Espaço do Leitor

Podemos confiar na Vulgata de São Jerônimo?

Olá membros do VS. A santa paz do Senhor e o amor da mãe da ternura! Eu tenho em casa uma versão da Vulgata, traduzida pelo pe. Matos Soares. Sempre uso ela para estudos, por acreditar mais na tradução dela. Certo dia, em debate com um protestante sobre imagens, respondi a ele usando I Reis 7,36 onde se fala de querubins, leões, palmas e a figura de um homem em pé representados no templo. O protestante afirmava que não haviam imagens de homens nos templos, por isso a citei. Para minha surpresa, na Bíblia dele haviam todas as imagens citadas, menos a do homem em pé. Então fui procurar na Bíblia da Ave-Maria e Pastoral e também não tinha. O que aconteceu? Em Lucas 13,1ss ensina-se que devemos fazer penitência, porém em todas as outras Bíblias se fala “se não vos arrependerdes”. Qual a importância da Vulgata para a IGREJA? ELA AINDA É A VERSÃO OFICIAL? QUAL A PRECISÃO DA VULGATA COM RELAÇÃO AO SEU CONTEÚDO? Desde já os meus sinceros agradecimentos. (E.)

Prezado E.,

Pax Domini!

Comecemos a responder o seu email de trás para frente:

1. Qual a importância da Vulgata para a Igreja?

A Vulgata constitui um MARCO para a Igreja de língua latina. Até então circulavam diversos textos e extratos latinos, todos eles baseados sobre a tradução grega e em estado precário. Quando o papa Dâmaso encarregou S. Jerônimo de estabelecer um texto digno de confiança para a Igreja, em 384, não o encarregou de preparar uma nova tradução, mas apenas de rever e corrigir esses textos que circulavam em Roma, com a ajuda da tradução grega. S. Jerônimo começou a fazer essa revisão, mas a partir de 391, já estabelecido na Palestina, resolveu retraduzir todo o AT com base nos textos em hebraico e aramaico, inclusive Tobias e Judite, que encontrou em aramaico (os demais deuterocanônicos baseou-se no texto grego), concluindo tudo por volta do ano 406. De início, sua tradução sofreu grande oposição, devido principalmente o emprego de termos não-tradicionais ou certos afastamentos da tradução grega; no tempo de S. Gregório Magno, porém, passou a desfrutar de iguais direitos que as demais traduções, fixando-se como texto principal para a Igreja latina entre os séculos VIII e IX (a denominação “Vulgata”, contudo, só começou a ser usada a partir do séc. XIII).

2. Ela ainda é a Versão oficial?

Atualmente a Igreja de Roma utiliza a “Nova Vulgata”, recentemente traduzida conforme os métodos científicos mais modernos. No Brasil, para o uso litúrgico, é empregada a “Bíblia Sagrada Tradução da CNBB” [BSC], que em sua apresentação informa: “Foi levada em consideração, sistematicamente, a nova tradução oficial [a Nova] ‘Vulgata’, conforme o desejo expresso pelo Concílio Vaticano II e pelos últimos Papas. Como recomenda o Concílio Vaticano II (Dei Verbum, n. 22), a tradução se baseia, pois, nos textos originais hebraicos, aramaicos e gregos, cotejados criteriosamente com a Nova Vulgata, ela mesma baseada nos documentos originais”.

3. Qual a precisão da Vulgata com relação ao seu conteúdo?

Segundo a ampla maioria dos estudiosos (p.ex.: Altaner e Stuiber), “as traduções [da Vulgata] são fiéis e apuradas, porém, não servilmente literais, sendo o critério de Jerônimo a inteligibilidade do texto e o respeito à sensibilidade estilística do leitor. Por consideração ao texto tradicional, seguiu amiúde a LXX (…) Não raras vezes aflora em suas traduções o influxo de tradições rabínicas, bem como seus conhecimentos da história clássica da literatura e da civilização. Suas traduções mais tardias apresentam estilística melhor. Em vista dos pouquíssimos recursos à sua disposição, a obra de Jerônimo é digna de admiração e da mais alta estima” (“Patrologia”, ed. Paulinas, 2ª ed., 1988, pp. 397-398).

