Espaço do Leitor

Questionamentos sobre a observância dominical

O leitor Waldecy, que já nos havia mandado uma mensagem anterior falando sobre a Virgindade de Maria, voltou a nos escrever, agora atacando a observância do domingo. O seu texto segue abaixo em preto; o nosso, em azul.

Meu caro Alexandre, tenho me correspondido com diáconos, padres, bispos e com católicos em geral, e o que tenho observado e comprovado é que se esforçam sobremaneira para tentar justificar os erros da tradição católica, mas acabam num beco sem saída quando expomos os preceitos bíblicos de forma clara, revelando os erros dessa tradição que são muitos. O mesmo aconteceu com você. Não há no mundo pessoa alguma, dotada de honestidade, que possa sustentar que a tradição católica tem tudo a ver com a Palavra de Deus e vale tanto quanto ela, conforme o Concílio Vaticano. Você também.usou de artimanhas desonestas para tentar desmerecer o que escrevi e isso ficou latente.

É bastante interessante o início desta tua mensagem. Sabe por quê? Porque eu tenho justamente a mesma impressão acerca dos protestantes. Já me correspondi com inúmeros deles (você inclusive) e, quando se deparam com os erros e as incoerências latentes e evidentes da fé protestante, fogem do debate, mudam de assunto, vociferam (você inclusive), acusam-nos de usar de “palavras carnais”, encolhem-se em seus refúgios e mostram-se capazes dos maiores absurdos no campo da lógica e do bom-senso simplesmente para não se reconhecerem equivocados (você inclusive).

Os protestantes que estudam a história e a Bíblia ansiando pela verdade, acabam por converterem-se ao catolicismo. Aliás, os católicos convertem-se ao protestantismo levados, na maioria dos casos, por sentimentos subjetivos e por desconhecerem a doutrina católica (desconhecimento do qual, evidentemente, você participa). Os protestantes convertem-se ao catolicismo apesar de conhecerem muito bem as doutrinas que abandonam e impulsionados por motivos objetivos. Como diria o Cardeal Newman (ex-protestante convertido ao catolicismo): “conhecer à história é abandonar o protestantismo”.

A diferença qualitativa é gritante…

E, antes de iniciar a análise dos dois “argumentos” por você apresentados nesta tua mensagem, sou obrigado a fazer uma defesa pessoal. Afinal, você, mais de uma vez, acusou-me de desonestidade.

Caro Waldecy, onde você me conhece para fazer acusação tão peremptória acerca do meu caráter? Que informações você tem a meu respeito para proceder desta forma? Será que foi o Espírito Santo que te revelou este dado acerca da minha pessoa, ensinando-o a julgar alguém com o qual você não teve o mínimo contato?

Eu teria muito mais motivos para te acusar de desonesto do que você a mim. Afinal, em uma mensagem privada acerca de meu texto “Mais Uma Carta Cheia de Ódio à Maria”, você, de uma só tacada: demonstrou desconhecer solenemente o catolicismo (confundindo piedade popular com tradição, não sabendo quem fala pela igreja, e não sabendo, sequer a diferença entre um concilio regional e um ecumênico), desprezou quase todos os meus argumentos, repetiu tuas afirmações anteriores, mostrou não dar a menor importância à verossimilhança de tuas alegações, não aceitou meus argumentos históricos e objetivos (muito embora usasse, você mesmo, de argumentos históricos), não fez qualquer esforço apologético de tentar interpretar as passagens bíblicas que contrariam os teus pontos de vista (simplesmente deixando-as de lado e apegando-se àquelas que supostamente os favorecem), entre outras artimanhas bastante comuns.

Mesmo nesta mensagem que, ora, passo a responder, você insistiu numa interpretação tão estapafúrdia de At 13, 41ss que, sinceramente, te descredenciaria como apologeta protestante. E, no entanto, eu não te acho desonesto. Acho-o apenas muitíssimo enganado.

Advirto, contudo, que qualquer outra mensagem com acusações deste jaez serão desconsideradas.

1) “No sábado seguinte, reuniu-se quase toda a cidade PARA OUVIR A PALAVRA DE DEUS…” “No sábado seguinte, concorreu quase toda a cidade para ouvir a palavra de Deus, mas os judeus, vendo aquela concorrência, se encheram de inveja…” Atos, 13. 41 a 44.

Na sua desonestidade você tentou descaracterizar uma reunião cristã ao afirmar que tudo aconteceu numa sinagoga judia na qual Paulo tentava converter os judeus. Mas a Palavra é clara: “mas os judeus vendo aquela concorrência, se encheram de inveja”. Ora, só isso prova que se tratava de uma reunião de adoração cristã e não da tradição israelita.

