, como explicitamente escreve o Concílio: “a caridade pastoral exige que os presbíteros, para que não corram em vão, trabalhem sempre em união com os Bispos e com os outros irmãos no sacerdócio” [54].

O dom de si à Igreja tem a ver com ela, enquanto Corpo e Esposa de Jesus Cristo. Por isso a caridade do padre se refere primariamente a Jesus Cristo: só se amar e servir a Cristo Cabeça e Esposo, a caridade se torna fonte, critério, medida, impulso de amor e de serviço do sacerdote para com a Igreja corpo e esposa de Cristo. É esta a consciência clara e viva do apóstolo Paulo, que, aos cristãos da Igreja de Corinto, escreve: “quanto a nós, somos vossos servos por amor de Jesus” (2 Cor 4, 5). É esta sobretudo a doutrina explícita e programática de Jesus quqndo confia a Pedro o ministério de apascentar o rebanho, só depois da sua tríplice afirmação de amor, melhor dito, de um amor de predilecção: “Perguntou-lhe pela terceira vez: ‘Simão, filho de João, tu amas-me?’. E Pedro respondeu: ‘Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo’. Replicou-lhe Jesus:’Apascenta as minhas ovelhas'”(Jo 21, 17).

A caridade pastoral, que tem a sua fonte específica no sacramento da Ordem, encontra a sua plena expressão e supremo alimento na Eucaristia: “Esta caridade pastoral – diz-nos o Concílio – brota sobretudo do sacrifício eucarístico, o qual constitui, portanto, o centro e a raiz de toda a vida do presbítero, de modo que a alma sacerdotal se esforçará por espelhar em si mesma o que é realizado sobre o altar do sacrifício” [55]. É na Eucaristia, de facto, que é re-presentado, ou seja, de novo tornado presente o sacrifício da cruz, o dom total de Cristo à sua Igreja, o dom do seu Corpo entregue e do seu Sangue derramado, qual testemunho supremo do seu ser Cabeça e Pastor, Servo e Esposo da Igreja. Precisamente por isto, a caridade pastoral do sacerdote não apenas brota da Eucaristia, mas encontra na celebração desta a sua mais alta realização, da mesma forma que da Eucaristia recebe a graça e a responsabilidade de conotar em sentido “sacrificial” a sua inteira existência.

Esta mesma caridade pastoral constitui o princípio interior e dinâmico capaz de unificar as múltiplas e diferentes actividades do sacerdote. Graças a ela, pode encontrar resposta a exigência permanente e essencial de unidade entre a vida interior e tantas actividades e responsabilidades do ministério, exigência sempre mais urgente num contexto sócio-cultural e eclesial fortemente assinalado pela complexidade, desagregação e dispersão. Somente a concentração de cada instante e de cada gesto à volta da opção fundamental e qualificante de “dar a vida pelo rebanho” pode garantir esta unidade vital, indispensável para a harmonia e para o equilíbrio espiritual do sacerdote: “A unidade de vida – recorda o Concílio – pode ser conseguida pelos presbíteros seguindo, no desempenho do próprio ministério, o exemplo de Cristo Senhor, cujo alimento era o cumprimento da vontade d’Aquele que o tinha enviado a realizar a sua obra (…) Assim, representando o Bom Pastor, no mesmo exercício pastoral da caridade, encontrarão o vínculo da perfeição sacerdotal que tornará efectiva a unidade entre a sua vida e actividade” [56].

A vida espiritual no exercício do ministério

24. O Espírito do Senhor consagrou Cristo e enviou-o a anunciar o Evangelho (cf. Lc 4, 18). A missão não representa um elemento exterior e justaposto à consagração, mas constitui a sua meta intrínseca e vital: a consagração é para a missão. Assim, não só a consagração mas também a missão está sob o signo do Espírito, sob o seu influxo santificador.

Assim aconteceu com Jesus. Assim foi o caso dos apóstolos e dos seus sucessores. Assim é com a Igreja inteira e, dentro dela, com os presbíteros: todos recebem o Espírito como dom e apelo de santificação, no âmbito e através do cumprimento da missão [57].

Existe, portanto, uma íntima conexão entre a vida espiritual do presbítero e o exercício do seu ministério [58], que o Concílio exprime da maneira seguinte: “Exercitando o ministério do Espírito e da justiça (cf. 2 Cor 3, 8-9), os presbíteros são consolidados na vida do Espírito, na condição, porém, que sejam dóceis aos ensinamentos do Espírito de Cristo que os vivifica e guia. De facto, os presbíteros são orientados para a perfeição da vida por força das próprias acções que desenvolvem quotidianamente, como também de todo o seu ministério que exercitam em estreita união com o Bispo e entre si. Mas a própria santidade dos presbíteros, por sua vez, contribui muitíssimo para o desempenho eficaz do seu ministério” [59].

