Papado

Por que o ofício de Pedro é necessário?

Por 2000 anos a Igreja Católica encarregou-se da missão a ela dada por seu Fundador, Jesus Cristo, de fazer “discípulos em todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a observar tudo o que vos tenho ordenado; e permanecerei convosco todos os dias, até a consumação do mundo.” (Mt 28,19-20)

As páginas do Novo Testamento testemunham a autoridade dos Apóstolos no governo da Igreja, a qual deveria se espalhar pelo mundo mediterrâneo. Essas mesmas páginas, tanto quanto todos os antigos escritos cristãos dos Padres da Igreja, comprovam a existência da Igreja como um corpo concretamente visível de crentes em Cristo composto de fiéis sob o governo de Pedro e seus companheiros Apóstolos. A História dessa mesma Igreja manifesta a crença na pessoa de seus Bispos sucedendo o lugar dos Apóstolos como chefes da Igreja. Pelo ano 200 d.C., o Credo dos Apóstolos refere-se à crença “na santa Igreja Católica”, a qual era claramente comandada por seus Bispos.

Apenas duas vezes Cristo usa a palavra “Igreja” (em Mt 16,18 e Mt 17,18) , essa Igreja que era parte d’Ele mesmo, e pela qual deu Seu Precioso Sangue. A primeira dessas ocasiões foi quando seu principal Apóstolo deu o notável testemunho da divindade de seu Senhor, resultado de uma especial revelação de Deus Pai. Por sua confissão de fé, “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo”, Nosso Senhor lhe respondeu:

“Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela. E eu te darei as chaves do Reino dos Céus, e tudo o que ligares na terra será ligado no Céu, e tudo o que desligares na terra, será desligado no Céu.” (Mt 16,18)

Esse poder de ligar e desligar (i.e., o poder de fazer leis para a comunidade dos fiéis) foi também dado posteriormente aos Apóstolos em geral (cf. Mt 18,18), mas significativamente as chaves (como símbolo de autoridade suprema) permaneceram nas mãos do líder dos Apóstolos, que as recebeu de maneira singular como cabeça do Colégio Apostólico. O mesmo Pedro (o homem-pedra) foi também de maneira singular escolhido por Cristo para ser o “confirmador” de seus irmãos (cf. Lc 22,32), i.e., para ser o único cuja própria fé nunca deveria falhar em todas as aflições pelas quais passaria a Igreja. Essas promessas envolvem uma posição especial para Pedro na Igreja, conferida realmente a São Pedro por Nosso Senhor após Sua Ressurreição, como relatado por São João (cf. 21,15-17).

Falando à Pedra da Igreja somente, Cristo conferiu a ele a impressionante tarefa de apascentar Seus cordeiros e ovelhas. Todas as imagens encontradas nos textos petrinos notadas acima concedem uma suprema liderança e autoridade ao Príncipe dos Apóstolos sobre os demais Apóstolos e sobre o restante do rebanho a ele confiado (uma autoridade suprema que seria historicamente manifestada como uma “jurisdição universal” sobre todos os membros da una e única Igreja fundada por Cristo). Como a reconhecida cabeça dos Apóstolos, Pedro serviu como centro visível da unidade da Igreja. A importância tremenda do ofício primacial de Pedro na Igreja é ininteligível se não for entendido como um ofício perpétuo pretendido para existir por tanto tempo quanto a própria Igreja ? e um ofício especialmente designado por Cristo para salvaguardar e preservar a Unidade Visível de Sua Igreja através dos anos. O estabelecimento da externa unidade visível de Sua Igreja tanto quanto da interna unidade de fé são o fruto da Oração Sacerdotal de Cristo a Seu Pai celestial para que todos os Seus seguidores fossem um a fim de “que o mundo possa crer que Tu me enviaste” (leia todo o capítulo 17 de São João).

