“Ao fazerdes as vossas comemorações, reuni-vos, lede as Sagradas Escrituras… tanto em vossas assembléias quanto nos cemitérios.” (Didaqué)

O oferecimento do Santo Sacrifício da Missa tem mais valor do que uma simples oração pela alma de um ente querido. Isto, entretanto, em nada diminui nem a eficácia nem o valor de uma visita piedosa aos cemitérios.

A Igreja, aliás, vê com muito bons olhos e recomenda vivamente a visita aos cemitérios para rezar pelas almas. Tanto que os cemitérios católicos são considerados lugares sagrados pelo Direito Canônico.

No fundo, esse “medo” ou “aversão” aos cemitérios, tão comuns nos dias de hoje mesmo entre os católicos, é um sintoma de uma sociedade doente, não-cristã, que não convive bem com a morte. Tal medo, com certeza, não existiria com tanta freqüência numa época mais católica, como a Idade Média.

Não estou atacando ninguém que tenha esse medo ou aversão. Apenas constato. Infelizmente, até nós, católicos, acabamos aderindo, inconscientemente que seja, a esse pensamento.

A visita aos cemitérios é uma prática, em suma, muitíssimo devota. Cuidar do túmulo, rezar diante da tumba, colocar flores. O ser humano é psicossomático, e a Igreja, sabendo disso, aconselha que visitemos os cemitérios justamente para excitar nossa inteligência e nossa imaginação a fim de que pensemos mais nos mortos.

“A tradição da Igreja exortou sempre a rezar pelos mortos. O fundamento da oração de sufrágio encontra-se na comunhão do Corpo Místico… Por conseguinte, recomenda a visita aos cemitérios, o adorno dos sepulcros e o sufrágio, como testemunho de esperança confiante, apesar dos sofrimentos pela separação dos entes queridos”(João Paulo II, in L´Osservatore Romano, n. 45, de 10/11/91).

Os cemitérios cristãos são testemunhos da esperança que o católico cultiva como virtude teologal, e da qual pouco se fala em comparação com a fé e com a caridade.

Ter aversão aos cemitérios, ou deixar de ir tanto a eles, pode significar que, no fundo, não temos assim tão presente essa virtude.

Alguns objetarão que lá só existem os corpos, que as pessoas, de verdade, lá não estão, e sim na vida eterna (na glória, no inferno ou em purificação no purgatório).

Realmente, ninguém está no cemitério, exceto o coveiro. Mas nem por isso, a Igreja deixa de incentivar as visitas. Qual o motivo? Porque, lá jaz um corpo de um homem. E esse corpo foi templo do Espírito Santo. Esse corpo um dia ressuscitará. Esse corpo é um sinal e um testemunho de que a vida passa, mas a alma é imortal. Esse corpo nos ajuda a perceber a realidade da morte. Esse corpo nos ajuda a rezar mais e melhor pela alma do falecido.

“O gesto de levar flores ao cemitério, fazer uma visita, uma oração… tudo isso é expressão de certa união diferente, mas real.” (Pe. Octávio Ortiz, LC, in Sacerdos)

Não somos, evidentemente, obrigados a ir aos cemitérios. Sem embargo, trata-se de uma prática muito piedosa da qual não devemos descuidar.

Certo, pode-se lembrar dos fiéis defuntos fora do cemitério. Como lugar sagrado, entretanto, o cemitério é uma parcela importante da piedade para com os mortos.

Há duas vantagens nessa visita aos campos-santos:

a) rezar pelos mortos, lá onde estão enterrados (claro que a alma não está lá, mas o corpo sim, e ele também é elemento do ser humano, e será ressuscitado: evitemos esse espiritualismo de raiz platônica e gnóstica);

b) refletir sobre a nossa própria morte, para que nos santifiquemos.

“Estas reflexões evidenciam a importância dos cemitérios. Eles guardam os corpos que serviram à vida, até à chegada da morte.E aí esperam a ressurreição final. As catacumbas, admiráveis demonstrações da Fé cristã nos primeiros séculos, são alvo da devoção e do carinho dos discípulos de Jesus. Documentam a perseverança na Fé e, com freqüência, até o heroísmo do martírio. Na Idade Média, as sepulturas eram feitas em igrejas e imediações. Mesmo em qualquer outro lugar, era sempre uma área santa, merecedora de solene bênção. Era reservada exclusivamente aos fiéis, mas hoje dá a última hospitalidade a todos, inclusive não-cristãos. E a eles vão os parentes e amigos para o sepultamento – ou, como é o caso do Dia de Finados – recordar os que nos precederam e por eles rezarem. (…) A visita ao cemitério desperta em nós a meditação sobre os Novíssimos.” (Dom Eugênio de Araújo Cardeal Sales. Diante da Morte, em 26/10/2001)

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