Caro Rodrigo Pedroso, Salve Maria!

Li o seu recente trabalho sobre a eventual permissão dada pelo Santo Padre ao IBP, no sentido de criticar construtivamente o CV II.

Muito embora, no seu artigo, vc tente passar a idéia de que não é lícito criticar o concílio, infelizmente, para quem tem algum conhecimento ou não no assunto, o efeito foi inverso a desejado.

Pois, no artigo, o Sr. reconhece que Sua Santidade concedeu a permissão ao IBP para criticar o IBP. A grande questão não é se eu, o Sr. ou quem quer que seja, têm a mesma permissão “escrita” do Papa.

A questão é que é a primeira e única vez, na história da Igreja, que um Papa permite que um concílio seja criticado – ainda que construtivamente – por quem quer que seja.

E que uma das finalidades do IBP é esta, foi declarado pelo superior do Instituto em sua 1a homilia, comentando o estatuto do IBP: “Os três encargos essenciais de nossos estatutos eu os resumo dizendo: a obrigação da Missa tradicional, o dever de criticar, de dar a verdadeira interpretação do Concílio Vaticano II, terceiro, esta abertura de paróquias, que está em nossos estatutos! É também uma ordem da Santa Igreja Romana que nos confia este trabalho. Isso é verdadeiramente maravilhoso » ” (Primeiro sermão do Pe. Laguérie como Superior do Instituto do Bom Pastor).

Caríssimos, procuro ser muito cuidadoso quanto a estes temas. Mas, analisando toda esta história, salta aos olhos:

1) O IBP foi criado pela Santa Sé, tendo como uma de suas finalidades criticar – construtivamente – o CV II;

2) Em vários livros e trabalhos, o própprio Cardeal Ratzinger criticou construtivamente o CV II;

3) É a primeira e única vez, na história bimilenar da Santa Igreja, que se concede a quem quer que seja, o poder de se criticar, ou reler, ou reinterpretar, ou “examinar minunciosamente” um concílio.

E também é a primeira vez que surge tal necessidade. Um exemplo comparativo: “844. Cân. 1. Se alguém disser que os sacramentos da Nova Lei não foram todos instituídos por Jesus Cristo Nosso Senhor, ou que são mais ou menos que sete, a saber: Batismo, Confirmação, Eucaristia, Penitência, Extrema-Unção, Ordem e Matrimônio; ou que algum destes sete não é verdadeira e propriamente sacramento – seja excomungado.” Este é o primeiro canon sobre os Sacramentos do Concílio Ecumênico de Treto. Nem um católico, nem o Papa, pode criticá-lo, ainda que construtivamente. Não é lícito sequer “examiná-lo minunciosamente”. Trata-se de verdade revelada e confirmada pela Igreja.

FInalizando, reconheço que eu não tenho autoridade ou capacidade intelectual para criticar o CV II. Assisto a Missa Nova e participo de movimentos de leigos pós-conciliares. Mas, com o necessário cuidado, é fácil notar que o CV II foi, no mínimo, “diferente”. Senão, como poderia o Papa permitir que textos infalíveis e dogmáticos fossem “criticados construtivamente”, ou “relidos”, ou “examinados minunciosamente”?

Pax Domini!

Gustavo de Castro Gouveia


Prezado Gustavo:

Você me diz que o efeito do meu artigo foi o inverso do desejado. Creio que não, pois se assim fosse, o pessoal que é contra o Concílio, em vez de me escrever cobrando explicação, estaria distribuindo e publicando o meu texto a torto e a direito. É como diz o ditado popular: macaco quando não pode comer banana, diz que está verde…

Não se pode fazer um jogo de palavras com a palavra “criticar”. O próprio pe. Laguérie, no sermão que você citou, diz que é um encargo estatutário do Instituto “dar a verdadeira interpretação do Concílio Vaticano II”. É nesse sentido que a palavra criticar deve ser entendida.

E veja que o Papa, sempre que pode, louva o Concílio. Se o Instituto do Bom Pastor for criticar construtivamente o Concílio tomando o Papa como exemplo, então benza a Deus.

