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Que Horror! A Bíblia Plagiou… (Parte 2/2)

Autor: Pato Acevedo

No artigo anterior começamos a explicar o porquê de não ficarmos nervosos quando alguém nos afirma que os relatos da Bíblia foram copiados de outras fontes da Antiguidade. Por bastante tempo foi muito fácil fazer este tipo de acusação, mas hoje, quando as fontes originais encontram-se disponíveis online, a grande maioria dos supostos plágios se desvanecem pela leitura do texto original e verificação de que o próprio relato é diferente.

Contudo, ultrapassada esta prova simples, há casos em que surge uma certa correlação entre o relato bíblico e o mito.

3º PASSO: COINCIDÊNCIAS NÃO IMPLICAM CÓPIA

Os mitos são relatos que, de certa maneira, definem uma cultura. De algum modo ressoam em seus ouvintes porque refletem e explicam uma parte da sua vida cotidiana. O deus mais importante de um povo guerreiro será o da guerra e as suas sagas serão aquelas que se repetem vez ou outra. Se outra cultura se desenvolve em torno do comércio e da navegação, estes relatos terão mais importância em seus mitos. Portanto, não deveria surpreender ninguém que os relatos da Bíblia reflitam aspectos da vida que eram comuns na época em que foram escritos.

Por exemplo: quem conhece pela primeira vez a vida de Sargão de Acade e acredita que a Bíblia é um livro caído do céu, pode ficar sinceramente surpreso e até comovido por certos pontos de contato entre este personagem e Moisés. Segundo a lenda, ao nascer, Sargão foi colocado numa cesta por sua mãe, uma sacerdotisa que concebera secretamente, e lançado no rio; a corrente o levou até o palácio, onde foi resgatado pelo jardineiro e acaba aprendendo o ofício deste; sendo jardineiro, a deusa Ishtar se apaixonou por ele e bastou isto para ascender ao trono.

Há motivos para pensar que o autor do Êxodo inseriu elementos da vida de Sargão em seu texto? Claro que não!

De início, devemos notar que a lenda de Sargão provém do século VII a.C., mais de mil anos após a vida de Sargão e, também, muitos séculos depois de Moisés. Portanto, não é uma conclusão clara afirmar que a Bíblia copiou a lenda assíria. É perfeitamente possível que a direção tenha se dado no sentido inverso: os assírios copiaram partes da vida de Moisés, atribuindo-as ao seu rei lendário.

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Por outro lado, pode ser que ninguém tenha copiado nada. A exposição de crianças era uma prática extremamente comum na Antiguidade, um aspecto reconhecido da vida e aceito como inevitável. Sem ir mais longe, os espartanos abandonavam as crianças consideradas não-aptas para o combate, para que fossem devoradas por feras. Neste contexto cultural, não é de se estranhar que muitas crianças fossem deixadas à própria sorte em cestas num curso d’água e não poucas tenham sido resgatadas e adotadas por outras famílias. Ao longo dos anos, alguns devem ter sido resgatados por moradores de palácio, vindo a realizar grandes feitos em sua vida. Não é que um relato fosse copiado de outro, mas simplesmente a vida era dura assim.

Não podemos deixar de observar que aí termina todas as semelhanças entre Moisés e Sargão. Este foi posto na cesta por sua mãe, uma sacerdotisa; Moisés, por sua irmã. Sargão é resgatado por um jardineiro; Moisés, pela filha do faraó. Sargão ascende ao trono porque uma deusa se apaixona por ele; Moisés foge e morre no deserto. Sargão é recordado como conquistador; Moisés, como legislador. Na verdade, entre ambos não há outro paralelo além do fato de terem sido resgatados das águas.

4º PASSO: É IMPORTANTE?

O ponto que eu mais quero enfatizar, o ponto de partida para entender a Bíblia, é entender que ela é a Palavra de Deus, mas não é um livro que caiu do céu. Foi escrito por Deus, mas também por homens que escreveram usando a linguagem dos homens para que fosse lida e compreendida por outros homens. O autor humano da Bíblia não é um oráculo que balbucia frases desconexas que um outro homem interpreta. Ele também participa do texto e se expressa através dele empregando as formas que são comuns em sua cultura.

