Documentos da Igreja

Pastores dabo vobis – parte iv

A formação intelectual: a inteligência da fé

51. A formação intelectual, embora possua a sua especificidade, liga-se profundamente com a formação humana e espiritual, a ponto de constituir uma sua expressão necessária: configura-se efectivamente como uma exigência irreprimível da inteligência pela qual o homem “participa da luz da inteligência de Deus” e procura adquirir uma sabedoria que, por sua vez, se abre e orienta para o conhecimento e a adesão a Deus [156].

A formação intelectual dos candidatos ao sacerdócio encontra a sua específica justificação na própria natureza do ministério ordenado e manifesta a sua urgência actual de fronte ao desafio da “nova evangelização”, à qual o Senhor chama a Igreja no limiar do terceiro milénio. “Se já cada cristão -escrevem os Padres sinodais – deve estar pronto a defender a fé e a dar a razão da esperança que vive em nós” (cf. 1 Ped 3, 15), com muito maior razão os candidatos ao sacerdócio e os presbíteros devem manifestar um diligente cuidado pelo valor da formação intelectual na educação e na actividade pastoral, dado que, para a salvação dos irmãos e irmãs, devem procurar um conhecimento cada vez mais profundo dos mistérios divinos” [157]. Além disso, a situação actual, profundamente marcada pela indiferença religiosa e ao mesmo tempo por uma difusa desconfiança relativamente às reais capacidades da razão para atingir a verdade objectiva e universal, e pelos problemas e questões inéditos provocados pelas descobertas científicas e tecnológicas, exige prementemente um nível excelente de formação intelectual, que torne os sacerdotes capazes de anunciar, exactamente num tal contexto, o imutável Evangelho de Cristo, e torná-lo digno de credibilidade diante das legítimas exigências da razão humana. Acrescente-se ainda que o actual fenómeno do pluralismo, bem acentuado não só no âmbito da sociedade humana mas também no da própria comunidade eclesial, requer uma particular atitude de discernimento crítico: é um ulterior motivo, que demonstra a necessidade de uma formação intelectual o mais séria possível.

Esta motivação “pastoral” da formação intelectual confirma quanto se disse já sobre a unidade do processo educativo, nas suas diferentes dimensões. A obrigação do estudo, que preenche uma grande parte da vida de quem se prepara para o sacerdócio, não constitui de modo algum uma componente exterior e secundária do crescimento humano, cristão, espiritual e vocacional: na realidade, por meio do estudo, particularmente da teologia, o futuro sacerdote adere à palavra de Deus, cresce na sua vida espiritual e dispõe-se a desempenhar o seu ministério pastoral. É este o objectivo unitário e multifacetado do estudo teológico preconizado pelo Concílio [158] e reproposto pelo Instrumentum laboris do Sínodo: “Para que possa ser pastoralmente eficaz, a formação intelectual deve ser integrada num caminho espiritual marcado pela experiência pessoal de Deus, de modo a poder superar uma pura ciência conceptual e chegar àquela inteligência do coração que sabe “ver” primeiro o mistério de Deus e depois é capaz de comunicá-lo aos irmãos” [159].

52. Um momento essencial da formação intelectual é o estudo da Filosofia que leva a uma compreensão e interpretação mais profunda da pessoa, da sua liberdade, das suas relações com o mundo e com Deus. Aquela revela-se de grande importância, não apenas pelo nexo que existe entre os argumentos filosóficos e os mistérios da salvação estudados em teologia, à luz superior da fé [160], mas também face a uma situação cultural bastante generalizada que exalta o subjectivismo como critério e medida da verdade: somente uma sã filosofia pode ajudar os candidatos ao sacerdócio a desenvolverem uma consciência reflexiva da relação constitutiva existente entre o espírito humano e a verdade, essa verdade que se nos revela plenamente em Jesus Cristo. Nem é de subestimar a importância da filosofia no sentido de garantir aquela “certeza da verdade”, a única que pode estar na base da entrega pessoal a Jesus Cristo e à Igreja. Não será difícil compreender como algumas questões muito concretas, quais são a identidade do sacerdote e o seu compromisso apostólico e missionário, se encontrem profundamente ligadas à questão, nada abstracta, da própria verdade: se não se está certo da verdade, como é possível pôr em jogo a própria vida inteira e ter força para interpelar a sério a vida dos outros?

A filosofia ajuda imenso o candidato a enriquecer a sua formação intelectual com o “culto da verdade”, isto é, uma espécie de veneração amorosa pela verdade, que leva a reconhecer que esta não é criada e medida pelo homem, mas é confiada ao homem como dom da Verdade suprema, Deus; que, mesmo com limites e por vezes com dificuldade, a razão humana pode atingir a verdade objectiva e universal, inclusive aquela que diz respeito a Deus e ao sentido radical da existência; que a própria fé não pode prescindir da razão e do afã de “pensar” os seus conteúdos, como testemunhava a grande mente de Agostinho: “Desejei ver com a inteligência o que acreditei, e muito tive que discutir e esforçar-me” [161].

Para uma compreensão mais profunda do homem, bem como dos fenómenos e das linhas evolutivas da sociedade, em ordem ao exercício o mais “incarnado” possível do ministério pastoral, podem ser de grande utilidade as chamadas “ciências do homem” como a sociologia, a psicologia, a pedagogia, a ciência da economia e da política, a ciência da comunicação social. Embora sejam do âmbito bem preciso das ciências positivas ou descritivas, estas ajudam o futuro sacerdote a prolongar a “contemporaneidade” vivida por Cristo. “Cristo -dizia Paulo VI – fez-se contemporâneo a alguns homens e falou a sua linguagem. A fidelidade ao mesmo Cristo exige que esta contemporaneidade continue” [162].

53. A formação intelectual do futuro sacerdote baseia-se e constrói-se sobretudo sobre o estudo da sacra doctrina, da teologia. O valor e a autenticidade da formação teológica dependem do respeito escrupuloso pela própria natureza da teologia, que os Padres sinodais compendiaram do seguinte modo: “A verdadeira teologia provém da fé e quer conduzir à fé” [163]. É esta a concepção que a Igreja, e o seu Magistério de uma forma especial, têm constantemente proposto. É esta a linha seguida pelos grandes teólogos que, ao longo dos séculos, vêm enriquecendo o pensamento da Igreja. S.Tomás é bem explícito ao afirmar que a fé é como que o habitus da teologia, ou seja, o seu princípio operativo permanente, [164] e que toda a teologia se ordena para a alimentação da fé [165].

Portanto o teólogo é antes de mais um crente, um homem de fé. Mas é um crente e fá-lo sobre a própria fé (fides quaerens intellectum), que se interroga com o fim de atingir uma compreensão mais profunda da própria fé. Os dois aspectos, a fé e a reflexão madura, estão profundamente conexos, entrelaçados: precisamente a sua íntima coordenação e compenetração decide a verdadeira natureza da teologia, e, consequentemente decide, os conteúdos, modalidades e espírito, segundo o qual a sacra doctrina deve ser elaborada e estudada.

