“Socialismo religioso, socialismo católico são termos contraditórios: ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista.” (Papa Pio XI, Encíclica Quadragesimo Anno)

Se ser “de esquerda” significasse simplesmente uma preocupação com os pobres, com os marginalizados etc., não haveria problema algum em um católico ser de esquerda. Acontece que ser de esquerda não é meramente preocupar-se com os pobres e com os problemas sociais, e é absolutamente fundamental que essa distinção fique bem clara, pois é com esse discurso, de que ser de esquerda é ficar do lado dos pobres, que os arautos do esquerdismo têm levado muitas pessoas, principalmente os jovens (naturalmente idealistas), para as fileiras socialistas. Vejamos, pois, em que realmente consiste ser “de esquerda”.

Luta de classes: dogma básico da ideologia esquerdista

Em primeiro lugar, ser de esquerda significa, necessariamente, aderir a uma ideologia, a uma visão de mundo, enfim, a um conjunto de idéias e princípios que determinam o modo pelo qual o esquerdista enxerga e compreende a realidade. E mesmo quem nunca leu nada sobre o pensamento esquerdista sabe, mesmo que inconscientemente, que um dos dogmas dessa ideologia, talvez o dogma principal, é a luta de classes, que podemos definir, sucintamente, como o embate entre os ricos e os pobres, entre os “opressores” e os “oprimidos”, entre os “donos do capital” (ou capitalistas) e os trabalhadores. Em suma, luta de classes é a idéia segundo a qual em todas as relações sociais existe essa tensão entre os “fortes” e os “fracos”, e praticamente toda a realidade é afetada por esse embate, na medida em que todas as ações são determinadas pelos interesses desta ou daquela classe. De acordo com o esquerdismo, até mesmo os princípios éticos e morais estão sujeitos à luta de classes, no sentido de que, na luta contra os “poderosos” em favor dos “fracos”, vale tudo, até mesmo mentir, roubar, desviar dinheiro público etc. Mas é preciso que o católico saiba que a Igreja reprova a teoria da luta de classes. Vejamos, por exemplo, o que nos ensinou o Papa João Paulo II sobre essa teoria:

“77. A Igreja, encorajando a criação e a ação de associações — tais os sindicatos — que lutam pela defesa dos interesses legítimos dos trabalhadores pela justiça social, nem por isso admite a teoria que vê na luta de classes o dinamismo estrutural da vida social. A ação que a Igreja preconiza não é a luta de uma classe contra outra para eliminar o adversário, nem provém da submissão aberrante a uma pretensa lei da história, mas se trata de uma luta nobre e ponderada, visando à justiça e à solidariedade sociais. Aliás, o fiel cristão sempre preferirá a via do diálogo e do acordo. Cristo nos deu o mandamento do amor aos inimigos (cf. Mt 5,44; Lc 6,27s 35). No espírito do Evangelho, a libertação é, portanto, incompatível com o ódio pelo outro, considerado individual ou coletivamente, inclusive o ódio ao inimigo.”[1]

É inegável que a luta de classes, princípio fundamental da ideologia esquerdista, alimenta o ódio entre as pessoas e os grupos sociais. Quem adere ao esquerdismo é inevitavelmente tomado por esse ódio, mesmo que nunca tenha ouvido falar do conceito de luta de classes. E esse ódio esquerdista, por seu turno, é dirigido a todas as pessoas e instituições que possam, na visão esquerdista, simbolizar a “classe dominante”. As Organizações Globo, os empresários, as pessoas mais abastadas e os países ricos (sobretudo os EUA), por exemplo, tornam-se objeto do ódio esquerdista, na medida em que servem à opressão dos poderosos sobre os mais fracos. E é de se notar que a própria Igreja passa a ser objeto desse ódio:

“12. Mas as ‘teologias da libertação’ que aqui nos referimos entendem por Igreja do povo uma Igreja de classe, a Igreja do povo oprimido, Igreja que deve ser ‘conscientizada’ em vista da luta libertadora organizada. O povo assim entendido chega mesmo a tornar-se, na opinião de alguns, objeto de fé.

