O texto abaixo consiste no capítulo VI do livro TESSORE, Dag. Bento XVI — Questões de fé, ética e pensamento da obra de Joseph Ratzinger. Editora Claridade, São Paulo, 2005, pp. 44-49. Esse livro é uma espécie de compilação sobre o pensamento do então Cardeal Joseph Ratzinger a respeito de diversos assuntos, feita de extratos de diversas obras do Cardeal. As passagens em azul são palavras do próprio Ratzinger, ao passo que os poucos trechos em preto são do compilador. No livro, cada passagem é seguida por uma nota que remete a uma bibliografia no final do livro, mas, na transcrição abaixo, a fim de facilitar um pouco a vida do leitor, foram copiados os respectivos títulos (também em azul). Para quem quiser conferir tudo (tanto o texto em si quanto as referências), basta ir às melhores livrarias.

Esse texto é de suma importância para quem quer saber o que realmente pensa Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI, sobre o Concílio Vaticano II e seus desdobramentos.

Boa leitura!


VI. CONCÍLIO VATICANO II E A ASCENSÃO DOS TEÓLOGOS

Parece-me impossível, a este ponto, não gastar algumas palavras sobre a posição de Ratzinger a respeito do Concílio Vaticano II, seja pela importância intrínseca que tem na história da Igreja contemporânea, seja porque surge freqüentemente a idéia de que o Cardeal teria sido um adversário das reformas conciliares, e que seu modelo de fé e de Igreja seria, antes, “pré-conciliar”. Todo mundo sabe quantas mudanças, exteriores e interiores, de detalhe e de substância, trouxe o Concílio para o mundo católico. Mas há freqüentemente certa confusão no uso da expressão “Concílio Vaticano lI” ou de “reforma conciliar”, ou ainda de “espírito do Concílio”.

O Concílio e suas interpretações. Na realidade, “entre o que os padres conciliares queriam, o que foi mediado para a opinião pública e o que acabou impregnando a consciência comum, há uma diferença sensível. Os Padres queriam atualizar a fé, mas justamente apresentando-a em toda a sua força. Pelo contrário, foi se formando a idéia de que a reforma consistisse em largar lastro, em aliviar, de tal forma que, no fim, a reforma acabou parecendo não uma radicalização da fé, mas uma diluição”. (O sal da terra)

Ratzinger e o Concílio. Ratzinger, longe de ser um adversário, foi e ainda é um grande admirador do Concílio, justamente porque, segundo ele, não foi uma diluição da fé, mas, pelo contrário, um retomo ao essencial, um reforço na linha da Tradição de sempre. O que aconteceu, contudo – conta Ratzinger -, foi que os documentos originais do Concílio “foram logo sepultados por um cúmulo de publicações muitas vezes superficiais ou mesmo inexatas. A releitura da letra dos documentos poderá ajudar-nos a redescobrir seu verdadeiro espírito. Se forem redescobertos em sua verdade, aqueles grandes textos nos permitirão entender o que aconteceu e reagir com novo vigor. Repito, o católico que vê com lucidez e, portanto, com sofrimento, os estragos produzidos em sua Igreja pela deformação de Vaticano II, naquele mesmo Vaticano II deve encontrar a possibilidade de retomada. O Concílio é seu, não pertence àqueles que querem seguir adiante num caminho cujos êxitos foram catastróficos”. (Relatório sobre a fé)

As distorções pós-conciliares. Sim, para Ratzinger o que se verificou realmente, depois do Concílio, foi “uma derrocada da Igreja e do Cristianismo, à qual assistimos nos últimos trinta, quarenta anos”, “um esfacelamento espiritual, dificuldades de orientação, o abandono, o desleixo e a negligência que observamos” (O sal da terra). Por causa de uma “vulgarização grosseira na excitação do clima conciliar” (A minha vida), “os resultados que seguiram o Concílio parecem cruelmente opostos às expectativas de todos, a começar por aquelas do Papa João XXIII e depois de Paulo VI” (Relatório sobre a fé). Mas o Cardeal repete sempre que, “em seus documentos autênticos, o Vaticano lI não pode ser tido como responsável por essa evolução, a qual contradiz radicalmente tanto a letra como o espírito dos Padres conciliares” (Relatório sobre a fé).