Passemos agora a apreciar os problemas que você apontou em certas passagens da Vulgata:

a) 1REIS 7,36

Vejamos primeiro como se encontra essa passagem nas duas traduções que temos da Vulgata em português:

– Matos Soares: “Lavrou também nas superfícies, que eram de bronze, e nos cantos, querubins, leões, palmas, apresentando como que a figura de um homem em pé, e com tal arte que não pareciam gravados, mas sobrepostos ao redor”.

– Antonio Pereira de Figueiredo: “Lavrou também naqueles taboleiros, que eram de bronze, e nos cantos, querubins, leões e palmas, como representando a figura de um homem em pé, de tal modo que estes não pareciam gravados, mas de vulto postos ao redor”.

A Neo Vulgata, porém, que é a versão latina oficial da Igreja Católica, diz:

– “Scalpsit quoque in tabulatis illis, fulcris eius et super limpos eius cherubim et leones et palmas secundum vacuum singulorum, et coronas per circuitum”.

Como se vê, a Neo Vulgata removeu a parte controversa (“como representando a figura de um homem em pé” etc.) e observa que ao redor havia coroas (=grinaldas?), adotando o sentido genérico que modernamente é proposto para esse versículo.

Mas os problemas com esse versículo não param aí…

Vejamos como as Bíblias protestantes e ecumênicas traduzem o versículo:

– Almeida Edição Contemporânea (AEC): “Nas placas de seus apoios e dos seus painéis lavrou querubins, leões e palmeiras, segundo o espaço de cada uma com grinaldas em redor”.

– Almeida Corrigida e Fiel (ACF): “E nas placas de seus esteios e nas suas cintas lavrou querubins, leões e palmas, segundo o espaço de cada uma, e outros adornos em redor”

– Almeida Revista e Corrigida (ARC): “E nas pranchas das suas asas e nas suas cintas lavrou querubins, leões e palmas, segundo o vazio de cada uma, e junturas em redor”.

– Tradução na Linguagem de Hoje (TLH): “Os apoios e os painéis eram enfeitados com figuras de querubins, leões e palmeiras, que cobriam todo o espaço que havia; e ao redor dessas figuras havia desenhos em espiral”.

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– Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH): “Os apoios e os painéis eram enfeitados com figuras de querubins, leões e palmeiras, que cobriam todo o espaço que havia; e ao redor dessas figuras havia desenhos em espiral”.

– Nova Versão Internacional (NIV): “Ele esculpiu figuras de querubins, leões e tamareiras na superfície dos apoios e nas placas, em cada espaço disponível, com grinaldas ao redor”.

Tradução do Novo Mundo (TNM): “Além disso, nas placas dos seus lados e nos seus painéis laterais gravou querubins, leões e figuras de palmeiras, de acordo com o espaço útil de cada, bem como festões em toda a volta”.

– Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB): “Sobre as superfícies planas, os esteios e os painéis, ele gravou querubins, leões e palmas erguidas, com volutas ao redor”

E, para completar o nosso estudo sobre esse versículo, pesquisemos as Bíblias Católicas:

– Bíblia de Jerusalém (BJ): “Sobre os painéis das travessas e sobre as molduras mandou gravar querubins, leões e palmas… e volutas ao redor”.

– Bíblia Ave Maria (BAV): “Nas placas dos seus esteios e dos painéis assim como no espaço livre entre estas, esculpiu querubins, leões, palmas e grinaldas circulares”.

– Bíblia Edição Pastoral (BEP): “Sobre os painéis de cada travessa e sobre as molduras, mandou gravar querubins, leões e palmeiras dentro dos espaços livres, com grinaldas ao redor”.

– Bíblia Mensagem de Deus (BMD): “Nas faces destas bases ele gravou querubins, leões e palmeiras, conforme o espaço disponível e, em redor, grinaldas”.

