Escritos entre o período intertestamentário e os primeiros séculos do Cristianismo, os apócrifos sempre confundiram as primeiras comunidades cristãs por causa de algumas doutrinas estranhas e também por serem atribuídos a personagens bíblicos famosos. Quando a Igreja resolveu definir o cânon das Sagradas Escrituras, a partir do séc. IV, pouco a pouco os apócrifos foram sendo destruídos ou caindo no esquecimento até desaparecerem. Contudo, nas últimas décadas têm sido descobertos diversos desses escritos que, mesmo não pertencendo à Bíblia, nos mostram as divergências da época e podem nos esclarer alguns detalhes não apresentados pelos livros canônicos.

INTRODUÇÃO

  • “Ele disse: ‘Aquele que encontrar o significado destas palavras não provará a morte'”.

Estas palavras, escritas em tom de desafio, foram retiradas do Evangelho segundo Tomé o Dídimo, um escrito gnóstico do séc. II, cujos manuscritos datados do séc. IV foram descobertos em 1945 em Khenoboskian (Egito), contendo 114 frases (“lógios”) atribuídas a Jesus.

Da mesma forma que o Evangelho de Tomé o Dídimo, a Arqueologia tem descoberto nas últimas décadas diversos outros “Evangelhos” (atribuídos a Pedro, Filipe, Bartolomeu, Nicodemos, Judas Iscariotes etc.) e outros escritos que poderiam ser classificados como pertencentes a outras categorias do Novo Testamento (p.ex.: Atos de Pedro, Apocalipse de Paulo etc…) ou do Antigo Testamento (p.ex.: Ascensão de Isaías, Segredos de Henoc etc.). Mesmo tratando sobre intervenções e milagres divinos, atos de personagens bíblicos e outras coisas do gênero, todos são considerados “apócrifos”, isto é, não são reconhecidos pela Igreja como escritos inspirados. Mas por que a Igreja, os críticos e pesquisadores não os aceitam? Por acaso estaria faltando algo na Bíblia?

CANÔNICO X APÓCRIFO

A palavra “apócrifo” deriva do grego “apocryphos”. No início, significava algo oculto, secreto ou escondido, mas com o passar do tempo, passou a ter o sentido de portador de heresia ou de autenticidade duvidosa.

Ao contrário, a palavra “canônico” origina-se do grego “kanon”, significando regra ou medida; é o termo que indica a lista dos livros inspirados por Deus, que compõem a Bíblia e são incontestavelmente aceitos como “Palavra de Deus” pela Igreja.

A maioria dos livros apócrifos foram escritos entre 200 a.C. e 350 d.C, nos mais diversos locais: Palestina, Síria, Arábia, Egito… Em contraste com os livros canônicos, os apócrifos não eram lidos nas igrejas (e sinagogas), pois a grande maioria apresentava ensinamentos heréticos e doutrinas falsas; tinham a finalidade de defender ideias de certos grupos isolados como os gnósticos, os docetas e os judaizantes. Principalmente por não receberem crédito da “Igreja oficial”, os apócrifos foram desaparecendo juntamente com as seitas que os usavam e defendiam.

Uma observação importante: os livros canônicos são classificados em “protocanônicos” (aqueles livros cuja autenticidade a Igreja jamais questionou) e “deuterocanônicos” (aqueles que foram aceitos oficialmente pela Igreja após alguns debates que se prolongaram até o séc. IV). É interessante saber que os protestantes chamam os livros “deuterocanônicos” de “apócrifos” e os livros “apócrifos” de “pseudoepígrafos”, que quer dizer de falsa autoria. Saber isto é de suma importância para os católicos porque, como os livros deuterocanônicos contradizem algumas das doutrinas protestantes, foram excluídos das Bíblias destes como se falsos fossem.

AS RECENTES DESCOBERTAS

As duas maiores descobertas de escritos apócrifos se deram em 1945, na região de Nag Hammadi (Alto Egito), e em 1947, em Qumran (Palestina), nas grutas do Mar Morto, onde existia nas imediações uma comunidade de judeus separados, conhecidos como essênios, que formavam um grupo à parte do Judaísmo de então, composto sobretudo por saduceus e fariseus.

Vez ou outra escutamos alguma notícia relatando a descoberta de algum outro escrito (p.ex., o estranhíssimo “Evangelho de Judas Iscariotes”), mas nenhum até o momento foi tão significante quanto os achados de Nag Hammadi e Qumran.

A BÍBLIA ESTÁ INCOMPLETA?

É a primeira pergunta que nos fazemos quando alguém anuncia uma nova descoberta de escritos antigos.

Seria um erro afirmar que a Bíblia (tendo por base apenas o que ela diz) está completa, porque ela mesma não afirma isso em parte nenhuma. Muito pelo contrário, ela aponta que foram escritos outros livros não presentes nela, inclusive cartas; temos duas passagens bem claras em Lucas e em Paulo:

  • “Muitos já tentaram compor a história do que aconteceu entre nós, assim como nos transmitiram os que foram testemunhas oculares e ministros da Palavra desde o princípio” (Lucas 1,1).
  • “Uma vez lida esta carta entre vós, fazei com que seja lida também na Igreja de Laodiceia. E vós, lede a [carta] de Laodiceia” (Colossenses 4,16).

Portanto, vemos que a Bíblia segundo ela mesma “não está completa”; e como ela própria não define quais livros são inspirados e devem necessariamente constar nela, fica muito difícil determinar quando e como a Bíblia, por autodefinição, estaria “realmente completa”.