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Com isto em mente, poderia surpreender que na Bíblia existissem expressões que também aparecem em outros povos próximos? Vejamos um caso em particular:

Até 1834, a única informação que existia sobre o Império Hitita eram as numerosas menções deste povo que havia na Bíblia. Não havia escritos nem ruínas que pudessem ser atribuídos a eles, mas as Escrituras deixavam claro que tinham sido um povo muito importante na Antiguidade. Nesse ano se descobriram as primeiras ruínas desse povo e, 50 anos depois, ficou estabelecido que pertenciam aos mesmos hititas que apareciam na Bíblia. Novamente, as Escrituras demonstram que são uma fonte histórica confiável. Posteriormente se descobriram numerosos textos hititas e, entre eles, um tratado de vassalagem que supostamente apresentava semelhanças estruturais com os Dez Mandamentos. A conclusão que os ateus imediatamente propuseram foi a de que os autores da Bíblia tinham plagiado estes tratados para escrever a Lei de Deus.

Se eu cresse que a Bíblia caiu do céu e recebesse essa informação, certamente me sentiria devastado. Porém, sei que os autores da Bíblia falavam em linguagem do seu tempo e, por isso, não há nada de estranho que usem as mesmas convenções que eram usadas na sua época. Inclusive, se foi o próprio Deus quem ditou o texto a Moisés, para que ele o escrevesse nas tábuas da Lei, o lógico seria usar a linguagem legal desse tempo, como base para a sua própria Aliança e, assim, assegurar que os israelitas compreendiam o que estavam aceitando.

Outro tanto poderia ser dito acerca de alguns Salmos da Bíblia, que louvam a Deus com versos que, ao que parecem, são similares aos encontrados nos escritos de outras culturas próximas. O livro dos Salmos é o cancioneiro que os antigos israelitas usavam em suas cerimônias no Templo de Jerusalém. Tal como hoje se costuma adaptar a letra de canções populares para cantá-las na Igreja, pode ser que na Antiguidade os israelitas tenham feito o mesmo com algum canto que os povos vizinhos usavam em suas cerimônias. Se definitivamente esse Salmo em particular terminou na Bíblia, não é tão importante quanto o estar aí por vontade de Deus e o que significa para nós hoje.

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Para concluir, repassemos a lista dos supostos “plágios na Bíblia”, com os quais começamos esta série de artigos, para ver como cada um é resolvido. Supostamente a Bíblia copiou:

– Da epopeia de Gilgamesh no relato do dilúvio: o que é parecido limita-se ao tema do dilúvio, algo comum em todo o mundo [antigo] (3º Passo);

– Da vida de Sargão de Acade no Êxodo: o que é parecido limita-se ao tema do menino colocado numa cesta em um rio, costume comum naquela época (3º Passo);

– Dos pactos hititas nos Dez Mandamentos: é explicado pela necessidade de dar a entender a natureza do texto (4º Passo);

– Dos hinos cananeus nos Salmos: provável adaptação de outras culturas, um processo sem maior importância religiosa (4º Passo);

– Da lenda de Buda no nascimento virginal de Jesus: não há referência a um nascimento virginal de Buda no sentido cristão (2º Passo);

– Dos mitos universais na data do Natal: por variação dos diferentes calendários, tal afirmação não faz sentido (1º Passo);

– Das religiões mistéricas no Batismo: os ritos que faziam submergir em água eram comuns na Antiguidade, tanto no Paganismo quanto na religião israelita (3º Passo);

– Do deus pagão Mitras na Crucificação: não há referências a uma crucificação de Mitras anterior ao Cristianismo (2º Passo);

– Do deus pagão Horus na Ressurreição: não é uma ressurreição no sentido cristão, mas uma representação do ciclo constante do pôr e do nascer do sol (2º Passo).

  • Fonte: Blog La Esfera y la Cruz – http://www.infocatolica.com/blog/esferacruz.php
  • Tradução: Carlos Martins Nabeto


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