Espaço do Leitor Respostas a Leitores (por Carlos Martins Nabeto)

Quem é esse anjo de quem os mulçumanos falam?

– Quem é esse anjo de quem os mulçumanos falam? (S.)

Caríssimo S.,

Pax Domini!

“A fé [islâmica] consiste em crer em Deus (=Allah), nos seus anjos, nos seus livros, nos seus enviados e no juízo final, assim como na predestinação, que acarreta o bem e o mal” (Sunna).

Como pode ver, os muçulmanos, assim como os judeus e os cristãos, estão obrigados a crer nos anjos, os quais, segundo a fé islâmica, têm funções pré-determinadas. Por isso, a sua pergunta, extremamente aberta e sem identificar o nome do anjo a que quer se referir, comportaria de nossa parte uma resposta imensa… No entanto, tentaremos oferecer a você uma resposta breve sobre os anjos em geral, segundo crença islâmica e, então, a partir dos diversos anjos possíveis, trataremos de um em especial: aquele que, em tese, teria sido o “responsável” pela revelação que daria origem a essa religião (e que, muito provavelmente, talvez seja o anjo sobre quem você está querendo saber).

Muito bem. Embora o Islamismo seja uma religião rigorosamente monoteísta – a ponto de repudiar peremptoriamente a Santíssima Trindade – e apesar da grande simplicidade temática do Corão (livro sagrado dos muçulmanos), os seus seguidores creem na existência de alguns seres espirituais, a saber:

– Gênios (=djin): seres inteligentes e intermediários entre anjos e demônios, são organizados em comunidades e podem assumir diversos aspectos visíveis, agindo em favor ou contrário aos homens. Maomé teria tido um encontro com estes seres – a quem também teria sido enviado -, após sua viagem a Taif, a fim de obter a adesão dos nômades para a sua causa. Note-se que, muito embora Avicena, antigo doutor muçulmano, tenha afirmado que os gênios não existem, o povo em geral acredita neles e, por essa razão disso, fazem uso de talismãs e praticam magias com o intuito de se protegerem desses seres.

– Anjos: segundo o Corão, “setenta mil anjos entram ou rezam na populosa casa no céu todos os dias”. Criados antes da criação do homem, são seres invisíveis, podendo no entanto Allah permitir que sejam vistos. Os anjos citados pelo Corão são Gibrail (=Gabriel), revelador do texto sagrado, também chamado “espírito santo”; Mikhail (=Miguel), vigilante do mundo, comanda a chuva e o crescimento das plantas; Azrail, o anjo da morte, que tira a alma das pessoas quando estas vêm a falecer; e Israfil, que tocará a trombeta no Juízo Final, quando também ocorrerá a ressurreição. Há ainda anjos caídos (demônios), entre eles Shaytan (=Satanás) ou Iblis (=o Diabo), que se rebelou contra Allah quando este ordenou aos seus anjos que obedecessem ao homem (pela recusa, Allah teria amaldiçoado Shaytan, permitindo, porém, que permanecesse tentando os homens até o Juízo Final). Além dos anjos bons e maus, cada homem teria do seu lado 2 anjos da guarda, um para anotar suas boas ações e outro para as más ações (por isso, o muçulmano faz uma saudação à sua direita e à sua esquerda no fim de cada oração ritual); e ainda dois anjos que questionam os mortos acerca do seu Senhor, da sua religião e do seu profeta.

Quando ao anjo Gabriel em específico, reveste-se de especialíssima importância para os fiéis muçulmanos em geral, já que teria sido ele quem revelou o Corão, na montanha de Hira, conforme registrado pelo primeiro biógrafo de Maomé, Muhammad Ibn Ishaq. Segundo ele, Maomé passava algum tempo sozinho na montanha quando ocorreu o seguinte fato:

– “[Declarou Maomé estas palavras:] Eu estava dormindo quando um anjo se aproximou de mim com um pedaço de tecido e disse-me: ‘Lê isto!’ Respondi: ‘Não sei ler!’ Ele apertou o tecido contra mim com tanta força que pensei que ia morrer. Depois largou-me e voltou a dizer: ‘Lê isto!’ Nervoso, respondi: ‘O que queres que eu leia?’ O anjo respondeu: ‘Lê em nome do teu Senhor, aquele que criou e fez o homem a partir de um embrião. Lê, pois o teu Senhor é misericordioso como mais ninguém sobre a Terra; ele que instruiu o homem pela pena, que lhe ensinou o que o homem não sabia’. Acordei do meu sonho e era como se aquelas palavras estivessem escritas no meu coração. Saí da gruta e fiquei de pé na vertente da montanha. A seguir, ouvi uma voz que me chamava do céu: ‘Maomé: és o mensageiro de Deus e eu sou Gabriel’. Levantei os olhos e o vi de encontro à linha do céu. Não me mexi. Quando tentei olhar para o outro lado, continuei a vê-lo”.

Segundo Bukhari e Muslim, o anjo Gabriel teria “aparecido ao Profeta [Maomé], quando ele estava entre os seus companheiros, sob a forma de um homem desconhecido, que não demonstrava qualquer vestígio de uma longa viagem, com roupa muito branca e cabelos negros. Ele sentou-se em frente ao Profeta, os seus joelhos encostados aos joelhos do Profeta, pousou as palmas nas suas pernas e conversou com o Profeta. O Profeta mais tarde disse aos seus companheiros que o homem que viram era o anjo Gabriel”; outra característica física de Gabriel é que ele teria “seiscentas asas que abrangiam o horizonte”.

Com efeito, o anjo Gabriel recebe todo o crédito pela revelação integral dos textos sagrados islâmicos a Maomé, apesar destes terem sido revelados de maneira fragmentária (ao que Maomé respondia que o Corão existia completo no céu [cf. Sura 25,32]) e, segundo a tradição muçulmana, os muitos fragmentos só terem sido reunidos após sua morte (em 632 d.C.), por expressa ordem do primeiro califa, Abu Bakr, ao antigo secretário de Maomé, Zaid, que contou ainda com a cooperação de outras pessoas (o texto final foi revisto no tempo do califa Otman [644-656], que determinou que todos os textos corâmicos mais antigos – escritos em folhas de palmeira, ossos de camelo, pedras, etc. – fossem destruídos; deste modo, o “texto autorizado” por Otman é o padrão usado por todos os muçulmanos do mundo, incluindo aí as diversas seitas, muito embora alguns destes grupos afirmem possuir outros ditos autênticos de Maomé não encontrados no Corão, os “hadith” [=tradição]).

Não obstante tudo isso, recorde-se também que os muçulmanos reconhecem que o mesmo Gabriel, tido por “espírito santo”, anunciou o nascimento de Jesus – tido por mero Profeta e Taumaturgo, de quem procede a Palavra e o Espírito de Deus – à Virgem Maria (a única mulher chamada pelo nome no Corão, aparece 34 vezes):

– “Diz o anjo Gabriel a Maria: ‘Sou mensageiro do teu Senhor. E teu Senhor disse que te dar um filho sem relacionar-te com homem é facílimo para Ele, que diz: ‘Faremos dele (=do menino) um sinal e uma graça divina”. Assim encerrou-se o diálogo entre o espírito santo e a Virgem Maria. Os anjos disseram: ‘Ó Maria, Deus elegeu-te, purificou-te e elevou-te sobre as mulheres do mundo. Ó Maria consagra-te ao teu Senhor: inclina-te e prostra-te com os orantes'” (3,42-43).

Eis, então, os porquês de o anjo Gabriel ser muitíssimo popular entre os muçulmanos…

Espero tê-lo ajudado!





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