13. A partir de tal imagem da Igreja do povo elabora-se uma crítica das próprias estruturas da Igreja. Não se trata apenas de uma correção fraterna dirigida aos pastores da Igreja cujo procedimento não reflita o espírito evangélico de serviço e se apegue a sinais anacrônicos de autoridade que escandalizam os pobres. Trata-se, sim, de pôr em xeque a estrutura sacramental e hierárquica da Igreja tal como a desejou o próprio Senhor. Na hierarquia e no magistério são denunciados os que desempenham objetivamente o papel da classe dominante, que é preciso combater. Teologicamente, esta posição equivale a afirmar que o povo é a fonte dos ministérios e, portanto, pode dotar-se de ministros à sua escolha, de acordo com as necessidades de sua tarefa revolucionária histórica.”[2]

É claro que um esquerdista que ler esse texto retrucará dizendo que não tem ódio por ninguém, mas sim “amor pelos pobres” (vide a famosa “opção preferencial pelos pobres”, da teologia da libertação). E mesmo que tal esquerdista admita que realmente sente ódio aos “ricos”, aos “poderosos” etc., ele justificará esse ódio afirmando que é a luta em defesa dos “oprimidos” que o faz ter ódio aos “opressores”. Mas, como lemos no documento já citado, “no espírito do Evangelho, a libertação é, portanto, incompatível com o ódio pelo outro, considerado individual ou coletivamente, inclusive o ódio ao inimigo.” Cristo, como sabemos, nos deu o mandamento e o exemplo do amor, não do ódio.

Ainda sobre a luta de classes, convém ler o que escreveu o Papa Pio XI, em sua Encíclica Quadragesimo Anno:

“Mas não se vá julgar que os partidos socialistas, não filiados ainda no comunismo, professam já todos teórica e praticamente esta moderação. Em geral não renegam a luta de classes nem a abolição da propriedade, apenas a mitigam. Ora se os falsos princípios assim se mitigam e obliteram, pergunta-se, ou melhor perguntam alguns sem razão, se não será bem que também os princípios católicos se mitiguem e moderem, para sair ao encontro do socialismo e congraçar-se com ele a meio caminho? Não falta quem se deixe levar da esperança de atrair por este modo os socialistas. Esperança vã! Quem quer ser apóstolo entre os socialistas, é preciso que professe franca e lealmente toda a verdade cristã, e que de nenhum modo feche os olhos ao erro. Esforcem-se antes, se querem ser verdadeiros arautos do Evangelho, por mostrar aos socialistas, que as suas reclamações, na parte que tem de justas, se defendem muito mais vigorosamente com os princípios da fé e se promovem muito mais eficazmente com as forças da caridade.”[3]

Em outras palavras, é preciso que os católicos saibam que a solidariedade, a fraternidade e a justiça, muito antes de constituírem uma espécie de “monopólio” dos esquerdistas, são valores que se defendem e se promovem muito mais eficazmente a partir dos princípios da fé cristã e da força do amor, e não segundo as idéias esquerdistas, as quais, como vimos, só produzem o ódio e a inveja, conforme deixa claro o trecho abaixo, da já citada Instrução da Congregação da Doutrina da fé “Libertatis nuntius”:

“Por conseguinte, o ingresso na luta de classes é apresentado como uma exigência da caridade como tal; denunciam-se como atitudes obstaculizadoras e contrárias ao amor aos pobres a vontade de amar desde já todos os homens, qualquer que seja a classe a que pertença, bem como o empenho em ir a seu encontro pelas vias não violentas do diálogo e da persuasão. Se, porém, se afirma que o homem não pode ser objeto de ódio, afirma-se simultaneamente do mesmo modo que, pelo fato de pertencer objetivamente ao mundo dos ricos, ele deve, por princípio, ser combatido como inimigo de classe. Como conseqüência, a natureza universal do amor ao próximo e a fraternidade transformam-se num princípio escatológico, que terá validade somente para o ‘homem novo’ que deve surgir da revolução vitoriosa.”[4]

