A Igreja Maronita

I

Para falarmos da Igreja maronita precisamos falar da heresia monotelista, que segundo algumas fontes, estaria na origem dessa igreja. Advertimos que esta primeira parte deste artigo é baseada no célebre historiador inglês Edward Gibbon, que não é exatamente simpático ao catolicismo. Mas sua erudição e honestidade intelectual fazem dele um guia importante sobre aquela época.

A Igreja Maronita ocupa uma posição peculiar no espectro das igrejas católicas orientais, pois é a única que não tem uma contraparte acatólica. Por exemplo, a Igreja Católica Greco-Melquita tem seu contraparte no Patriarcado ortodoxo de Antioquia. Existem a Igreja Ucraniana Católica e Igreja Ortodoxa Ucraniana; a Igreja Caldeana Católica a Igreja Assiríaca do Oriente (nestoriana). Mas não existe uma Igreja Maronita ortodoxa. Esta singularidade pode ser explicada por sua história.

No princípio houve violentas controvérsias no campo do cristianismo. Essas controvérsias deram origem a várias igrejas católicas orientais, além de igrejas acatólicas. Já vimos a controvérsia do nestorianismo (ver na história da Igreja Caldeana Católica) e a do monofisismo (ver em Igreja Siríaca Católica).

A heresia monotelista nasceu de uma tentativa de conciliar a ortodoxia (= catolicismo) com a heresia monofisita. Estes últimos afirmavam que Cristo só tinha uma pessoa, a divina. A ortodoxia diz que tem duas, a divina e a humana. No ano 629, o Imperador Bizantino Heráclio, voltando de uma guerra contra os persas, perguntou a seus monges se Cristo tinha uma ou duas vontades. Esses disseram que tinha uma só. O Imperador ficou satisfeito, pois tinha esperança de que os monofisitas do Egito (coptas) e da Síria (jacobitas) se reconciliassem com a ortodoxia por esta linha conciliatória.

Observemos que essas heresias tinham um forte componente político. Os egípcios e sírios eram um tanto inconformados com o domínio de do Imperador da distante Constantinopla. Um acordo teológico poderia facilitar um acordo político entre o Imperador e essas regiões.

O partido ortodoxo reagiu com a doutrina de que cada parte de Cristo, a humana e a divina, tinha uma energia própria e distinta. Mas essa diferença não era mais visível quando se dizia que o querer divino e humano de Jesus eram o mesmo. O Clero grego aderiu á doutrina da vontade única e se declararam monotelistas, que quer dizer única vontade. Mas, já sabedores das terríveis conseqüências das lutas quanto a discussões anteriores, aconselharam um prudente silêncio quanto ao assunto, que foi garantido com a Ecthesis (exposição) de Heráclio e o Modelo de seu neto Constans. Este último, de 648, proibiu qualquer discussão em torno do assunto, pois a controvérsia estava se tornando violenta. Os Patriarcas de Roma, Constantinopla, Alexandria e Antioquia subscreveram os editos imperiais. Mas os monges de Jerusalém deram o alarme, afirmando que aquela doutrina era herética.

O Papa, que era e é também o patriarca de Roma, Honório, obedeceu aos comandos do Imperador e foi fortemente censurado por seus sucessores. Seus sucessores assinaram a sentença de excomunhão dos monotelistas sobre a tumba de São Pedro com tinta misturada com vinho sacramental, o sangue de Cristo. O papa Martinho e seu sínodo de Latrão anatematizaram o silêncio dos gregos. Este sínodo foi composto de 150 bispos da Itália, que condenaram a ecthesis e o Modelo; seus autores – os dois imperadores – e seus aderentes foram considerados semelhantes aos vinte e um maiores hereges, apóstatas da igreja e órgãos do demônio.

A reação do criticado (Imperador) foi violenta. O papa Martinho foi exilado numa ilha, morrendo em sofrimento. Arrancaram a língua e amputaram a mão direita do Abade Máximo, amigo do Papa.

Depois, em 680, foi convocado o Terceiro Concílio de Constantinopla, em que um monge monotelista propôs um teste radical: ele ressuscitaria um homem morto, para provar sua doutrina. Os prelados assistiram á demonstração e o monge falhou em meio a apupos e gritos contrários. O Concílio estabeleceu que há duas vontades em Cristo, a humana e a divina, com a humanas subordinada à divina. E condenou o monotelismo.

No entanto, anos depois, quando momentaneamente um Imperador monotelista assumiu o poder, o monumento comemorativo ao concílio foi mutilado e seus papéis originais jogados ao fogo. Mas pouco depois um novo Imperador chegou ao poder e a fé ortodoxa foi reimplantada com firmeza. E aos poucos a doutrina monotelista foi deixando de apaixonar as multidões no Império Bizantino, superada agora por outra discussão, a heresia iconoclasta.

