Graça - Justificação - Pecado

Pequena reflexão sobre a doutrina da justificação pela fé

A reforma protestante começou quando um monge católico descobriu uma doutrina católica em um livro católico. O monge, claro, era Lutero; a doutrina era a da justificação pela fé; e o livro era a Bíblia. Uma das ironias mais trágicas da história cristã é que a maior disputa da história da Igreja, a que tem causado as maiores perseguições, ódio e guerras sangrentas de ambos os lados, da guerra dos camponeses na época de Lutero à guerra dos trinta anos, que reuniu a maior parte da população de várias partes da Europa Central que qualquer outra guerra da história, incluindo as duas grandes guerras mundiais, até os dias atuais de agonia da Irlanda do Norte – esta disputa entre católicos e protestantes começou de um mal entendido. E até os nossos dias muitos católicos e protestantes ainda não perceberam tal fato.

A história de Lutero já é bem conhecida. Apaixonado, impetuoso, autoritário, sensitivo, de temperamento ruim, Lutero jamais encontrou paz interior. Não conseguia vencer sua noção de culpa apesar de todas as suas boas obras, orações, jejuns e penitências. Seu confessor lhe aconselhou a ler a carta aos Romanos. Nenhum confessor jamais deu tão grandioso conselho. Em Romanos, Lutero entendeu a verdade de que Deus havia perdoado seus pecados gratuitamente, não devido suas obras na Alemanha, mas por causa das obas de Cristo na cruz. Esta descoberta libertou Lutero e ascendeu o fogo que cobriu toda a Europa. O lema da reforma reproduzia a frase paulina de que: “o justo (justificado, salvo) viverá (terá a vida eterna) pela fé (em Cristo)” Rm 1,17.

E onde ficam as boas obras? Lutero, em Christian Liberty, explica que após a grande libertação da fé – que nós somos salvos pela fé nas obras de Cristo, não por nossas obras – ocorre a libertação das obras: elas não precisam ser feitas obrigatoriamente, para comprar nossa entrada no céu, para recolher méritos ou para ganhar pontos com Deus, mas podem ser feitas livre, espontânea e naturalmente, sem conexão com a graça de Deus – não para nos levar ao céu, porque o céu já foi ganho para nós. Com isso, elas podem ser feitas por causa do nosso próximo, e não por nós mesmos, para ganharmos a salvação.

A origem da reforma é atribuída à colocação das noventa e cinco teses de Lutero contra as indulgências nos portões da igreja de Wittenberg. É neste dia que se celebra o “dia da reforma protestante” (31 de outubro de 1917). Lutero tomou essa decisão por causa do escândalo causado por Tetzel, um monge dominicano que erroneamente estava trocando o perdão dos pecados por uma doação.  Ele tinha até mesmo um tipo de “jingle”: “Sobald das Geld im Kasten klingt,/Die Seele aus dem Fegfeuer springt!” (“Assim que a moeda cai na cesta/a alma sai das chamas do purgatório!“). Conta-se a história de um ladrão que chegou para Tetzel e perguntou se ele poderia comprar também o perdão dos pecados que ainda cometeria. Tetzel disse que sim, mas que custaria várias moedas de ouro. O ladrão pagou, pegou a indulgência, e roubou o dinheiro das mãos de Tetzel.

Porém, a chamada “venda das indulgências” (de fato Tetzel exagerou o aspecto monetário das indulgências, não estando de acordo com a doutrina da Igreja) não foi a causa da reforma, foi seu catalisador. No Concílio de Trento a Igreja rapidamente acabou com a prática da venda de indulgências, por concordar com a reclamação de Lutero sobre elas. O problema é que ele não reclamou somente da prática da igreja, mas também da doutrina da igreja. A Igreja pode alterar a sua prática, mas não a sua doutrina. Para mudar uma prática, deve-se permanecer na Igreja. Para mudar a doutrina, deve-se começar uma nova.

Lutero rejeitou uma parte das doutrinas da Igreja que acreditava não encontrar bases na Bíblia. Mas somente uma coisa justifica as suas palavras na Dieta de Worms, que o condenaram: “Aqui estou, não posso voltar atrás. Deus me ajude“. A doutrina era a justificação pela fé. A justificativa para a fé de Lutero era, ele acreditava, a justificação pela fé.

A questão é nada mais nada menos que como chegar ao céu. Lutero ensinou que a Igreja Católica não estava ensinando somente uma heresia (a propósito, os hereges sempre chamam a ortodoxia de herética), mas uma religião diferente, uma outra via para o céu, um “outro evangelho” (Gl 1,6). Isto era uma acusação tão grave quanto você possa imaginar. É preciso uma boa e calma análise para justificar a nossa tese de que a grande disputa entre católicos e protestantes é baseada em um mal entendido.