Porque a fé, ponto de partida e de chegada da teologia, realiza uma relação pessoal do crente com Jesus Cristo na Igreja, também a teologia possui intrínsecas conotações cristológicas e eclesiais, que o candidato ao sacerdócio deve conscientemente assumir, não só pelas implicações que dizem respeito à sua vida pessoal, mas também por aquelas que tocam o seu ministério pastoral. Se é acolhimento da Palavra de Deus, a fé gera um “sim” radical do crente a Jesus Cristo, Palavra plena e definitiva de Deus ao mundo (cf. Heb 1, 1-2). Em consequência disto, a reflexão teológica encontra o próprio centro na adesão a Jesus Cristo, Sabedoria de Deus: a própria reflexão madura deve considerar-se uma participação no “pensamento” de Cristo (cf. 1 Cor 2, 16), na forma humana de uma ciência (scientia fidei). Ao mesmo tempo, a fé insere o crente na Igreja e torna-o participante na vida desta, enquanto comunidade de fé. Por conseguinte, a teologia possui uma dimensão eclesial porque é uma reflexão madura sobre a fé da Igreja, realizada pelo teólogo que é membro da Igreja [166].

Estas perspectivas cristológicas e eclesiais, que são conaturais à teologia, ajudam a desenvolver nos candidatos ao sacerdócio, juntamente com o rigor científico, um grande e vivo amor a Jesus Cristo e à sua Igreja: este amor, ao mesmo tempo que nutre a sua vida espiritual, orienta-os para o generoso desempenho do seu ministério. No fim de contas, era precisamente esta a intenção do Concílio Vaticano II ao solicitar a reorganização dos estudos eclesiásticos, dispondo melhor as várias disciplinas filosóficas e teológicas e fazendo com que elas “se coordenem de forma apta e concorram de modo harmónico para que a mente dos alunos se abra ao mistério de Cristo, que atinge toda a história do género humano, continuamente penetra a vida da Igreja e se actua principalmente através do ministério sacerdotal” [167].

A formação intelectual teológica e a vida espiritual, particularmente a vida de oração, encontram-se e reforçam-se mutuamente, sem nada tirar nem à seriedade da investigação nem ao sabor espiritual da oração. S. Boaventura adverte-nos: “Ninguém pense que lhe baste a leitura sem a unção, a especulação sem a devoção, a busca sem o assombro, a observação sem a exultação, a actividade sem a piedade, a ciência sem a caridade, a inteligência sem a humildade, o estudo sem a graça divina, a investigação sem a sabedoria da inspiração divina” [168].

54. A formação teológica é uma obra complexa e, por isso, exigente. Ela deve levar o candidato ao sacerdócio a possuir uma visão das verdades reveladas por Deus em Jesus Cristo e da experiência de fé da Igreja que seja completa e unitária: daqui a dúplice exigência de conhecer “todas” as verdades cristãs, sem fazer opções arbitrárias e de as conhecer de modo orgânico. Isto requer que o aluno seja ajudado a realizar uma síntese que constitua o fruto dos dados fornecidos por todas as disciplinas teológicas, cuja especificidade adquire um autêntico valor apenas na sua profunda coordenação.

Na sua reflexão amadurecida sobre a fé, a teologia move-se em duas direcções. A primeira é a do estudo da Palavra de Deus: a palavra escrita nos Livros Santos, celebrada e vivida pela Tradição viva da Igreja,e interpretada com autoridade pelo seu Magistério. Daqui o estudo da Sagrada Escritura, “que deve ser como que a alma de toda a teologia” [169], o estudo dos Padres da Igreja e da Liturgia, da História da Igreja e da doutrina do Magistério. A segunda direcção é a do homem, interlocutor de Deus: o homem chamado a “crer”, a “viver”, a “comunicar” aos outros a fides e o ethos cristão. Daqui o estudo da dogmática, da teologia moral, da teologia espiritual, do direito canónico e da teologia pastoral.

A referência ao homem crente leva a teologia a ter uma particular atenção, por um lado, à instância permanente e fundamental da relação fé-razão, por outro, a algumas exigências mais ligadas com a situação social e cultural de hoje. No primeiro caso, está o estudo da teologia fundamental, que tem por objecto o facto da revelação cristã e a sua transmissão na Igreja. No segundo, temos as disciplinas que conheceram e conhecem um mais decidido desenvolvimento como resposta a problemas hoje sentidos mais fortemente. Assim o estudo da doutrina social da Igreja, que “pertence ao campo da teologia, e especialmente da teologia moral” [170], e que é de ter em conta entre as “componentes essenciais” da “nova evangelização”, de que constitui um instrumento [171]. Da mesma forma, o estudo da missão e do ecumenismo, do judaísmo, do islamismo e das outras religiões não cristãs.

55. A formação teológica actual deve prestar atenção a alguns problemas que muitas vezes levantam dificuldades, tensões, confusões no interior da vida da Igreja. Pense-se no relacionamento entre as tomadas de posição do Magistério e as discussões teológicas, que nem sempre se processa como deveria ser, ou seja, sob o signo da colaboração. Certamente, “o Magistério vivo da Igreja e a teologia, mesmo tendo dons e funções diferentes, têm em última análise o mesmo fim: conservar o Povo de Deus na verdade que liberta fazendo dele, assim, «luz das nações». Este serviço à comunidade eclesial põe em relação recíproca o teólogo com o Magistério. Este último ensina autenticamente a doutrina dos apóstolos, e beneficiando do trabalho teológico, refuta as objecções e as deformações da fé, propondo, além disso, com a autoridade recebida de Jesus Cristo, novos aprofundamentos, explicitações e aplicações da doutrina revelada. A teologia, por sua vez, adquire de modo reflexivo, uma compreensão sempre mais profunda da Palavra de Deus, contida na Sagrada Escritura e transmitida fielmente pela Tradição viva da Igreja sob a orientação do Magistério, procura esclarecer o ensinamento da Revelação diante das solicitações da razão, e lhes confere, enfim,uma forma orgânica e sistemática” [172]. Porém, no momento em que, por uma série de motivos, esta colaboração esmorece, é preciso não se deixar levar por equívocos ou confusões, sabendo distinguir cuidadosamente “entre a doutrina comum da Igreja e as opiniões dos teólogos ou as tendências que depressa passam (as chamadas ‘modas’)” [173]. Não existe um magistério “paralelo”, porque o único Magistério é o de Pedro e dos apóstolos, do Papa e dos Bispos [174].

Outro problema, sentido sobretudo onde os estudos seminarísticos são confiados a instituições académicas, diz respeito à relação entre o rigor científico da teologia e o seu objectivo pastoral, e, por conseguinte, à natureza pastoral da teologia. Trata-se, na realidade, de duas características da teologia e do seu ensino, não se opõem entre si, antes concorrem ambas, ainda que em perspectivas diversas, para uma “inteligência da fé” mais completa. Efectivamente a pastoralidade da teologia não significa uma teologia menos doutrinal, ou inclusivamente destituída da sua cientificidade; significa antes que essa teologia habilita os futuros sacerdotes a anunciar a mensagem evangélica através dos modos culturais do seu tempo e a considerar a acção pastoral segundo uma autêntica visão teológica. E assim, por um lado, um estudo respeitador da cientificidade rigorosa de cada uma das disciplinas teológicas contribuirá para uma mais completa e profunda formação do pastor de almas como mestre da fé; por outro, a adequada sensibilidade ao objectivo pastoral tornará verdadeiramente formativo para os futuros sacerdotes o estudo sério e científico da teologia.