Com relação à atração que alguns católicos sentem pela ideologia socialista, é de extrema importância lermos as advertências abaixo, do Papa Paulo VI:

“31. Há cristãos, hoje em dia, que se sentem atraídos pelas correntes socialistas e pelas suas diversas evoluções. Eles procuram descobrir aí um certo número de aspirações, que acalentam em si mesmos, em nome da sua fé. Em determinado momento têm a sensação de estar inseridos numa corrente histórica e querem realizar aí a sua ação. Mas sucede que, conforme os continentes e as culturas, esta corrente histórica assume formas diversas, sob um mesmo vocábulo; contudo, tal corrente foi e continua a ser, em muitos casos, inspirada por ideologias incompatíveis com a fé cristã. Impõe-se, por conseguinte um discernimento atento. Muito freqüentemente, os cristãos atraídos pelo socialismo têm tendência para o idealizar, em termos muito genéricos, aliás: desejo de justiça, de solidariedade e de igualdade. Eles recusam-se a reconhecer as pressões dos movimentos históricos socialistas, que permanecem condicionados pelas suas ideologias de origem. Entre os diversos escalões de expressão do socialismo – uma aspiraçâo generosa e uma procura diligente de uma sociedade mais justa, movimentos históricos que tenham uma organização e uma finalidade política, ou, ainda, uma ideologia que pretenda dar uma visão total e autônoma do homem – devem fazer-se distinções, que hão de servir para guiar opções concretas. No entanto, essas distinções não devem ir até ao extremismo de considerar esses diversos escalões de expressão do socialismo como completamente separados e independentes. A ligação concreta que, conforme as circunstâncias, existe entre eles, tem de ser lucidamente notada; e então, uma tal perspicácia permitirá aos cristãos estabelecer o grau de compromisso possível nessa causa, salvaguardados os valores, principalmente, de liberdade, de responsabilidade e de abertura ao espiritual, que garantam o desabrochamento integral do homem.

Evolução histórica do marxismo

32. Outros cristãos perguntam-se mesmo, se uma evolução histórica do marxismo não permitiria algumas aproximações concretas. Eles verificam que se deu, de fato, uma certa explosão do mesmo marxismo, o qual, até agora se apresentava como uma ideologia unitária, explicativa da totalidade do homem e do mundo no seu processo de desenvolvimento, e, portanto, atéia. Com efeito, para além do contraste ideológico que põe frente-a-frente, separando-os oficialmente entre si, os vários defensores do marxismo-leninismo, com a sua interpretação prospectiva do pensamento dos fundadores; para além das oposições abertas entre os sistemas políticos que atualmente derivam o nome desse mesmo pensamento: há alguns que estabelecem distinções entre os diversos escalões de expressão do marxismo.

33. Para uns, o marxismo continua a ser, essencialmente, uma prática ativa da luta de classes. Por isso mesmo que têm a experiência vivida da força sempre presente e a renascer sem cessar, daquelas relações de dominação e de exploração entre os homens, estes que assim encaram o maxismo reduzem-no freqüentemente a ser apenas a tal luta, por vezes sem nenhum outro objetivo; luta que é preciso prosseguir, e até mesmo suscitar, de modo permanente. Para outros, o marxismo será prevalentemente o exercício coletivo de um poder político e econômico, sob a direção do partido único, que intenta ser, ele somente, expressão e garantia do bem de todos, subtraindo aos indivíduos e aos outros grupos toda e qualquer possibilidade de iniciativa e de escolha. A um terceiro nível, o marxismo, quer esteja no poder, quer não, é algo que se relaciona com uma ideologia socialista, à base de materialismo histórico e de negação de tudo o que é transcendente.

