a) Um protestante me questionou o porquê de Pedro ter recusado a prostração de Cornélio (conforme narrado nos Atos dos Apóstolos), apresentando-me aquela citação do Apocalipse em que um anjo impede São João de se prostrar diante dele.

Ora, o texto bíblico é claro: “Cornélio saiu-lhe ao encontro e prostrou-se a seus pés, adorando-o” (Atos 10,25). Ou seja, a prostração de Cornélio não foi uma simples reverência, mas tinha a clara intenção e ação de adorar a Pedro (conforme está explicitado na Escritura: “adorando-o”). Diferente, portanto, de tantas outras passagens da Bíblia que mostram exemplos lícitos de prostração “não-adorativas”, tais como:

– “O profeta Natã (…) veio perante o rei e se prostrou diante dele” (1Reis 1,22-23).

– “Eliseu atravessou o rio. Os irmãos profetas (…) vieram ao seu encontro e se prostraram por terra, diante dele” (2Reis 2,14-15).

– “O cuchita se prostrou diante de Joab” (2Samuel 11,20).

A recusa do anjo do Apocalipse, tal como no caso de Cornélio e Pedro, também visava que ali não houvesse uma adoração indevida, pois esta só é devida a Deus. Daí, o anjo dizer:

– “É a Deus que deves adorar” (Apocalipse 19,10).

Porquanto é registrado a respeito de João:

– “Caí então aos pés para adorá-lo” (Apocalipse 19,10).

Pergunto: para que o Apóstolo caiu aos pés do anjo? Qual a finalidade do seu ato? Basta ler a Escritura, pois a resposta é claríssima: adorar o Anjo!

Vale ainda acrescentar, o que disse Nosso Senhor, em uma outra passagem do livro do Apocalipse:

– “Farei que se prostrem a seus pés e reconheçam que eu te amo” (Apocalipse 3,9).

É claro! Existem várias finalidades em que se pode existir licitamente a prostração, essa é mais uma delas. Por outro lado, a que é terminantemente proibida, é aquela que tem por fim a adoração de seres criados… O fato é que, se prostração fosse em si proibida, então nenhuma forma de prostração seria permitida jamais. Todavia, fica claro, biblicamente, que a prostração proibida refere-se justamente àquela que tem por finalidade adorar as criaturas. A prostração adorativa só cabe a Deus.

Vejamos mais um exemplo, dos Atos dos Apóstolos:

– “Então o carcereiro (…) todo trêmulo, caiu aos pés de Paulo e Silas” (Atos 16,29).

Se, obviamente, o carcereiro tivesse caído aos pés para adorar a Paulo e Silas, como fez Cornélio com relação a Pedro, certamente os dois missionários cristãos o teriam admoestado como fez o Príncipe dos Apóstolos; mas não o fizeram… porque foi somente uma reverência, sem adoração.

Sei que, muitas vezes, sou, por deveras, prolixo; mas não resisto em perguntar (principalmente aos dissidentes protestantes): O povo, quando se prostrava diante de Jesus, fazia-o porque ele era Deus, ou porque achava que Ele era um enviado de Deus ou um profeta?

(Para ajudar nesse entendimento, consulte a passagem que diz: “Quem sou eu, no dizer das multidões?” [Lucas 9,18]; “Responderam-lhe: ‘João Batista; outros, Elias; outros, ainda, um dos profetas’” [Marcos 8,28]).

Obs.: Uma coisa importante nesta questão de adoração, quando se debate com um herege protestante, é questioná-lo de onde muitos deles tiraram essa ideia torta de que adorar, por exemplo, seja o mesmo que “pedir” a intercessão de alguém. Quanta ignorância é essa confundir adoração com pedido de intercessão ou de benção. Tanto é assim, que é possível pedir sem adorar: “Fulano, roga por mim”; como também é possível adorar sem nada pedir: “Tu és o Senhor Altíssimo; Criador do céu e da terra; meu Deus, que existe desde toda eternidade a quem adoro” (veja que nada pedi nesta sentença, nem sequer um palito de fósforo!).

Um dos usos das prostrações é para reverenciar (religiosamente) coisas sagradas, como os santuários e todos os objetos sacros presentes neles. Está escrito:

– “Reverencieis meu Santuário” (Levítico 19,30).

Lembremos, então, que tudo que estava dentro do Templo hebreu era igualmente sagrado, INCLUSIVE AS IMAGENS (que por sinal eram muitas!):

– “Fizeram subir a Arca e a Tenda da Reunião com todos os objetos sagrados que nela estavam” (2Reis 5,5).

Por isso, com o Salmista, cantaremos:

– “Nós nos saciamos com os bens da Tua casa, com as coisas sagradas do Teu Templo” (Salmo 65[64],5).

Pergunte aos protestantes, se não era um ato maligno chutar (ou destruir) um desses objetos sacros? Ou quem agride uma obra de arte sacra, que serve ilustrativamente ao Templo de Deus, não comete um sacrilégio (profanando, assim, a casa do Senhor)? E, por ventura, os sacrílegos e profanadores herdarão o Reino dos Céus? Note que São Paulo os inclui na lista dos reprovados, eles que são “sacrílegos e profanadores” (cf. 1Timóteo 1,9).

Perdoe-me o encompridar, mas quero citar mais um (ou outro) versículo da Bíblia:

– “Me prostro voltado para o Teu Sagrado Templo” (Salmo 138[137],2; o qual, certamente, continha imagens dentro dele).

Se prostração fosse sinônimo inequívoco de adoração (à divindade), então seria difícil explicar o trecho bíblico que diz:

– “Prostrai-vos perante o seu Monte Sagrado” (Salmo 99[98],5). Mas nós, católicos, que temos a perfeita ciência, sabemos que a prostração aqui, que também tem um caráter religioso, é apenas uma reverência. Com certeza, no Salmo, não se está mandando adorar – como se fossea Deus – aquela Montanha Sagrada. Podemos sim reverenciar (ou venerar) o que é sagrado; mas adorar (no sentido estrito) somente ao Criador, que é Divino ou Deidade.

b) Um dos católicos presentes no debate, e que muito bem citou passagens bíblicas do Novo Testamento sobre “louvar” também criaturas (e não somente Deus), pediu que lhe fosse enviados trechos do Antigo Testamento que igualmente salientassem que se pode louvar seres que o Altíssimo criou. Ei-los:

– “A mulher que teme a Iahweh merece louvor” (Provérbios 31,30).

– “Judá: teus irmãos te louvarão” (Gênesis 49,8).

Devemos ainda acrescentar mais a seguinte passagem, que é dirigida à Amada dos Cânticos dos Cânticos (a qual, aliás, muitos estudiosos interpretaram como sendo uma prefiguração de Maria, que é, sem dúvida, e por excelência, a ‘Amada de Deus’):

– “Louvam-na rainhas e concubinas” (Cânticos 6,9).

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BIBLIOGRAFIA

– BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 1996.

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