Erik Peterson, analisando o significado que as palavras perfidus e perfidia têm na literatura patrística, demonstrava, já em 1936, que elas se referem em primeiro lugar à perda da fé cristã. Só na Idade Média essas palavras, na oração da Sexta-Feira Santa, adquiriram o sentido de uma condenação moral indevida do povo da Antiga Aliança

O temor de que o motu proprio papal dando permissão ao uso do Missal de São Pio V reintroduzisse a expressão “perfidia iudaica” na oração intercessória da Sexta-Feira Santa, podendo com isso promover sentimentos antijudaicos e anti-semitas, chamou recentemente a atenção para essa expressão.

Como escreveu Sergio Luzzatto em 19 de agosto passado no Corriere della Sera, esse temor é absolutamente infundado, “uma vez que Bento XVI liberou o emprego do Missal Tridentino em sua versão de 1962, da qual já tinham sido eliminadas as fórmulas sobre os pérfidos Judeus e a perfídia judaica”.

Mas a questão continuou viva, voltando a se apresentar também em debates muito recentes, e talvez não seja inútil esclarecer o quanto essa expressão, em razão da interpretação e da atitude que a cercavam, era realmente indevida.

Para fazê-lo, repercorremos a um artigo escrito no distante ano de 1936, mas de muitos pontos de vista extremamente atual, por Erik Peterson: “Perfidia iudaica”. Esse artigo apareceu na revista dos Lazaristas, Ephemerides liturgicae, que completa este ano seu 120º aniversário. Parabéns!

Protestante de remota origem sueca e buscador apaixonado da verdade (o que seria tachado nele de romantismo, por seus correligionários velhos e novos, voluntariamente esquecidos de que esse havia sido o mesmo percurso de Justino e de Agostinho), Peterson, depois de peregrinar por várias universidades alemãs, desembarcaria, em 1930, em Roma e no catolicismo romano, graças também à amizade com uma família judia de Munique, que o hospedou e apoiou.

A partir da década de 1980, entre as obras de Peterson, voltou a ser citada com freqüência Der Monotheismus als politisches Problem [O monoteísmo como problema político], de 1935. Quem a citou mais recentemente foi Enzo Bianchi, em 14 de outubro passado, no jornal italiano La Stampa. E o fez com propriedade, uma vez que o bipolarismo teologia liberal/teologia política, cuja incoerência com as origens e a originalidade do cristianismo Peterson procurou mostrar, parece ser proposto também hoje como alternativa obrigatória. Mas muitos outros textos dele, também importantes, como Buch von den Engeln [O livro dos anjos], do mesmo ano de 1935 (considerado uma obra-prima por um patrólogo do calibre de Jean Daniélou), só são conhecidos por especialistas, mesmo porque a maioria não foi traduzida.

É o caso do artigo que examinamos, que pelo que sabemos nunca foi traduzido do alemão. São dele todas as nossas citações.

A primeira parte do artigo, partindo de uma verificação das traduções da liturgia da Sexta-Feira Santa nas línguas modernas, evidencia que as expressões perfidia iudaica e perfidi Iudaei, nas décadas de 1920 e 1930, eram ainda traduzidas de modo indevido, fazendo referência a uma específica infidelidade ou obstinação do povo eleito, chegando mesmo a se configurar como um verdadeiro juízo moral sobre esse povo. A única louvável exceção, escreve Peterson (p. 298), é do “sábio cardeal de Milão” Ildefonso Schuster, que, não por acaso, fora repreendido poucos anos antes pelo Santo Ofício por ter chamado essa fórmula “uma superstição” (cf. o artigo de Hubert Wolf em Historische Zeitschrift, de 2004: “Pro perfidis Iudaeis. Die ‘Amici Israel’ und ihr Antrag auf eine Reform der Karfreitagsfürbitte für die Iuden [1928]”). Peterson ainda não podia ter consciência do que se soube depois graças a outro precioso artigo, assinado por dom Giuseppe M. Croce, publicado em 2003 dentro das Atas do Congresso internacional pelo bicentenário da eleição do papa Pio VII: que diversos bispos italianos da região da Toscana, já no início do século XIX, haviam omitido por completo essa fórmula.

Peterson, analisando o significado que o adjetivo perfidus e o correspondente substantivo perfidia têm na literatura patrística, demonstra que, originalmente, eles indicam tão-somente a perda da fé no interior da esfera cristã. Já Cipriano, no De unitate, entende por perfidia “a incredulidade que se difundirá nos últimos tempos e não é apenas incredulitas, enquanto oposta à fides, mas, como cisma, é precisamente perfidia, com o que se chega ao conceito de apostasia” (p. 299). Em outras palavras, são perfidi, para Cipriano, o apóstata e o cismático, “aqueles que deixaram a Igreja e sua fides” (p. 300). Mas também lapsos, os que traíram a fé, na medida em que, escreve Peterson, citando o mesmo Cipriano (De lapsis, 14), caem não porque sua fé tenha sido combatida, mas porque já tinha vindo a faltar mesmo antes do combate (“non fide congressa cecidit, sed congressionem perfidia prevenit”). Paradoxo extremamente atual.

Em todo caso, mesmo deixando de lado esses exemplos, perfidus, nos escritos de Cipriano, é sempre o oposto de credens e de fidens.

