D. Estêvão Tavares Bettencourt, osb (+2008)

Por que a ideia de “destino” ainda sobrevive?

– “De onde vem que a ideia do destino esteja tão arraigada entre os contemporâneos?”

Certos pensadores gregos pré-cristãos, herdando um patrimônio de ideias orientais, admitiam que uma força superior, a “Heimarméne” (Fato ou Destino), mantivesse o homem cativo sob sua influência, de tal modo que vã ficava a liberdade de arbítrio.

Após o aparecimento do Cristianismo, essa tese se conserva na ideologia religiosa de um ou outro povo não-cristão (principalmente entre os muçulmanos, que lhe dão matiz próprio). A doutrina de Cristo, porém, a rejeita peremptoriamente, ensinando que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, dotado da liberdade de agir ou não agir; de agir deste ou daquele modo. O Criador, que outorgou ao homem tão grande dignidade, jamais lha retira; não o coage. Conceber o contrário significaria desfigurar a noção autêntica de Deus, Ser Bom e Sábio.

Contudo, hoje em dia a reviviscência de crenças orientais, sob a forma de seitas ocultistas, que se dizem herdeiras da arcana sabedoria da “Atlântida”, do Egito, da índia, tem despertado a atenção para o “Fato” ou o “Destino”; este (apresentado com modalidades diversas) é um dos elementos estruturais da doutrina de tais escolas. A promessa de que ensinarão aos seus “iniciados” cálculos matemáticos, tabelas e outros recursos de aparência científica aptos para dominar o destino, quebrar os “círculos de ferro” que envolvem o homem, atrai não poucos dos nossos contemporâneos; julgando que hão de vencer os obstáculos e encontrar finalmente a felicidade na vida, passam a acreditar no Destino… Note-se, porém, que esta ideologia supõe os erros do monismo ou do panteísmo, a saber: uma única Força Suprema, Cósmica, passa pelo homem e pela natureza que o cerca, identificando-se com tudo o que existe. É esta concepção que faz crer que quem conhece a engrenagem dos elementos animados e inanimados, possui o segredo para utilizar o curso da natureza e dirigir os acontecimentos da história segundo seus interesses.

Um outro fator ainda deve ser levado em conta para explicar a voga do Destino em nossos dias. Descobertas da ciência moderna evidenciam cada vez mais que o homem às vezes é tolhido em sua liberdade por fatores patológicos, e age sem grande consciência de si, nem senhorio sobre os seus atos. Observe-se, porém, que estas conclusões dos fisiólogos por si não implicam a tese filosófica do “fatalismo” ou do “destino” — tese segundo a qual Deus, desde todo o sempre, teria traçado a cada homem uma via que ele deve seguir sem responsabilidade própria, dispensado de rezar, dispensado de se esforçar por executar sempre o que seja de melhor alvitre.

Vejamos, pois, como se devem entender os dados da ciência moderna que interessam ao nosso problema.

A liberdade de arbítrio tem sua raiz na natureza espiritual da alma humana. Esta é capaz de conhecer o bem, e o bem sem restrição, não limitado pelas deficiências da corporeidade. Consequentemente, a vontade humana possui o desejo inato de apreender o Bem que nunca se acaba. Aqui na terra, porém, só ocorrem ao homem bens corpóreos, restritos, ou bens incorpóreos propostos à semelhança das coisas finitas, sensíveis (o próprio Deus é contemplado através das criaturas e dos exíguos conceitos da nossa inteligência). Por conseguinte, não há objeto neste mundo capaz de atrair irresistivelmente a vontade do homem; este só adere a um objeto na medida em que queira considerar os seus aspectos bons, convenientes; desde, porém, que volte sua atenção para os aspectos deficientes, o mesmo objeto deixará de o atrair e de merecer sua adesão. Qualquer bem que o homem cobice nesta vida, cedo ou tarde lhe aparece insuficiente — o que faz que o mesmo sujeito seja levado a procurar outro objeto em que se possa saciar (somente na fé, a qual é movida por um ato da vontade livre, resistindo à volubilidade natural, é que o cristão neste mundo se pode fixar inabalavelmente em Deus).