– Bíblia Sagrada de Aparecida (BSA): “Sobre a superfície de seus painéis e de suas molduras mandou gravar querubins, leões e palmeiras, conforme o espaço livre, e guirlandas ao redor”.

– Bíblia Sagrada Tradução da CNBB (BSC): “Também esculpiu querubins, leões e palmas na superfície das armações e dos painéis, de acordo com o espaço disponível em cada um, e grinaldas ao redor”.

– Bíblia Sagrada Vozes (BSV): “Em seguida Hiram gravou nas placas, [moentes e painéis] querubins, leões e palmas, segundo o espaço disponível, e ao redor ainda grinaldas”.

– Bíblia Sagrada Palavra Viva (BPV): “Nas placas dos seus suportes e das pedras lavradas, assim como nos espaços vazios, esculpiu querubins, leões, palmas e grinaldas circulares”.

Como se percebe nitidamente, o conteúdo e a extensão do versículo é totalmente controverso! Mesmo quando lemos apenas as traduções protestantes!!!

Leiamos novamente o versículo conforme cada uma das três versões da Bíblia de Almeida (AEC, ACF e ARC), que são as “mais clássicas” entre os protestantes. Afinal:

– Onde foram lavradas as figuras? Nas placas dos apoios/esteios ou nas pranchas das asas e cintas?

– As figuras do reino vegetal eram palmas (=folhas de palmeira) ou palmeiras (=árvores)?

– E quantos tipos de enfeite haviam: um [AEC /ARC] ou mais de um [ACF]?

– Caso seja apenas 1 tipo de enfeite, eram grinaldas (=coroas de flores) ou junturas (=linhas de união)??

E o problema aumenta muito mais quando passamos a considerar as demais traduções desse versículo, quer protestantes/ecumênicas, quer católicas:

– Qual técnica foi empregada para a confecção das imagens? Lavra, entalhe ou gravação?

– Onde foram confeccionadas? Nas placas dos apoios/esteios, nas pranchas das asas e cintas, nos painéis e superfícies planas, nas travessas e molduras ou na superfície das armações???

– Qual era a figura do reino vegetal? Palmas, palmeiras ou tamareiras?

– E qual tipo de enfeite adicional? Grinaldas (=coroas de flores), festões (=ramalhetes), guirlandas (=anel de corda) ou junturas (=linhas de união)??

etc. etc.

Leia todas as traduções com calma e atenção para verificar quantas dúvidas podem surgir aqui…

Aliás, comparando todas essas traduções e as notas de rodapé que as Bíblias católicas e ecumênicas costumam a trazer (as Bíblia protestantes fazem o grande favor de omiti-las, já que cada crente é “livre” para examinar e interpretar os versículos [daí a existência de milhares de denominações protestantes diferentes, cada uma com sua própria interpretação]), encontramos na TEB uma pequena nota BASTANTE RELEVANTE acerca da tradução deste versículo:

– “Texto hebraico obscuro, interpretado com o auxílio do grego” (Nota “f”).

Com efeito, TODAS as controvertidas traduções acima apresentadas podem ser válidas ou… também inválidas…

No caso da Vulgata em específico, devemos observar duas coisas também relevantes e que podem justificar a tradução adotada por São Jerônimo:

1º) São Jerônimo, ao contrário, da orientação científica moderna, TRADUZIU SOZINHO a Bíblia para o latim. Com efeito, ao atingir este versículo, certamente ficou tão desorientado como ainda desorientadas são as traduções modernas, apesar dos indescritíveis avanços científicos que temos nas mais diversas áreas (arqueologia, linguística etc.). Jerônimo deu, assim, o melhor de si para tentar oferecer aos cristãos de língua latina a melhor tradução que compreendia para o referido versículo.