Um ulterior problema é posto pela exigência, hoje fortemente sentida, da evangelização das culturas e da inculturação da mensagem da fé. Este é um problema eminentemente pastoral, que deve entrar com maior amplitude e sensibilidade na formação dos candidatos ao sacerdócio: “Nas actuais circunstâncias em que, em várias regiões do mundo, a religião cristã é considerada como algo de estranho às culturas quer antigas quer modernas, é de grande importância que em toda a formação intelectual e humana se considere como necessária e essencial a dimensão da inculturação” [175]. Mas isto exige primariamente que se tenha uma teologia autêntica, inspirada nos princípios católicos sobre a inculturação. Estes princípios estão ligados ao mistério da incarnação do Verbo de Deus e à antropologia cristã e iluminam o sentido autêntico da inculturação: esta, diante das mais diversas e por vezes contrastantes culturas presentes nas várias partes do mundo, pretende ser uma obediência ao mandato de Cristo de pregar o Evangelho a todas as gentes até aos extremos confins da terra. Uma tal obediência não significa sincretismo nem simples adaptação do anúncio evangélico, mas que o Evangelho penetra vitalmente nas culturas, se incarna nelas, superando os elementos culturais das mesmas que são incompatíveis com a fé e a vida cristã, e elevando os seus valores ao mistério da salvação que provém de Cristo [176]. O problema da inculturação pode ter um interesse específico quando os próprios candidatos ao sacerdócio provêem de culturas autóctones: terão necessidade, então, de caminhos adequados de formação, seja para superarem o perigo de ser menos exigentes e de desenvolver uma educação mais superficial dos valores humanos, cristãos e sacerdotais, seja para valorizarem os elementos bons e autênticos das suas culturas e tradições [177].

56. Seguindo os ensinamentos e orientações do Concílio Vaticano II e as indicações aplicativas da Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis, determinou-se na Igreja uma vasta actualização do ensino das disciplinas filosóficas e sobretudo teológicas nos seminários. Apesar de ainda carecida em alguns casos de posteriores correcções e desenvolvimentos, essa actualização contribuiu no seu conjunto para valorizar cada vez mais a proposta educativa, no âmbito da formação intelectual. A este respeito, “os Padres sinodais afirmaram novamente com frequência e clareza a necessidade, melhor, a urgência de que seja aplicado nos seminários e nas casas de formação o Plano fundamental de Estudos, tanto o universal, como o de cada Nação ou Conferência Episcopal” [178].

É necessário contrariar decididamente a tendência a reduzir a seriedade e exigência dos estudos, que se manifesta em alguns contextos eclesiais, como consequência já de uma preparação de base insuficiente e lacunosa dos alunos que iniciam o currículo filosófico e teológico. É a própria situação contemporânea a exigir que os mestres estejam cada vez mais à altura da complexidade dos tempos e em condições de afrontar com competência, clareza e profundidade de argumentação as carências de sentido dos homens de hoje, às quais apenas o Evangelho de Jesus Cristo dá resposta cabal.

A formação pastoral: comungar da caridade de Cristo Bom Pastor

57. Toda a formação dos candidatos ao sacerdócio é destinada a dispô-los de modo particular para comungar da caridade de Cristo, Bom Pastor. Portanto, nos seus diversos aspectos, esta formação deve ter um carácter essencialmente pastoral. Afirma-o claramente o decreto conciliar Optatam totius, relativamente aos seminários maiores: “a educação dos alunos deve tender para o objectivo de formar verdadeiros pastores de almas segundo o exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo mestre, sacerdote e pastor. Por isso os aqueles sejam preparados: para o ministério da Palavra, para que a Palavra de Deus revelada seja por eles cada vez melhor entendida, apropriem-se dela pela meditação, e saibam comunicá-la por palavras e com a vida; para o ministério do culto e da santificação, para que pregando e celebrando as acções litúrgicas saibam exercitar a obra da salvação por meio do sacrifício eucarístico e dos sacramentos; para o ministério de pastores, para que saibam apresentar aos homens Cristo que ‘não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de muitos'(Mc 10, 45; cf. Jo 13, 12-17) e para ganhar a muitos, fazendo-se servo de todos (cf. 1 Cor 9, 19). [179]

O texto conciliar insiste na profunda coordenação existente entre os diversos aspectos da formação humana, espiritual e intelectual, e, ao mesmo tempo, na sua específica finalidade pastoral. Nessa linha de idéias, o objectivo pastoral assegura à formação humana, espiritual e intelectual determinados conteúdos e características específicas, da mesma forma que unifica e caracteriza a inteira formação dos futuros sacerdotes.

Como qualquer outra formação, também a formação pastoral se desenvolve através da reflexão madura e da aplicação operativa, e aprofunda as suas raízes vivas num espírito que constitui o fulcro e a força de impulso e de desenvolvimento de tudo.

Exige-se, portanto, o estudo de uma verdadeira e autêntica disciplina teológica: a teologia pastoral ou prática, que é uma reflexão científica sobre a Igreja no seu edificar-se quotidiano, com a força do Espírito, dentro da história; sobre a Igreja, portanto, como “sacramento universal da salvação” [180], como sinal e instrumento vivo da salvação de Jesus Cristo na Palavra, nos Sacramentos e no serviço da Caridade. A pastoral não é apenas uma arte nem um complexo de exortações, de experiências ou de métodos; possui uma plena dignidade teológica, porque recebe da fé os princípios e critérios de acção pastoral da Igreja na história, de uma Igreja que se “gera” em cada dia a si mesma, segundo a expressão feliz de S. Beda o Venerável:”Nam et ecclesia quotidie gignit ecclesiam” [181]. Entre estes princípios e critérios, se encontra aquele particularmente importante do discernimento evangélico das situações sócio-culturais e eclesiais, no seio das quais se desenrola a acção pastoral.

O estudo da teologia pastoral deve iluminar a aplicação operativa, mediante a dedicação a alguns serviços pastorais que os candidatos ao sacerdócio, com a necessária gradualidade e sempre de harmonia com os outros compromissos formativos, devem exercer: trata-se de «experiências» pastorais que podem confluír num verdadeiro e autêntico “tirocínio pastoral” que se pode prolongar por algum tempo e exige ser observado de maneira metódica.

Mas o estudo e a actividade pastoral remetem para uma fonte interior que a formação terá o cuidado de defender e valorizar: é a comunhão cada vez mais profunda com a caridade pastoral de Jesus, a qual, como constituiu o princípio e a força do seu agir salvífico, assim, graças à efusão do Espírito Santo no sacramento da Ordem, deve constituir o princípio e a força do ministério do presbítero. Trata-se efectivamente de uma formação destinada não apenas a assegurar uma competência pastoral científica e uma habilitação operativa, mas sobretudo a garantir o crescimento de um modo de ser em comunhão com os mesmos sentimentos e comportamentos de Cristo, Bom Pastor: “Tende entre vós os mesmos sentimentos que existiram em Jesus Cristo” (Fil 2, 5).

58. Assim compreendida, a formação pastoral não pode certamente reduzir-se a uma simples aprendizagem, orientada para a familiarização com qualquer técnica pastoral. A proposta educativa do seminário se encarrega de uma verdadeira e autêntica iniciação à sensibilidade de pastor, à assunção consciente e amadurecida das suas responsabilidades, ao hábito interior de avaliar os problemas e de estabelecer as prioridades e meios de solução, sempre na base de claras motivações de fé e segundo as exigências teológicas da própria pastoral.