Vive o mistério que é colocado em tuas mãos“! É este o convite e também a interpelação que a Igreja dirige ao presbítero no rito da ordenação, no momento em que lhe são entregues as ofertas do povo santo para o sacrifício eucarístico. O “mistério” de que o presbítero é “dispensador” (cf. 1 Cor 4, 1) é, no fundo, o próprio Jesus Cristo que, no Espírito, é fonte de santidade e apelo à santificação. O “mistério” exige ser inserido na vida real do presbítero. Por isso mesmo, exige grande vigilância e consciencialização viva. É ainda o rito da ordenação a fazer preceder as palavras recordadas da recomendação: “Toma consciência daquilo que farás”. Já Paulo alertava o bispo Timóteo: “Não transcures o dom espiritual que está em ti” (1 Tim 4, 14; cf. 2 Tim 1, 6).

A relação entre a vida espiritual e o exercício do ministério sacerdotal pode encontrar uma explicação adequada, também a partir da caridade pastoral concedida pelo sacramento da Ordem. O ministério do sacerdote, precisamente porque é uma participação no ministério salvífico de Jesus Cristo Cabeça e Pastor, não pode deixar de reexprimir e reviver aquela sua caridade pastoral que é, ao mesmo tempo, a fonte e o espírito do seu serviço e do dom de si próprio. Na sua realidade objectiva, o ministério sacerdotal é “amoris officium”, segundo a citada expressão de Santo Agostinho: precisamente esta realidade objectiva se coloca como fundamento e apelo para um “ethos” correspondente, que não pode ser senão aquele de viver o amor, como salienta o mesmo Santo: “Sit amoris officium pascere dominicum gregem” [60]. Tal ethos, e portanto a vida espiritual, outra coisa não é senão o acolhimento na consciência e na liberdade, e consequentemente na mente, no coração, nas decisões e nas acções, da “verdade” do ministério sacerdotal como amoris officium.

25. É essencial para avida espiritual, que se desenvolve através do exercício do ministério, que o sacerdote renove continuamente e aprofunde sempre mais a consciência de ser ministro de Jesus Cristo em virtude da consagração sacramental e da configuração ao mesmo Cristo Cabeça e Pastor da Igreja.

Essa consciência não só corresponde à verdadeira natureza da missão que o sacerdote exerce em favor da Igreja e da humanidade, mas decide também a vida espiritual do presbítero que leva a cabo aquela missão. Efectivamente o Sacerdote não é escolhido por Cristo como uma “coisa”, mas como uma “pessoa”: ele não é um instrumento inerte e passivo, mas um “instrumento vivo”, como diz o Concílio, precisamente no ponto onde fala da obrigação de tender para esta perfeição [61]. É ainda o Concílio a designar os sacerdotes como “companheiros e colaboradores” de Deus «santo e santificador» [62].

Neste sentido, no exercício do ministério está profundamente comprometida a pessoa consciente, livre e responsável do sacerdote. O ligame a Jesus Cristo, que a configuração e a consagração do sacramento da Ordem asseguram, fundamenta e exige no sacerdote uma ulterior conexão que lhe é proporcionada pela “intenção”, ou seja, pela vontade consciente e livre de fazer, mediante o gesto ministerial, aquilo que é intenção da Igreja. Uma tal ligação tende, pela sua própria natureza, a tornar-se o mais ampla e profunda possível, implicando a mente, os sentimentos, a vida, ou seja, uma série de disposições morais e espirituais correspondentes aos gestos ministeriais do padre.

Não há dúvida que o exercício do ministério sacerdotal, especialmente a celebração dos sacramentos, recebe a sua eficácia de salvação da própria acção de Cristo Jesus, tornada presente nos sacramentos. Mas por um desígnio divino, que pretende exaltar a absoluta gratuidade da salvação, fazendo do homem ao mesmo tempo um “salvado” e um “salvador” – sempre e só com Jesus Cristo, a eficácia do exercício do ministério é condicionada também pela maior ou menor receptividade e participação humana [63]. Particularmente, a maior ou menor santidade do ministro influi sobre o anúncio da Palavra, a celebração dos Sacramentos, e a condução da comunidade na Caridade. Afirma-o claramente o Concílio: “A mesma santidade dos presbíteros (…) contribui muitíssimo para o desempenho eficaz do seu ministério: com efeito, se é verdade que a graça de Deus pode realizar a obra de salvação mesmo por meio de ministros indignos, apesar de tudo, Deus prefere ordinariamente manifestar as suas grandezas por meio daqueles que, mostrando-se mais dóceis aos impulsos e direcção do Espírito Santo, possam dizer com o Apóstolo, graças à sua íntima união com Cristo e à santidade de vida: ‘Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim’ (Gal 2, 20)” [64].