2º) São Jerônimo, ao contrário da grande maioria dos Santos Padres e Escritores eclesiásticos de seu tempo, rejeitava a idéia de que a tradução grega da Bíblia (conhecida como LXX ou Septuaginta) fosse realmente inspirada por Deus, apesar de ter sido a Bíblia oficial da Igreja desde o tempo dos Apóstolos (o que explica o fato de que, das cerca de 350 citações que o NT faz do AT, cerca de 300 correspondem à tradução da LXX). Chegou, inclusive, a mudar-se para a Palestina para desempenhar melhor o seu encargo de tradutor das Sagradas Escrituras conforme a “verdade hebraica” (isto é, seguindo as Escrituras dos judeus da Palestina, redigidas em hebraico). Não se deve duvidar, portanto, que São Jerônimo tenha recorrido a rabinos para tentar conhecer o sentido desse [e de outros] versículos ou, ainda, tenha feito uso de algum manuscrito hebraico que disponha o versículo tal como Jerônimo traduziu (e isto não seria de se estranhar, até porque pesquisadores e arqueólogos já demonstraram cientificamente que o texto hebraico também não era uniforme).

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3º) Recordando novamente a nota contida na TEB (“Texto hebraico obscuro, interpretado com o auxílio do grego”), devemos observar que São Jerônimo, ao contrário das nossas Bíblias modernas, sempre mostrou-se avesso a confrontar sua tradução “conforme a verdade hebraica” com as traduções gregas. Não é à toa que recebeu muitas críticas, inclusive de Santo Agostinho, por empregar termos diferentes dos tradicionais.

4º) Mantendo ainda em mente a nota da TEB, convém perguntar, por fim: diante dos avanços científicos supra citados, em especial na área de linguística, por que seria necessário recorrer HOJE à tradução grega para se conseguir traduzir – insuficientemente – esse versículo??? Não bastaria traduzir direto do hebraico e consultar os judeus que ainda dominam a língua como ninguém??? Ora, se a dificuldade fosse manifestada apenas pela TEB, poderíamos concluir que sim… Mas não é o caso! Como se constata, cada tradução verte o versículo de maneira diferente das outras; certamente “doutores em hebraico” foram consultados e também não chegaram a uma conclusão segura. Em particular, a diferença de significado que encontramos na Bíblia protestante de Almeida, mais precisamente entre ARC e ACF/AEC, não deixam de causar maior espanto, tendo em vista o fato de derivarem da pena do mesmo tradutor (João Ferreira de Almeida) e “corrigidas” pelos respectivos editores.

Diante disso, não se pode simplesmente “condenar” a tradução de São Jerônimo! Ela é “tão insegura” ou “tão segura” nesse versículo quanto as demais Bíblias antigas ou modernas… Os protestantes, principalmente, não podem condená-lo até porque fizeram muito uso da Vulgata aqui no Brasil (omitindo, evidentemente, as passagens e os livros deuterocanônicos), conforma a tradução do pe. Antonio Pereira de Figueiredo, sabia? Com efeito, lemos no trabalho “A Ação Bíblica Protestante no Brasil” (Agnelo Rossi):

“Outra tradução espalhada pelos protestantes é a do Padre Antonio Pereira de Figueiredo (1725-1797), que começa a editar em 1778 o Novo Testamento e de 1783 a 1790 o Antigo Testamento, traduzindo a Bíblia da edição Vulgata [de São Jerônimo]. (…) A Sociedade Bíblica de Londres publicou diversas edições da versão Figueiredo, sem prefácio e notas. A de 1821 trazia os livros deuterocanônicos, que os protestantes consideram apócrifos. Mas a edição de 1828 já não os apresenta mais. É que nesse ínterim, a Sociedade Bíblica de Londres, por decreto de 3 de maio de 1826, proibira a divulgação da Bíblia com os pretensos livros ‘apócrifos’ (Cornely, Manuel d’Introduction, vol. I, p. 50) (…) Ocupado o território português por tropas britânicas e estabelecidas as relações comerciais e políticas com a Grã-Bretanha, a colônia britânica residente em Lisboa e no Porto rapidamente se propagou pelo reino. Tudo isso favoreceu a iniciativa da Casa Bertrand de divulgar as edições de Figueiredo. (…) Na realidade, nem Almeida nem Figueiredo satisfaziam completamente as Sociedades Bíblicas Britânica e Americana (…) Por isso, em abril de 1943, as Sociedades Bíblicas Unidas, sentindo a necessidade duma revisão de Almeida, constituíram uma comissão de 18 membros, 12 para o Novo Testamento e 6 para o Antigo Testamento” (Estudos Bíblicos Adicionais, ed. das Américas, pp. 462-463).

