Em síntese: Para o 9º Encontro das Comunidades Eclesiais de Base em São Luís do Maranhão (julho de 1997), foi redigida uma “parábo-la” destinada a ilustrar as boas relações entre católicos e os adeptos das religiões afro-brasileiras. Infelizmente o texto, que vai abaixo apresenta-do, é blasfemo, pois faz de Jesus em seguidor da Umbanda, guiado por um bom orixá, pulando e dançando alegre num terreiro, comendo pipoca, batata assada e cocada. Isto e insustentável aos olhos da fé católica, que vê em Jesus Deus Filho feito homem, o Senhor dos Senhores. O autor da “parábola” tinha em vista a aproximação de católicos e umbandistas, coi-sa que a Igreja também deseja e que ela procura realizar através do diá-logo religioso; este consiste num colóquio respeitoso entre dois Credos, sem que alguma das partes dialogantes encubra as proposições de sua fé, condição esta que a “parábola” não observa.
 

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As CEBs tiveram origem no Rio Grande do Norte ou, mais precisa-mente, em São Paulo do Potengi. Na década de 60, Mons. Expedito de Medeiros, Vigário da localidade, verificava ter uma grei demasiado gran-de e esparsa para poder a sós servir-lhe adequadamente. Não podia con-tar com o reforço de colegas no ministério, cujo número era exíguo. Daí nasceu o plano de constituir dentro da sua paróquia núcleos ou comuni-dades de leigos, que, sob a coordenação de um animador especialmente formado, cultivassem a sua vida cristã através de oração, culto dominical, leitura da Bíblia, reflexão, apoio mutuo e solidariedade…

Essas comunidades, que constariam cada qual de quinze pessoas aproximadamente, seriam visitadas periodicamente pelo Vigário ou pelo Bispo, que celebraria para elas a Eucaristia e administraria os outros sa-cramentos.

Hoje existem milhares (100.000?) de CEBs no Brasil, espalhadas principalmente nas zonas rurais e nas periferias das grandes cidades, contando com a assessoria do Bispos e sacerdotes delegados.

lnegavelmente a inspiração originária das CEBs é sadia. Acontece, porém, que têm sido penetradas por ideologias, que as têm politizado tendenciosamente, desviando-as de sua inspiração inicial.

Para o 9º Encontro das Comunidades Eclesiais de Base em São Luís do Maranhão (julho de 1997), foi redigida uma série de textos, que visam a desenvolver temas de Igreja (Igreja Popular, Catolicismo de Mas-sa, Pentecostalismo…). Entre outros, acha-se uma parábola da autoria de Frei Carlos Mesters, que pretende ilustrar as boas relações entre as CEBs e as religiões afro-brasileiras; muito chamou a atenção pelos seus dizeres, que vão, a seguir, reproduzidos:

UMA PARÁBOLA

QUANDO DEUS ANDOU NO MUNDO, A SÃO PEDRO DISSE ASSIM:
Frei Carlos Mesters

Certa vez Jesus reuniu os discípulos e as discípulas e disse:

“Quando vocês forem anunciar o REINO, não devem levar dinheiro nem comida, mas devem confiar no povo. Chegando num lugar, se vocês forem acolhidos e o povo partilhar comida e casa com vocês, e se vocês participarem da vida deles trabalhando, tratando dos doentes e do pessoal marginalizado, sem voz e sem vez, então podem dizer ao povo com toda certeza: Gente, olha aqui! O REINO chegou! Está chegando? “. E eles foram. Jesus também foi. Andou, andou. Já era quase noite. Estava começando a anoitecer quando chegou num terreiro. O pessoal que en-trava, saudava e dizia: “Boa noite, Jesus! Entre e sinta-se em casa. Parti-cipe com a gente”. Jesus entrou. Viu o pessoal reunido. A maioria era pobre. Alguns, não muitos, da classe média. Todo mundo dançando ale-gre. Havia muitas crianças no meio. Viu como todos se abraçavam entre si. Viu como os brancos eram acolhidos pelos negros ? como irmãos. Jesus ele também foi sendo acolhido e abraçado. Estranhou, pois conhe-ciam o nome dele. Eles o chamavam de Jesus, como se fosse amigo e irmão de longa data. Gostou de ser acolhido assim.