O nome maronita passou de um eremita para um monastério, e de um monastério para uma igreja. São Maron era um eremita do século V na Síria. Suas relíquias foram disputadas após sua morte, e seiscentos de seus discípulos monges uniram suas celas fundando um monastério. A doutrina monotelista teria sido criada por esses monges em suas meditações e pesquisas. O Imperador Heráclio teria pegado a doutrina dessa fonte, e ele presenteou com importantes domínios um monastério maronita. O zelo dos maronitas pode ser medido pelas palavras do seu patriarca Macário, de Antioquia, que dizia que preferia ser cortado pedaço por pedaço que admitir que Cristo tinha duas vontades. Perseguidos pelo Imperador, alguns se converteram à fé ortodoxa. Mas outros resistiram. São João Maron, o mais letrado e popular dos monges maronitas (não confundir com São Maron, o primeiro) assumiu o título de Patriarca de Antioquia, e seu sobrinho Abraão comandou a resistência. O Imperador com um exército de gregos invadiu a Síria espalhando o terror. O monastério de São Maron foi incendiado, e os principais chefes maronitas foram assassinados, e doze mil maronitas foram exilados para as fronteiras da Armênia e da Trácia. Eventualmente os resistentes se retiraram para um conjunto de montanhas peto do litoral, plasmando sem o saberem uma nova nação, o Líbano. No século XII, com as cruzadas, os maronitas abjuraram o monotelismo, reconciliando-se com Roma.

II

Quanto à história da Igreja em si, teve sua origem como já dissemos no monge São Maron, que faleceu entre 405 e 423, e viveu como asceta numa colina no norte da Síria. Essa colina passou a ter tantos eremitas que foi chamada jardim de ascetas. Em sua volta formou-se a comunidade Beit Maron (casa de Maron). Com sua morte foi construído um mosteiro no local. No entanto, como já vimos acima, se os monges não aceitavam o monofisismo, também não estavam acordes com a ortodoxia, ficando na linha independente, do monotelismo. Em 517 o mosteiro foi atacado pelos monofisitas, que massacraram 350 monges. Isso deu a eles uma grande autonomia. Com a invasão muçulmana o Patriarcado de Antioquia ficou vago. Em 744 o califa autorizou a eleição de um novo patriarca, Teófilo. Este com o exército do califa tentou submeter a Casa de Maron. Mas esses resistiram e elegeram um novo patriarca, São João Maron, do próprio mosteiro, dando origem à nova igreja. Daquela época data a migração para as montanhas do Líbano, que antes do ano 1000 já estava completa. Uma parte também migrou para Chipre. O mosteiro de São Maron foi destruído no século X pelos muçulmanos.

A partir de 1181 os maronitas passaram para a submissão total á Sé de São Pedro. Em 1215 o patriarca maronita participou do concílio Latrão IV, em Roma. Em 1440 os patriarcas passaram a morar no vale Kadisha, o vale Santo, região montanhosa de difícil aceso no norte do Líbano, com mosteiros e igrejas nos penhascos.

A aproximação com Roma causou a latinização do rito. Em 1580 o papa enviou padre jesuítas ao sínodo maronita apresentando os costumes latinos de liturgia, e a adaptação conduzida por alguns patriarcas foi tão forte que o próprio papa Paulo V pediu para restabelecer os antigos costumes da Igreja Maronita.

Os maronitas como todos os cristãos sob domínio muçulmano foram perseguidos e depois de 1860 foi permitido ao Líbano ter um governo semi-autônomo. A Igreja maronita passou a ter muita influência nesse novo estado e esteve á frente do seu processo de independência em 1943. Atualmente os jornais dizem que o patriarca maronita está em campanha para a retirada das forças da Síria que estão estacionadas no Líbano.

Hoje seu patriarca é Sua Beatitude Nasrallah Pedro Sfeir, eleito pelo sínodo da igreja em 1986 e criado cardeal pelo papa João Paulo II em 1994. É o terceiro patriarca maronita a ser também cardeal. Note-se que o Patriarca maronita, ao ser eleito, tem o direito de acrescentar o nome Pedro ao seu nome, em honra ao primeiro dos apóstolos.