A consciência de ser ministro de Jesus Cristo Cabeça e Pastor implica também a certeza grata e alegre de uma singular graça recebida da parte d’Ele: a de ter sido escolhido gratuitamente pelo Senhor como instrumento vivo da obra de salvação. Esta escolha testemunha o amor de Jesus Cristo pelo sacerdote. Precisamente este amor, como e mais do que qualquer outro amor, exige correspondência. Depois da ressurreição, Jesus coloca a Pedro a questão fundamental sobre o amor: “Simão, filho de João, amas-me tu mais do que estes?” E à resposta de Pedro, segue a entrega da missão: “Apascenta os meus cordeiros” (Jo 21, 15). Jesus pergunta a Pedro se o ama, antes e com o fim de lhe poder entregar o rebanho. Mas, na realidade, é o amor livre e prévio de Jesus a originar a solicitação ao apóstolo e a subsequente entrega das “suas” ovelhas. Desta forma, o gesto ministerial, enquanto leva a amar e a servir a Igreja , impele a amadurecer cada vez mais no amor e no serviço a Jesus Cristo Cabeça, Pastor e Esposo da Igreja, um amor que se configura sempre como resposta ao amor prévio, livre e gratuito de Deus em Cristo. Por sua vez, o crescimento do amor a Jesus Cristo determina o crescimento do amor pela Igreja: “Somos vossos pastores (pascimus vobis), e convosco somos alimentados (pascimur vobiscum). O Senhor nos dê a força de amar-vos a tal ponto que possamos morrer por vós, de facto ou com o coração (aut effectu aut affectu)” [65].

26. Graças aos preciosos ensinamentos do Concílio Vaticano II [66], podemos individuar as condições e as exigências, as modalidades e os frutos do íntimo relacionamento que existe entre a vida espiritual do sacerdote e o exercício do seu tríplice ministério: da Palavra, dos Sacramentos e do serviço da Caridade.

Antes de mais, o Sacerdote é ministro da Palavra de Deus, é consagrado e enviado a anunciar a todos o Evangelho do Reino, chamando cada homem à obediência da fé e conduzindo os crentes a um conhecimento e comunhão sempre mais profundos do mistério de Deus, revelado e comunicado a nós em Cristo. Por isso, o próprio sacerdote deve ser o primeiro a desenvolver uma grande familiaridade pessoal com a Palavra de Deus: não lhe basta conhecer o aspecto linguístico ou exegético, sem dúvida necessário; precisa de se abeirar da Palavra com o coração dócil e orante, a fim de que ela penetre a fundo nos seus pensamentos e sentimentos e gere nele uma nova mentalidade – “o pensamento de Cristo” (1 Cor 2, 16) – de modo que as suas palavras, as suas opções e atitudes sejam cada vez mais uma transparência, um anúncio e um testemunho do Evangelho. Só “permanecendo” na Palavra, o presbítero se tornará perfeito discípulo do Senhor, conhecerá a verdade e será realmente livre, superando todo e qualquer condicionalismo adverso ou estranho ao Evangelho (cf. Jo 8, 31-32). O sacerdote deve ser o primeiro “crente” na Palavra, com plena consciência de que as palavras do seu ministério não são suas, mas d’Aquele que o enviou. Desta Palavra, ele não é dono: é servo. Desta Palavra, ele não é o único possuidor: é devedor relativamente ao Povo de Deus. Precisamente porque evangeliza e para que possa evangelizar, o sacerdote, como a Igreja, deve crescer na consciência da sua permanente necessidade de ser evangelizado [67]. Ele anuncia a Palavra na sua qualidade de “ministro”, participante da autoridade profética de Cristo e da Igreja. Por isso, para ter em si mesmo e dar aos fiéis a garantia de transmitir o Evangelho na sua integridade, presbítero é chamado a cultivar uma sensibilidade, um amor e uma disponibilidade particular relativamente à Tradição viva da Igreja e do seu Magistério: estes não são estranhos à Palavra, servem antes a sua recta interpretação e conservam-lhe o autêntico sentido [68].

É sobretudo na celebração dos Sacramentos e na Liturgia das Horas que o sacerdote é chamado a viver e a testemunhar a unidade profunda entre o exercício do ministério e a sua vida espiritual: o dom da graça oferecido à Igreja torna-se princípio de santidade e apelo de santificação. Também para o sacerdote, o lugar verdadeiramente central, quer no ministério quer na vida espiritual, é ocupado pela Eucaristia, pois nela se “encerra todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, nossa Páscoa e Pão vivo que dá aos homens a vida, mediante a sua carne vivificada pelo Espírito Santo; assim são eles convidados e levados a oferecer, juntamente com Ele, a si mesmos, os seus trabalhos e todas as coisas criadas” [69].

A vida espiritual do presbítero recebe conotações particulares dos diversos sacramentos, e em particular da graça específica e própria de cada um deles. Aquela, de facto, é estruturada e plasmada pelas múltiplas características e exigências dos diversos sacramentos celebrados e vividos.