Meu caro Waldecy, lendo o teu argumento acima, surgiu-me uma dúvida, mas não há outra conclusão possível: você realmente acha que o termo “concorrência” se refere a uma competição entre judeus e cristãos. Ocorre que o texto fala em “concorrência” no sentido de afluência de uma multidão, pelo que as melhores traduções trazem o seguinte texto: “mas os judeus, vendo a multidão, encheram-se de inveja.” E por que razão ocorreu tal inveja? Porque os judeus jamais conseguiram atrair, para os seus cultos, uma multidão tão grande. E, no entanto, bastou uma pregação de São Paulo, no sábado anterior, para que inúmeras pessoas se interessassem na mensagem que ele tinha a oferecer.

No intuito de esclarecer esta questão o máximo possível, cito todo o texto. Espero acabar com todas as dúvidas:

Mas eles, deixando Perge, foram para Antioquia da Pisídia. Ali entraram em dia de sábado NA SINAGOGA, e sentaram-se. Depois da leitura da lei e dos profetas, mandaram-lhes dizer os chefes da sinagoga: Irmãos, se tendes alguma palavra de exortação ao povo, falai-a. Paulo levantou-se, fez um sinal com a mão e falou: Homens de Israel e vós que temeis a Deus, ouvi. O Deus do povo de Israel escolheu nossos pais e exaltou este povo no tempo em que habitava na terra do Egito, de onde os tirou com o poder de seu braço. Por espaço de quarenta anos alimentou-os no deserto. Destruiu sete nações na terra de Canaã e distribuiu-lhes por sorte aquela terra durante quase quatrocentos e cinqüenta anos. Em seguida, lhes deu juízes até o profeta Samuel. Pediram então um rei, e Deus lhes deu, por quarenta anos, Saul, filho de Cis, da tribo de Benjamim.Depois, Deus o rejeitou e mandou-lhes Davi como rei, de quem deu este testemunho: Achei Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará todas as minhas vontades. De sua descendência, conforme a promessa, Deus fez sair para Israel o Salvador Jesus. João tinha pregado, desde antes da sua vinda, o batismo do arrependimento a todo o povo de Israel. Terminando a sua carreira, dizia: Eu não sou aquele que vós pensais, mas após mim virá aquele de quem não sou digno de desatar o calçado. Irmãos, filhos de Abraão, e os que entre vós temem a Deus: a nós é que foi dirigida a mensagem de salvação. Com efeito, os habitantes de Jerusalém e os seus magistrados não conheceram Jesus, e, sentenciando-o, cumpriram os oráculos dos profetas, que cada sábado são lidos. Embora não achassem nele culpa alguma de morte, pediram a Pilatos que lhe tirasse a vida. Depois de realizarem todas as coisas que dele estavam escritas, tirando-o do madeiro, puseram-no num sepulcro. Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos. Durante muitos dias apareceu àqueles que com ele subiram da Galiléia a Jerusalém, os quais até agora são testemunhas dele junto ao povo. Nós vos anunciamos: a promessa feita a nossos pais, Deus a tem cumprido diante de nós, seus filhos, suscitando Jesus, como também está escrito no Salmo segundo: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei. Que Deus o ressuscitou dentre os mortos, para nunca mais tornar à corrupção, ele o declarou desta maneira: Eu vos darei as coisas sagradas prometidas a Davi. E diz também noutra passagem: Não permitirás que teu Santo experimente a corrupção. Ora, Davi, depois de ter servido em vida aos desígnios de Deus, morreu. Foi reunido a seus pais e experimentou a corrupção. Mas aquele a quem Deus ressuscitou não experimentou a corrupção. Sabei, pois, irmãos, que por ele se vos anuncia a remissão dos pecados. Todo aquele que crê é justificado por ele de tudo aquilo que não pôde ser pela Lei de Moisés. Cuidai, pois, que não venha sobre vós o que foi dito pelos profetas: Vede, ó desprezadores, pasmai e morrei de espanto. Pois eu vou realizar uma obra em vossos dias, obra a que não creríeis, se alguém vo-la contasse. Ao saírem, rogavam que lhes repetissem essas palavras no sábado seguinte. Depois que a assembléia terminou, muitos judeus e prosélitos devotos seguiram Paulo e Barnabé, os quais com muitas palavras os exortavam a perseverar na graça de Deus. No sábado seguinte, afluiu quase toda a cidade para ouvir a palavra de Deus. Os judeus, vendo a multidão, encheram-se de inveja e puseram-se a protestar com injúrias contra o que Paulo falava. Então Paulo e Barnabé disseram-lhes resolutamente: Era a vós que em primeiro lugar se devia anunciar a palavra de Deus. Mas, porque a rejeitais e vos julgais indignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os pagãos. Porque o Senhor assim no-lo mandou: Eu te estabeleci para seres luz das nações, e levares a salvação até os confins da terra. Estas palavras encheram de alegria os pagãos que glorificavam a palavra do Senhor. Todos os que estavam predispostos para a vida eterna fizeram ato de fé. Divulgava-se, assim, a palavra do Senhor por toda a região. Mas os judeus instigaram certas mulheres religiosas da aristocracia e os principais da cidade, que excitaram uma perseguição contra Paulo e Barnabé e os expulsaram do seu território. Estes sacudiram contra eles o pó dos seus pés, e foram a Icônio.Os discípulos, por sua vez, estavam cheios de alegria e do Espírito Santo.

