• Autor: São Tomás de Aquino
  • Fonte: Suma Teológica, Parte III, Questão 66
  • Tradução: Dercio Antonio Paganini

Objeção 1 – É óbvio que o Batismo não é um mero banho, pois o banho no corpo é uma coisa transitória, mas o Batismo é algo permanente, e portanto, o Batismo não é um mero banho, mas sim, “a regeneração, o selo, a salvaguarda, a iluminação”, como diz Damasceno (De Fifr Orth. IV).

Objeção 2 – Além disso, o grande São Vítor (De Sacram II) diz que “O Batismo é água santificada pela palavra de Deus para tirar as manchas do pecado”. Mas o banho por si mesmo não é apenas a água, mas um determinado uso da água.

Objeção 3 – Também Santo Agostinho (Trat. LXXX super João) diz: “A palavra é adicionada ao elemento e isto se torna um Sacramento”. Então, o elemento é a água, dessa forma, o Batismo é a água, e não o banho, senão, em caso contrário, está escrito (Eclo 34,30): “Aquele que se banha a si mesmo depois de tocar o morto, se o tocar novamente, de que valeu seu primeiro banho?”, dando a impressão que o Batismo é um simples banho, porém eu respondo que no Sacramento do Batismo, três coisas precisam ser consideradas a saber:

a) O que é “apenas o Sacramento” – Aquilo que é apenas Sacramento, é alguma coisa visível e externa, o sinal correspondente ao efeito interno; deste modo, é a verdadeira natureza do Sacramento. Esta exterioridade é algo que pode ser percebida pelos sentidos, ou seja, é a própria água, e seu uso, que é o banho. Conseqüentemente, alguém falou que a água é por si mesma o Sacramento, o que parece ser o propósito da passagem referida do grande São Vítor. Pela definição geral de um Sacramento, ele disse que o Sacramento é “um elemento material”, e definindo o Batismo ele disse que ele é “água”. Mas isso não é verdade. Por conseqüência do Novo Testamento, os Sacramentos tem uma certa santificação; então o Sacramento é completado quando a Santificação é completada. Mas, a santificação não é completa na água, mas somente uma certa santificação de virtude instrumental não permanente, mas apenas transiente, passa da água, na qual ela existe, para a pessoa que é o sujeito da verdadeira Santificação. Conseqüentemente, o sacramento não estará completo na própria água, mas na aplicação da água à pessoa, isto é, no banho, pois diz o Senhor (IV,3): “O Batismo é o banho exterior do corpo feito juntamente com palavras de fórmulas prescritas”.

b) O que é “realidade e Sacramento” e

c) O que é “apenas realidade” – O caráter Batismal é tanto realidade como Sacramento, porque ele é alguma coisa de real significado pelo banho externo, e um sinal sacramental da justificação interna, e esta última é apenas a realidade neste efetivamente chamado Sacramento assim significado, e não apenas significando.

Voltando à objeção 1, na qual é tanto Sacramento como realidade, isto é, o caráter, e também na qual é apenas realidade, isto é, a justificação interna permanece; o caráter permanece e é indelével, como dito acima (63,5), a justificação permanece, porém pode ser perdida. Conseqüentemente, Damasceno definiu o Batismo, não como aquilo que é feito externamente, e é apenas o Sacramento, mas como aquilo que fica interno. Assim sendo, ele definiu duas coisas como pertencentes ao caráter: uma chamada “Selo”, e outra “Salvaguarda”, visto que como o caráter que é chamado de Selo, então como ele próprio é interessado, protege a alma no bem. Ele também definiu duas coisas pertencentes à realidade do Sacramento: “regeneração” que se refere ao fato da pessoa, quando batizada, começa uma nova vida de honradez e iluminação, no que se refere especialmente à fé pela qual a pessoa recebe a vida espiritual de acordo com Habacuc 2 (Hb 10,38; cf. Hab 2,4): “Mas (meus) homens justos vivem pela fé”, e o Batismo é um tipo de afirmação da fé, por este motivo ele é chamado “Sacramento de Fé”. Do mesmo modo, Dionísio definiu o Batismo por sua relação com outros Sacramentos, dizendo (Ecl. Hier. II) que ele é “o princípio que forma os hábitos da alma para a recepção daquelas mais sagradas palavras e Sacramentos”, e ainda, por sua relação à glória do céu, que é a finalidade universal de todos os Sacramentos, onde ele junta: “a conferência de nossa mais sagrada e Divina regeneração”.

Retornando à objeção 2, como já declarado, a opinião do grande São Vítor nesta questão não é seguida. Todavia, o dizer que “o Batismo é a água” pode ser analisado como a água sendo o princípio material do Batismo, e assim poderia ser um “predicado casual”.

Referindo à objeção 3, quando as palavras são adicionadas o elemento torna-se um Sacramento, não no próprio elemento mas na pessoa sobre a qual o elemento é aplicado, sendo utilizada a água para lavá-la. Realmente, este é o significado pelo qual as verdadeiras palavras são adicionadas ao elemento, quando se diz: “Eu te batizo…”.

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