Gostaria de reservar uma palavra especial para o sacramento da Penitência, do qual os sacerdotes são ministros, mas devem ser também beneficiários, tornando-se testemunhas da misericórdia de Deus pelos pecadores. Retomo quanto escrevi na Exortação Reconciliatio et Paenitentia: “A vida espiritual e pastoral do sacerdote, como a dos seus irmãos leigos e religiosos, depende, na sua qualidade e no seu fervor, da prática pessoal assídua e conscienciosa do sacramento da Penitência. A celebração da Eucaristia e o ministério dos outros sacramentos, o zelo pastoral, o relacionamento com os fiéis, a comunhão com os irmãos no sacerdócio, a colaboração com o Bispo, a vida de oração, numa palavra, toda a existência sacerdotal sofre uma inexorável decadência, caso lhe venha a faltar, por negligência ou por qualquer outro motivo, o recurso periódico e inspirado por uma verdadeira fé e devoção ao sacramento da Penitência. Num sacerdote que deixasse de se confessar ou se confessasse mal, o seu ser padre e o exercício do seu sacerdócio bem cedo ressentir-se-iam, e disso se daria conta a própria comunidade da qual ele é pastor” [70].

Enfim, o sacerdote é chamado a reviver a autoridade e o serviço de Jesus Cristo Cabeça e Pastor da Igreja, animando e guiando a comunidade eclesial, ou seja, “reunindo a família de Deus como fraternidade animada na unidade”, conduzindo-a ao Pai “por meio de Cristo no Espírito Santo” [71]. Este “munus regendi” é tarefa muito delicada e complexa, que inclui, para além da atenção às pessoas singulares e às diferentes vocações, a capacidade de coordenar todos os dons e carismas que o Espírito suscita na comunidade, verificando-os e valorizando-os para a edificação da Igreja, sempre em união com os Bispos. Trata-se de um ministério que requer do sacerdote uma vida espiritual intensa, rica daquelas qualidades e virtudes típicas da pessoa que “preside” e “guia” uma comunidade, do “ancião” no sentido mais nobre e rico do termo: a fidelidade, a coerência, a sapiência, o acolhimento de todos, a afável bondade, a autorizada firmeza quanto às coisas essenciais, a libertação de pontos de vista demasiado subjectivos, o desprendimento pessoal, a paciência, o gosto pela tarefa diária, a confiança no trabalho escondido da graça que se manifesta nos simples e nos pobres (cf. Tit 1, 7-8).

A existência sacerdotal e a radicalidade evangélica

27. “O Espírito do Senhor está sobre mim” (Lc 4, 18).O Espírito Santo, infundido pelo sacramento da Ordem, é fonte de santidade e apelo à santificação, não só porque configura o sacerdote a Cristo Cabeça e Pastor da Igreja e lhe confia a missão profética, sacerdotal e régia a desempenhar em nome e na pessoa de Cristo, mas também porque anima e vivifica a sua existência quotidiana, enriquecendo-a com dons e exigências,com virtudes e impulsos, que se compendiam na caridade pastoral. Esta é a síntese unificante dos valores e virtudes evangélicas e simultaneamente a força que sustenta o seu desenvolvimento até à perfeição cristã [72].

Para todos os cristãos, sem exclusão de ninguém, a radicalidade evangélica é uma exigência fundamental e irrecusável, que brota do apelo de Cristo a segui-Lo e imitá-Lo, em virtude da íntima comunhão de vida com Ele operada pelo Espírito (cf. Mt 8, 18-27; 10, 37-42; Mc 8, 34-38; 10, 17-21; Lc 9, 57-62). Essa mesma exigência, com maior razão, se põe aos sacerdotes, não só porque estão na Igreja, mas também porque se encontram à frente da Igreja, enquanto configurados a Cristo Cabeça e Pastor, habilitados e comprometidos com o ministério ordenado, e vivificados pela caridade pastoral. Ora, no âmbito e como manifestação da radicalidade evangélica, encontra-se um rico florescimento de múltiplas virtudes e exigências éticas que se tornam decisivas para a vida pastoral e espiritual do sacerdote, como, por exemplo, a fé, a humildade perante o mistério de Deus, a misericórdia e a prudência. Expressão privilegiada da radicalidade são os diversos “conselhos evangélicos”, que Jesus propõe no Sermão da Montanha (cf. Mt 5-7), e, entre estes, os conselhos, intimamente coordenados entre si, da obediência, pobreza e castidade [73]: o sacerdote é chamado a vivê-los segundo as modalidades, e mais profundamente segundo as finalidades e significado original, que derivam e exprimem a identidade própria do presbítero.

28. “Entre as virtudes que se afiguram mais necessárias no ministério dos presbíteros, convém recordar aquela disposição de ânimo pela qual estão sempre prontos a procurar não a própria vontade, mas a d’Aquele que os enviou (cf. Jo 4, 34; 5, 30; 6, 38)” [74]. Trata-se da obediência que, no caso da vida espiritual do sacerdote, reveste algumas características particulares.

É, antes de mais, uma obediência “apostólica”, no sentido que reconhece, ama e serve a Igreja na sua estrutura hierárquica. Não existe, efectivamente ministério sacerdotal senão na comunhão com o Sumo Pontífice e com o Colégio Episcopal, e de uma forma particular com o próprio Bispo diocesano, aos quais se deve guardar “o filial respeito e a obediência” prometidos no rito da ordenação. Esta “submissão” a quantos estão investidos da autoridade eclesial não tem nada de humilhante, antes deriva da liberdade responsável do presbítero, que acolhe não só as exigências de uma vida eclesial orgânica e organizada, mas também aquela graça de discernimento e de responsabilidade nas decisões eclesiais, que Jesus garantiu aos apóstolos e seus sucessores, a fim de ser conservado com fidelidade o mistério da Igreja e para que a coesão da comunidade cristã seja servida no seu unitário caminho para a salvação.

