O modo como a RCC entende a oração em línguas é, sim, algo novo na teologia mística. Não há um só caso, que eu saiba, sobre tal fenômeno. Os maiores especialistas do assunto (Tanquerey, por exemplo) não o citam.

Isso não quer dizer que a oração em línguas não exista nem que a RCC esteja errada. Apenas que nos dá o direito de, como católicos, em um ponto controverso, ter uma posição distinta da RCC. A oração em línguas e mesmo a contemporaneidade dos dons extraordinários NÃO são verdades de fé. Pode-se acreditar ou não. Ninguém é menos ou mais católico por crer na oração em línguas tal qual praticada na RCC.

O fato de ser nova essa manifestação da oração em línguas (ou, pelo menos, se ter dúvidas a respeito da prática da RCC quanto a ela) é exatamente o motivo pelo qual a Santa Sé ainda não se pronunciou. Prudente como é, está estudando, meditando, vendo os frutos.

Enquanto não se pronuncia, somos livres.

A RCC talvez tenha o direito de crer que a prática dos grupos de oração é a oração em línguas, o direito de achar que os “gemidos inefáveis” são a oração em línguas, o direito de diferenciar oração em línguas de falar em línguas.

Outros temos o direito de não sustentar nada disso. Podem os carismáticos citar milhares de passagens bíblicas, mas serão sempre a SUA interpretação pessoal. Como nós, ao citarmos outras e também a teologia mística, daremos a NOSSA interpretação. Ambas são válidas até que o Magistério dê a SUA interpretação infalível.

No essencial unidade, no disputado diversidade, em tudo caridade.

Pode-se duvidar que a prática que a RCC chama de oração em línguas seja realmente um fenômeno místico? A resposta: sim, pode-se, dado que o Magistério ainda não se pronunciou sobre a questão.

Muito melhor do que eu, define esses termos a Catholic Encyclopedia:

http://www.newadvent.org/cathen/14613a.htm

Tem mais aqui:

http://www.freaknet.org/martin/libri/Compendio/ – O melhor livro sobre o assunto!!! O clássico Tanquerey!

Para quem quiser comprá-lo em português, tem na Quadrante. www.quadrante.com.br

E a tradução para o espanhol do artigo da Catholic Encyclopedia que postei antes:

http://www.enciclopediacatolica.com/t/teologiaascetica.htm

Mais um sobre teologia mística e ascética:

http://www.gratisdate.org/nuevas/directorio/default.htm

“Il dono delle lingue, detto anche con termine greco glossolalia, che in S. Paolo è il dono di pregare con santo entusiasmo in ignota lingua straniera; secondo i teologi invece è il dono soprannaturale di parlar varie lingue.”

Ou seja, o dom das línguas é o dom de orar (“pregare”) com santo entusiasmo em língua estrangeira e de falar várias línguas. Vemos aqui que é tanto o orar quanto o falar em línguas. Ambos são manifestações (diversas) do mesmo dom.

Todavia, não indagamos a respeito da existência do dom. Todos aqui sabemos que ele existe.

A questão é: o que a RCC chama habitualmente de dom de línguas, de orar em línguas e de falar em línguas, é, de fato, o dom de línguas? Noutros termos: o dom de línguas (tanto faz se rezar ou falar) descrito por São Paulo e explicado no Tanquerey (maior autoridade em teologia ascética e mística) é aquilo que a RCC diz que é?

A RCC diz que sim. Outros, entre os quais me incluo, digo que não, ou, no mínimo, que nem sempre. Pode haver, na RCC (e fora dela) um autêntico rezar em línguas e um autêntico falar em línguas. Acredito, entretanto, que nem sempre as línguas praticadas na RCC sejam reais manifestações desse dom, e sim sugestão psicológica.

É lícito ao católico acreditar que nem sempre o que a RCC chama de dom de línguas é verdadeiro dom? É, porque o Magistério ainda não se pronunciou.

É lícito acreditar que as línguas da RCC são sempre o dom? É, pelo mesmo motivo.

Entretanto, chamo a atenção para o fato de que o verdadeiro dom (rezar ou falar) é, para Tanquerey e todos os outros autores de mística e ascética, um dom extraordinário. Ora, a prática da RCC é de um rezar em línguas comum e ordinário, o que contrasta com esse ensino mais tradicional.

Alguns poderiam invocar os tais vídeos em que dois padres da RCC ensinam a orar em línguas.

À luz de Tanquerey, que inclui a oração em línguas como um dos nove carismas de 1 Cor 12 e os chama de FENÔMENOS MÍSTICOS e DONS EXTRAORDINÁRIOS, acho, sim, um total absurdo ensinar a orar em línguas. Um fenômeno místico não pode ser aprendido. A pessoa recebe um dom, manifestando um fenômeno místico, e reza em línguas. Não se aprende a rezar em línguas, como não se aprende a ter visões, nem se aprende a ter os estigmas. E Tanquerey explica todos esses fenômenos no MESMO capítulo!

Pouco importa se é o Pe. Jonas ou o Pe. Léo quem está no vídeo ensinando a orar em línguas. A despeito da veneração que nutro por tais sacerdotes, eles estão errados, sim.

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