Noutra perspectiva, finalmente, o marxismo apresenta-se sob uma forma mais atenuada e mais sedutora para o espírito moderno: como uma atividade científica, como um método rigoroso de exame da realidade social e política, ou ainda, como a ligação racional e experimentada pela história, entre o conhecimento teórico e a prática da transformação revolucionária. Se bem que este tipo de análise favoreça determinados aspectos da realidade, em detrimento dos outros, e os interprete em função da ideologia, ele proporciona entretanto a alguns, com um instrumento de trabalho, uma certeza preliminar para a ação: a pretensão de decifrar, sob um prisma científico, as molas reais da evolução da sociedade.

34. Se nesta gama do marxismo, tal como ele é vivido concretamente, se podem distinguir estes diversos aspectos e as questões que eles levantam aos cristãos para a reflexão e para a ação, seria ilusório e perigoso mesmo, chegar-se ao ponto de esquecer a ligação íntima que os une radicalmente, e de aceitar os elementos de análise marxista sem reconhecer as suas relações com a ideologia, e ainda, de entrar na prática da luta de classes e da sua interpretação marxista, esquecendo-se de atender ao tipo de sociedade totalitária e violenta, a que conduz este processo.”[5]

E quanto ao socialismo “ligth”?

Note, caro leitor, que embora haja variações dentro do pensamento esquerdista, que vão desde o marxismo radical até o socialismo light, todas as formas de esquerdismo, em última análise, são contrárias à fé católica, na medida em que, como já foi dito, a adesão ao esquerdismo implica a aceitação um conjunto de idéias e princípios que são incompatíveis com a nossa fé (voltaremos a falar sobre esse ponto mais à frente).

Sobre a evolução do pensamento esquerdista e suas variações, leiamos o que disse o Papa Pio XI:

“Evolução do socialismo

Não menos profunda que a da economia, foi desde o tempo de Leão XIII a evolução do socialismo, contra o qual principalmente terçou armas o Nosso Predecessor. Então podia ele dizer-se único, defendia uma doutrina bem definida e reduzida a sistema; depois dividiu-se em duas facções principais, de tendências pela maior parte contrárias, e irreconciliáveis entre si, conservando porém ambas o princípio fundamental do socialismo primitivo, contrário à fé cristã.

O partido da violência ou comunismo

Uma das facções seguiu uma evolução paralela à da economia capitalista, que antes descrevemos, e precipitou no comunismo, que ensina duas coisas e as procura realizar, não oculta ou solapadamente, mas à luz do dia, francamente e por todos os meios ainda os mais violentos: guerra de classes sem tréguas nem quartel e completa destruição da propriedade particular. Na prossecução destes objectivos a tudo se atreve, nada respeita; uma vez no poder, é incrível e espantoso quão bárbaro e desumano se monstra. Aí estão a atestá-lo as mortandades e ruínas de que alastrou vastíssimas regiões da Europa oriental e da Ásia; e então o ódio declarado contra a santa Igreja e contra o mesmo Deus demasiado o provam essas monstruosidades sacrílegas bem conhecidas de todo o mundo. Por isso, se bem julgamos supérfluo chamar a atenção dos filhos obedientes da Igreja para a impiedade e iniquidade do comunismo, contudo não é sem uma dor profunda, que vemos a apatia dos que parecem desprezar perigos tão iminentes, e com desleixo pasmoso deixam propagar por toda a parte doutrinas, que porão a sociedade a ferro e fogo. Sobretudo digna de censura é a inércia daqueles, que não tratam de suprimir ou mudar um estado de coisas, que, exasperando os ânimos, abre caminho à subversão e ruína completa da sociedade.

O socialismo propriamente dito, ou mitigado

Mais moderada é a outra facção, que conservou o nome de socialismo: porque não só professa abster-se da violência, mas abranda e limita de algum modo, embora não as suprima de todo, a luta de classes e a extinção da propriedade particular. Dir-se-ia que o socialismo, aterrado com as consequências que o comunismo deduziu de seus próprios princípios, tende para as verdades que a tradição cristã sempre solenemente ensinou, e delas em certa maneira se aproxima; por quanto é inegável que as suas revindicações concordam às vezes muitíssimo com as reclamações dos católicos que trabalham na reforma social.