Todavia o espírito do homem, raiz da liberdade de arbítrio, só age em íntima dependência do corpo; o exercício das faculdades espirituais vem a ser condicionado pelo funcionamento, ora mais, ora menos perfeito, da fantasia, da memória sensitiva, do senso comum e das faculdades corpóreas em geral. Dentre estas, têm importância extraordinária certas regiões do cérebro (sobretudo o diencéfalo ou hipotálamo, assim como as glândulas endócrinas, em particular, a hipófise e a tireoide); a secreção dos hormônios, regulando o metabolismo do corpo, influi indireta e poderosamente na atividade da inteligência e da vontade. No indivíduo cujo cérebro se ressinta de lesão, ou cujas glândulas funcionem em deficiência ou excesso, esses defeitos desvirtuam ou sufocam a ação do espírito; manifestam-se taras, propensões a hábitos anômalos, que não podem ser controlados pela vontade.

Numerosas observações feitas sobre crianças e adultos mostram que um sujeito normal se pode tornar um criminoso e imoral por lesão do cérebro. Os médicos registram casos de crianças agressivas, violentas, verdadeiros criminosos em potencial, bem como de crianças inclinadas à perversão sexual. Pois bem: o estudo radiográfico do seu crânio manifesta não raro meningopatias e hidrocefalias sofridas durante o período de gestação em consequência de doenças ou fatores emotivos, intoxicações, desnutrição etc., que afetaram a gestante. Seja citado também o famoso “gangster” Dillinger, morto em Chicago; examinando o seu cérebro, o Dr. Kennedy, da Universidade de Durahm, averiguou que havia sofrido de encefalite durante a epidemia que flagelou os Estados Unidos entre 1919 e 1926. Hoje em dia, os médicos tentam a cura de certos casos de imoralidade e criminalidade, atuando sobre a região diencéfalo-talâmica e sobre os seus ligamentos com os lobos pré-frontais e o cerebelo, principalmente mediante os tratamentos Roentgen e a dielectrólise cálcica. Os resultados já obtidos permitem previsões otimistas: assim nos Estados Unidos uma jovem moralmente degenerada, que por seus numerosos delitos vivera quatorze anos em prisões e casas de correção, foi operada de lobotomia frontal pelo Dr. Orage Nielson; conseguiu regenerar-se e viver moralmente irrepreensível. O Dr. Puech, cirurgião de Paris, por intervenção semelhante, obteve a mudança de um inveterado delinquente em trabalhador honesto e dócil.

Tais experiências médicas levam-nos a concluir que a autoconsciência e a autodeterminação admitem graus variáveis de acordo com o estado fisiológico de cada indivíduo; certas moléstias diminuem ou impedem a liberdade de ação, constituindo atenuantes ou excusantes para o delito. Isto, porém, não quer dizer que a natureza humana não possua, por sua essência mesma, a raiz e a faculdade do livre arbítrio. É-nos difícil sondar o grau de responsabilidade de cada delituoso; somente Deus julga as consciências, levando em conta precisa as capacidades de cada um, a ninguém impondo medida ou critério injusto.

Como quer que seja, todo individuo, na medida em que goza de consciência e liberdade, é obrigado a lutar contra as tendências desregradas de sua natureza. Procure precaver-se contra os assaltos destas, disciplinando as paixões, a fim de que não tomem a dianteira sobre as deliberações da vontade, a qual por si é livre.

Veja-se a propósito: N. Pende, “Biologia e Liberdade moral”, em “Heresias do nosso tempo”, com a colaboração de um grupo de filósofos e cientistas italianos (Porto, 1956, pp.107-118).

 

  • Fonte: Revista Pergunte e Responderemos nº 3:1957 – jul/1957.

 


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