• Autor: São Tomás de Aquino
  • Fonte: Suma Teológica, Parte III, Questão 66
  • Tradução: Dercio Antonio Paganini

Objeção 1: Parece que os três tipos de Batismo não são realmente descritos: Batismo de Água, de Sangue e do Espírito (Espírito Santo). Pois o Apóstolo diz: (Ef. 4,4-5: “Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; um só Senhor, uma só fé, um só batismo). Assim sendo, existe apenas uma Fé, e portanto não poderá haver três batismos.

Réplica à Objeção 1: Os outros dois Batismos estão incluídos no Batismo de água, da qual ele retira sua eficácia, tanto da Paixão de Cristo como do Espírito Santo. Consequentemente, por esta razão a utilidade do Batismo não é destruída.

Objeção 2: Lembremo-nos que o Batismo é um sacramento pelo qual nós fomos limpos antes (perg. 65, art. 1). Fica claro que nenhum outro batismo, senão o da água, é o verdadeiro sacramento. Assim sendo, nós não devemos reconhecer os dois outros batismos.

Réplica à Objeção 2: Como ficou estabelecido acima (perg. 60, art. 1) o sacramento é uma espécie de sinal. Os outros dois, todavia, não estão, de fato, como está o Batismo da Água, na natureza do sinal, mas no efeito batismal. Consequentemente, não são sacramentos.

Objeção 3: Realmente, Damasceno (De Fide Orth. IV) distingue diversos tipos de Batismo, mas nós poderíamos admitir mais de três Batismos.

Réplica à Objeção 3: Damasceno enumera certos Batismos figurativos, por exemplo, “o Dilúvio” foi uma figura de nosso Batismo, com respeito à salvação da fé na Igreja. Então “umas poucas… almas foram salvas na arca (Vulgata) ‘pela água'”, de acordo com 1Pd 3,20. Ele também menciona “a travessia do Mar Vermelho” como sendo uma outra figura de nosso Batismo, em relação à nossa libertação da escravidão do pecado. Também o Apóstolo diz (1Cor 10,2) que “todos… fomos batizados na nuvem e no mar “. E ainda ele menciona “as diversas lavagens que eram costumeiras na Velha Lei, “as quais eram figuras de nosso Batismo, como limpeza dos pecados”, e “o Batismo de João,” que preparou o caminho para o nosso Batismo.

Pelo contrário, em Hb 6,2, “da doutrina dos Batismos”, a interpretação diz: “é utilizado o plural porque existe o Batismo de Água, de Sangue e de Arrependimento.”

Eu respondo que, como estabelecido antes (perg. 62, art. 5), o Batismo da Água tem sua eficácia a partir da Paixão de Cristo, pela qual um homem é conformado pelo Batismo e também pelo Espírito Santo como primeira causa. O efeito do Batismo depende da primeira causa, e a causa supera em muito o efeito, não apenas o faz, mas depende dele. Consequentemente, uma pessoa pode, sem o Batismo da Água, receber o efeito sacramental a partir da Paixão de Cristo, se estiver muito conformado com Cristo, pelo sofrimento Dele. Também está escrito (Ap 7,14: “Respondi-lhe: ‘Meu Senhor, tu sabes’. Disse-me ele: ‘Estes são os que vêm da grande tribulação, e lavaram as suas vestes e as branquearam no Sangue do Cordeiro'”. Dessa maneira, uma pessoa recebe o efeito do Batismo pelo poder do Espírito Santo, não apenas sem o Batismo da Água, mas também sem o Batismo do Sangue, visto que seu coração é movido pelo Espírito Santo para acreditar em amar a Deus e arrepender-se de seus pecados. Assim sendo, isto também é chamado Batismo do Arrependimento. A respeito disso, está escrito em Is 4,4: “Quando o Senhor tiver lavado a imundícia das filhas de Sião, e tiver limpado o sangue de Jerusalém do meio dela com o espírito de justiça, e com o espírito de ardor”. Isto também é chamado Batismo, visto que isso toma o lugar do Batismo. Mas Agostinho diz (De Único Baptismo Parvulorum IV): “O bem-aventurado Cipriano argumenta com considerável razão a respeito do ladrão que não era batizado, Jesus disse: ‘Ainda hoje estarás comigo no Paraíso’; este sofrimento pode tomar o lugar do Batismo. Tendo isto se fixado em minha mente mais e mais, eu prescrevo que não apenas pode o sofrimento em nome de Cristo suprir a falta do Batismo, mas também a fé e conversão do coração, se porventura for levado em conta que devido à urgência do tempo, a celebração do mistério do Batismo for impraticável”.

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