Através da experiência inicial e gradual no ministério, os futuros sacerdotes poderão ser inseridos na viva tradição pastoral da sua Igreja particular, aprenderão a abrir o horizonte da sua mente e do seu coração à dimensão missionária da vida eclesial, exercitar-se-ão em algumas formas primeiras de colaboração entre eles mesmos e com os presbíteros, para junto dos quais serão enviados. A estes últimos cabe, em união com a proposta do seminário, uma responsabilidade educativa pastoral de muita importância.

Na escolha dos lugares e serviços adaptados ao exercício pastoral, deve reservar-se uma especial atenção à paróquia [182], célula vital das experiências pastorais sectoriais e especializadas, na qual virão a encontrar-se de fronte aos problemas particulares do seu futuro ministério. Os Padres sinodais ofereceram uma série de exemplos concretos, como as visitas aos doentes; o cuidado pelos emigrados, exilados, nómadas; o zelo da caridade que se traduz em diversas obras sociais. Particularmente escrevem: “É necessário que o presbítero seja testemunha da caridade do próprio Cristo que ‘passou a vida fazendo o bem’ (Act 10,38); ele deve também ser o sinal visível da solicitude da Igreja que é Mãe e Mestra. E dado que hoje o homem é ferido por tantas desgraças, especialmente as pessoas vítimas de pobreza desumana, violência cega e poder abusivo, é preciso que o homem de Deus, bem preparado para toda a espécie de boas obras (cf. 2 Tim 3, 17), reivindique os direitos e a dignidade do homem. Tenha cuidado, porém, em não aderir a falsas ideologias, nem esquecer, ao pretender promover a perfeição, que o mundo é redimido apenas pela cruz de Cristo” [183].

O conjunto destas e de outras actividades pastorais educa o futuro sacerdote para viver como “serviço” a sua própria missão de “autoridade” na comunidade, afastando-se de qualquer atitude de superioridade ou de exercício de um poder que não seja sempre e só justificado pela caridade pastoral.

Para uma adequada formação é preciso que as diversas experiências dos candidatos ao sacerdócio assumam um claro carácter “ministerial”, ficando intimamente relacionadas com todas as exigências próprias da preparação ao presbiterado (não certamente em prejuízo do estudo), e com referência ao serviço do anúncio da Palavra, do culto e da presidência. Estes serviços podem tornar-se a tradução concreta dos ministérios do Leitorado e Acolitado, e do Diaconado.

59. Dado que a acção pastoral se destina por sua natureza a animar a Igreja que é essencialmente “mistério”, “comunhão” e missão, a formação pastoral deverá conhecer e viver estas dimensões eclesiais no exercício do ministério.

Revela-se fundamental a consciência de que a Igreja é “mistério”, obra divina, fruto do Espírito de Cristo, sinal eficaz da graça, presença da Trindade na comunidade cristã: uma tal consciência, longe de atenuar o sentido de responsabilidade próprio do pastor, torna-lo-á ainda mais convicto de que o crescimento da Igreja é obra gratuita do Espírito e que o seu serviço – confiado pela graça divina à livre responsabilidade humana – é o serviço evangélico do “servo inútil” (cf. Lc 17, 10).

A seguir, a consciência da Igreja como “comunhão” preparará o candidato ao sacerdócio para realizar uma pastoral comunitária, em cordial colaboração com os diversos sujeitos eclesiais: sacerdotes e Bispo, sacerdotes diocesanos e religiosos, sacerdotes e leigos. Mas uma tal colaboração supõe a consciência e a estima dos diversos dons e carismas, das várias vocações e responsabilidades que o Espírito oferece e confia aos membros do Corpo de Cristo; exige um sentido vivo e preciso da própria identidade e da dos outros na Igreja; requer muita confiança, paciência, doçura, capacidade de compreensão e de espera; enraíza-se sobretudo num amor à Igreja maior que o amor a si próprio ou aos grupos a que se pertence. Particularmente importante é preparar os futuros sacerdotes para a colaboração com os leigos. “Estejam prontos – diz o Concílio – a escutar o parecer dos leigos, considerando com interesse fraterno as suas aspirações e aproveitando a sua experiência e competência nos diversos campos da actividade humana, de modo a poder juntamente com eles reconhecer os sinais dos tempos” [184]. Também este Sínodo insistiu na solicitude pastoral pelos leigos: “É preciso que o aluno seja capaz de propor e de introduzir os leigos, nomeadamente os jovens, nas diferentes vocações (ao matrimónio, aos serviços sociais, ao apostolado,aos ministérios e responsabilidades da actividade pastoral, à vida consagrada, à condução da vida política e social, à pesquisa científica, ao ensino). Sobretudo é necessário ensinar e ajudar os leigos na sua vocação de permear e transformar o mundo com a luz do Evangelho, reconhecendo e respeitando a sua função” [185].

Finalmente, a consciência da Igreja como “comunhão” missionária ajudará o candidato ao sacerdócio a amar e viver a essencial dimensão missionária da Igreja e das diversas actividades pastorais; a estar aberto e disponível para todas as possibilidades hoje oferecidas ao anúncio do Evangelho, sem esquecer o precioso serviço que para tal pode e deve ser prestado pelos meios de comunicação social [186]; a preparar-se para um ministério que lhe pode solicitar a concreta disponibilidade ao Espírito Santo e ao Bispo para ser mandado a pregar o Evangelho para além dos confins da sua terra [187].

II. OS AMBIENTES DA FORMAÇÃO SACERDOTAL

A comunidade formativa do Seminário Maior

60. A necessidade do Seminário Maior – e da análoga Casa Religiosa – para a formação dos candidatos ao sacerdócio, defendida com autoridade pelo Concílio Vaticano II [188], foi reafirmada pelo Sínodo com estas palavras: “A instituição do Seminário Maior como lugar idealde formação deve certamente confirmar-se como espaço normal, mesmo material, de uma vida comunitária e hierárquica, mais, como casa própria para a formação dos candidatos ao sacerdócio, com superiores verdadeiramente consagrados a este servício. Esta instituição deu muitíssimos frutos ao longo dos séculos e continua a dá-los em todo o mundo” [189].

O Seminário apresenta-se como um tempo e um espaço; mas configura-se sobretudo como uma comunidade educativa em caminhada: é a comunidade promovida pelo Bispo para oferecer, a quem é chamado pelo Senhor a servir como os apóstolos, a possibilidade de reviver a experiência formativa que o Senhor reservou aos Doze. Na realidade, uma prolongada e íntima permanência de vida com Jesus é apresentada no Evangelho como premissa necessária para o ministério apostólico. Esta permanência requer dos Doze a realização, de modo particularmente claro e específico, da separação, em certa medida proposta a todos os discípulos, do ambiente de origem, do trabalho habitual, dos afectos, até dos mais queridos (cf. Mc 1, 16-20; 10, 28; Lc 9, 23.57-62; 14, 25-27). Já mais de uma vez apresentámos a tradição de Marcos que sublinha a ligação profunda que une os apóstolos a Cristo, e entre si: antes de serem enviados a pregar e a fazer curas, são chamados a “estar com Ele” (Mc 3, 14).

A identidade profunda do Seminário é a de ser, a seu modo, uma continuação na Igreja da mesma comunidade apostólica reunida à volta de Jesus, escutando a sua palavra, caminhando para a experiência da Páscoa, esperando o dom do Espírito para a missão. Esta identidade constitui o ideal normativo que estimula o seminário, nas mais diversas formas e nas múltiplas vicissitudes que, enquanto instituição humana, vive na história, a que encontre uma concreta realização, fiel aos valores evangélicos em que se inspira e capaz de responder às situações e necessidades dos tempos.