  • Veja também: “27 livros perdidos citados pela Bíblia”

Por outro lado e em princípio, para demonstrar que um livro recém-descoberto não é inspirado – ou seja, que é de fato apócrifo – é necessário primeiro ser totalmente traduzido e devidamente interpretado pelos pesquisadores e exegetas e, depois disso, demonstrar que ele contradiz algo na Bíblia, Tradição e/ou Magistério da Igreja, isto é, na Palavra de Deus como um todo.

APÓCRIFOS NA BÍBLIA?

O “cânon” da Bíblia, a lista dos livros inspirados, é formado por 73 livros. Foi a Igreja Católica, sob a inspiração do Divino Espírito Santo, quem determinou no século IV d.C. o cânon dos livros inspirados por Deus, de modo que podemos ter certeza que todos os livros contidos na nossa Bíblia são verdadeiramente inspirados. Mesmo assim, a Bíblia faz referências a passagens que se encontram, ao que sabemos, somente em livros apócrifos. Dois bons exemplos podem ser vistos na epístola de São Judas:

  • “O arcanjo Miguel, quando discutia com o diabo na disputa pelo corpo de Moisés, não se atreveu a proferir um juízo de blasfêmia, mas disse-lhe: ‘Que o Senhor te repreenda'” (Judas 1,9);
  • “É deles que Henoc, o sétimo patriarca desde Adão, profetizou dizendo: ‘Eis que vem o Senhor com suas santas miríades, para exercer um juízo contra todos os ímpios por causa das impiedades que praticaram e por todas as palavras duras que os ímpios pecadores falaram contra Ele'” (Judas 1,14-15).

As duas citações feitas por Judas não são encontradas em lugar nenhum da Bíblia, mas apenas em escritos apócrifos: a primeira passagem foi retirada do Livro da Assunção de Moisés, que possui material herético, mas na carta de Judas possui o sentido legítimo de que os homens não devem julgar, mas deixar o julgamento para Deus, como demonstrou o arcanjo Miguel ao se dirigir ao diabo. A segunda passagem foi retirada do Livro de Henoc e ensina, conforme os livros canônicos, que Cristo voltará como juiz supremo para julgar todos os homens. Portanto, como a carta de São Judas não contradiz os outros livros da Bíblia e concorda plenamente com a ortodoxia da Igreja, logo é também um livro canônico, mesmo citando trechos de livros apócrifos na reta intenção de ensinar a verdadeira doutrina.

CLASSIFICAÇÃO DOS APÓCRIFOS

Assim como os livros canônicos estão classificados pelo gênero literário, também os apócrifos podem ser classificados segundo o seu gênero. Já dissemos que a maioria dos apócrifos foram escritos entre 200 a.C. e 350 d.C. e que eles podem ser distinguidos como pertencentes ao Antigo ou ao Novo Testamento. Assim, os livros do Antigo Testamento podem ser, em grande parte, classificados em:

  • Históricos: são os que pretendem contar certos fatos históricos sobre o povo eleito, uma boa quantidade expressando a esperança da vinda do Messias prometido;
  • Proféticos: são aqueles que falam dos acontecimentos que devem acontecer num futuro eminente ou no fim dos tempos (apocalípticos);
  • Sapienciais: são os que falam sobre a sabedoria e dão bons conselhos.

Já os livros do Novo Testamento podem ser assim classificados:

  • Evangelhos: são os escritos que falam unicamente sobre a vida, as obras e os ensinamentos de Jesus Cristo;
  • Atos: são os que se dedicam a falar sobre os fatos, as obras e os ensinamentos de um ou mais Apóstolos na missão de pregar o Evangelho;
  • Epístolas: são escritos atribuídos ao próprio punho dos Apóstolos, destinados a alguma comunidade ou personagem em específico ou à Igreja em geral;
  • Proféticos: são sobretudo apocalipses que narram os últimos acontecimentos, o juízo final e o derradeiro triunfo de Cristo.

O VALOR DOS APÓCRIFOS

Se, por um lado, os apócrifos não guardam a verdadeira doutrina de Cristo e da Sua Igreja, ainda que possam conter aqui ou ali algumas afirmações ortodoxas, por outro lado têm grande valor histórico pois demonstram parte do conteúdo das correntes ideológicas (religiosas e morais) do período em que foram escritos.

Os apócrifos do Novo Testamento apresentam diversos aspectos da era pós-Cristo. Algumas ideias são conformes com o reto ensinamento da Igreja como, por exemplo, a virgindade e a assunção de Maria, a descida de Cristo aos Infernos, a divindade de Jesus… Outros esclarecem pequenos detalhes que não foram abordados pelos Evangelhos canônicos, como o nome e número dos reis magos, os nomes dos pais de Maria, o nome do soldado que transpassou a lança em Jesus, a morte de São José na presença de Jesus, a apresentação de Maria no Templo de Jerusalém e a sua morte (dormição) assistida pelos Apóstolos, alguns outros milagres de Jesus…

  • Veja também: O Protoevangelho de Tiago é herético? São José permaneceu virgem ou era viúvo?

ALGUNS APÓCRIFOS

Do Antigo Testamento: Livro dos Jubileus, Livro de Adão e Eva, Salmos de Salomão, 3º Livro dos Macabeus, 4º Livro dos Macabeus, Apocalipse de Baruc, Ascensão de Isaías, Assunção de Moisés etc.

Do Novo Testamento: Evangelho de Pedro, Evangelho de Tomé o Dídimo, Evangelho de Filipe, Evangelho dos Hebreus, Atos de Tomé, Atos de Paulo e Tecla, Carta dos Apóstolos, Apocalipse de Paulo, Protoevangelho de Tiago etc.

  • Veja também: “Quais são os livros apócrifos?”
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