Viu também como a Mãe-de-Santo recebia o abraço de todos. Viu como invocavam os orixás e como alguns vinham distribuindo passes para ajudar os aflitos, os doentes e os necessitados. Jesus também en-trou na fila e foi até a Mãe-de-Santo. Quando chegou a vez dele, abraçou-a e ela disse: ?A paz esteja com você, Jesus?. Jesus respondeu: ?Com a senhora também?. E acrescentou: ?Posso fazer uma pergunta?? E ela dis-se: Pois não Jesus!? E ele disse: ?Como é que a senhora me conhece? Como é que eles sabem meu nome?? E ela disse: ?Mas, Jesus, todo mun-do conhece você. Você é muito amigo da gente. Sinta-se em casa, aqui no meio de nós!?

Jesus olhou para eia e disse: “Muito obrigado!” e continuou: “Mãe, estou gostando, pois o Reino de Deus está aqui no meio de vocês”! Ela olhou para ele e disse: “Muito obrigada, Jesus! Mas isto a gente já sabia. Ou melhor, já adivinhava. Obrigada por confirmar pra gente. Você deve ter um orixá muito bom. Vamos dançar, para que ele venha nos ajudar!” E Jesus entrou na dança. Dentro dele o coração pulava de alegria; sentia uma felicidade imensa e dizia baixinho: “Pai, eu te agradeço porque es-condeste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste ao povo humilde aqui do terreiro. Sim, Pai, assim foi do teu agrado”. Dançou um tempão. No fim, comeu pipoca, cocada e batata assada, com óleo de dendê, que o pessoal partilhava com ele. E, dentro dele o coração repetia sem cessar: Sim, o REINO DE DEUS chegou! Pai, eu te agradeço! Assim foi do teu agrado!”.

QUE DIZER?

Proporemos quatro observações à margem da ?parábola”:

1) Blasfêmia

O texto é evidentemente blasfemo. Com efeito, apresenta Jesus como um devoto de terreiro de religião afro-brasileira: entra na fila dos que vão abraçar a Mãe-de-Santo, como se fosse a sacerdotisa que distri-bui bênçãos. Ele a trata como a “senhora” e “Mãe” (“Mãe, estou gostan-do”); ela trata Jesus por você; diz a Jesus que Ele deve ter um bom orixá. Jesus, convidado a dançar em honra do orixá, pula de alegria, sen-te imensa felicidade. Dança “um tempão”, come pipoca, cocada, batata assada com óleo de dendê. E exclama: “O Reino de Deus já chegou!”.

Quem lê tais textos, tem a impressão de que Jesus é menos categorizado do que a Mãe-de-Santo e seus orixás, o que é insustentável a fé católica, visto que esta reconhece em Jesus Deus feito homem, o Rei dos Reis e o Senhor dos Senhores, não subordinado a criatura alguma. Não se pode conceber que tal texto tenha sido proposto à meditação de fiéis católicos, à guisa de aprofundamento da fé. O senso cristão repudia tais enfoques.

2) Diálogo Religioso
 

A intenção do autor da “parábola” foi aproximar católicos e religio-sos afro-brasileiros. A Igreja de fato deseja isto, mas através do que se chama o “diálogo religioso”. Este ocasiona o encontro de pessoas de Cre-dos diferentes, desejosas de manter um colóquio que dissipe mal-enten-didos e favoreça a aproximação religiosa. Condição para o êxito de tais encontros é a franqueza segundo a qual cada interlocutor professa a sua fé sem a diminuir ou esvaziar; somente em tal clima pode haver autêntica aproximação, que, em última analise, é obra do Espírito Santo, e não da prudência humana. O católico não deve mascarar a sua fé, nem insinuar que os outros Credos são superiores ao seu, pois na verdade não o são.

De modo especial, as religiões afro-brasileiras, com seu mundo de enti-dades superiores, ofendem a lógica ou a sã razão, pois não pode haver semideuses.

Com outras palavras: ao católico não é lícito querer conquistar a simpatia dos irmãos de outros Credos atenuando as verdades essenciais da sua fé. O Espírito de Deus não pode fecundar tais encontros em que se utilizam critérios meramente humanos para cativar os interlocutores.