O seminário é, em si mesmo, uma experiência original da vida da Igreja: nele o Bispo torna-se presente por meio do ministério do reitor e do serviço de corresponsabilidade por ele animado com os outros educadores, em ordem a um crescimento pastoral e apostólico dos alunos. Os vários membros da comunidade do Seminário, reunidos pelo Espírito numa única fraternidade, colaboram, cada qual segundo os dons de que dispõe, para o crescimento de todos na fé e na caridade a fim de se preparem adequadamente para o sacerdócio, e por conseguinte, prolongarem na Igreja e na história a presença salvífica de Jesus Cristo, o Bom Pastor.

Já na sua vertente humana, o Seminário Maior deve tender a tornar-se uma “comunidade impregnada de uma profunda amizade e caridade de modo a poder ser considerada uma verdadeira família, que vive na alegria” [190]. Na sua face cristã, o Seminário deve configurar-se – dizem os Padres sinodais – como “comunidade eclesial”,como “comunidade dos discípulos do Senhor, na qual se celebra uma mesma Liturgia (que permeia a vida de espírito de oração), formada dia a dia na leitura e na meditação da Palavra de Deus, no sacramento da Eucaristia, e no exercício da justiça e da caridade fraterna; uma comunidade onde, no progresso da vida comunitária e na vida de cada membro, resplandece o Espírito de Cristo e o amor para com a Igreja” [191]. Como confirmação e desenvolvimento concreto da essencial dimensão eclesial do Seminário, acrescentam os Padres sinodais: “Enquanto comunidade eclesial, seja diocesana, seja interdiocesana, seja mesmo religiosa, o Seminário alimente o sentido da união dos candidatos com o seu Bispo e Presbitério, de modo que participem das suas esperanças, das suas angústias, e saibam estender esta abertura às necessidades da Igreja universal” [192].

É essencial para a formação dos candidatos ao sacerdócio e ao ministério pastoral, o qual por sua natureza é eclesial, que o seminário seja sentido não de um modo exterior e superficial,quer dizer, como simples lugar de habitação e de estudo, mas de um modo interior e profundo: como comunidade, uma comunidade especificamente eclesial, uma comunidade que revive a experiência do grupo dos Doze unidos a Jesus [193].

61. O Seminário é, pois, uma comunidade eclesial educativa, mais, uma particular comunidade educante. E é o fim específico a determinar-lhe a fisionomia, ou seja, o acompanhamento vocacional dos futuros sacerdotes, e portanto o discernimento da sua vocação, a ajuda para lhe corresponder e a preparação para receber o sacramento da Ordem com as graças e as responsabilidades próprias, pelas quais o sacerdote é configurado a Jesus Cristo Cabeça e Pastor e é habilitado e comprometido a partilhar a Sua missão de salvação na Igreja e no mundo.

Enquanto comunidade educante, a inteira vida do seminário, nas suas mais diversas expressões, está empenhada na formação humana, espiritual, intelectual e pastoral dos futuros presbíteros: trata-se de uma formação que, embora assuma tantos aspectos comuns à formação humana e cristã de todos os membros da Igreja, apresenta conteúdos, modalidades e características que decorrem especificamente do seu fim principal, que é o de preparar para o sacerdócio.

Ora os conteúdos e as formas da obra educativa exigem que o seminário tenha uma precisa programação, isto é, um programa de vida que se caracterize seja pela sua organicidade-unidade, seja pela sua sintonia ou correspondência com o único fim que justifica a existência do Seminário: a preparação dos futuros presbíteros.

Neste sentido, os Padres sinodais escrevem: “Enquanto comunidade educativa, (o Seminário) deve obedecer a um programa claramente definido que, como nota característica, tenha a unidade de direcção manifestada pela figura do Reitor e dos colaboradores, na coerência do regulamento de vida, da actividade formativa e das exigências fundamentais da vida comunitária, a qual comporta também os aspectos essenciais da tarefa formativa. Este programa deve estar clara e decididamente ao serviço da única finalidade específica que justifica a existência do Seminário, a saber, a formação dos futuros presbíteros, pastores da Igreja” [194]. E para que a programação seja verdadeiramente adequada e eficaz, é necessário que as grandes linhas programáticas se concretizem mais detalhadamente, mediante algumas regras particulares, destinadas a ordenar a vida comunitária, estabelecendo alguns instrumentos e ritmos temporais precisos.

Um outro aspecto é de sublinhar aqui: a obra educativa, por natureza, é o acompanhamento de pessoas históricas, concretas que caminham para a escolha e adesão a determinados ideais de vida. Precisamente por isso, a obra educativa deve saber harmonicamente conciliar a proposta clara da meta a atingir, a exigência de caminhar com seriedade em direcção a essa meta, a atenção ao “caminhante”, ou seja, ao sujeito concreto empenhado nesta aventura, e depois a uma série de situações, de problemas e de dificuldades, de ritmos diversificados de caminho e de crescimento. Isto exige uma sapiente elasticidade, que não significa, de facto, transigência sobre os valores nem sobre o empenhamento consciente e livre, mas amor verdadeiro e respeito sincero por quem, nas suas condições pessoais, está caminhando para o sacerdócio. Isto vale não só relativamente à pessoa singular, mas também relativamente aos diversos contextos sociais e culturais onde se encontram os seminários e à diferente história que tem cada um deles. Neste sentido, a tarefa educativa exige uma contínua renovação. Isto mesmo foi salientado pelos Padres, relativamente à configuração dos seminários: “ressalvada a validade das formas clássicas de Seminário, o Sínodo deseja que o trabalho de consulta das Conferências Episcopais sobre as necessidades actuais da formação prossiga como se estabeleceu no Decreto Optatam totius nº 1, e no Sínodo de 1967. Revejam-se oportunamente as Rationes de cada nação ou rito, seja por ocasião das consultas das Conferências Episcopais, seja nas visitas apostólicas aos seminários das diversas nações, para nelas integrar diversas formas de formação aprovadas que devem responder às necessidades dos povos de cultura chamada indígena, das vocações de homens adultos, vocações para as missões, etc” [195].

62. A finalidade e a configuração educativa do Seminário Maior exige que os candidatos ao sacerdócio entrem aí já com alguma preparação prévia. Tal preparação não colocava problemas particulares, pelo menos até alguns decénios atrás, no tempo em que os candidatos ao sacerdócio provinham habitualmente dos seminários menores e a vida cristã das comunidades oferecia facilmente a todos, indistintamente, uma discreta instrução e educação cristã.

A situação, em muitas partes, está alterada. Verifica-se uma forte discrepância entre o estilo de vida e a preparação de base das crianças, dos adolescentes e jovens, mesmo que cristãos e por vezes comprometidos na vida da Igreja, por um lado, e, por outro, o estilo de vida do seminário e as suas exigências formativas. Neste contexto e em comunhão com os Padres sinodais, peço que haja um período adequado de preparação que preceda a formação do Seminário. “É útil que haja um período de preparação humana, cristã, intelectual e espiritual para os candidatos ao Seminário Maior. Estes candidatos devem, porém, apresentar algumas qualidades determinadas: recta intenção, um grau suficiente de maturidade humana, um conhecimento bastante amplo da doutrina da fé, alguma introdução aos métodos de oração, e costumes conformes à tradição cristã. Possuam também atitudes próprias da sua região, pelas quais é expresso o esforço de encontrar Deus e a fé (cf. Evangelii nuntiandi, 48)” [196].