É verdade, ele admite, que “é também culpa nossa termos fornecido o pretexto (tanto à ‘direita’ quanto à ‘esquerda’) para pensarem que o Vaticano II tenha sido uma ‘transgressão’, uma fratura, o abandono da Tradição. Quando na verdade é uma continuidade” (Relatório sobre a fé). “É impossível para um católico tomar posição a favor do Vaticano II e contra Trento e o Vaticano I. Quem aceita o Vaticano II, da forma como foi claramente formulado na letra e claramente entendido no espírito, afirma ao mesmo tempo a ininterrupta tradição da Igreja, e em particular também os dois Concílios anteriores.” (Relatório sobre a fé)

Em contraste com o autêntico espírito do Concílio, há pois um “contraespírito, conforme o qual a história da Igreja deveria começar com o Vaticano II, visto como uma espécie de ponto de partida (…). É preciso opor-se com decisão a essa esquematização de um antes e um depois na história da Igreja, totalmente injustificada pelos próprios documentos do Vaticano II,que reafirmam a continuidade do catolicismo. Não há uma Igreja pré e pós-conciliar: há somente uma única Igreja, que caminha rumo ao Senhor, aprofundando cada vez mais e entendendo sempre melhor a bagagem de fé que Ele próprio confiou-lhe.” (Relatório sobre a fé)

O Concílio e os teólogos. Nos anos do Concílio – conta Ratzinger, com sua cortante lucidez habitual, na autobiografia – “crescia cada vez mais a impressão que na Igreja não houvesse nada de estável, que tudo poderia ser objeto de revisão. Cada vez mais o Concílio parecia um grande parlamento eclesial, que podia mudar tudo e revolucionar cada coisa do seu jeito. Ficava claríssimo o ressentimento cada vez maior em relação a Roma e à Cúria, que pareciam o verdadeiro inimigo de toda novidade e progresso. As discussões conciliares eram apresentadas cada vez mais conforme o esquema partidário típico do parlamentarismo moderno. Quem recebia a informação dessa forma, também era levado a tomar posição para um partido” (A minha vida) .”No final, ‘acreditar’ significava algo como ‘achar’, ter uma opinião sujeita a continuas revisões.” (A minha vida)

E todo mundo começava a se perguntar: “Se em Roma os bispos podem mudar a Igreja, ou melhor, até a própria fé (ou assim parecia), por que só os bispos estariam autorizados a fazê-Io?” (A minha vida). Por que não as comunidades também? Por que não os teólogos profissionais, os exegetas, os eruditos? Com efeito, “o papel que os teólogos assumiram no Concílio criou entre os eruditos uma nova conscientização: eles começaram a se sentir como os verdadeiros representantes da ciência e, justamente por isso, não poderiam mais parecer submetidos aos bispos. De fato, como poderiam os bispos exercer sua autoridade magisterial sobre os teólogos, uma vez que eles derivavam suas posições do parecer dos especialistas, e que ‘dependiam das orientações oferecidas pelos estudiosos?” (A minha vida) Assim, “cresceu entre os teólogos o sentimento de serem eles os verdadeiros ‘mestres’ da Igreja – e dos próprios bispos. Desde o Concílio, ademais, eles foram por assim dizer ‘descobertos’ pela opinião pública e pela mídia, tornando-se ao mesmo tempo, para a mídia, um assunto ‘interessante’. O magistério da Santa Sé pareceu então claramente como o último resíduo de um autoritarismo errado e inoportuno” (Natureza e missão da teologia).