A obediência cristã autêntica, rectamente motivada e vivida sem servilismos, ajuda o presbítero a exercitar com evangélica transparência a autoridade que lhe é confiada perante o Povo de Deus: sem autoritarismos ou preferências demagógicas. Só quem sabe obedecer em Cristo, sabe como requerer, segundo o Evangelho, a obediência de outrem.

A obediência presbiteral reveste, além disso, uma exigência “comunitária”: não se trata da obediência de um indivíduo singular que como tal se relaciona com a autoridade, mas pelo contrário, de uma obediência profundamente inserida na unidade do presbitério que, como tal, é chamado a viver a colaboração harmoniosa com o Bispo e, por meio dele, com o Sucessor de Pedro [75].

Este aspecto da obediência do sacerdote requer uma notável ascese, seja no sentido de um hábito a não se prender demasiado às próprias preferências ou a pontos de vista particulares, seja na linha de deixar espaço aos irmãos no sacerdócio para que possam valorizar os seus talentos e capacidades, fora de qualquer ciúme, inveja ou rivalidade. A do sacerdote é uma obediência vivida em comum, que parte da pertença a um único presbitério e que, sempre no interior dele e com ele, exprime orientações e opções corresponsáveis.

Finalmente, a obediência sacerdotal possui um particular carácter de “pastoralidade”. A saber, vive-se num clima de constante disponibilidade para se deixar agarrar, como que “devorar”, pelas necessidades e exigências do rebanho. Estas últimas devem revestir uma justa racionalidade, e por vezes terão de ser seleccionadas e sujeitas a controle, mas é inegável que a vida do presbítero é “ocupada” de modo pleno pela fome de Evangelho, de fé, de esperança e de amor de Deus, e do seu mistério, a qual mais ou menos conscientemente está presente no Povo de Deus a ele confiado.

29. Entre os conselhos evangélicos – diz o Concílio – “brilha este precioso dom da graça divina, dado pelo Pai a alguns (cf. Mt 19, 11; 1 Cor 7, 7), de se dedicarem unicamente a Deus, mais facilmente e com um coração indiviso (cf. 1 Cor 7, 32-34), na virgindade e no celibato. Esta continência perfeita pelo Reino dos céus foi sempre tida em grande estima pela Igreja, como sinal e incentivo da caridade e como fonte privilegiada de fecundidade espiritual no mundo” [76]. Na virgindade e no celibato, a castidade mantém o seu significado originário, o de uma sexualidade humana vivida como autêntica manifestação e precioso serviço ao amor de comunhão e de entrega interpessoal. Este mesmo significado subsiste plenamente na virgindade, que realiza, mesmo na renúncia ao matrimónio, o “significado nupcial” do corpo mediante uma comunhão e uma entrega pessoal a Jesus Cristo e à Igreja, que prefiguram e antecipam a comunhão e entrega perfeita e definitiva do além: “Na virgindade o homem está inclusive corporalmente em atitude de espera das núpcias escatológicas de Cristo com a Igreja, dando-se integralmente à Igreja na esperança de que Cristo a ela se entregue na plena verdade da vida eterna” [77].

A esta luz se podem compreender facilmente e apreciar melhor os motivos da opção multissecular que a Igreja do Ocidente tomou e manteve, não obstante todas as dificuldades e objecções surgidas ao longo dos séculos, de conferir a Ordem presbiteral apenas a homens que dêem provas de serem chamados por Deus ao dom da castidade no celibato absoluto e perpétuo.

Os Padres sinodais exprimiram com força e clareza o seu pensamento através de uma importante declaração, que merece ser integral e literalmente referida: “Sem pôr em causa a disciplina das Igrejas Orientais, o Sínodo, convicto de que a castidade perfeita no celibato sacerdotal é um carisma, recorda aos presbíteros que ela constitui um inestimável dom de Deus à Igreja e representa um valor profético para o mundo actual. Este Sínodo, nova e veementemente, afirma tudo quanto a Igreja latina e alguns ritos orientais preconizam, a saber, que o sacerdócio seja conferido somente àqueles homens que receberam de Deus o dom da vocação à castidade celibatária (sem prejuízo da tradição de algumas Igrejas Orientais e dos casos particulares de clérigos já casados provenientes de conversões ao catolicismo, ao qual se aplica a excepção prevista na Encíclica de Paulo VI sobre o celibato sacerdotal, nº 42). O Sínodo não quer deixar dúvidas na mente de ninguém sobre a firme vontade da Igreja de manter a lei que exige o celibato livremente escolhido e perpétuo para os candidatos à ordenação sacerdotal no rito latino. O Sínodo solicita que o celibato seja apresentado e explicado na sua plena riqueza bíblica, teológica e espiritual, como dom precioso de Deus à sua Igreja e como sinal do Reino que não é deste mundo, sinal também do amor de Deus por este mundo e ainda do amor indiviso do sacerdote a Deus e ao Seu povo, de modo que o celibato seja visto como enriquecimento positivo do sacerdócio” [78].