“Um conhecimento bastante amplo da doutrina da fé”, de que falam os Padres sinodais, é a primeira exigência da teologia: não se pode desenvolver uma “intelligentia fidei“, se não se conhece a “fides” no seu conteúdo. Tal lacuna poderá ser facilmente colmada pelo próximo Catecismo Universal.

Embora se vá tornando comum a convicção da necessidade dessa preparação prévia ao Seminário Maior, verifica-se todavia uma diferente avaliação dos seus conteúdos e das suas características, ou seja, do fim preponderante, se de formação espiritual para o discernimento vocacional, se de formação intelectual e cultural. Por outro lado, não se podem esquecer as muitas e profundas diferenças que existem tanto relativamente à pessoa dos candidatos, como às diversas regiões e países. Isto sugere ainda uma fase de estudo e experimentação, para que se possam definir, de modo mais oportuno e significativo, os diversos elementos desta preparação prévia ou “período propedêutico”: o tempo, o lugar, a forma, os temas deste período que, além do mais, se deve coordenar com os anos seguintes da formação no Seminário.

Neste sentido, assumo e reproponho ao Dicastério competente o pedido formulado pelos Padres sinodais: “O Sínodo pede que a Congregação para a Educação Católica recolha todas as informações sobre experiências iniciais feitas ou que se estejam fazendo. Em tempo oportuno, a Congregação comunique às Conferências Episcopais as informações sobre este argumento” [197].

O Seminário Menor e as outras formas de acompanhamento vocacional

63. Como atesta uma larga experiência, a vocação sacerdotal tem muitas vezes o seu primeiro momento de manifestação, nos anos da pré-adolescência ou nos primeiríssimos anos da juventude. E até em pessoas que chegam a decidir a entrada no Seminário mais adiante no tempo, não é raro constatar a presença da chamada de Deus em períodos muito anteriores. A história da Igreja é um testemunho contínuo de chamadas que o Senhor dirige mesmo em tenra idade. São Tomás, por exemplo, explica a predilecção de Jesus pelo apóstolo João “pela sua tenra idade”, tirando daí a seguinte conclusão: “isto nos faz compreender como Deus ame de modo especial aqueles que se entregam ao seu serviço já desde a juventude” [198].

A Igreja toma ao seu cuidado estes germes de vocação, semeados no coração dos pequenos, proporcionando-lhes, através da instituição dos Seminários Menores, um solícito, ainda que inicial, discernimento e acompanhamento. Em várias partes do mundo, estes Seminários continuam a desenvolver uma preciosa obra educativa, destinada a proteger e fazer desabrochar os germes da vocação sacerdotal, a fim de que os alunos a possam mais facilmente reconhecer e se tornem capazes de lhe corresponder. A sua proposta educativa tende a favorecer, de modo tempestivo e gradual, aquela formação humana, cultural e espiritual que conduzirá o jovem a empreender o caminho para o Seminário Maior com uma base adequada e sólida.

Preparar-se para seguir Cristo Redentor com ânimo generoso e coração puro“: é este o objectivo do Seminário Menor indicado pelo Concílio, no Decreto Optatam totius, que traça desta forma o seu perfil educativo: os alunos “sob a orientação paterna dos superiores, com a colaboração oportuna dos pais, levem uma vida plenamente conforme à idade, espírito e evolução dos adolescentes, segundo as normas da sã psicologia, sem omitir a conveniente experiência das coisas humanas e o contacto com a própria família” [199].

O Seminário Menor poderá ser, na Diocese, também um ponto de referência da pastoral vocacional, com oportunas formas de acolhimento e oferta de ocasiões informativas para aqueles adolescentes que estão à descoberta da vocação ou que, já determinados a segui-la, se vêem obrigados a adiar a entrada no Seminário por diferentes circunstâncias, familiares ou escolares.

64. Onde o Seminário Menor – que “em muitas regiões parece necessário e muito útil” – não encontre possibilidades de concretização, é necessário providenciar a constituição de outras “instituições” [200], como poderiam ser os grupos vocacionais para adolescentes e jovens. Embora não sendo de natureza permanente, tais grupos poderão proporcionar, num contexto comunitário, uma orientação sistemática para a descoberta e crescimento vocacional. Mesmo vivendo em família e frequentando a comunidade cristã, que os ajuda no seu itinerário formativo, estes adolescentes e jovens não deverão ser deixados sós. Eles têm necessidade de um grupo particular ou uma comunidade que lhes ofereça um ponto de referência para de realizarem o itinerário vocacional que o dom do Espírito Santo neles iniciou.

Como sempre aconteceu na história da Igreja, e com algumas características de reconfortante novidade e frequência nas circunstâncias actuais, deveremos registar o fenómeno das vocações sacerdotais que se verificam em idade adulta, já depois de uma longa experiência de vida laical e de empenhamento profissional. Nem sempre é possível, e muitas vezes nem sequer é conveniente, convidar os adultos a seguir o itinerário educativo do Seminário Maior. Deve-se antes providenciar, depois de um cuidadoso discernimento acerca da autenticidade de tais vocações, no sentido de programar uma forma específica de acompanhamento formativo que consiga assegurar, por meio de oportunas adaptações, a necessária formação espiritual e intelectual [201]. Um recto relacionamento com os outros candidatos ao sacerdócio e períodos de presença na comunidade do Seminário Maior poderão garantir a plena integração destas vocações no único presbitério, e a sua íntima e cordial comunhão com ele.

III. OS PROTAGONISTAS DA FORMAÇÃO SACERDOTAL

A Igreja e o Bispo

65. Uma vez que a formação dos candidatos ao sacerdócio pertence à pastoral vocacional da Igreja, deve dizer-se que é a Igreja, enquanto tal, o sujeito comunitário que tem a graça e a responsabilidade de acompanhar todos aqueles que o Senhor chama a ser seus ministros no sacerdócio.

Precisamente neste sentido, a leitura do mistério da Igreja ajuda-nos a precisar melhor o lugar e a função que os seus diversos membros, seja individualmente seja como membros do corpo, têm na formação do candidato ao presbiterado.

A Igreja é, por sua íntima natureza, a “memória”, o “sacramento” da presença e da acção de Jesus Cristo no meio de nós e por nós. É à sua presença salvífica que se deve a chamada ao sacerdócio: não só a chamada, mas também o acompanhamento para que o vocacionado possa reconhecer a graça do Senhor e possa dar-lhe uma resposta com liberdade e amor. É o Espírito de Jesus que ilumina e dá força no discernimento do caminho vocacional. Não existe uma autêntica obra formativa para o sacerdócio sem o influxo do Espírito de Cristo. Cada formador humano deve estar plenamente consciente disso. Como não ver um “recurso” totalmente gratuito e radicalmente eficaz, que tem o seu “peso” decisivo no empenhamento formativo em ordem ao sacerdócio? E como não alegrar-se perante a dignidade de todo o formador humano, que, em certo sentido, se configura como representante visível de Cristo para o candidato ao sacerdócio? Se a formação para o sacerdócio é essencialmente a preparação do futuro “pastor” à imagem de Jesus Cristo Bom Pastor, quem melhor que o próprio Cristo, mediante a efusão do seu Espírito, pode conceder e levar ao amadurecimento aquela mesma caridade pastoral que Ele viveu até ao dom total de Si (cf. Jo 15, 13; 10, 11) e quer que seja revivida por todos os presbíteros?