Esta é a minha última tentativa de esclarecer este ponto. O versículo 14 do texto diz, claramente, que Paulo Barnabé entraram NUMA SINAGOGA em dia de sábado. Lá dentro, havia apenas e tão-somente judeus e prosélitos (versículo 43). Quando Paulo e seus companheiros saíram DA SINAGOGA, diz o texto que “eles” (evidentemente, os judeus da sinagoga) rogaram para que retornassem no SÁBADO SEGUINTE (versículo 42). Ora, salvo engano, retornar significa voltar para o mesmo lugar. Eles estavam numa sinagoga, portanto, o pedido de retorno somente pode referir-se à sinagoga em que eles estavam.

Pois bem, o versículo 44 afirma que NO SÁBADO SEGUINTE afluiu quase toda a cidade para ouvir Paulo e Barnabé. Pergunto: afluiu para onde? Para a sinagoga, é claro, aquele lugar ao qual Paulo e Barnabé retornariam no sábado seguinte. Apenas lá é que os interessados os poderiam ouvir! Tanto é assim que os judeus (que, presume-se, estariam numa sinagoga no dia de sábado) tiveram inveja, pois a pregação cristã de Paulo atraia a atenção dos gentios, coisa que o judaísmo não conseguia fazer.

E não me venha com o pífio argumento de que a multidão que acorreu à sinagoga era constituída de cristãos. Tanto não era que, após o discurso paulino, muitos deles aderiram ao cristianismo (versículo 48).

Francamente, se você ainda insistir que o trecho acima mostra um culto cristão ocorrendo aos sábados, eu não vou te acusar de desonestidade (como você fez comigo). Eu vou é ter sérias dúvidas acerca da tua capacidade de ler e interpretar textos. E olhe que eu não estou falando da interpretação exegética, mas da interpretação simples, aquela exigida para que qualquer interessado passe num exame vestibular de qualquer faculdade de beira de esquina.

Não há rigorosamente nada no texto que indique ser o sábado o dia de culto cristão.

E, para acabar com qualquer pretensão de tua parte acerca de narrar o texto acima uma reunião cristã aos sábados, lanço um último argumento. Podemos ter certeza absoluta de que aqueles que acorreram no sábado para ouvir Paulo e Barnabé não eram cristãos por um motivo muito simples: até então, não havia cristãos na Antioquia da Pisídia.

A Igreja cristã, nesta cidade, foi fundada por São Paulo, e esta fundação é o que se narra no texto. Não havendo qualquer cristão na cidade, é óbvio que o texto não nos fala de uma reunião cristã num sábado.

Honestamente, se nem isto te convencer, eu jogo a toalha…

No entanto, eu temo que nada te demoverá de tua interpretação estapafúrdia de At 13. Afinal, você precisa deste texto. Ele é o único que, torcido e retorcido, daria a entender que os cristãos se reuniam no sábado. Receio que você fará de tudo para salvar a tua exegese…

Mas, sabe o que é mais curioso? Contamos, nos mesmos Ato dos Apóstolos, com um texto que afirma, expressamente, que os cristãos se reuniam aos domingos. Trata-se de At 20, 7, que, a seguir, eu transcrevo: “No primeiro dia da semana, estando nós reunidos para partir o pão, Paulo, que havia de viajar no dia seguinte, conversava com os discípulos e prolongou a palestra até a meia-noite.”

Não bastasse isto, temos ainda 1 Co 16, 20, que indica com bastante contundência qual era o dia de reunião dos cristãos: “No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte o que tiver podido poupar, para que não esperem a minha chegada para fazer as coletas.”

Como se percebe, você usa de extrema incoerência ao tentar retorcer At 13, 14-43 para tentar provar que os cristãos se reuniam aos sábados, mas, por outro lado, despreza, solenemente, um texto do mesmo ato dos apóstolos no qual se narra uma reunião cristã… num domingo! E, de quebra, ignora também o texto de 1 Co 16, 20.