Como conclusão natural, percebe-se que durante muitos anos os protestantes de língua portuguesa não se preocuparam com a existência da expressão “como representando a figura de um homem em pé, de tal modo que estes não pareciam gravados” na tradução de Figueiredo que também adotavam, até resolverem abandoná-la para investir apenas na tradução de João Ferreira de Almeida…

Mas você diz: “Certo dia, eu, em debate com um protestante sobre imagens, respondi a ele usando I Reis 7,36 onde se fala de querubins, leões, palmas e a figura de um homem em pé representados no templo. O protestante afirmava que não haviam imagens de homens nos templos, por isso a citei. Para minha surpresa, na Bíblia dele haviam todas as imagens citadas, menos a do homem em pé”.

Ora, qual é o versículo que os protestantes avessos às imagens citam sempre em primeiro lugar para nós, católicos, quando querem condená-las? Não é Êxodo 20,4 ou Deuteronômio 5,8? “Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas de baixo da terra” [ARC] (grifos nossos).

Pois bem! Onde ficam os querubins? Não é “em cima nos céus”? E os leões e palmas? Não é “em baixo na terra”?? Com efeito, a presença ou a ausência de uma imagem humana no templo é totalmente IRRELEVANTE neste caso, pois se esse mandamento possui uma proibição ABSOLUTA (como costumam a pregar os protestantes) e não uma proibição RELATIVA (como pregam os católicos), ele teria sido violado apenas com a presença dessas imagens esculpidas de seres celestes e terrestres! Portanto, essa passagem demonstra muito bem que a proibição desse mandamento é sim RELATIVA!

O seu interlocutor protestante, porém, percebendo que não teria como deixar de reconhecer essa conclusão é que acaba apelando para a manjadíssima estratégia da “metralhadora giratória” e, querendo que você explique como a figura do homem foi parar lá na Vulgata de São Jerônimo – o que é irrelevante para o tema que vocês estão discutindo – desvia a sua atenção para o fato acima, passando assim para um outro tema (=transmissão do texto sagrado). Não caia nessa!!! Peça para que ele explique como Deus proibiu ABSOLUTAMENTE a confecção de imagens de qualquer coisa “em cima nos céus, em baixo na terra e nas águas de baixo da terra” e agora, dentro de seu próprio Templo, encontramos imagens de querubins, leões, árvores, guirlandas e coisas semelhantes, em grande quantidade!

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E mais! Não seria de se estranhar a presença de imagens humanas ao lado de figuras de animais, plantas e seres angélicos nos edifícios de culto judeu… Se você ficou curioso com esta minha afirmação, peço a gentileza de clicar no link a seguir para iniciar uma viagem no tempo, para conhecer a Sinagoga (sim! uma casa de oração judaica!) de Dura Europos, na Síria, do ano 245 d.C.:

– http://research.yale.edu:8084/divdl/eikon/subjects.jsp?subjectid=464

Repare quantas imagens eles tinham aí… Sinal que a proibição de confeccionar imagens era RELATIVA!

Passemos agora para a segunda passagem que você apresenta:

b) LUCAS 13,3

Nas traduções da Vulgata em português, lemos:

– Matos Soares: “Não, eu vo-lo digo; mas se não fizerdes penitência, todos perecereis do mesmo modo”.

– Antonio Pereira de Figueiredo: “Não eram, eu vo-lo declaro; mas se vós outros não fizerdes penitência, todos assim mesmo haveis de acabar”.

Na Nova Vulgata, lemos:

– “Non, dico vobis, sed, nisi paenitentiam egeritis, omnes similiter peribitis”

Como se vê aqui, ao contrário do caso anterior, o termo controverso (=”paenitentiam”) permanece.

Passemos às Bíblias protestantes e ecumênicas (na mesma ordem adotada mais acima):

– AEC: “Não, vos digo! Antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis”

– ACF: “Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis”.