Com efeito a luta de classes, quando livre de inimizades e ódio mútuo, transforma-se pouco a pouco numa concorrência honesta, fundada no amor da justiça, que se bem não é aquela bem-aventurada paz social, por que todos suspiramos, pode e deve ser o princípio da mútua colaboração. Do mesmo modo a guerra à propriedade particular, afrouxando pouco a pouco, chega a limitar-se a ponto de já não agredir a posse do necessário à produção dos bens, mas aquele despotismo social, que a propriedade contra todo o direito se arrogou. E de facto um tal poder não pertence aos simples proprietários mas à autoridade pública. Por este caminho podem os princípios deste socialismo mitigado vir pouco a pouco a coincidir com os votos e reclamações dos que procuram reformar a sociedade segundo os princípios cristãos. Estes com razão pretendem que certos géneros de bens sejam reservados ao Estado, quando o poderio que trazem consigo é tal, que, sem perigo do mesmo Estado, não pode deixar-se em mãos dos particulares.

Tão justos desejos e revindicações em nada se opõem à verdade cristã, e muito menos são exclusivos do socialismo. Por isso quem só por eles luta, não tem razão para declarar-se socialista.

Mas não se vá julgar que os partidos socialistas, não filiados ainda no comunismo, professam já todos teórica e praticamente esta moderação. Em geral não renegam a luta de classes nem a abolição da propriedade, apenas a mitigam. Ora se os falsos princípios assim se mitigam e obliteram, pergunta-se, ou melhor perguntam alguns sem razão, se não será bem que também os princípios católicos se mitiguem e moderem, para sair ao encontro do socialismo e congraçar-se com ele a meio caminho? Não falta quem se deixe levar da esperança de atrair por este modo os socialistas. Esperança vã! Quem quer ser apóstolo entre os socialistas, é preciso que professe franca e lealmente toda a verdade cristã, e que de nenhum modo feche os olhos ao erro. Esforcem-se antes, se querem ser verdadeiros arautos do Evangelho, por mostrar aos socialistas, que as suas reclamações, na parte que tem de justas, se defendem muito mais vigorosamente com os princípios da fé e se promovem muito mais eficazmente com as forças da caridade.

Contrasta com a doutrina católica

E se o socialismo estiver realmente tão moderado no tocante à luta de classes e à propriedade particular, que já não mereça nisto a mínima censura? Terá renunciado por isso à sua natureza essencialmente anticristã? Eis uma dúvida, que a muitos traz suspensos. Muitíssimos católicos convencidos de que os princípios cristãos não podem jamais abandonar-se nem obliterar-se, volvem os olhos para esta Santa Sé e suplicam instantemente, que definamos se este socialismo repudiou de tal maneira as suas falsas doutrinas, que já se possa abraçar e quase baptizar, sem prejuízo de nenhum princípio cristão. Para lhes respondermos, como pede a Nossa paterna solicitude, declaramos: O socialismo quer se considere como doutrina, quer como facto histórico, ou como « acção », se é verdadeiro socialismo, mesmo depois de se aproximar da verdade e da justiça nos pontos sobreditos, não pode conciliar-se com a doutrina católica; pois concebe a sociedade de modo completamente avesso à verdade cristã.