É particularmente importante que o sacerdote compreenda a motivação teológica da lei eclesiástica do celibato. Enquanto lei, exprime a vontade da Igreja, antes mesmo que seja expressa a vontade do sujeito através da sua disponibilidade. Mas a vontade da Igreja encontra a sua motivação última na conexão que o celibato tem com a Ordenação sagrada, a qual configura o sacerdote a Cristo Jesus, Cabeça e Esposo da Igreja. Esta como Esposa de Cristo quer ser amada pelo sacerdote do modo total e exclusivo com que Jesus Cristo Cabeça e Esposo a amou. O celibato sacerdotal, é então, o dom de si em e com Cristo à sua Igreja e exprime o serviço do presbítero à Igreja no e com o Senhor.

Para uma adequada vida espiritual do sacerdote, é preciso que o celibato seja considerado e vivido não como um elemento isolado ou puramente negativo, mas como um aspecto de orientação positiva, específica e característica do sacerdote: este, deixando pai e mãe, segue Jesus Bom Pastor, numa comunhão apostólica ao serviço do Povo de Deus. O celibato é, portanto, para ser acolhido por uma livre e amorosa decisão a renovar continuamente, como dom inestimável de Deus, como “estímulo da caridade pastoral” [79], como singular participação na paternidade de Deus e na fecundidade da Igreja, e como testemunho do Reino escatológico perante o mundo. Para viver todas as exigências morais, pastorais e espirituais do celibato sacerdotal, é absolutamente necessária a oração humilde e confiante, como adverte o Concílio: “No mundo de hoje, quanto mais a continência perfeita é considerada impossível por tantas pessoas, com tanta maior humildade e perseverança devem os presbíteros implorar, juntamente com a Igreja, a graça da fidelidade que nunca é negada a quem a requer, recorrendo ao mesmo tempo aos meios sobrenaturais e naturais de que todos dispõem” [80]. Será ainda a oração, unida aos sacramentos da Igreja e ao empenhamento ascético, a infundir esperança nas dificuldades, confiança e coragem no retomar o caminho.

30. Da pobreza evangélica deram os Padres sinodais uma descrição concisa e profunda, apresentando-a como “submissão de todos os bens ao Bem supremo de Deus e do Seu Reino” [81]. Na realidade, só quem contempla e vive o mistério de Deus como único e sumo Bem, como verdadeira e definitiva Riqueza, pode compreender e realizar a pobreza, que não é certamente desprezo e recusa dos bens materiais, mas é uso grato e cordial destes bens e conjuntamente uma alegre renúncia a eles com grande liberdade interior, ou seja, em ordem a Deus e aos seus desígnios.

A pobreza do presbítero, por força da sua configuração sacramental a Cristo Cabeça e Pastor, assume precisas conotações pastorais, sobre as quais, retomando e desenvolvendo a doutrina conciliar [82], se detiveram os Padres sinodais. Entre outras coisas, escrevem: “Os sacerdotes, a exemplo de Cristo que, rico como era, se fez pobre por nosso amor (cf. 2 Cor 8, 9), devem considerar os pobres e os mais fracos como a eles confiados de uma maneira especial, e devem ser capazes de testemunhar a pobreza com uma vida simples e austera, sendo já habituados a renunciar generosamente às coisas supérfluas (Optatam totius, 9; C.I.C, cán. 282)” [83].

É verdade que o “operário é digno do seu salário” (Lc 10, 7) e que “o Senhor determinou que aqueles que anunciam o Evangelho vivam do Evangelho” (1 Cor 9, 14), mas é também verdade que este direito do apostolado não pode de forma alguma confundir-se com qualquer pretensão de submeter o serviço do Evangelho e da Igreja às vantagens e interesses que daí possam derivar. Só a pobreza assegura ao presbítero a disponibilidade para ser enviado onde o seu trabalho se torna mais útil e urgente, mesmo com sacrifício pessoal. É condição e premissa indispensável para a docilidade do apóstolo ao Espírito, que o torna pronto a “ir” sem laços nem amarras, seguindo apenas a vontade do Mestre (cf. Lc 9, 57-62; Mc 10, 17-22).

Pessoalmente inserido na vida da comunidade e responsável por ela, o sacerdote deve dar também o testemunho de uma total “transparência” na administração dos bens da própria comunidade, que ele jamais deve tratar como se fossem património próprio, mas como algo de que deve dar contas a Deus e aos irmãos, sobretudo aos pobres. A consciência de pertencer a um presbitério, impulsionará depois o sacerdote no desempenho de favorecer seja uma distribuição mais equitativa dos bens entre os irmãos no sacerdócio, seja mesmo uma certa comunhão de bens (cf. Act 2, 42-47).