Os maronitas declaram que sempre foram unos com a Igreja católica. Resta a questão delicada do monotelismo, professado por eles durante vários séculos. Este página dá duas opiniões obre o fato. A visão de Edward Gibbon foi exposta na primeira parte desse artigo. Já o pesquisador Roberto Khatlab afirma que a doutrina monotelista não era uma heresia, pois para os maronitas as duas pessoas de Cristo não podiam se manifestar senão pela harmonia de suas vontades respectivas, e havia apenas uma vontade a se manifestar, a do Pai. Ficam as duas versões para o leitor.

A grande migração de Libaneses espalhou a Igreja Maronita por todas as partes do mundo. No Brasil o Exarcado foi criado em 1962, tendo como primeiro bispo Dom Francis Zayek. Teve a honra de ser o primeiro bispo maronita fora do Oriente Médio. Em 1971 o Exarcado foi transformado em Eparquia (diocese). Sua sede é em São Paulo e o atual Bispo é Dom José Mahfouz, eleito em 1990. A Igreja Maronita no Brasil está presente em várias cidades e tem uma página em português na internet, colocada abaixo.

Resumo:

 

Igreja Maronita

Chefe espiritual: Sua Beatitude Nasrallah Pedro, Cardeal Sfeir, Patriarca de Antioquia dos Maronitas

Sede: Bkerke, Líbano

Fiéis: 2.000.000

No Brasil:

http://geocities.yahoo.com.br/melquita/enderecos.htm#igrejamaronita
Paróquias:

Nossa Senhora do Líbano, em São Paulo (SP)

Nossa Senhora do Líbano, no Rio de Janeiro (RJ)

Nossa Senhora do Líbano, em Porto Alegre (SP)

Nossa Senhora do Líbano, em Belo Horizonte (MG)

Nossa Senhora do Líbano, em Bauru (SP)

São Maron, em Goiânia (GO)

 

Página na Internet: http://www.igrejamaronita.org.br/menu/pgmenu.asp

 

Fontes:

GIBBON, Edward. Decline and fall of the Roman Empire. Cap. XLVII. Enciclopédia Britânica, 1987. Coleção Great Books of the Western World.

KHATLAB, Roberto. As Igrejas Orientais, católicas e ortodoxas, tradições vivas. São Paulo: Ave Maria edições, 1997. 256p.

EPARQUIA Maronita do Brasil ? Igreja de rito oriental católica apostólica romana. São Paulo, 2001. 16 pgs.

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A Igreja Ucraniana Católica

No dia 27 de junho de 2001 o Sumo Pontífice João Paulo II terminou uma visita de cinco dias a Ucrânia. Os jornais do mundo inteiro comentaram sobre tal igreja, e dos problemas entre católicos e ortodoxos na Ucrânia e na Rússia, e por extensão em todo mundo, dos qual esta igreja é o epicentro. Realmente é uma igreja pequena (dois milhões de adeptos segundo Roberto Khatlab; cinco milhões segundo a Folha de São Paulo), mas tem ocupado boa parte das preocupações dos Papas desde a Segunda Guerra.

A história da Igreja Católica Ucraniana começa no ano de 1595, com um sínodo (reunião de bispos) realizado na cidade de Brest-Litovski. Antes disso a igreja na Ucrânia fazia parte da Igreja Ortodoxa e não reconhecia o papa como o cabeça da Igreja. No entanto havia conflitos entre o Patriarcado de Constantinopla, que é o principal Patriarcado ortodoxo, e o novo Patriarcado ortodoxo da Rússia, que se esforçava por querer dominar a Igreja Ucraniana. Diante dessa pressão a Igreja Ucraniana resolveu voltar-se de novo para Roma. A 23 de dezembro de 1595 quase toda a hierarquia ucraniana voltou ao seio de Roma, mantendo porém os ritos bizantinos próprios.

A Ucrânia, porém estava com suas partes central e oriental sob o domínio dos Czares russos, que tinham a igreja Ortodoxa como religião oficial. Os czares proibiam católicos de rito ortodoxo no território de seu império, só permitindo os de rito latino. Como conseqüência durante séculos os católicos ucranianos foram perseguidos, gerando mártires como São Josafá, Arcebispo de Polosk, assassinado em 1623. A Igreja Católica, no entanto vicejou na parte ocidental da Ucrânia, tendo como centro a cidade de Lvov, pois esta estava sob o domínio do Império Austro-Húngaro.