Com efeito: segundo a doutrina cristã o homem sociável por natureza é colocado nesta terra, para que, vivendo em sociedade e sob a autoridade ordenada por Deus, cultive e desenvolva plenamente todas as suas faculdades, para louvor e glória do Criador, e pelo fiel cumprimento dos deveres da sua profissão ou vocação, qualquer que ela seja, grangeie a felicidade temporal e eterna. Ora o socialismo, ignorando por completo ou desprezando este fim sublime dos indivíduos e da sociedade, opina que o consórcio humano foi instituído só pela vantagem material que oferece. E na verdade do facto que o trabalho convenientemente organizado é muito mais produtivo que os esforços isolados, os socialistas concluem, que a actividade económica deve necessariamente revestir uma forma social. Desta necessidade segue-se, segundo eles, que os homens por amor da produção são obrigados a entregar-se e sujeitar-se completamente à sociedade. Mais: estimam tanto os bens materiais, que servem à comodidade da vida, que afirmam deverem pospor-se e mesmo sacrificar-se quaisquer outros bens superiores e em particular a liberdade às exigências de uma produção activíssima. Esta perda da dignidade humana, inevitável no sistema da produção « socializada », julgam-na bem compensada com a abundância dos bens que, produzidos socialmente, serão distribuídos pelos indivíduos, e estes poderão livremente aplicar a uma vida mais cómoda e faustosa. Em consequência a sociedade sonhada pelo socialismo não pode existir nem conceber-se sem violências manifestas; por outra parte goza de uma liberdade não menos falsa, pois carece de verdadeira autoridade social; esta não pode fundar-se nos cómodos materiais, mas provém somente de Deus Criador e fim último de todas as coisas. (55)

Católicos e socialistas termos contraditórios

E se este erro, como todos os mais, encerra algo de verdade, o que os Sumos Pontífices nunca negaram, funda-se contudo numa própria concepção da sociedade humana, diametralmente oposta à verdadeira doutrina católica. Socialismo religioso, socialismo católico são termos contraditórios: ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista.”[6]

Leiamos agora mais um trecho de um documento do Magistério sobre a evolução do esquerdismo e suas variantes:

“8. Ninguém nega que, desde suas origens, e bem mais nestes últimos anos, o pensamento marxiano se diversificou, dando origem a diversas opiniões que divergem consideravelmente entre si. Na medida, porém, em que se manem verdadeiramente marxianas, estas opiniões continuam vinculadas a algumas teses fundamentais que não são compatíveis com a concepção cristã do homem e da sociedade.

Daí se seque que certas fórmulas já não são totalmente neutras, mas conservam a significação que receberam no pensamento primigênio dos marxistas. Isso vale para a ‘luta de classes’. Esta expressão continua totalmente impregnada da força que Karl Marx lhe deu e não pode, por conseguinte, ser considerada como empiricamente equivalente a ‘conflito social agudo’.

Aqueles que se servem de semelhantes fórmulas, fingindo reter apenas alguns elementos da análise marxiana, que de resto seria rejeitada na sua globalidade, alimentam pelo menos uma grave ambigüidade no espírito de seus leitores.

9. Lembremos que o ateísmo e a negação da pessoa humana, de sua liberdade e de seus direitos se encontram no centro da concepção marxiana. Estas <idéias>, portanto, contêm em si erros que ameaçam diretamente as verdades de fé sobre o destino eterno dos homens.”[7]

Considerando que a ideologia esquerdista está baseada fundamentalmente no dogma da luta de classes, e considerando que esse dogma já foi explícita e reiteradamente reprovado pela Igreja, como ficou demonstrado acima, impõe-se-nos a conclusão de que pelo simples fato de ser baseada na luta de classes a ideologia esquerdista deve ser prontamente rechaçada pelo fiel católico.

A agenda esquerdista

Mas essa não é a única razão pela qual um católico não pode ser de esquerda. Há que se considerar também o que podemos chamar de agenda esquerdista, que consiste no conjunto de idéias e causas defendidas de um modo geral por todos os partidos e políticos de esquerda. Tal agenda inclui:

1 – a legalização (ou “descriminalização”) do aborto;

1.1 – o PT, principal partido de esquerda não só do Brasil mas da América Latina, apóia a “descriminalização do aborto” (clique aqui e aqui); mas não é só o PT, outros partidos de esquerda, como o PCdoB (aliado incondicional do governo Lula/PT), também apóiam a legalização do aborto (leia aqui);