A liberdade interior, que a pobreza evangélica guarda e alimenta, habilita o padre a estar ao lado dos mais débeis, a tornar-se solidário com os seus esforços pela construção de uma sociedade mais justa, a ser mais sensível e capaz de compreensão e discernimento dos fenómenos que dizem respeito ao aspecto económico e social da vida, a promover a opção preferencial pelos pobres: esta, sem excluir ninguém do anúncio e do dom da salvação, sabe inclinar-se perante os simples, os pecadores, os marginalizados de qualquer espécie, de acordo com o modelo oferecido por Jesus no desenvolvimento do seu ministério profético e sacerdotal (cf. Lc 4, 18).

Não deve ser esquecido também o significado profético da pobreza sacerdotal, particularmente urgente no seio de sociedades opulentas e consumistas: ” O sacerdote verdadeiramente pobre é certamente um sinal concreto do desprendimento, da renúncia e da não submissão à tirania do mundo contemporâneo que coloca toda a sua confiança no dinheiro e na segurança material” [84].

Jesus Cristo, que na cruz leva à perfeição a sua caridade pastoral por um abissal despojamento interior e exterior, é o modelo e a fonte das virtudes da obediência, castidade e pobreza, que o présbítero é chamado a viver como expressão do seu amor pastoral pelos irmãos. De acordo com o que Paulo escreve aos cristãos de Filipos, o sacerdote deve possuir os mesmos sentimentos de Jesus Cristo, despojando-se do seu próprio “eu” para encontrar, na caridade obediente, casta e pobre, a via mestra da união com Deus e da unidade com os irmãos (cf. Fil 2, 5).

A pertença e a dedicação à Igreja particular

31. Como toda a vida espiritual autenticamente cristã, também a vida do sacerdote possui uma essencial e irrenunciável dimensão eclesial: é participação na santidade da própria Igreja, que no Credo professamos como “Comunhão dos Santos”. A santidade do cristão deriva da da Igreja, exprime-a e ao mesmo tempo enriquece-a. Esta dimensão eclesial reveste modalidades, finalidades e significados particulares na vida espiritual do presbítero, em virtude da sua relação específica com a Igreja, sempre a partir da sua configuração a Cristo Cabeça e Pastor, do seu ministério ordenado, da sua caridade pastoral.

Nesta perspectiva, é preciso considerar como valor espiritual do presbítero a sua integração e dedicação a uma Igreja particular. Estas, na verdade, não são motivadas apenas por razões organizativas e disciplinares. Pelo contrário, o relacionamento com o Bispo no único presbitério, a partilha da sua solicitude eclesial, a dedicação ao cuidado evangélico do Povo de Deus, nas concretas condições históricas e ambientais da Igreja particular são elementos de que não se pode prescindir ao delinear o perfil próprio do sacerdote e da sua vida espiritual. Neste sentido, a “incardinação” não se esgota num vínculo puramente jurídico, mas comporta uma série de atitudes e opções espirituais e pastorais que contribuem para conferir uma fisionomia específica à figura vocacional do presbítero.

É necessário que o sacerdote tenha a consciência de que o seu “estar numa Igreja particular” constitui por natureza um elemento qualificante para viver uma espiritualidade cristã. Nesse sentido, o presbítero encontra, precisamente na sua pertença e dedicação à Igreja particular, uma fonte de significados, de critérios de discernimento e acção, que configuram quer a sua missão pastoral quer a sua vida espiritual.

Para o caminho da perfeição podem contribuir também outras inspirações ou a referência a outras tradições de vida espiritual, capazes de enriquecer a vida espiritual dos presbíteros e de dotar o presbitério de preciosos dons espirituais. É este o caso de muitas agregações eclesiais antigas e modernas, que no seu âmbito acolhem também sacerdotes: das sociedades de vida apostólica aos institutos seculares presbiterais, das várias formas de comunhão e partilha espiritual aos movimentos eclesiais. Os sacerdotes, que pertencem a ordens e congregações religiosas, são uma riqueza espiritual para todo o presbitério diocesano, ao qual proporcionam o contributo de carismas específicos e ministérios qualificados, estimulando com a sua presença a Igreja particular a viver mais intensamente a sua abertura universal [85].

A pertença do sacerdote à Igreja particular e a sua dedicação até ao dom da própria vida pela edificação da Igreja “na pessoa” de Cristo Cabeça e Pastor, ao serviço de toda a comunidade cristã, em cordial e filial referência ao Bispo, deve air reforçada na assunção de qualquer carisma que venha a fazer parte da existência sacerdotal ou se coloque a seu lado [86].

Para que a abundância dos dons do Espírito seja acolhida na alegria e feita frutificar para a glória de Deus e para o bem da Igreja inteira, exige-se da parte de todos, em primeiro lugar, o conhecimento e o discernimento dos carismas próprios e de outrem, e o seu exercício sempre acompanhado pela humildade cristã, pela coragem da autocrítica, pela intenção, predominante sobre qualquer outra preocupação de contribuir para a edificação da inteira comunidade, a cujo serviço está posto todo e qualquer carisma particular. Requer-se, portanto, de todos um sincero esforço de recíproca estima, de mútuo respeito e de coordenada valorização de todas as positivas e legítimas diversidades presentes no presbitério. Tudo isto faz parte também da vida espiritual e da contínua ascese do sacerdote.