Certamente, não nos parece um mal entendido. Parece mais com uma contradição: A Igreja Católica ensina que somos salvos pela fé e pelas boas obras, enquanto Lutero ensina que somos salvos somente pela fé (sola fide). Mas as aparências enganam.

Uma coisa é certa: apesar dos dois lados discordarem sobre a relação entre fé e obras, ambas concordam que (1) a fé é absolutamente necessária à salvação; (2) somos totalmente conduzidos por Deus para fazer boas obras. Estes dois pontos são claríssimos na Escritura.

Um outro ponto: os termos usados no debate são ambíguos e usados com sentidos diferentes. Quando os sentidos das palavras são diferentes, duas partes podem facilmente discordar, mesmo aparentando que concordam, porque geralmente se baseiam na palavra, e não no sentido. Ou então as duas partes podem concordar, mesmo aparentando que não, porque concordam com o sentido, mas não com a palavra. Esta última pode se encaixar em nossa tese.

Quando Lutero disse que somos salvos somente pela fé, ele na realidade quis dizer com “salvação” o processo inicial, a justificação, como obra somente de Deus. Mas quando Trento disse que somos salvos tanto pela fé quanto pelas boas obras, ela cobre todo o processo em que Deus nos conduz ao nosso destino eterno, e este caminho inclui o arrependimento, a fé, a esperança e a caridade, as obras de amor.

A palavra também foi usada em dois sentidos. Lutero usou o sentido amplo, da aceitação pessoal da salvação oferecida por Deus, que inclui o arrependimento, fé, esperança e caridade. Este é o sentido usado por Paulo em Romanos. Mas em 1 Coríntios 13, Paula usa um sentido mais específico, como uma das três virtudes cardeais, aliada à esperança e ao amor. Neste sentido que Paulo expressa, a fé somente não é suficiente para a salvação, pois esperança e caridade devem estar presentes. Este sentido é usado pelo Catecismo de Baltimore: “a fé é um ato do intelecto, dirigido pela vontade, pelo qual cremos no que foi revelado pela autoridade de Deus, que a revelou“.

Esta “fé”, apesar de dirigida pela vontade, é um ato do intelecto. Apesar de necessária à salvação, não é suficiente. Tiago diz que até mesmo os demônios têm esta fé (Tg 2,19). É por este motivo que ele diz: “Vedes como o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé?” (Tg 2,24). Infelizmente, Lutero designou esta carta do Apóstolo de “Carta de Palha”. Ele não entendeu o que Tiago esta querendo dizer (sobre a fé de Abraão): “Vês como a fé cooperava com as suas obras e era completada por elas” (Tg 2,22).

A fé é a raiz, o começo de tudo. A esperança é a seiva, a energia que faz a planta crescer. O amor é o fruto, o produto visível, a beleza que se apresenta. A planta de nossa vida em Cristo é esta: a vida de Deus veio a nós pela fé, por nós pela esperança e nós a demonstramos pelas obras da caridade. Este é claramente o sentido bíblico, e é impressionante como católicos e protestantes que o reconhecem rapidamente concordam um com o outro sobre este decisivo ponto.

Muitos católicos ainda não sentaram e estudaram a respeito desta doutrina tão católica e tão bíblica. Muitos pensam que somos salvos pelas boas intenções, sendo gentis, sinceros ou por fazer uma certa quantidade de devoções ou boas ações. Nestes últimos vinte e cinco anos tenho questionado vários estudantes católicos com esta pergunta: se você morresse hoje à noite e Deus lhe perguntasse porque deveria deixar você ir para o céu, o que você responderia? A maioria não sabia responder a esta pergunta que é uma das mais essenciais do cristianismo. Muitos deles nem mencionaram o nome de Jesus!

Até que nós saibamos os fundamentos, os protestantes não vão querer nos ouvir quando quisermos lhes ensinar algo sobre o que está em cima do prédio. Quem sabe Deus ainda permite a divisão entre católicos e protestantes não somente porque os protestantes deixaram muitas das verdades cristãs, mas porque muitos católicos ainda não conhecem a preciosidade de sua fé, que a salvação é um dom gratuito de Deus, aceito pela fé. Lembro perfeitamente a surpresa quando, ainda jovem, num colégio calvinista, eu li São Tomás de Aquino e o Concílio de Trento falando sobre a justificação. Não achei que ali havia um “outro evangelho” ou um estilo de salvação tipo “faça você mesmo”, mas uma fortíssima ênfase de que nós não podemos fazer nada sem a graça de Deus, e é por esta graça, aceita pela fé, que somos salvos.

A reforma protestante começou quando um monge católico descobriu uma doutrina católica em um livro católico. Isto pode acabar quando católicos e protestantes começarem a fazer a mesma coisa e compreender o que estão fazendo: descobrindo uma doutrina católica em um livro católico.

Traduzido para o Veritatis Splendor por Rondinelly Rosa Ribeiro.

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