E dá-lhe sola scriptura, hein, Waldecy?

Mas como desgraça pouca é bobagem, há um outro texto dos Atos dos Apóstolos que narra uma outra reunião cristã num domingo. Trata-se de um texto muito especial, visto que esta reunião cristã não foi marcada nem organizada por homens. Ao contrário, foi o próprio Deus quem a marcou, sendo que a mesma fazia parte de Seus desígnios. Refiro-me à primeira reunião cristã, caro Waldecy, aquela ocorrida em Pentecostes. É a mãe de todas as reuniões cristãs.

Somente um Deus muito incoerente estabeleceria o sábado como dia de reunião de Sua Igreja e, no entanto, escolheria, para a reunião inaugural, o dia seguinte àquele que seriam feitas todas as demais. Ou seja, se você estivesse certo, teríamos que concluir que todas as reuniões cristãs devem ser feitas aos sábados, exceção feita à primeira e mais importante de todas…

Por fim, num último esforço para tentar te convencer do óbvio, cito aquele que, no meu modesto entender, é o mais devastador dos versículos bíblicos contra a doutrina do sabatismo. É um verdadeiro block buster. Trata-se de Ap 1, 10, onde se lê: “Num domingo, fui arrebatado em êxtase, e ouvi, por trás de mim, voz forte como de trombeta (…)”.

Ao contrário do que você possa imaginar, o mais importante neste versículo não é, nem de longe, o dia em que São João foi arrebatado em êxtase. É claro que, só o fato de ele ter feito questão de apontar qual o dia em que recebeu sua revelação já é um dado extremamente importante, indicador do respeito que se deve ter a este dia.

No entanto, o que realmente importa neste texto é o nome que os cristãos deram a este dia: DOMINGO. Até então, na Bíblia, este dia sempre fora chamado de “primeiro dia da semana”. O texto do Apocalipse é preciosíssimo pois indica que os cristão deram-lhe um novo nome, absolutamente significativo e revelador. Chamaram-no de domingo, que significa dia do Senhor.

Para os cristãos, o primeiro dia da semana era o Dia do Senhor. O Dia de Deus, meu caro Waldecy, numa evidente e explícita referência ao Dia de Yahweh do Antigo Testamento, dia este que o domingo antecipa e realiza. E o mais delicioso desta estória é o fato de que esta mudança de nome consta expressamente da Bíblia.

Da mesma que você alega seguir…

Sinceramente, quero ver você encaixar este fato dentro da tua doutrina com um mínimo de razoabilidade. Se os cristãos guardavam o sábado, se o primeiro dia da semana era, para eles, um dia como outro qualquer, então, por que cargas d’água batizar este dia com um nome tão significativamente escatológico?

Percebe-se, pois, que por trás desta mudança de nome encontra-se a própria mudança operada por Cristo do dia de guarda para os Seus discípulos. Que você e os demais sabatistas durmam com um barulho deste…

Se você usar o bom senso, inteligência, argúcia, honestidade e critério, ao ler todo o Evangelho notará que o sábado nunca foi tocado no sentido da santidade atribuído pelo próprio Deus. Basta considerar que todos os atos dos apóstolos que agrediam a tradição judaica foram motivos de altos protestos dos judeus, tanto da ala tradicional quanto dos judeus novos cristãos, poderíamos dizer. Tenha em conta que todos esses fatos, motivos de protestos, foram registrados pelos evangelistas um a um, mesmo sendo de importância menor que o valor do sábado santo, tal qual a quebra da difícil prática da circuncisão; a revolta contra Paulo por ter abominado o culto às estatuetas que honravam Diana; o batismo ministrado também aos não israelitas; as críticas aos apóstolos por comerem sem lavarem as mãos e outras de menor importância.

Então, por isso tudo cai por terra a alegação católica de que a prática de se guardar o domingo vem do tempo dos apóstolos, pregando que os cristãos da época não reconheciam os sábados santificados de Deus.

Com o parágrafo acima, você introduziu o segundo argumento desta tua mensagem: o de que, se os cristãos houvessem mudado o sábado para o domingo, os judeus se revoltariam e tais revoltas estariam contidas no Novo Testamento. Antes de entrar no mérito desta afirmação, começo afirmando que ela padece de um erro principiológico. Você parte do princípio de que tudo o de importante que cercou a Igreja nos anos apostólicos se encontra registrado no NT. Trata-se do princípio do sola scriptura (se estiver interessado, veja os inúmeros artigos sobre o tema em nossa secção de apologética).

