– Que surpresa pode reservar-nos no Juízo Final o “estive com fome e sede…”? Será que os avisos de Nosso Senhor aplicam-se aos matrimônios e aos cônjuges?

Muitas são as dificuldades da vocação matrimonial. Em nossas formações, já falamos do dever de fidelidade, que é mais que ser fiel fisicamente, mas também é ser fiel ideológica e espiritualmente a seu cônjuge, e talvez configure um dos maiores desafios do sacramento; já discorremos sobre as virtudes da generosidade e da fecundidade, sem as quais o matrimônio se transforma em disputas egoísticas sobre a própria felicidade, sem abrir-se à Vontade de Deus; já meditamos também acerca do papel pascal do sacramento do matrimônio, isto é, o matrimônio configura os cônjuges à Cruz de Nosso Senhor, de modo que não há vida matrimonial cristã sem algum nível de sacrifício. Mas há um aspecto especial da vida matrimonial que é pouco explorado: a função medicinal do matrimônio.

No Evangelho de São Mateus, no capítulo 25, está o famoso discurso sobre o Juízo Final: “tive fome e me destes de comer, sede e me destes de beber…”. A ortodoxa tradição católica sempre viu nestas páginas do Evangelho um alerta sobre o Juízo Final, um critério de aplicação do cristianismo: quem passou pela radical conversão a Cristo não é insensível à dor do irmão que está preso, que está doente, que tem sede e fome. Mas quem é o próximo que está com sede? Quem o próximo que está com fome? Será que aplicam-se a esse texto os famintos e sedentos de nossos lares? Que surpresa pode reservar-nos no Juízo Final o “estive com fome e sede…”? Será que os avisos de Nosso Senhor aplicam-se aos matrimônios e aos cônjuges? Esse é o maior presente que Nosso Senhor deu aos casados: de transformar seus lares em verdadeiros sanatórios, onde se é médico e paciente, curando e sendo curado.

O convívio matrimonial revela aos cônjuges o pior e o melhor de cada um. Por isso, ninguém tem maior capacidade curativa no convívio familiar que os cônjuges, ninguém conhece mais as mazelas de cada um que os cônjuges. É nesse sentido que se diz que a vida matrimonial é uma caminhada de feridos, dois doentes que vivem para se ajudarem mutuamente a alcançar a santidade. Ora, se é assim e se um critério para o Juízo Final é o “tive fome, tive sede”, como não aplicar aos mais próximos os inúmeros e infindáveis atos de amor da vida cotidiana? Se nem um copo de água oferecido por causa do Senhor ficará sem recompensa, o que se dirá de um jantar caprichado para a esposa, mas com o olhar fixo nos Céus? Que poder possui um café da manhã preparado com carinho espiritual para agradar o cônjuge, mas principalmente por amor a Deus? Que capacidade espiritual o sofrimento por amor à família pode alcançar?

A vocação matrimonial é excelsa, pois permite a cada membro familiar exercitar a humildade cotidianamente, não conseguindo esconder do outro, que é sua própria carne, seus defeitos mais baixos, seus pecados mais vergonhosos. O matrimônio é sacramento de serviço e, desde que Nosso Senhor se fez servo de todos, o serviço familiar também se tornou caminho de salvação para seus membros. O lar cristão é um sanatório, um hospital. Cada qual ocupando-se em curar seu irmão torna-se, por isso mesmo, cura para outro e para si mesmo. Deus, que não se deixa vencer em generosidade, há de cumular de amor àqueles que se gastam em colocar amor em suas famílias.

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