O encargo de “dar a verdadeira interpretação do Concílio Vaticano II” foi dado ao Instituto do Bom Pastor não por circunstâncias intrínsecas ao Concílio, mas para reconciliar com a Igreja católica os membros deste Instituto. Se foi a primeira vez que o Papa concedeu não o poder (pois o poder de dar a interpretação autêntica dos textos conciliares pertence ao Papa ou ao concílio ecumênico), mas o encargo de auxiliar o Papa nessa interpretação, a partir de uma crítica construtiva, não foi a primeira vez que um grupo se separa da Igreja por não aceitar as conclusões de um Concílio ecumênico: em 1870, um grupo de bispos e padres se recusou a aceitar o Vaticano I, em que foi definida dogmaticamente a infalibilidade papal, e passaram a se intitular “véteros-católicos” (ver https://www.veritatis.com.br/article/4090). Certamente, os vétero-católicos acharam o Vaticano I muito “diferente” dos Concílios anteriores.

E não é a primeira vez que um documento importante da Igreja suscita diversas interpretações — não por defeito intrínseco, mas pela má vontade dos que o não querem acolher em seu verdadeiro sentido, seja à direita, seja à esquerda. Não sei se você já ouviu falar do Syllabus, documento em que o Papa Bem-aventurado Pio IX condenou os erros de sua época (e a condenação permanece bem atual). Pois esse documento provocou um rebuliço na época, havia gente achando que o Papa havia condenado “a ciência, a liberdade e o progresso” — e ainda hoje muitos anti-religiosos utilizam tal documento para afirmar essas baboseiras. Durante a controvérsia, d. Dupanloup, Bispo de Orléans, na França, redigiu um livrinho “La Convention du 15 septembre et l’Encyclique du 8 décembre“, que explicava maravilhosamente bem o que o Papa queria dizer no Syllabus, retificando as maldosas distorções. Esse livrinho logo teve mais de 150.000 cópias vendidas, foi recomendado por escrito por cerca de 600 bispos (60% do episcopado católico, na época) e recebeu um breve de felicitações do próprio Bem-aventurado Pio IX.

E eu nunca disse que os textos do Concílio ecumênico Vaticano II estavam revestidos de infalibilidade. O Vaticano II não foi convocado para definir novos dogmas, mas para “repor em toda a sua luz a substância do pensamento e da vida cristã”, segundo as palavras do Papa Bem-aventurado João XXIII. É certo que, no Vaticano II, a Virgem Maria foi proclamada Mãe da Igreja, ensinou-se que todos são vocacionados à perfeição da vida cristã (a santidade), foi incentivado o apostolado dos leigos, mas ao transmitir essa doutrina a Igreja não quis pronunciar-se de modo definitivo. Aliás, são poucas as vezes que a Igreja decide exercer seu magistério extraordinário, dotado da assistência infalível do Espírito Santo. Veja, por exemplo, o caso da Imaculada Concepção da Virgem Maria: foi considerada desde o princípio como doutrina verdadeira, foi depois repetidamente confirmada pelo magistério da Igreja, até ser definida solenemente como dogma em 1854. As coisas, na Igreja, amadurecem lentamente.

Mas o fato da Igreja não ter querido fazer novas definições dogmáticas no Concílio ecumênico Vaticano II não significa que o católico tenha o direito de rejeitá-lo. Pois um bom católico não deve ater-se apenas ao que a Igreja ensina no exercício do seu magistério extraordinário (que, como já expliquei, poucas vezes se manifesta), mas também àquilo que ela ensina no exercício ordinário de seu magistério autêntico, e nesse caso estão compreendidos os ensinamentos do Vaticano II. Leia a instrução pastoral de D. Fernando Rifan, Bispo-Prelado da Administração Apostólica São João Maria Vianney, em que o referido Bispo explica claríssimamente os diversos graus de adesão que devemos dar aos ensinamentos do Magistério da Igreja. Tabém sua recente Orientação Pastoral sobre o Magistério Vivo.

Para se inteirar mais a respeito das razões por que foi convocado o Vaticano II, leia a “Introdução Histórica ao Cristianismo“, disponível na página: http://www.accio.com.br/nazare/1946/hist-01.htm

Um fraterno abraço,

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