Em todos os Padres que se seguem (de Hilário de Poitiers a Jerônimo, de Paulino de Milão a Lucifero de Cagliari, de Gaudêncio de Brescia a Isidoro, só para citar alguns), perfidia é usada principalmente em referência à heresia. A expressão “arriana perfidia”, por exemplo, indicando a falta de fé dos arianos, se tornará habitual. Mas a aplicação não se limita ao arianismo: Beda, o Venerável, na Historia ecclesiastica 1, 10, por exemplo, pôde dizer de Pelágio que “contra o auxílio da graça divina, espalhou amplamente o veneno de sua perfídia” (“contra auxilium gratiae supernae venena suae perfidae longe lateque dispersit”).

Por outro lado, já na literatura pseudocipriana dos séculos III e IV, “se não estou enganado”, escreve Peterson, “fala-se pela primeira vez da perfidia dos Judeus e dos perfidi Iudaei” (p. 303). Portanto, os termos perfidia e perfidus, no sentido de incredulitas e de incredulus, como vimos, e não no de uma particular obstinação e infidelidade dos Judeus, serão usados pelos mesmos Padres acima citados e por muitos outros, também para se referir aos Judeus, e até aos pagãos.

Isso tudo mostra que, com a palavra perfidia, na época patrística, originalmente se designava apenas uma perda da fé, que qualificava hereges, cismáticos e lapsos; depois, por extensão, o termo se referiria à falta de fé de Judeus e pagãos.

Peterson pode afirmar, por isso, que na origem essa não foi uma expressão protocolar para os Judeus. “É verdade que várias vezes se fala da ingenita perfidia dos Judeus, mas isso significa apenas que, já na Antiga Aliança, eles caíram repetidamente nas garras da incredulidade; e não significa que o vínculo da aliança foi quebrado, de forma que podemos falar de ‘perfídia’ no sentido originário” (p. 308).

Por que, então, se instaurou com o passar do tempo a interpretação errônea e ofensiva que chegou até nós?

Em primeiro lugar, porque essa interpretação foi confirmada pela indicação litúrgica escrita na margem que, a partir do século IX, passou a acompanhar essa oração: “Não se responda ‘Amém’ e não se diga ‘Oremos’ nem ‘Ajoelhemos’ ou ‘Levantai’”. Tal indicação “quase obrigava a entender essa oração pelos Judeus como se sua perfídia tivesse de ser interpretada em nível moral e paga, em nível litúrgico, de uma forma teatral” (p. 309).

No entanto, o Sacramentário Gelasiano (que nos chegou por uma cópia do século VII ou VIII) e, portanto, a liturgia romana, ainda não omite essas exortações do diácono. Sem elas, a oração pelos Judeus seria uma oração como qualquer outra, uma oração em favor deles, pro Iudaeis poderíamos dizer parafraseando o título de um recentíssimo trabalho de Valério De Cesaris (Pro Iudaeis. Il filogiudaismo cattolico in Italia [1789-1938] [Pro Iudaeis. O filojudaísmo católico na Itália (1789-1938)], Milão, Guerini e Associati, 2006), e não uma condenação teatral.

A ausência do ‘Amém’ e das exortações ‘Oremos’, ‘Ajoelhemos’, ‘Levantai’ começa a ser encontrada inicialmente apenas em território franco. Peterson imagina que essas omissões, mais que originadas de um anti-semitismo político, venham da novidade litúrgica que nesse meio tempo se introduziu com os improperia: como que repreensões, provenientes do mundo bizantino, postas na boca do Senhor na liturgia da Sexta-Feira Santa no momento da adoração da cruz. Nem mesmo essa praxe, porém, apesar dos laços tão estreitos estabelecidos com os Carolíngios nesse intervalo de tempo, acaba por ser confirmada em Roma no século IX. O mesmo que aconteceu ao acréscimo do Filioque ao Credo, poderíamos comentar, testemunhando o quanto Roma se alinhava mais à tradição que a qualquer aliança teológico-política velha ou nova.

De um outro ponto de vista, no entanto, segundo Peterson, essas inovações também eram estranhas à tradição romana: “Não se pode negar que, atrás dos improperia e da ampliação da oração intercessória pelos Judeus, esteja aquele espírito de piedade cheio de excitação que certamente contrasta com a sobriedade da piedade romana” (p. 310).

Peterson destaca, enfim, a importância que, já a partir do século IX, passou a ter a interpretação alegórica, que de modo geral esteve ligada mais tarde à omissão da genuflexão na oração de intercessão pelos Judeus, “na qual transparece o mesmo novo espírito litúrgico que está por trás dos improperia” (p. 311). Ele cita Amalário de Metz, que escrevia sobre isso: “Em todas as orações, nós nos ajoelhamos, para indicar por meio desse comportamento do corpo a humildade da alma. Só não o fazemos quando rezamos pro perfidis Iudaeis. De fato, ao rezar de joelhos, eles faziam de modo mau um ato que em si é bom, pois o faziam fingindo. Nós evitamos nos ajoelhar na oração pelos Judeus para mostrar que devemos fugir dos atos de simulação” (De ecclesiasticis officiis 1, 13).

Na realidade, conclui Peterson, foram os soldados romanos e não os Judeus, como alguns autores medievais chegaram a observar, que se inclinaram para zombar diante do Senhor. E isso demonstra que tanto a prática quanto a interpretação da especial natureza da oração pro perfidis iudaeis foram apenas uma invenção. Nada a ver com a liturgia.

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