2 – a união civil de homossexuais (ou “casamento gay”);

2-1 – o PT também apóia o “casamento gay” (leia aqui e aqui); aliás, o projeto original da “união civil homossexual” é da ex-deputada Marta Suplicy, do PT de São Paulo (veja aqui); veja também essa matéria;

3 – a Lei da Homofobia (ou “lei da mordaça gay”);

3.1 – o projeto da Lei da Homofobia, que pretende tornar crime toda e qualquer atitude considerada “discriminatória” pelos homossexuais (leia mais aqui e aqui), é amplamente apoiado pelo PT (veja aqui), bem como por outros partidos e movimentos de esquerda (veja aqui e aqui);

4 – o pluralismo/relativismo religioso (de acordo com essa perspectiva, todas as religiões são equivalentes e devem contribuir para que seja alcançada a “sociedade ideal” preconizada pelos esquerdistas; ainda de acordo com essa concepção, não só o catolicismo mas todas as demais religiões são sutil e gradativamente esvaziadas de seu conteúdo transcendente e vão se tornando apenas variações de um humanismo laico com um mero verniz religioso);

4.1 – veja apenas alguns exemplos dessa perspectiva clicando nos hiperlinks abaixo:

– Desafios às religiões num mundo pluralista e desigual, Por Frei Betto

– CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS: Cristãos se unem por transformações

– ‘Jesus como único e universal Salvador precisa ser reinterpretado’

– Liberdade religiosa, in-tolerância religiosa, por Rev. Israel Cardoso

5 – as pesquisas com células-tronco embrionárias (que implicam a realização de abortos em massa);

5.1 – Mais uma vez indo na contramão da doutrina católica, o PT (veja aqui, aqui e aqui) e o presidente Lula (veja aqui) manifestam apoio às pesquisas com células-tronco; mas não é só o PT e o presidente Lula que são favoráveis a essas pesquisas, Alto Rebelo, do PCdoB, partido da base governista, também é (veja aqui);

6 – o relativismo moral;

6.1 – novas “configurações familiares”, como famílias com “dois pais” ou “duas mães” (veja aqui e aqui); sexo livre, com o uso “obrigatório” de preservativo (veja a postura do governo Lula/PT sobre esse assunto clicando aqui, aqui e aqui); etc.;

7 – o antiamericanismo, que tem como conseqüência a aliança dos esquerdistas com governos antidemocráticos, como o do venezuelano Hugo Chávez e o dos irmãos Castro (veja aqui, aqui, aqui, aqui e aqui), e até com movimentos radicais islâmicos (confira aqui e aqui).

Resta alguma dúvida sobre a absoluta incompatibilidade entre a fé católica e a agenda esquerdista?

Esquerdismo e excomunhão

Em 28 de junho de 1949 o Vaticano publicou um documento intitulado “Decreto contra o comunismo”, o qual previa a pena de excomunhão para “fiéis cristãos que professam a doutrina materialista e anticristã do comunismo, e sobretudo os que a defendem ou propagam”[8]. O referido decreto foi ab-rogado (pelo menos na opinião de alguns especialistas em direito canônico) por ocasião da promulgação do atual Código de Direito Canônico (cf. Cân. 6.).

Não obstante, vejamos o que diz o cânon 1364 do Código de Direito Canônico (CDC) atual:

“Cân. 1364 — § 1. O apóstata da fé, o herege ou o cismático incorre em excomunhão latae sententiae (…)”

Consideremos agora a definição de “heresia” segundo o CDC:

“Cân. 751 — Chama-se heresia a negação pertinaz, após a recepção do batismo, de qualquer verdade que se deva crer com fé divina e católica, ou a dúvida pertinaz a respeito dela (…)”

Já o cânon 750 do CDC expressa:

“Cân. 750 — § 1. Deve-se crer com fé divina e católica em tudo o que se contém na palavra de Deus escrita ou transmitida por Tradição, ou seja, no único depósito da fé confiado à Igreja, quanto ao mesmo tempo é proposto como divinamente revelado quer pelo magistério solene da Igreja, quer por seu magistério ordinário e universal (…)”

Pode-se questionar se a ideologia esquerdista se enquadra no conceito de heresia. Mas mesmo que o esquerdismo não seja propriamente uma heresia, isto é, que o caráter de heresia do esquerdismo não tenha sido proposto como algo “divinamente revelado quer pelo magistério solene da Igreja, quer por seu magistério ordinário e universal”; e mesmo que a reprovação da Igreja à ideologia esquerdista não se enquadre no § 2 do cânon 750 (“Deve-se ainda firmemente aceitar e acreditar também em tudo o que é proposto de maneira definitiva pelo magistério da Igreja em matéria de fé e costumes, isto é, tudo o que se requer para conservar santamente e expor fielmente o depósito da fé […]”), há que se considerar, no mínimo, que o risco do esquerdismo ser uma heresia é consideravelmente grande, e esse risco já é o bastante para que o fiel católico mantenha distância dessa ideologia nefasta.

Ademais, tendo o Magistério reprovado reiteradas vezes a ideologia esquerdista, por que razão o fiel católico há de ir contra o ensino da Igreja, ainda mais correndo sério risco de excomunhão?!

Conclusão

Não se pode negar que nas fileiras esquerdistas há muitas pessoas bem-intencionadas, que realmente se preocupam com os mais pobres e necessitados. A própria Igreja reconhece algum mérito na teologia da libertação, que é o esquerdismo aplicado à fé cristã.[9] Não obstante, cremos ter ficado suficientemente provada a absoluta incompatibilidade entre a ideologia esquerdista e a fé católica, e isso tanto no que diz respeito ao ensino do Magistério quanto no que se refere à agenda esquerdista, radicalmente contrária à fé cristã. E é importante salientar que essa incompatibilidade não se restringe ao esquerdismo em sentido estrito (isto é, ao comunismo marxista), mas abrange todo o espectro da ideologia esquerdista, que vai desde o marxismo “ortodoxo” até o socialismo moderado (ou “light”).

Ao chegarem ao final deste artigo, muitos leitores podem estar se perguntando: que posicionamento político-ideológico deve adotar o católico que queira manter-se fiel à Igreja? Essa questão, também de grande importância, merece ser tratada num outro artigo. Por ora, é fundamental que, em resposta à pergunta que serve de título ao presente texto, digamos: não, quem é católico NÃO pode ser de esquerda!

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NOTAS:
[1] Instrução da Congregação da Doutrina da fé “Libertatis conscientia”, 22 mar. 1986 (Denzinger, n. 4773). * [2] Instrução da Congregação da Doutrina da fé “Libertatis nuntius”, 6 ago. 1984 (Denzinger, nn. 4740 e 4741). * [3] Papa Pio XI, Carta Encíclica “Quadragesimo Anno”. * [4] Instrução da Congregação da Doutrina da fé “Libertatis nuntius”, 6 ago. 1984 (Denzinger, n. 4736). * [5] Papa Paulo VI, Carta Apostólica “Octogesima Adveniens”. * [6] Papa Pio XI, Carta Encíclica “Quadragesimo Anno”. * [7] Instrução da Congregação da Doutrina da fé “Libertatis nuntius”, 6 ago. 1984 (Denzinger, nn. 4732 a 4734). * [8] “Decreto contra o comunismo”, do S. Ofício, 28 jun. (1º jul.) 1949 (Denzinger, n. 3865). * [9] Por exemplo: “Todavia, as ‘teologias da libertação’, cujo mérito é ter revalorizado os grandes textos dos profetas e do Evangelho sobre a proteção aos pobres (…)” (Instrução da Congregação da Doutrina da fé “Libertatis nuntius”, 6 ago. 1984 (Denzinger, n. 4738).

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