Um dos pontos que eu tento enfatizar quando dou uma palestra é que você pode se transformar num grande apologista muito rapidamente. Não é necessário esperar até se transformar num doutor em teologia. Trabalhe com aquilo que você sabe; mesmo se souber apenas uma coisa.

Eu tenho um fato bastante ilustrativo disto, e você poderá usar esta técnica da próxima vez que um anti-católico lhe atirar versículos bíblicos.

Há alguns anos, antes que eu passasse a me interessar em ler a Bíblia, eu evitava missionários protestantes que batiam à minha porta. Eu já fora ofendido muitas vezes. Para que abrir a porta, ou prolongar uma conversa (quando abordado em plena rua) se eu nada tinha a dizer?

Com certeza, eu tinha uma Bíblia. Talvez eu a usasse como você ainda usa a sua: pegando poeira que, sem a mesma, se acumularia no topo da estante. Era uma daquelas “Bíblias de família”, cheia de fotos bonitas e coloridas e mais pesada do que o meu filho aos cinco anos de idade.

Como eu disse, eu tinha uma Bíblia. Mas não me dirigia à mesma com freqüência. Então, eu tinha pouco a dizer quando um destes missionários me abordava. Eu não sabia quais os versículos que eu poderia citar para defender a fé católica.

Para um leigo, eu supunha estar razoavelmente bem informado acerca da minha fé – pelo menos, eu nunca duvidei da mesma ou deixei de praticá-la – mas não tinha leitura suficiente que me preparasse para debates.

Então, um dia, eu tive uma informação preciosíssima que iria enviar uma onda de choque através do próximo missionário protestante que tocasse a campainha. E isto me mostrou que não é difícil se transformar num apologista habilidoso.

Eis o que aconteceu.

Quando eu abri a porta, o missionário se apresentou como um adventista do sétimo dia. Ela me perguntou se poderia “compartilhar” comigo alguns pontos da Bíblia. Eu disse que ele poderia ir em frente.

Ele viajava de uma página para outra, comparando este e aquele versículo, tentando demonstrar os erros da Igreja Romana e a manifesta verdade da sua própria denominação.

Sem muito a dizer.

Alguns versículos, eu já conhecia. Eu não era totalmente iletrado sobre a Bíblia, mas muitos outros versículos me eram desconhecidos. Conhecidos ou não, como não sabia muito a respeito da Bíblia, eu não possuia respostas para os mesmos.

Finalmente, o missionário chegou em Mt 16, 18: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei minha Igreja.”.

“Espere um momento”, eu disse. “Este versículo eu conheço. Nele, Jesus aponta Simão como o chefe universal da Igreja. Ele o aponta como o primeiro Papa.” Terminei e abri um sorriso, sabendo o que o missionário diria em resposta.

Eu sabia que, em regra, ele não enfrentava defesas da fé católica enquanto peregrinava de casa em casa. Mas, às vezes, um católico iria retrucar, como eu fiz. Ele tinha uma resposta; eu a conhecia e estava preparado para a mesma.

“Eu entendo o teu pensamento”, ele disse, ” mas vocês, católicos, desvirtuam este versículo porque não conhecem grego. Este é o problema com a sua Igreja e com sua hierarquia. Vocês não conhecem a língua em que o Novo Testamento foi escrito. Para entender Mt 16,18, temos que ir do inglês para o grego.”

“É mesmo?”, perguntei, convidando-o a prosseguir. Fingi ignorar a armadilha posta para mim.

“Sim”, continuou. “Em grego, a palavra para pedra é petra, que significa uma rocha grande e maciça. A palavra usada como nome para Simão, por sua vez, é petros, que significa uma pedra pequena, uma pedrinha.”

Na verdade, todo este discurso do missionário é falso. Como sabem os conhecedores de Grego ( mesmo os não católicos), as palavras petros e petra eram sinônimos no grego do primeiro século. Elas significaram “pequena pedra” e “grande rocha” em uma velha poesia grega, séculos antes da vinda de Cristo, mas esta distinção já havia desaparecido no tempo em que o Evangelho de São Mateus foi traduzido para o grego. A diferença de significados existe, apenas, no grego ático, mas o Novo Testamento foi escrito em grego Koiné – um dialeto totalmente diferente. E, no grego koiné, tanto petros quanto petra significam “rocha”. Se Jesus quisesse chamar Simão de “pedrinha”, usaria o termo lithos. O argumento do missionário não funcionou e demonstrou uma falha no conhecimento do grego. (para a admissão deste fato por um estudioso protestante, veja D. ª Carson, The expositors Bible Commentary [Grand Rapids: Zondervan, 1984], Frank E. Gaebelein, ed., 8: 368).