Este princípio é flagrantemente errôneo, pois os escritores sagrados não se preocuparam nem em escrever todas as palavras e atos de Jesus Cristo, como registrado em Jo 21, 25: “Jesus fez ainda muitas outras coisas. Se fossem escritas uma por uma, penso que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se deveriam escrever.” Quaisquer contendas entre judeus e cristãos, por mais importantes que fossem, não chegam sequer perto da importância das palavras e dos atos de Jesus Cristo. Se muitos destes não foram registrados, que dizer de questões menores como aquelas.

De qualquer forma, embora isto não fosse necessário, entrarei, abaixo, no mérito da tua alegação. Antes disto, vamos esclarecer alguns pontos:

a) Os Evangelhos narram críticas dos dos fariseus à Jesus e aos Seus discípulos pelo fato de terem eles quebrado algumas regras relativas à Lei de Moisés. Tais críticas se baseavam num formalismo farisaico, que, pondo de lado o caráter pedagogo da Lei, acabaram por torná-la um peso aos judeus.

b) Por sua vez, os atos dos apóstolos e as epístolas paulinas narram, apenas e tão-somente, críticas feitas por cristãos judaizantes à doutrina paulina da salvação pela graça. Estamos diante de uma coisa absolutamente distinta da tratada no ítem “a” acima, muito embora você os tenha tomado como questões de idêntica natureza. Para os judaizantes, os cristãos vindos da gentilidade deveriam circuncidarem-se e observarem toda a Lei de Moisés para serem salvos, doutrina esta condenada no Concílio de Jerusalém em At 15. Além disto, os cristãos judeus deveriam seguir fiéis à Torá para obterem a salvação.

c) A revolta contra Paulo pelo fim do culto à Diana de Éfeso é, por seu turno, questão absolutamente distinta das outras duas (muito embora, mais uma vez, você as tenha tratado como de igual natureza). Não se tratou de uma revolta de judeus, mas de pagãos, contra cristãos.

Por óbvio, minha abordagem desconsiderará a letra “c” acima, uma vez que a mesma foge da nossa discussão. Além disto, eu também desconsiderarei a letra “a”, uma vez que as contendas entre Jesus e os fariseus, sendo anteriores ao nascimento da Igreja, encontram-se igualmente fora da nossa discussão.

Falarei, portanto, das contendas da letra “b”. Resumo da seguinte forma: uma vez que os Atos dos Apóstolos e as Epístolas Paulinas descrevem tantas revoltas dos judaizantes pela não observância de algumas tradições judaicas pelos cristãos (principalmente os vindos da gentilidade), como entender que não haja qualquer menção de revoltas quanto à mudança do sábado para o domingo?

Abaixo, seguem meus comentários.

UM TREMENDO ABSURDO, pois se houveram tantos protestos por coisas menores e todos eles foram devidamente registrados no Evangelho é absolutamente certo, é absolutamente compreensível, que os cristãos só passariam a guardar o domingo depois de muitas discussões seguidas de altas revoltas de todas as alas. Quem sabe meditar, concluirá que a Judéia inteira se uniria numa revolta a quem ousasse tocar nos Dez Mandamentos da Arca da Aliança, e como sempre digo, tais protestos estariam devidamente registrados no Evangelho. Entendo que se os apóstolos de Jesus tivessem ousado propagar a troca o dia santo pelo domingo teriam sido linchados pelos judeus mais exaltados. Também não haveria como realizarem isso sem propagar tal barbaridade religiosa, pois a tudo fizeram às claras, sem medo e com tudo devidamente registrado. Portanto, trata-se de grande enganação e alta desonestidade do clero católico levar o povo a desrespeitar os sábados santos de Deus.

Passo, agora, ao mérito.

Este teu argumento, desculpe-me a honestidade, é de uma falta de profundidade assombrosa. Você acha que, se os primeiros cristãos não tivessem observado o sábado, uma verdadeira batalha se incendiaria. Novamente, você está enganado. Desta vez, trata-se de um engano grosseiro. E, para demonstrá-lo, vou dividir esta resposta em duas partes. Na primeira, mostrarei o porquê de não ter havido revolta pelo fato dos cristãos gentios nunca terem observado o domingo. Na segundo, o porquê de não haver registro de revoltas quando os próprios cristãos judeus abandonaram a observância do sábado.

Comecemos pela primeira parte.

No princípio da Igreja, havia dois tipos de cristãos: os judeus que se convertiam, e os gentios. Quase todas as controvérsias narradas nos Atos e nas Epístolas Paulinas, conforme eu já asseverei acima, giram acerca do estatuto dos gentios, isto é, acerca do que deveriam e do que não deveriam os gentios observar daquilo que constava na Lei de Moisés. Os cristãos judaizantes afirmavam que os gentios, ainda que crentes em Jesus, e praticantes do Evangelho, não se salvariam se não se circuncidassem e se não observassem as prescrições da Lei Mosaica.