Os teólogos contra o Magistério.Seguindo essa linha, alguns teólogos “afirmam, sem meio-termo, que, contra eventuais medidas canônicas com as quais o magistério tentasse ‘impor sua linha de pensamento’, uma ‘contrapressão por meio da mídia’ seria ‘inevitável’” (Natureza e missão da teologia). Sem dúvida, responde Ratzinger, “mobilizar os meios de comunicação de massa contra o ministério eclesial é muito fácil hoje; não consigo, porém, imaginar que alguém possa achar que dessa forma seja realmente possível servir à verdade e à unidade da Igreja. Poderíamos pressupor, com efeito, que, nessas questões de desavenças leais, entre as duas partes estejam em jogo problemas que necessitam de conhecimento da ciência teológica e de atribuição fiel à comunhão da Igreja. Ambas as coisas não são argumentos oportunos para a mídia – que nesse caso não pode com certeza ajudar para aprofundar a disputa, mas, antes, contribui para acirrar os contrastes” (Natureza e missão da teologia).

Com certo tom de ironia triste, o Cardeal conclui observando que “hoje, para os teólogos que cuidam de sua reputação, parece ter se tornado um dever dar uma avaliação negativa aos documentos da Congregação para a Doutrina da Fé” (Intervenção sobre a eclesiologia da Constituição Dogmática “Lumem gentium” no Congresso internacional sobre a atuação do Concílio Vaticano II, organizado pelo Comitê do Grande Jubileu do ano 2000, 17 de fevereiro 2000), pois “o Magistério é considerado um poder ao qual se deve contrapor outro poder” (Entrevista no Frankfurter Allgemeine Zeitung, 22 setembro 2000). Mas, “se à teologia se der uma organização fundada no princípio da maioria e instituir um contramagistério, enunciando para os crentes modalidades alternativas de comportamento, ela está trapaceando com sua própria essência. Ao pretender ter valor como fator político, tal teologia configura-se conforme estruturas e relações de poder, e insiste no parâmetro político da maioria. Afastando-se do magistério, ela perde o chão – que a sustenta – debaixo dos pés, e reduzindo a dimensão da atividade teorética à dimensão dos jogos de poder, ela falsifica ao mesmo tempo seu estatuto e sua ‘natureza’ de ciência – e dessa forma perde ambos os fundamentos necessários para sua existência” (Natureza e missão da teologia). Com efeito, “a voz da teologia depende da voz da fé, e a ela faz referência: a teologia é interpretação e deve permanecer interpretação. Se a teologia não interpretar mais, e, por assim dizer, agredir e mudar a substância, ela fornece a si mesma um novo texto, e cessa com isso de existir enquanto teologia. Ela não interpreta mais nada, mas tão-somente fala em primeira pessoa. Isso pode ser chamado, se quisermos, de ‘filosofia da religião’, e enquanto tal pode até ser interessante; contudo, não tem mais fundamento nenhum e autoridade nenhuma além das opiniões pessoais de quem fala” (Natureza e missão da teologia).

Teologia e fidelidade à Igreja. Uma teologia “pessoal” é licita, é uma legítima opinião filosófica ou ética, mas não pode apresentar-se como “teologia católica”, isto é, não pode ter a presunção de falar em nome da Igreja e da Tradição, se não relata fielmente a mensagem de uma e da outra. “A teologia é reflexão sobre o que Deus ’em primeiro’ nos disse e pensou: para nós. Quando a teologia abandonar este sólido fundamento, ela torna-se fútil e até inútil justamente enquanto teologia” (Natureza e missão da teologia). Deve ficar claro, portanto, que, “para a teologia, aderir à fé da Igreja não é uma submissão a condições estranhas à teologia. A teologia, por sua própria natureza, deve compreender a fé da Igreja, que é o pressuposto de sua existência.” (Entrevista no Frankfurter Allgemeine Zeitung, 22 setembro 2000)

