Carta que enviei ao Jornal do Brasil acerca de matéria eivada de erros que publicaram (seria preciso dizer que a carta não foi publicada?…):

Sr. Editor:

Certamente o fito da publicação da “Pesquisa JB” na página 10 deste jornal (dia 28/11/98), no verso do texto de D. Eugênio Salles (“Prudente Avaliação”, na página 9), não foi a auto-ironia.

Foi este, contudo, o seu efeito. Neste artigo o Cardeal-Arcebispo do Rio de Janeiro menciona que “lemos nos jornais informações sobre a Igreja Católica que revelam desconhecimento da instituição fundada por Cristo há 2000 anos. Atacam uma imagem falsa, fundamentam o raciocínio sobre atos e ensinamentos distorcidos ou usam uma terminologia errônea e até ridícula.”

Virando a página encontramos um exemplo do que é denunciado por Sua Iminência: a “Pesquisa JB”, intitulada “No passado, indulgência era comprada”. Faltou pesquisa e sobrou preconceito.

Esta pesquisa peca em sua base por desconhecer totalmente o que seja uma indulgência e qual seja a Doutrina da Igreja (aliás imutável) sobre o assunto.

Vejamos:

“No passado, indulgência era comprada” – O título já está errado. O que ocorria no passado é que havia a possibilidade de serem lucradas indulgências (nas condições habituais, isto é, ter já feito uma confissão minuciosa, comungar, orar pelo Sumo Pontífice e ter horror completo aos pecados cometidos) pela participação, inclusive financeira, em alguma obra por si já meritória, como a construção de uma catedral. Indulgências não eram compradas; quem ajudasse, porém, na construção de uma catedral, carregando pedras ou doando-as (ou ainda doando dinheiro para que elas fossem compradas) poderia, nas condições habituais, lucrar uma indulgência. Após o Concílio de Trento a disciplina tocante às indulgências foi modificada e participação financeira em obras pias passou a não mais poder ser indulgenciada.

“A indulgência concedida pela Igreja não é diferente de uma redução de pena, parcial ou total, oferecida pela Justiça” – Outro engano. A indulgência lucrada pelo fiel poderia talvez ser comparada a uma mudança voluntária de pena, coisa que ao que eu saiba não é permitida pela legislação brasileira. Seria talvez comparável a, por exemplo, um réu que escolhesse prestar serviços à comunidade ao invés de ficar preso. A ação indulgenciada (por exemplo: rezar pelos mortos no dia de Finados) seria o equivalente à prestação de serviços.

“Fazer orações é a forma mais comum de ganhar indulgências. outros meios são o jejum, a peregrinação e a doação de esmolas.” – Mais um engano. A Indulgência é a participação do fiel que a lucra no Tesouro de Méritos da Igreja (as orações, penitências e caridade praticadas por todos os cristãos). A cada pecado cometido o pecador se fecha para a Graça; um pecado mortal (ou seja, um pecado cometido deliberada e conscientemente em matéria grave) traz além desta consequência, dita “temporal”, uma outra, dita “eterna”- a condenação ao Inferno. Para escapar do inferno há a Confissão. Para livrar-se da consequência temporal do pecado (que é basicamente um apego desordenado, isto é, não voltado para Deus, ao mundo e seus prazeres – é por isso que um ladrão mata com mais facilidade: as consequências temporais de seus pecados o fazem mais refratário à Graça dada por Deus de não matar), deve-se fazer oração, penitência e caridade. A indulgência é simplesmente uma participação concedida pela Igreja nas orações, penitências e caridade de outros cristãos. O jejum não é indulgenciado, por exemplo, mas é um meio de purgar as consequências temporais do pecado. Uma ação indulgenciada (como a assistência à primeira Missa de um sacerdote recém-ordenado), se feita nas condições habituais (expostas anteriormente) e no desejo de lucrar esta indulgência faz com que o portador una aos méritos desta ação os méritos, por exemplo, de penitências, oração e caridade feitas por todos os outros cristãos. Seria como que “vitaminar” uma ação por si já meritória.