“Vocês, católicos,” prosseguiu, “por desconhecerem o grego, pensam que Jesus comparava Pedro à rocha. Na verdade, é justamente o contrário. Ele os contrastava. De um lado, a rocha sobre a qual a Igreja seria construída: o próprio Jesus. De outro, esta mera pedrinha. Jesus queria dizer que ele mesmo seria o fundamento da Igreja, e que Simão não estava sequer remotamente qualificado para isto.”

“Caso encerrado”, ele pensou.

Foi a vez do missionário parar e sorrir. Ele seguiu o treinamento que havia recebido. Disseram-lhe que, de vez em quando, um católico argumentaria que Mt 16, 18 provaria o estabelecimento do papado. Ele sabia o que deveria replicar para provar o contrário, e o fizera.

“Bem”, contra-argumentei, usando daquela informação preciosa de que falei acima, “concordo que devemos ir do inglês para o grego.” Ele sorriu e concordou com a cabeça. “Mas, com certeza, você concordará que, igualmente, devemos ir do grego para o aramaico.”

“Para o quê?”, perguntou.

“Para o aramaico. Como você sabe, esta foi a língua falada por Jesus, pelos apóstolos e por todos os judeus da Palestina. Era a língua corrente da região.”

“Pensei que fosse o grego.”

“Não”, respondi. “Muitos, talvez a maioria, soubessem grego, pois esta era a lingua franca do Mediterrâneo. A língua da cultura e do comércio. A maioria dos livros do Novo Testamento foi escrita em grego, pois não visavam apenas os cristãos da Palestina, mas de outros lugares como Roma, Alexandria e Antioquia, onde o aramaico não era falado.

“Eu disse que a maioria dos livros neo-testamentários foi escrito em grego, mas não todos. O Evangelho de São Mateus foi escrito pelo próprio em aramaico ou hebreu (sabemos disto por escritos de Euzébio de Cesaréia) e traduzido para o grego, talvez pelo próprio evangelista, muito cedo. De qualquer forma, o original se perdeu (como todos os livros originais do Novo Testamento), e, hoje em dia, somente resta a versão grega.”

Parei por um instante e observei o missionário. Ele parecia desconfortáve, talvez duvidando que eu fosse um católico, pois eu parecia conhecer o assunto de que estava falando. Continuei.

O Aramaico do NT.

“Sabemos que Jesus falava aramaico devido a algumas de suas palavras que nos foram preservadas pelos Evangelhos. Veja Mt. 27, 46, onde ele diz na cruz, ?Eli, Eli, Lama Sabachtani?. Isto não é grego, mas aramaico, e significa, ? meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste??

“E tem mais,” prossegui, “nas epístolas de S. Paulo (por quatro vezes em Gálatas e outras quatro vezes em 1 Coríntios), preservou-se a forma aramaica do novo nome de Simão. Em nossas bíblias, aparece como Cefas. Isto não é grego, mas uma treansliteração do aramaico Kepha (traduzido por Kephas na forma helenística).

“E o que significa Kepha? Uma pedra grande e maciça, o mesmíssimo que petra. A palavra aramaica para uma pequena pedra ou pedrinha é evna. O que Jesus disse a Simão em Mt 16, 18 foi ?tu és Kepha e sobre esta kepha construirei minha igreja.?

“Quando se conhece o que Jesus disse em aramaico, percebe-se que ele comparava Simão à rocha; não os estava contrastando. Podemos ver isto, vividamente, em algumas versões modernas da bíblia em inglês, nas quais este versículo é traduzido da seguinte forma: ?You are Rock, and upon this rock I will build my church?. Em francês, sempre se usou apenas pierre tanto para o novo nome de Simão, quanto para a rocha.”

Por alguns momentos, o missionário parecia perplexo. Obviamente, ele nunca tivera esta informação. Sua testa se franziu em pensamentos, enquanto ele tentava encontrar uma contra-argumentação. Então, algo lhe ocorreu.