Tenha em mente que aos gentios nunca foi imposta a observancia das prescrições mosaicas. Um gentil somente era obrigado à observância da Lei se, antes, fizesse a circuncisão. Do contrário, o mesmo apenas se obrigava à observância das chamadas “leis de Noé”, que Deus entregou à ele e a todos os seus descendentes. O Rabino Joseph Telushkin, no livro “Jewish Literacy, The Most Important Thinks to Know About the Jewish Religion, Its People, and Its History” afirma que (tradução minha): “O judaísmo jamais afirmou que alguém deva ser judeu para se salvar. (…) Embora os judeus se considerem obrigados às 613 Leis da Torá, o judaísmo exige que os não-judeus apenas cumpram as Sete Leis de Noé, modelada segundo a quintessência da ética não-judaica“. (fonte: www.biblicalcatholic.com),

Ora, a observância do sábado fazia parte da Lei da Torá. Portanto, os cristãos vindos da gentilidade, incircuncisos que eram, jamais foram obrigados à guardar o sábado. O fato de que eles observavam o domingo preterindo o sábado judeu jamais causaria qualquer controvérsia entre os judeus que pudesse ser registrada na Bíblia, POIS TODOS ACHÁ-LO-IAM NATURAL. Nenhum incircunciso até então, ainda que adorador de Yahweh, jamais havia sido obrigado à tal observância. Não houve qualquer controvérsia acerca deste assunto.

As controvérsias narradas falam sobre a necessidade de se circuncidarem os gentios conversos ao cristianismo. E, uma vez circuncidados, eles estariam obrigados à toda a Lei, inclusive, à prescrição sabática. É exatamente disto que trata At 15, 1.5-6:

“Alguns homens, descendo da Judéia, puseram-se a ensinar aos irmãos o seguinte: Se não vos circuncidais, segundo o rito de Moisés, não podeis ser salvos. (…) Mas levantaram-se alguns que antes de ter abraçado a fé eram da seita dos fariseus, dizendo que era necessário circuncidar os pagãos e impor-lhes a observância da Lei de Moisés. Reuniram-se os apóstolos e os anciãos para tratar desta questão.

E, estes apóstolos reunidos decidiram que não se devia circuncidar os gentios. É por isto que São Tiago afirmou: “Julgo que não se devem inquietar os que dentre os gentios se convertem a Deus. Mas que se lhes escreva somente que se abstenham das carnes oferecidas aos ídolos, da impureza, das carnes sufocadas e do sangue.”(At 15, 19-20)

Como você vê, Waldecy, oa apóstolos jamais impuseram a observância da Lei Mosaica aos cristãos vindos da gentilidade. E, por óbvio, jamais lhes impuseram a observância do sábado, não havendo nada de novo nesta decisão que pudesse causar qualquer controvérsia entre os judeus. Impuseram-lhes, apenas (e quão eloqüente é este “apenas”…), que se abstivessem de “carnes oferecidas aos ídolos, da impureza, das carnes sufocadas e do sangue”, excluindo expressamente a observância sabática. Tais prescrições nada mais são do que um resumo das Leis de Noé, que todos os gentios deveriam seguir (vide Gn 9, 3ss).

Você veja a que extremos chegamos. Os adeptos do sabatismo afirmam que Deus instituiu o sábado, no Antigo Testamento, como dia de repouso e que o revogação desta instituição deveria estar expresso no Novo para ser aceitável as adeptos do sola scriptura. E, no entanto, a verdadeira situação é, exatamente à oposta. O AT jamais impôs o sábado a qualquer não-judeu. Não consta um único mandamento da Torá impondo semelhante observância aos gentios. Portanto, para que tal observância se nos impussesse a todos, seria necessário uma passagem do NT que, expressamente, mude as prescrições do Antigo.

Seria necessário uma passagem que dissesse: “a partir de Jesus Cristo, o sábado deve ser observado também pelos incircuncisos”. Você conta com esta passagem, Waldecy?

Se não conta, e se houvesse qualquer razão na tese que você advoga, então teríamos a seguinte situação: os cristãos descendentes de Abraão e circuncidados estariam obrigados à observância do sábado; os demais (isto é, a quase totalidade dos cristãos), não estariam obrigados à observância de qualquer dia, visto não existir qualquer mandamento bíblico que lhos imponha.

Que bela teologia, hein, Waldecy?

