Blog de Carlos Martins Nabeto

REFLEXÃO PATRÍSTICA – “AS NÚPCIAS DE CRISTO E DA IGREJA” (São Fausto de Riez, +495)

“‘No terceiro dia, houve um casamento’ [João 2,1]. Que casamento é este senão as promessas e as alegrias da salvação humana, insinuada no significado místico do número três, quer em referência à proclamação da Trindade quer à fé na ressurreição do Senhor ao terceiro dia?

No mesmo sentido se lê também noutra passagem do Evangelho, que o regresso do filho pródigo, símbolo da conversão dos pagãos, foi celebrado com música, danças e vestes nupciais.

Por isso, ‘como um esposo que se levanta do quarto nupcial’ [Salmo 18,6], Cristo veio à Terra a fim de unir-Se pela encarnação à Igreja em que haviam de reunir-se os povos pagãos. Deu-lhe penhor e dote: penhor, quando Deus Se uniu ao homem; dote, quando Se imolou pela salvação do homem. Pelo penhor, entendemos a presente redenção; pelo dote, a vida eterna. Tudo isso eram milagres para os que viam; e mistério para os que compreendiam seu sentido. Se considerarmos com atenção, veremos que a própria água, transformada em vinho, nos apresenta, de certo modo, a imagem do Batismo e da vida nova. De fato, quando algo se transforma interiormente, quando uma criatura passa de um estado inferior a outro melhor por uma íntima mudança, realiza-se o mistério de um segundo nascimento. As águas são repentinamente transformadas, para em seguida transformar os homens.

Na Galileia, por intervenção de Cristo, a água transformou-se em vinho, quer dizer, cessa a Lei e sucede-lhe a Graça; as sombras são desfeitas e a verdade se manifesta; as coisas materiais cedem às espirituais; a Lei antiga se transforma no Novo Testamento. Como diz o Apóstolo, ‘o mundo velho desapareceu; tudo agora é novo’ [2Coríntios 5,17]. E assim como a água contida nas talhas nada perde do que era e começa a ser o que não era, também a Lei não deixa de existir, mas se aperfeiçoa com a vinda de Cristo.

Tendo faltado uma qualidade de vinho, serviu-se outra. É certamente bom o vinho do Antigo Testamento, mas o do Novo é melhor. O Antigo Testamento, que os judeus observam, dilui-se na letra; o Novo, que seguimos, tem o sabor da vida da graça.

Considera-se bom vinho o bom preceito da Lei, quando ouves: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’ [Mateus 5,43]; Melhor, contudo, e mais forte é o vinho do Evangelho, quando ouves: ‘Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem’ [Mateus 5,44]” (Sermão 5: Da Epifania 2; PLS 3,560-562).

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