3) Secularismo

Merece especial atenção a exclamação freqüente: “O Reino de Deus já chegou!”. ? Pergunta-se: por que diz a parábola que o Reino de Deus já chegou? Ela o diz porque há partilha de comida e casa, porque homens e mulheres compartilham o trabalho, porque tratam dos doentes e margina-lizados… Nesse Reino de Deus, porém, não se fala uma só vez de Deus; só se trata do homem (de comida, casa, trabalho e saúde..). Ora isto ainda não é o Reino de Deus. Um ateu, que sinta filantropia, pode interes-sar-se por seus semelhantes necessitados sem que pense em Deus. Não há dúvida de que é importante zelar pelo bem-estar material dos que so-frem, mas isto não e suficiente para se dizer que o Reino de Deus já está acontecendo. O Reino de Deus e, antes do mais, culto a Deus (adoração, louvor, ação de graças…); é a celebração do sacrifício redentor de Cristo. Em função deste núcleo central, o cidadão do Reino de Deus se volta para os interesses temporais, e se volta… religiosamente ou com o afinco que nenhuma motivação secular lhe poderia comunicar.

Nenhum ser humano, nem o mais pobre no plano material, foi feito para se contentar apenas com a comida, casa, trabalho e saúde; o animal irracional, sim, se acalma quando se lhe dá a ração e o abrigo; ele então dorme; ao contrário, a pessoa humana tem aspirações mais elevadas, as quais aludia S. Agostinho ao dizer: “Senhor, Tu nos fizeste para Ti, e in-quieto é o nosso coração enquanto não repousa em Ti” (Confissões I 1).

Assim se evita todo tipo de secularismo ou laicismo, que aliás é enfatizado pouco depois da parábola” onde se lê:

<<LEITOR(A) 2: “Toda vez que encontramos uma comunidade de (e que reúna pobres e discriminados, que lutam por justiça e por melhores condições de vida, mesmo que o faça de maneira muito diferente de nós e celebre isso de modo diferente também, encontramos parceiros na ca-minhada para a construção do Reino”.
 

Este texto sugere o relativismo religioso. O que importaria, seria construir uma sociedade igualitária; pouco peso teria a questão da crença religiosa dos respectivos construtores: católicos, protestantes, espiritas, umbandistas… todos seriam equiparados entre si pelo fato de construírem o reino do homem” independentemente desse aspecto que seria a fé religiosa. Aliás, é esta a tese que Clodovis Boff defende no seu livro “Teologia e Prática. Teologia do Político e suas Mediações”, Ed. Vozes, Petrópolis 1978.

4) O Pensamento da Igreja

O genuíno pensamento da Igreja tem sido formulado pelo Santo Padre João Paulo II em vários escritos seus, dos quais destacamos os seguintes trechos:

“Hoje, o apelo à conversão, que os missionários dirigem aos não-cristãos, é posto em discussão ou facilmente deixado no silêncio. Vê-se nele um ato de proselitismo: diz-se que basta ajudar os homens a torna-rem-se mais homens ou mais fieis à própria religião, que basta construir comunidades capazes de trabalharem pela justiça, pela liberdade, pela paz e pela solidariedade. Esquecem, porém, que toda pessoa tem o direi-to de ouvir a Boa Nova de Deus que se revela e se dá em Cristo, para realizar, em plenitude, sua própria vocação. A grandeza deste evento res-soa nas palavras de Jesus à samaritana: ?Se tu conhecesses o dom de Deus, e no desejo inconsciente, mas intenso, da mulher: ´Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede? (Jo 4,10.15)” Enc. Redemptoris Missio n0 46).

“No mundo moderno, há tendência para reduzir o homem unica-mente à dimensão horizontal. Mas o que acontece ao homem que não se abre ao Absoluto? A resposta está na experiência de cada homem, mas está também inscrita na historia da humanidade, com o sangue derrama-do em nome de ideologias e regimes políticos que quiseram construir uma humanidade nova, sem Deus” (ibd. n9 8).

Não há, pois, como duvidar de que a parábola em foco contraria a Doutrina da Igreja.

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