Resumindo a questão, relativamente aos cristãos gentios, temos que houve controvérsias acerca da circuncisão e de disposições alimentares, mas não houve controvérsias acerca da inobservância sabática pelos mesmos pois:

a) a circuncisão era “ato condição” para que toda a Lei Mosaica fosse imposta aos gentios, inclusive as normas acerca do sábado;

b) as disposiões alimentares constavam das Leis de Noé, estas obrigatórias para os gentios ainda que incircuncisos.

Resta analisarmos o porquê, então, de não ter havido controvérsias quando os cristãos vindos do judaismo abandonaram a prática do sábado. Aqui começa a segunda parte da resposta.

Há várias possibilidades que elucidam o tema, nenhuma delas conclusiva.

Pode-se dizer que, até o Concílio de Jerusalém (por volta do ano 59 de nossa era), os cristãos circuncisos continuavam guardando o sábado paralelamente ao domingo. Isto não é certo, mas é muito provável. Até hoje, há católicos judeus que, sem esvaziarem o domingo, voluntariamente repousam no sábado, sem que haja qualquer problema com esta prática.

Após o Concílio, quando, então, a observância de toda a Lei mosaica foi posta de lado, o grupo dos judaizantes perdeu influência, até extinguir-se pouco mais de dez anos depois. Portanto, a partir de então, ainda que os mesmos se revoltassem com o abandono completo do sábado por parte dos cristãos circuncisos, sua revolta seria de somenos importância. E, além disto, circunscrita às igrejas da Judéia.

Portanto, tais revoltas (ainda que ocorridas) jamais constariam dos Atos dos Apóstolos ou das Epístolas Paulinas, uma vez que estes livros se dirigiam aos cristãos da gentilidade, escritos, em sua maioria, após 59 d.C., estando os gentios já libertos de qualquer influência dos judaizantes.

Contudo, os motivos acima não são conclusivos, podendo haver outras razões que eu deconheça.

 

BASTA MEDITAR, MEU CARO ALEXANDRE, PARA CONCLUIR QUE A TRADIÇÃO CATÓLICA É UM MONTÃO DE ERROS QUE AGRIDEM A PALAVRA DE DEUS. OU SERÁ QUE VOCÊ NÃO CONSEGUE MEDITAR E SÓ SE ORIENTA PELO QUE OUVIU DIZER DE OUTROS? POR QUE NÃO SE ORIENTAR ESCLUSIVAMENTE PELAS ESCRITURAS, ABOMINANDO A TRADIÇÃO DOS HOMENS? PRÁ QUE O ESPÍRITO SANTO NOS LEGOU SUA PALAVRA, E POR ELA NOS REVELA QUE É SUFICIENTE? ACASO A PALAVRA DO ESPÍRITO SANTO NECESSITA DE TRADIÇÕES ORAIS, NESSES TEMPOS DE PROPAGAÇÃO BÍBLICA? SÓ NA CABEÇA DOT TOLOS E DOS DESLUMBRADOS PELO GRANDE MITO MARIA, UM CAVALO DE TRÓIA COLOCADO POR SATANAS PARA INCREMENTAR A IDOLATRIA DAS ESTÁTUAS E IMAGENS.

UM ABRAÇO.

Waldecy.

 

Nesta parágrafo, você houve por bem atacar a Tradição católica, sugerindo que eu a abandone para seguir apenas a Bíblia. Ora, na minha última mensagem, eu te instei a me indicar os versículos bíblicos que estabelecem o cânon das Escrituras. Obviamente, você não o fez, nem justificou os motivos.

Ora, como então eu posso seguir apenas uma Bíblia, desprezando a Tradição se, necessariamente, eu devo recorrer à Tradição até para conhecer quais são os livros bíblicos e quais não são? Sim, pois a Bíblia somente se definiu, através da tradição católica, em fins do século IV da nossa era. Se a Tradição não deve ser seguida, como então saber que o Apocalipse é livro inspirado, e não o é, por exemplo, a Didaqué (cujos trechos eu te citei)? Como saber que a Epístola aos Hebreus goza de infalibilidade, e não o goza, igualmente, o Pastor de Hermas? Aliás, como saber que todos os livros do AT que você cita em defesa de tua tese são dignos de crédito?

Dê uma olhadinha no meu artigo “O Nó Górdio do Sola Scriptura” para maiores esclarecimentos.

Não bastasse isto, posso ainda exigir um mínimo de coerência de tua parte, meu caro interlocutor protestante? Em tua última mensagem, você afirmou, textualmente, que os primeiros cristãos mantiveram-se fiéis à doutrina de Cristo. Vou citar tuas palavras para que não venha novamente a me acusar de desonestidade: “Satanás não venceu os santos enquanto esses estiveram glorificando a Deus na clandestinidade, mas depois que foram elevados aos palácios dos reis, Satanás deu seguimento ao seu macro plano demoníaco e venceu os santos.”