– ARC: “Não, vos digo; antes, se vos não arrependerdes, todos de igual modo perecereis”.

– TLH: “De modo nenhum. Eu afirmo que todos vocês que, se não se arrependerem dos seus pecados, vão morrer como eles morreram”.

– NTLH: “De modo nenhum! Eu afirmo a você que, se não se arrependerem dos seus pecados, todos vocês vão morrer como eles morreram”.

– NIV: “Eu lhes digo que não! Mas se não se arrependerem, todos vocês também perecerão”.

– TNM: “Deveras, eu vos digo que não; mas, a menos que vos arrependais, sereis todos igualmente destruídos”.

– TEB: “Não, eu vo-lo digo, mas se não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo”.

Procuremos, por fim, nas Bíblias católicas:

– BJ: “Não, eu vos digo; todavia, se não vos arrependerdes, perecereis todos do mesmo modo”.

– BAV: “Não, digo-vos. Mas se não vos arrependerdes, perecereis todos do mesmo modo”.

– BEP: “De modo algum, lhes digo eu. E se vocês não se converterem, vão morrer todos do mesmo modo”.

– BMD: “Eu vos garanto que não. Mas, se não vos converterdes, morrereis todos do mesmo modo”.

– BSA: “Eu vos digo que não; mas se não vos converterdes, perecereis todos igualmente”.

– BSC: “Digo-vos que não. Mas se vós não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo”.

– BSV: “Digo-vos que não, e se não vos converterdes, todos vós perecereis do mesmo modo”.

– BPV: “Não, digo-lo-vo eu; mas se não vos arrependerdes, perecereis todos igualmente”.

Antes de mais nada, observemos como as traduções aqui se aproximam muito umas das outras, ao contrário da “babel” de traduções que tínhamos em 1Reis 7,36

Pois é. Três são as palavras empregadas na passagem, segundo as diversas traduções:

– Arrepender (=ter pesar, mudar de parecer, retratar-se)

– Converter (=mudar, transformar)

– Penitenciar (=arrepender, dor do pecado cometido, pena imposta para remissão, sacrifícios para expiação)

Como você pode reparar pelos significados colocados entre parênteses, retirados de dicionários da Língua Portuguesa, todas as três palavras poderiam ser aplicadas na passagem, inclusive “penitenciar” em seus dois primeiros sentidos.

O termo grego empregado na passagem é “metanohte”, que o latim da Vulgata converteu para “paenitentiam”. O Dicionário Escolar Latino-Português, publicado pelo MEC em 1962, apresenta o seguinte verbete:

– “Paenitentia, -ae, subs. f. Arrependimento, pesar, contrição (Tác. D. 15)”.

Resta provado, portanto, que o termo “paenitentiam” empregado por São Jerônimo em sua Vulgata está correto, condizente com a passagem; com efeito, sua tradução para o português “penitência”, feita por Matos Soares e Antonio Pereira de Figueiredo, é legítima.

O termo, evidentemente, pode soar estranho para nós que vivemos no século XXI; mas durante séculos (e eu ousaria dizer: até a década de 1960), era muito comum e bem compreensível. É lógico que as Bíblias protestantes removeram esse vocábulo porque poderia lembrar o “sacramento da penitência católico”; já as Bíblias católicas modernas substituem o termo porque já não nos é tão conhecido, podendo ser vertido por “sinônimos mais populares”, compreensíveis para a nossa geração.

A prova dos nove aqui recuperamos do início da nossa resposta: considerando que a “Bíblia Sagrada Tradução da CNBB” [BSC] tem sua tradução baseada “nos textos originais hebraicos, aramaicos e gregos, cotejados criteriosamente com a Nova Vulgata” e considerando também que a mesma traduz “paenitentiam” por “converterdes”, verificamos rapidamente que o termo empregado por São Jerônimo encontra-se correto, nada impedindo que seja traduzido também por “penitência” em português.

Espero, pois, tê-lo ajudado!

[]s
Fique com Deus!


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