O primeiro representante de Cristo na formação dos sacerdotes é o Bispo. Poder-se-ia dizer do Bispo, de cada bispo, quanto nos diz o evangelista Marcos no texto, já várias vezes citado: “Chamou a Si aqueles que quis e eles foram ter com Ele. Constituiu Doze de entre eles que estivessem com Ele, e também para os enviar” (Mc 3, 13-14). Na realidade, a chamada interior do Espírito precisa de ser reconhecida como autêntico chamamento pelo Bispo. Se todos podem “ir ter” com o Bispo enquanto Pastor e Pai de todos, podem fazê-lo de uma forma particular os seus presbíteros pela comum participação do mesmo sacerdócio e ministério: o Bispo, diz o Concílio, deve considerá-los e tratá-los como “irmãos e amigos” [202]. O mesmo se pode dizer analogamente de quantos se preparam para o sacerdócio. A propósito do “estar com ele”, com o Bispo, revelar-se-á muito significativo para as suas responsabilidades formativas com os candidatos ao sacerdócio, que o Bispo os visite frequentemente e de certa maneira “esteja” com eles.

A presença do Bispo adquire um valor particular, não só porque ajuda a comunidade do Seminário a viver a sua inserção na Igreja particular e a sua comunhão com o Pastor que a guia, mas também porque estimula e dá autenticidade àquele fim pastoral que constitui a especificidade da completa formação dos candidatos ao sacerdócio. Sobretudo com a sua presença e partilha com os candidatos ao sacerdócio de tudo o que diz respeito ao caminho pastoral da Igreja particular, o Bispo oferece um contributo fundamental para a formação do “sentido de Igreja”, como valor espiritual e pastoral central no exercício do ministério sacerdotal.

A comunidade educativa do Seminário

66. A comunidade educativa do Seminário articula-se à volta de diversos formadores: o reitor, o director ou padre espiritual, os superiores e os professores. Estes devem sentir-se profundamente unidos ao Bispo, que, a título diferente e de vários modos, representam, e devem viver entre si em convicta e cordial comunhão e colaboração: esta unidade dos educadores não só torna possível uma adequada realização do programa educativo, mas sobretudo oferece aos candidatos ao sacerdócio o exemplo significativo e a concreta introdução naquela comunhão eclesial que constitui um valor fundamental da vida cristã e do ministério pastoral.

É evidente que uma grande parte da eficácia formativa depende da personalidade madura e forte dos formadores,tanto sob o aspecto humano como evangélico. Por isso se torna particularmente importante, por um lado, a escolha cuidadosa dos formadores, e por outro, o estímulo destes para que constantemente procurem ser mais idóneos para o encargo que lhes foi confiado. Conscientes de que, precisamente na escolha e na formação dos formadores, reside o futuro da preparação dos candidatos ao sacerdócio, os Padres sinodais detiveram-se longamente a precisar a identidade dos educadores. Concretamente escreveram: “A tarefa da formação dos candidatos ao sacerdócio certamente exige não só uma preparação especial dos formadores, que seja verdadeiramente técnica, pedagógica, espiritual, humana e teológica, mas também o espírito de comunhão e de colaboração na unidade para desenvolver o programa, de modo que seja salvaguardada a unidade na acção pastoral do Seminário sob a orientação do reitor. O grupo dos formadores dê testemunho de uma vida verdadeiramente evangélica e de total dedicação ao Senhor. É oportuno que goze de uma certa estabilidade e tenha residência habitual no seio da comunidade do Seminário. Esteja intimamente unida ao Bispo, como primeiro responsável da formação dos sacerdotes” [203].

Os Bispos devem ser os primeiros a sentir a sua grave responsabilidade na formação daqueles que serão encarregados da educação dos futuros presbíteros. Para este ministério, devem ser escolhidos sacerdotes de vida exemplar e na posse de diversas qualidades: “maturidade humana e espiritual, experiência pastoral, competência profissional, estabilidade na própria vocação, capacidade de colaboração, preparação doutrinal nas ciências humanas (especialmente em psicologia) adequada ao cargo e o conhecimento dos modos de trabalhar em grupo” [204].

Ressalvadas as distinções entre o foro interno e o externo, a oportuna liberdade de escolha dos confessores e a prudência e discrição convenientes ao ministério do director espiritual, a comunidade presbiteral dos educadores sinta-se solidária na responsabilidade de educar os candidatos ao sacerdócio. A ela, e sempre tendo como ponto de referência a autorizada avaliação conjunta do Bispo e do reitor, compete em primeiro lugar a tarefa de promover e verificar a idoneidade dos candidatos quanto a dotes humanos, espirituais e intelectuais, tendo como pontos fundamentais de referência o espírito de oração, a assimilação profunda da doutrina da fé, a capacidade para a autêntica fraternidade e o carisma do celibato [205].

Tendo presentes – como aliás os Padres sinodais recordaram – as indicações da Exortação Christifideles laici, e da Carta Apostólica Mulieris dignitatem, [206] que põem em relevo um saudável influxo da espiritualidade laical e do carisma da feminilidade em todo e qualquer itinerário educativo, é oportuno incluir, de forma prudente e adaptada aos vários contextos culturais, a colaboração de leigos, homens e mulheres, no trabalho formativo dos futuros sacerdotes. Devem ser escolhidos com cuidado, no quadro das leis da Igreja e segundo as suas comprovadas competências. Da sua colaboração, oportunamente coordenada e integrada nas responsabilidades educativas primárias dos formadores dos futuros presbíteros, é lícito esperar-se benéficos frutos para o crescimento equilibrado do sentido de Igreja e para uma percepção mais clara da própria identidade sacerdotal por parte dos candidatos ao presbiterado [207].

Os professores de teologia

67. Todos quantos introduzem e acompanham os futuros sacerdotes na sacra doctrina, por meio do ensino da teologia, assumem uma particular responsabilidade educativa, que a experiência demonstra ser muitas vezes mais decisiva, no desenvolvimento da personalidade presbiteral, que a dos outros educadores.

A responsabilidade dos professores de teologia, ainda antes de ter em conta a relação docente que devem criar com os candidatos ao sacerdócio, diz respeito à concepção que eles mesmos devem possuir da natureza da teologia e do ministério sacerdotal, bem como ao espírito e estilo segundo o qual devem desenvolver o ensino da teologia. Neste sentido, os Padres sinodais afirmaram justamente que “o teólogo deve estar plenamente consciente de que no seu ensino não se afirma por si mesmo, mas deve abrir e comunicar a inteligência da fé fundamentalmente em nome do Senhor e da Igreja. Deste modo o teólogo, mesmo valendo-se de todas as possibilidades científicas, desempenha a sua tarefa mandatado pela Igreja e colabora com o Bispo na tarefa de ensinar. E porque teólogos e Bispos estão ao serviço da mesma Igreja, na tarefa de promover a fé, devem desenvolver e cultivar uma confiança recíproca, e neste espírito, superar também as tensões e conflitos (cf. mais amplo ?desenvolvimento na Instrução da Congregação para a Doutrina da Fé sobre A Vocação eclesial do teólogo)” [208].