32. A pertença e a dedicação à Igreja particular não confinam a esta, a actividade e a vida do sacerdote: não podem, de facto, ser confinadas, pela própria natureza quer da Igreja particular, [87], quer do ministério sacerdotal. A este respeito, diz o Concílio: “O dom espiritual que os presbíteros receberam na ordenação não os prepara para uma missão limitada e restrita, mas sim para a imensa e universal missão da salvação ‘até aos confins da terra’ (Act 1, 8); de facto, todo o ministério sacerdotal participa da mesma amplitude universal da missão confiada por Cristo aos apóstolos” [88].

Daqui se conclui que a vida espiritual dos padres deve estar profundamente assinalada pelo anseio e pelo dinamismo missionário. Compete-lhes, no exercício do ministério e no testemunho de vida, plasmar a comunidade a eles confiada como comunidade autenticamente missionária. Como escrevi na Encíclica Redemptoris missio, “todos os sacerdotes devem ter um coração e uma mentalidade missionária, devem estar abertos às necessidades da Igreja e do mundo, atentos aos mais afastados e, sobretudo, aos grupos não cristãos do próprio ambiente. Na oração e, em particular, no sacrifício eucarístico, sintam a solicitude de toda a Igreja por toda a humanidade” [89].

Se este espírito missionário animar generosamente a vida dos sacerdotes, aparecerá facilitada a resposta àquela exigência cada vez mais grave hoje na Igreja, que nasce de uma desigual distribuição do clero. Neste sentido, já o Concílio foi suficientemente preciso e incisivo: “Tenham presente os presbíteros que devem tomar a peito a solicitude por todas as Igrejas. Para tal, os presbíteros daquelas dioceses que possuem maior abundância de vocações mostrem-se de boa vontade preparados para, com o prévio consentimento ou convite do próprio Ordinário, exercer o seu ministério nas regiões, missões ou obras que sofram escassez de clero” [90].

“Renova neles a efusão do Teu Espírito de santidade”

33. “O Espírito do Senhor está sobre mim; por isso me consagrou e me enviou a anunciar aos pobres a Boa Nova” (Lc 4, 18). Jesus faz ressoar ainda hoje, no nosso coração de sacerdotes, as palavras que pronunciou na sinagoga de Nazaré. A nossa fé, de facto, revela-nos a presença operante do Espírito de Cristo no nosso ser, no nosso agir e no nosso viver tal como o configurou, habilitou e plasmou o sacramento da Ordem.

Sim, o Espírito do Senhor é o grande protagonista da nossa vida espiritual. Ele cria o “coração novo”, anima e guia-o com a “nova lei” da caridade, da caridade pastoral. No desenvolvimento da vida espiritual, é fundamental a consciência de que nunca falta ao sacerdote a graça do Espírito Santo, como dom totalmente gratuito e tarefa responsabilizadora. A consciência do dom infunde e sustém a inabalável confiança do padre nas dificuldades, nas tentações, nas fraquezas que se encontram no seu caminho espiritual.

Reproponho a todos os sacerdotes aquilo que já numa outra ocasião disse a muitos deles: “a vocação sacerdotal é essencialmente uma chamada à santidade na forma que nasce do sacramento da Ordem. A santidade é intimidade com Deus, é imitação de Cristo pobre, casto e humilde; é amor sem reserva às almas e entrega pelo seu próprio bem; é amor à Igreja que é santa e nos quer santos, porque assim é a missão que Cristo lhe confiou. Cada um de vós deve ser santo também para ajudar os irmãos a seguir a sua vocação à santidade.

Como não reflectir (…) sobre o papel essencial que o Espírito Santo desempenha na específica chamada à santidade, que é própria do ministério sacerdotal? Recordemos as palavras do rito da ordenação sacerdotal que são consideradas centrais na fórmula sacramental: ‘Concedei, Pai Omnipotente a estes vossos filhos a dignidade do presbiterado. Renovai neles a efusão do vosso Espírito de santidade; cumpram fielmente, Senhor, o ministério do segundo grau sacerdotal de Vós recebido e com o seu exemplo guiem a todos para uma íntegra conduta de vida’.

Mediante a Ordenação, caríssimos, recebestes o mesmo Espírito de Cristo que vos torna semelhantes a Ele, a fim de que possais agir em seu nome e viver em vós os seus próprios sentimentos. Esta comunhão íntima com o Espírito de Cristo, enquanto garante a eficácia da acção sacramental que vós realizais “in persona Christi”, exige também exprimir-se no fervor da oração, na caridade pastoral de um ministério incansavelmente orientado para a salvação dos irmãos. Requer, numa palavra, a vossa santificação pessoal” [91].

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