Pois bem, o que estes santos, que viviam na clandestinidade, séculos antes da Igreja ter sida “elevada aos palácios dos reis” (e que, portanto, segundo você, praticavam o verdadeiro cristianismo) pensavam sobre este tema? Em que dia, concretamente, eles se reuniam? Vou responder citando parte da farta documentação histórica e insofismável à respeito:

 

Didaqué (70 d. C):”Reuni-vos no dia do Senhor para a fração do pão e celebrai a eucaristia, depois de haverdes confessado vossos pecados, para que vosso sacrifício seja puro.”

 

Epístola de Barnabé 15,6-8 (74 d.C.): “Guardamos o oitavo dia (domingo) com alegria, o dia em que Jesus levantou-se dos mortos

 

Epístola de São Inácio aos Magnésios (107 d. C., Cap. 8: 1): “Não se enganem com falsas doutrinas, nem com velhas fábulas, que de nada te servem. Pois se ainda vivermos de acordo com a Lei Judaica, saibamos que não recebemos graça nenhuma…Se, portanto, aqueles que foram educados na antiga ordem de coisas entrassem na posse de uma nova esperança, não mais observando o sábado, mas vivendo na observância do Dia do Senhor, no qual também nossa se originou por Ele e por Sua morte…”

 

Justino, o Mártir: Primeira Apologia, Cap. 67 (155 d.C).”?E no dia chamado de domingo, todos os que vivem nas cidades ou nos campo se reúnem em um mesmo lugar, e, enquanto o tempo permitelêem a memória dos apóstolos ou os escritos dos profetas; assim que o leitor cessa, o que os preside intrue verbalmente os presentes, exortando-os a imitar coisas tão boas(…) O domingo é o dia em que nos reunimos, pois é o primeiro dia em que Deus, transformando as trrevas e a matéria, fez o mundo; e porque Jesus Cristo, nosso Salvador, neste mesmo dia, ressuscitou dos mortos. Pois Ele foi crucificado na véspera de sábado; e, no dia seguinte ao de Saturno (i.e., o sábado), que é o dia do Sol, aparecendo aos Seus apóstolos e discípulos, ensinou-lhes estas coisas, que te submentemos para sua consideração.”

 

Tertuliano: Uma Resposta aos Judeus, Cap. 4, Da Observância do Sábado (206 d.C.): “Segue-se, por esta razão, que, assim como a abolição da circuncisão carnal e das leis antigas demonstrou-se estar consumada no seu tempo específico, da mesma forma a observância do sábado demonstrou-se ser temporária?Mas os judeus têm certeza ao dizer que, uma vez que este preceito foi dado por Moisés, sua observância é obrigatória. Mas é justamente por esta razão que tal preceito não era eterno, nem espiritual, mas temporário, devendo cessae um dia…”

 

Didascália: Cap 2(225 d.C.): “Os apóstolos mais antigos ensinavam: no primeiro dia da semana deve haver os serviços, e a leitura das Sagradas Escrituras, e a oblação, pois no primeiro dia da semana nosso Senhor ergueu-se da mansão dos mortos, e no primeiro dia da semana ele criou o mundo, e no primeiro dia da semana Ele ascendeu aos céus, e no primeiro dia da semana Ele finalmente aparecerá com os anjos do céu.”

E então? Posso te cobrar coerência ou não? Se estes cristãos ainda não haviam sido vencidos por satanás (sempre usando a tua expressão), você é obrigado a reconhecer que a observância dominical não é uma “tradição humana”, mas a expressão pura e perfeita da verdadeira fé cristã. Tal qual ensinada pelos apóstolos e praticada desde sempre.

Ou será que você, deixando a coerência de lado (assim como em tua outra mensagem você já resolvera mandar às favas a verossimilhança de teus argumentos simplesmente para não ter que deixar de lado tua visão preconceituosa acerca dos dogmas católicos), refugiar-se-á no pífio argumento (quase uma desculpa) de que ninguém está obrigado a acreditar nestes testemunhos que, apesar de históricos, não se encontram na Bíblia?

Se assim for, caro Waldecy, nosso debate termina aqui.

Para que debater com alguém que não se preocupa em ser minimamente coerente? Para que debater com alguém que não está disposto a rever sua visão de mundo, por mais que a mesma mostre-se equivocada, ilógica, irrazoável e contraditória?

Com alguém assim, nenhum debate é frutuoso. Restar-me-ia, apenas, orar por tua alma.

Fique com Deus,

Alexandre.


 

 

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