“A teologia nunca é exclusivamente a reflexão ‘particular’ de um teólogo; como tal, contaria pouco.” (Natureza e missão da teologia) “A teologia é eclesial por sua própria natureza.” (Natureza e missão da teologia)Naturalmente, “no contexto da responsabilidade da consciência perante a liberdade, cada um está livre de pensar o que tal liberdade lhe permite pensar e afirmar. Não está livre, por outro lado, de afirmar que o que ele próprio afirma é ‘teologia católica’. O que temos aqui é uma espécie de ‘tutela da denominação de origem’, uma identidade histórica que o magistério sabe ter que defender. Com efeito, esse compromisso na defesa de uma identidade histórica (e, como acreditamos, doada por Deus) é sempre e constantemente representado como agressão à liberdade de pensamento, logo que esta identidade chegue a influir – muitas vezes ‘incomodando-a’ – na mentalidade atual e na conscientização do homem contemporâneo, com julgamentos e conteúdos que resultam irritantes para nossos hábitos de pensamento e de vida. Cada vez que os teólogos são repreendidos pela tentativa de nos liberar desses aborrecimentos e chatices, o magistério parece mesmo uma ameaça pessoal” (Natureza e missão da teologia)

Teologia acadêmica e teologia religiosa.“Acredito que a dureza de certas reações explica-se também com o fato de os teólogos se sentirem ameaçados em sua liberdade acadêmica, e quererem intervir em defesa de sua missão intelectual.” (Entrevista no Frankfurter Allgemeine Zeitung, 22 setembro 2000) Mas se a teologia reduz-se a “disciplina acadêmica sem frutos espirituais”, “então ela corre o perigo de perder suas raízes interiores, ou seja, a vida espiritual, o diálogo com Deus, a fé que carrega” (Consciência do divino e liturgia, teologia e ecúmeno: balanço e perspectivas da Igreja na Alemanha. Entrevista no jornal católico Tagespost, 6 outubro 2003). “A teologia deve voltar a ser realmente teo-logia, falar de Deus e com Deus.” (Intervenção no Congresso dos catequistas e professores de religião, 10 dezembro 2000)

Vale também para as universidades teológicas o que Ratzinger disse em 1995 durante um encontro: “Talvez a lacuna mais grave da universidade moderna seja esta: não ser mais uma verdadeira universidade, que forme o homem em sua totalidade e profundidade, mas um conjunto de especializações” (O conteúdo ético do trabalho cotidiano, Encontro do Opus Dei, 1995). Mas, “para enfrentar ‘os formidáveis desafios atuais, torna-se cada vez mais urgente superar a fragmentação e a especialização dos conhecimentos setoriais, e trabalhar para sua integração cada vez melhor no saber do humanum, o qual representa até hoje a verdadeira tarefa da universitas, e a missão que lhe cabe cumprir para uma autêntica civilização humana” (O caminho da fé. As razões da ética na época atual, Ed. Ares, Milão, 1996 [2ª ed., abril 2005]).

Teólogo e padre. Naturalmente, o que foi dito dos teólogos vale ainda mais para os padres: “Quem é encarregado de um ministério, deveria assumir a responsabilidade de não anunciar e produzir a si mesmo mas, pelo contrário, de esquivar-se, para ser nada mais que um intermediário de Deus para os outros. Deveria ser antes de tudo alguém que obedece, e não tentar afirmar suas próprias opiniões, mas perguntar-se o que Cristo diz e qual é a nossa fé, para depois submeter-se a ela” (O sal da terra). “Um clero que tenha a consciência de si mesmo não prescreve o que é a Igreja, mas obedece a Deus, cujo guardião é o Papa. Este, portanto, tem a obrigação de obrar para que os homens não conformem uma Igreja funcional a seus desejos, porque a Igreja deve permanecer nas mãos do Senhor. A isto serve o sacramento da Ordem, destacando sua origem não-humana” (Deus e o mundo).

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