“O comércio das indulgências foi um capítulo constrangedor da história da Igreja Católica, que precipitou o nascimento do protestantismo.” – O que realmente houve foi uma pregação errada e feita contra as ordens da Igreja quando foram oferecidas indulgências (nas condições habituais) aos que ajudassem na construção da Basílica de São Pedro em Roma. Não é um “capítulo constrangedor na hoistória da Igreja”, pois foi apenas mais um caso de desobediência como tantos outros. Não se pode imputar à Igreja um ato errado feito contra as suas ordens!!!

“A origem da venda de indulgências remonta ao século 11, quando pela primeira vez a Igreja ofereceu um documento garantindo a redução das penas impostas por um confessor.”- Outro engano. As penas não são “impostas” pelo confessor, mas sugeridas. Se o confesor sugere que seja rezado o terço do rosário, nada impede que o penitente substitua esta penitência por, por exemplo, a oração do Rosário completo, ou ainda por atos de caridade ou penitência.

“Para obter o documento era preciso dar uma esmola substancial.” – Outro engano. Um atestado de haver cumprido uma ação indulgenciada pode ser obtido sendo feita esta ação indulgenciada. No caso desta ação ser a participação financeira na construção de uma Catedral, é evidente que a ação (a doação de dinheiro para a construção da Catedral) deve ser cumprida antes de ser dado o atestado! Não se trata de esmola, mas de uma colaboração indulgenciada em obra pia.

“Foi assim que o Papa Urbano II financiou as Cruzadas, prometendo ainda o perdão de todas as penas, presentes e futuras, aos que fossem guerrear contra os muçulmanos.” – Outro engano. É impossível usar uma indulgência em relação a pecados não ainda cometidos. É possível, sim, lucrar uma indulgência plenária, mas um pecado ainda por cometer trará outras consequências que uma Indulgência anterior não pode purgar.

“Assim nasceram as indulgências plenárias, ou completas.” – Outro engano. São Paulo já escreve aos Coríntios (2 Cor 2,6-10) dando uma indulgência plenária a um membro desta Igreja particular.

“Como, na Idade Média, acreditava-se que os pecadores arrependidos que morriam antes de expiar a pena tinham que sofrer o resto da condenação num purgatório, antes de serem admitidos no céu, muitas pessoas compravam as indulgências da Igreja para já ir apressando sua saída deste lugar dantesco.”- Uma chusma de enganos! Vejamo-los:

1 – A Doutrina da Igreja é sempre a mesma, não muda. O Purgatório é o mesmo hoje como era na Idade Média, e a mesma é a Doutrina da Igreja.

2 – Quem vai para o Purgatório (não para “um purgatório”) é quem não foi condenado. Não faz o menor sentido dizer que “os pecadores arrependidos (…) tinham que sofrer o resto da condenação num purgatório”. O Purgatório é o estado, ou lugar, em que a vontade da pessoa já salva é feita conforme à vontade de Deus, purgando as consequências temporais de seus pecados (ou seja, desapegando-se do mundo para apegar-se totalmente a Deus).

3 – Indulgências, conforme expliquei acima, não são nem nunca foram “vendidas”. Indulgências são lucradas fazendo-se um ato por si já meritório, que até o Concílio de Trento poderia ser uma participação financeira em obra pia.

4 – Uma indulgência não é lucrada “para já ir apressando sua saída deste lugar dantesco”; uma indulgência é lucrada para ajudar a pessoa a alinhar a sua vontade com a vontade de Deus. É como uma oração de um irmão por esta pessoa. Alinhando a sua vontade à de Deus é evidente que haverá menos a sofrer no Purgatório, mas não se trata de um “comércio de saídas antecipadas”, sim de uma melhora da pessoa.

5 – “Mas nem todos concordavam com isso.” – Realmente, creio que ninguém que tenha algum conhecimento de teologia ou história da Igreja poderia concordar com um texto tão eivado de absurdos enganos…

Para aprofundar-se um pouco nesta questão, recomendo um texto de minha autoria sobre esta frequente e absurda acusação de venda de indulgências, encontrável em Respostas.

Na esperança de ver menos enganos nas matérias que dizem respeito à Igreja publicadas neste jornal,

seu criado,
Carlos Ramalhete

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