“Um momento”, disse. “Se kepha significa petra, porque a versão grega não traz ?tu és Petra e sobre esta petra edificarei a minha Igreja?? Por que, para o novo nome de Simão, Mateus usa o grego Petros que possui um significado diferente do petra?”

“Porque não havia escolha,” eu disse. “Grego e aramaico têm diferentes estrururas gramaticais. Em aramaico, pode-se usar kepha nas duas partes de Mt 16,18. Em grego, encontramos um problema derivado do fato de que, nesta língua, os substantivos possuem terminações diferentes para cada gênero.

“Existem substantivos femininos, masculinos e neutros. A palavra grega petra é feminino. Pode-se usá-la na segunda parte do texto sem problemas. Mas não se pode usá-la como o novo nome de Simão, porque não se pode dar, a um homem, um nome feminino. Pelo menos, naquela época não se podia. Há que se masculinizar a terminação do nome. Fazendo-o, temos Petros, palavra já existente e que também significava rocha.

“Por certo, é uma tradução imperfeita do aramaico; perdeu-se parte do jogo de palavras. Em inglês, perdeu-se tudo. Mas, em grego, era o melhor que poderia ser feito.”

Além da evidência gramatical, a estrutura da narração não permite uma diminuição do papel de Pedro na Igreja. Veja a forma na qual se estruturou o texto de Mt. 16, 15-19. Depois da confissão de Pedro acerca da identidade de Jesus, o Senhor faz o mesmo para Pedro. Jesus não diz: Bendito és tu, Simão Bar-Jona. Pois não foi a nem carne nem o sangue que te revelou este mistério, mas meu Pai, que está nos céus. Por isto, eu te digo: és uma pedrinha insignificante, e sobre a rocha edificarei a minha Igreja. … Eu te darei as chaves do reino dos céus.” Jesus abençoa Pedro triplamente, inclusive com o dom das chaves do reino, mas não mina a sua autoridade. Sustentá-lo é contrariar o contexto. Jesus coloca Pedro como uma forma de comandante ou primeiro ministro abaixo do Rei dos Reis, dando-lhe as chaves do Reino. Como em Is 22, 22, os reis, no Velho Testamento apontavam um comandante para os servir em posição de grande autoridade, para governar sobe os habitantes do reino. Jesus cita quase que verbalmente esta passagem de Isaias, o que torna claríssimo aquilo que Ele tinha em mente. Ele elevou Pedro como a figura de um pai na família dos cristãos (Is 22, 21), para a guiar e guiar o rebanho (Jo 21, 15-17). Esta autoridade era passada de um homem para outro através das tempos pela entrega das chaves, que se usavam sobre os ombros em sinal de autoridade. Da mesma forma, a autoridade de Pedro foi transmitida, nestes dois mil anos, através do papado.

Minha vez de silenciar.

Parei e sorri. O missionário devolveu-me um desconfortável sorriso, não dizendo nada. Trocamos sorrisos por cerca de trinta segundos. Então, ele olhou no relógio, comentou sobre como o tempo voara e desculpou-se. Nunca mais o vi.

Então, o que veio deste encontro? Duas coisas: uma para mim, outra para ele.

Eu desenvolvi um sentido de confiança. Percebi que podia defender a minha fé se me esforçasse em fazer minha “lição de casa.” Quanto mais lição de casa, melhor a defesa.

Percebi que qualquer católico letrado (inclusive você) pode fazer o mesmo. Não é necessário que você desconfie da validade da sua fé quando não puder responder a um ataque.

Se você desenvolver um sentido de confiança, poderá dizer para si mesmo: “talvez eu não tenha a resposta para isto, mas sei que acharei esta resposta se mergulhar nos livros. A resposta está lá, basta que eu dedique um tempo para procurá-la.”

E o missionário? Ele levou algo do encontro? Acho que sim. Acho que ele partiu com uma dúvida acerca de seu entendimento (ou falta de) sobre os católicos e sobre a fé católica. Espero que tal dúvida tenha amadurecido no sentido de que talvez (talvez), os católicos tenham algo a dizer em nome de sua religião e que ele deveria olhar, com mais carinho, esta Fé que, tão confiantemente, estava combatendo.

Fonte: www.catholics.com. Tradução do Veritatis Splendor por Alexandre Semedo.

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