O Primado de Pedro, com suas prerrogativas e privilégios especiais, exercido hoje pelo Romano Pontífice como Sucessor de Pedro em sua Cátedra de Unidade, é assim um elemento essencial tanto da visível unidade da Igreja quanto de sua visível catolicidade. Não há, naturalmente, nenhuma possibilidade de disputar com qualquer pessoa ao nosso redor se Cristo instituiu uma primazia de autoridade divina entre Seus Apóstolos e que se perpetuará em Sua Igreja se essa pessoa não entender que a Igreja descrita no Novo Testamento é uma Igreja visível, governada por chefes visíveis, isto é, por Bispos que sucedem ao lugar dos Apóstolos. Uma Igreja invisível de eleitos, de predestinados, ou de salvos não é a Igreja propriamente, desde que é impossível identificar seus membros! Todos os cristãos, entretanto, que acreditam que o episcopado da Igreja continua a missão apostólica do Colégio Apostólico original devem reconhecer a falta de lógica de rechaçar a comunhão com um Bispo, o Bispo de Roma, que é o herdeiro do único Apóstolo escolhido por Cristo para ser a pedra fundamental, guardião das chaves do Reino, confirmador de seus irmãos, e pastor principal do rebanho inteiro, carregando desse modo a responsabilidade de assegurar a unidade visível da Igreja. Desde que os demais Apóstolos, que eram também pedras fundamentais da Igreja (cf. Ap 21,14 e Ef 2,20), não poderiam estar separados da Rocha Fundamental à qual foram ajustados, os Bispos que sejam legítimos sucessores dos Apóstolos devem ter sua Rocha Fundamental no Sucessor de Pedro, o Romano Pontífice. Em outras palavras, os Bispos não podem fazer nada sem a plena comunhão com o chefe visível da Igreja, o Sucessor de Pedro, que exercita um primado instituído pelo próprio Cristo.

Jesus permanecerá para sempre: “A pedra angular sobre a qual todo o edifício da Igreja, sendo moldado conjuntamente, cresce como um templo santo ao Senhor.” (Ef 2,20-21)

Ele permanecerá para sempre: a Cabeça Invisível da Igreja por quem toda a vida da graça procede.

Entretanto, Sua única Igreja não é apenas Seu Corpo Místico neste mundo, mas também uma sociedade concretamente visível e uma instituição historicamente identificável sempre atacada pelas heresias, facções e divisões. Se as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja edificada na Rocha (e a Rocha é a pessoa de Pedro, não meramente sua fé), a autoridade de Cristo sobre a Igreja deve ser refletida na ordem hierárquica da Igreja em si mesma. A história da Igreja Católica desde seus inícios mostra o Bispo de Roma sendo aquele que possui o primado da autoridade divina como o Sucessor de Pedro, servindo seus irmãos no episcopado como a cabeça visível da Igreja Militante, e sendo o centro da unidade para todas as Igrejas locais (Oriente e Ocidente), exercendo a comunhão católica.

É irônico que tenha sido Martinho Lutero, antes de sua própria queda da unidade católica, aquele que escreveu eloqüentemente a respeito do primado petrino na Igreja: “Se Cristo não houvesse confiado todo poder a um homem, a Igreja não poderia ter sido perfeita porque não haveria ordem e cada um estaria apto para dizer que é guiado pelo Espírito Santo. É isso que os hereges dizem, cada um pondo razão em seu próprio princípio. Dessa maneira, tantas Igrejas foram levantadas porque havia cabeças. Cristo, todavia, quer, para nos colocar todos em uma unidade, que seu poder seja exercitado por um homem a quem Ele mesmo confie essa atribuição. Ele tinha, entretanto, tão grande poder que venceu os poderes do inferno (sem dano algum). Ele disse: ‘As portas do inferno não prevalecerão contra ela’, como querendo dizer: ‘lutarão contra ela, mas nunca poderão vencê-la’; é então dessa maneira que ela manifesta que seu poder é na realidade vindo de Deus e não do homem. Assim, quem rompe com essa unidade e com essa ordem de poder, não deixa sinal de grande ou de obras maravilhosas, como nossos Picards e outros hereges fazem, ‘Vigia teus passos, quando vais à casa de Deus! Entra para escutar e não apenas para oferecer sacrifícios, como os insensatos, que não percebem que estão procedendo mal!’ (Ecle 4,17) (Sermo in Vincula S. Petri, “Werke” Weimar edition, I, 69).

Tradução do Veritatis Splendor por Rafael Vitola Brodbeck.


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