O professor de teologia, como qualquer outro educador, deve permanecer em comunhão e colaborar cordialmente com todas as outras pessoas empenhadas na formação dos futuros sacerdotes e apresentar com rigor científico, generosidade, humildade e paixão, o seu contributo original e qualificado, que não é apenas a simples comunicação de uma doutrina – mesmo sendo a sacra doctrina -, mas é sobretudo a oferta da perspectiva que unifica no desígnio de Deus, os diversos conhecimentos humanos e as várias expressões de vida.

Em particular, a especificidade e o êxito formativo dos professores de teologia mede-se pelo facto de eles serem, antes de mais, “homens de fé e cheios de amor pela Igreja, convencidos de que o sujeito adequado do conhecimento do mistério cristão continua a ser a Igreja enquanto tal, persuadindo-se, portanto, de que a sua tarefa de ensinar é um autêntico ministério eclesial, serem ricos de sentido pastoral para discernir não só os conteúdos mas também as formas adequadas para o exercício deste ministério. Particularmente se requer dos professores a fidelidade plena ao Magistério. De facto, ensinam em nome da Igreja e por isso são testemunhas da fé” [209].

A comunidade de origem e as associações e movimentos juvenis

68. As comunidades de onde provém o candidato ao sacerdócio, mesmo com a necessária separação que a opção vocacional implica, continuam a exercer um influxo não indiferente na formação do futuro sacerdote. Devem, por isso, estar conscientes da sua específica quota parte de responsabilidade.

Em primeiro lugar, deveremos mencionar a família: os pais cristãos, como também os irmãos e irmãs e outros membros do núcleo familiar, não devem nunca procurar reconduzir o futuro presbítero aos estreitos limites de uma lógica demasiadamente humana, se não mesmo mundana, ainda que sustentada por um sincero afecto (cf. Mc 3, 20-21.31-35). Animados eles mesmos do propósito de “cumprir a vontade de Deus”, saberão acompanhar o caminho formativo com a oração, o respeito, o bom exemplo das virtudes domésticas, e a ajuda espiritual e material, sobretudo nos momentos difíceis. A experiência ensina-nos que, em muitos casos, esta multifacetada ajuda se afigurou decisiva para o candidato ao sacerdócio. Mesmo no caso de pais e familiares indiferentes ou contrários à opção vocacional, o confronto claro e sereno com as suas posições e os estímulos que daí derivam podem constituir uma preciosa ajuda, para que a vocação sacerdotal amadureça de modo consciente e decidido.

Em conexão o profunda com as famílias, está a comunidade paroquial, e umas e outra se interligam no plano de educação para a fé; muitas vezes a paróquia, com uma específica pastoral juvenil e vocacional, desempenha um papel de suplência relativamente à família. Sobretudo enquanto realização local mais imediata do mistério da Igreja, a paróquia oferece um contributo original e particularmente precioso para a formação do futuro sacerdote. A comunidade paroquial deve continuar a sentir como parte viva de si mesma o jovem a caminho do sacerdócio, deve acompanhá-lo com a oração, acolhê-lo cordialmente nos períodos de férias, respeitar e favorecer o desenvolvimento da sua identidade presbiteral, oferecendo-lhe ocasiões oportunas e estímulos fortes para pôr à prova a sua vocação para a missão sacerdotal.

Também as associações e movimentos juvenis, sinal e confirmação da vitalidade que o Espírito assegura à Igreja, podem e devem contribuir para a formação dos candidatos ao sacerdócio, em particular daqueles que procedem da experiência cristã, espiritual e apostólica dessas entidades agregadoras. Os jovens que receberam a sua formação de base em tais agregações e a elas se referem para a sua experiência de Igreja, não deverão sentir-se convidados a cortar com o seu passado e a interromper as relações com o ambiente que contribuiu para concretizar a sua vocação, nem deverão apagar os traços característicos da espiritualidade que aí aprenderam e viveram, em tudo aquilo que de bom, edificante e enriquecedor essas agregações contêm [210]. Também para eles, este ambiente de origem continua a ser fonte de ajuda e apoio na caminhada formativa para o sacerdócio.

As ocasiões de educação para a fé e de crescimento cristão e eclesial, que o Espírito oferece a tantos jovens, através de múltiplas formas de grupos, movimentos e associações de variada inspiração evangélica, devem ser sentidas e vividas como o dom de uma alma alimentadora dentro da instituição do Seminário e ao seu serviço. Um movimento ou uma espiritualidade particular, de facto, “não constitui uma estrutura alternativa à instituição. É, sim, a fonte de uma presença que continuamente regenera a sua autenticidade existencial e histórica. O sacerdote pode, por isso, encontrar num movimento a luz e o calor que o tornam capaz da fidelidade ao seu Bispo, pronto para as incumbências da instituição e atento à disciplina eclesiástica, de modo que seja mais fértil a vibração da sua fé e o gosto da sua fidelidade” [211].

É por conseguinte necessário que, na nova comunidade do Seminário, na qual estão reunidos pelo Bispo, os jovens provenientes de associações e de movimentos eclesiais aprendam ” o respeito pelas outras vias espirituais e o espírito de diálogo e cooperação”, tenham como ponto de referência coerente e cordial as indicações formativas do Bispo e dos educadores do Seminário, entregando-se com tranquila confiança à sua orientação e às suas avaliações [212]. Esta atitude, de facto, prepara e de certo modo antecipa a genuína opção presbiteral de serviço a todo o Povo de Deus, na comunhão fraterna do presbitério e na obediência ao Bispo.

A participação do seminarista e do presbítero diocesano em espiritualidades particulares ou agregações eclesiais é certamente, em si mesma, um factor benéfico de crescimento e de fraternidade sacerdotal. Mas esta participação não deve obstaculizar, antes deverá ajudar o exercício do ministério e a vida espiritual que são próprios do sacerdote diocesano, o qual “permanece sempre o pastor de todos em conjunto”. Não é só o ‘permanente’, disponível para todos, mas preside ao encontro de todos – em particular se está à frente das paróquias – a fim de que todos encontrem o acolhimento que têm direito de esperar na comunidade e na Eucaristia que os reúne, qualquer que seja a sua sensibilidade religiosa ou o compromisso pastoral” [213].

O próprio candidato

69. Não se pode esquecer, finalmente, que o próprio candidato ao sacerdócio deve ser considerado protagonista necessário e insubstituível na sua formação: toda e qualquer formação, naturalmente incluindo a sacerdotal, é no fim de contas uma auto-formação. Ninguém, de facto, nos pode substituir na liberdade responsável que temos como pessoas individuais.

Certamente também o futuro sacerdote, e ele antes de mais ninguém, deve crescer na consciência de que o protagonista por antonomásia da sua formação é o Espírito Santo que, com o dom do coração novo, configura e assimila a Jesus Cristo Bom Pastor: nesse sentido, o candidato afirmará a sua liberdade da maneira mais radical, ao acolher a acção formadora do Espírito. Mas acolher esta acção significa também, da parte do candidato ao sacerdócio, acolher as “mediações” humanas de que o Espírito se serve. Por isso mesmo, a acção dos vários educadores só se revela verdadeira e plenamente eficaz se o futuro sacerdote lhe oferece a sua pessoal, convicta e cordial colaboração.

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