As tribulações modernas da igreja começaram em 1939 com a Segunda Guerra Mundial, quando os exércitos de Stalin tomaram parte da Polônia, inclusive a cidade de Lvov e seus arredores. Por pouco tempo, pois dois anos depois era a Alemanha de Hitler que invadia a região. No entanto em 1944 a União Soviética invade e retoma. A Igreja Ortodoxa Russa na época era controlada pelo estado Soviético. A Stalin não agradou a permanência de uma igreja ligada a Roma em seu território. Por isso logo depois da guerra ordens vieram de Moscou de a Igreja Católica Ucraniana se autodissolver e transferir seu pessoal e suas propriedades para a Igreja Russa Ortodoxa. Um sínodo por pressão da polícia política soviética foi organizado e uma parte dos bispos e sacerdotes aderiu à ortodoxia. Mas houve os que apesar das ameaças decidiram manter sua fé. A estrutura de paróquias e dioceses foi passada para a Igreja Ortodoxa.

O líder da Igreja Ucraniana, o Arcebispo Maior de Lvov, André Szeptyckyj morrera em 1944 nas prisões soviéticas. E então surge a corajosa figura de seu sucessor, o Monsenhor Josyf Splipyi, bispo desde 1939. Apesar de toda a pressão ele disse não à liquidação da Igreja. Isso lhe custou caro. No dia 11 de abril de 1945 ele e cinco bispos foram presos e mandados para a Sibéria, condenados a oito anos de trabalhos forçados. E a cada vez que chegava ao final de sua pena acrescentavam-lhe uma outra, de forma que nunca era solto. Em 53 foi condenado a quatro anos de exílio na Sibéria, em 57 foi condenado a um campo de concentração. Dois anos depois lhe propuseram soltá-lo, desde que ele aceitasse a dissolução da Igreja e sua adesão à Igreja Ortodoxa Russa. Ele recusou e como castigo sua pena foi prolongada. Todos os outros bispos morreram na prisão. Enquanto isso os padres, freiras e fiéis lutavam na clandestinidade, fazendo batismos e sacramentos no sigilo e sob perseguição da polícia.

Em 1963 com a crise dos mísseis em Cuba o Vaticano atuou como mediador entre a União Soviética e os Estados Unidos. Como recompensa o papa João XXIII exigiu a libertação do arcebispo católico. Dizem que Khrushev, ao saber da reivindicação, teria dito, numa pitada de humor negro: ?ele não está morto?…?

Mas não estava. Estava mancando de ferimentos de congelamento, aos 71 anos, mas não estava morto. Libertado e no exílio continuou sua luta para sua igreja não ser esquecida. Participou do Concílio Vaticano II e em 1965 foi elevado a Cardeal pelo Papa Paulo VI. Reivindicou ser reconhecido Patriarca como recompensa ao heroísmo de sua igreja, mas devido à oposição da Igreja Ortodoxa Russa este título não foi concedido.

Em 1984, Cardeal Slipyi morreu aos 92 anos, sendo substituído por Myroslav Lubachivsky, logo também elevado a Cardeal. Foi este prelado que, com o fim da União Soviética assistiu à legalização da sua igreja e voltou a Ucrânia em 1991. Naquele mesmo ano o governo daquele país agora independente devolveu à Igreja Católica Ucraniana os bens que lhe tinham sido confiscados no tempo da perseguição. No fim de 2000 Cardeal Lubachivsky morreu, sendo eleito para substituí-lo Dom Lubomyr Husar, elevado a Cardeal em fevereiro de 2001. O fato do Santo Padre elevar a cardeal os líderes dessa Igreja é um claro sinal do apoio à sua luta.

Atualmente os problemas se referem basicamente ao conflito com a Igreja Ortodoxa. O Patriarcado Ortodoxo de Moscou acusa os católicos de tomarem à força as cerca de 2.500 paróquias devolvidas. E além disso os ortodoxos acusam os católicos de fazerem proselitismo em seu território.

No Brasil a Igreja Ucraniana Católica foi trazida por imigrantes ucranianos que se concentraram nos estados do Paraná e Santa catarina, e conta com 21 paróquias e 201 capelas. A diocese conta com ordens como a Ordem Basiliana de São Josafá e outras.

Resumo:

Igreja Ucraniana Católica

Chefe espiritual: Dom Lubomyr Cardeal Husar, Arcebispo Maior de Lvov dos Ucranianos

Sede: Lvov ? Ucrânia

Fiéis: 2 a 5 milhões, de acordo com várias estatísticas

No Brasil:

Diocese de Sao Joao Batista (http://geocities.yahoo.com.br/melquita/enderecos.htm#igrejaucraniana)

criada a 29.11.71 pelo papa Paulo VI

Bispo: Dom Efraim Krevey, Bispo ucraniano católico do Brasil, desde 1978.

Paróquias – No Paraná: Curitiba, Campo Mourão, Cascavel, Cruz Machado, Dorizon, Guarapuava (Paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro de Reserva – fundada em 2003), Ivaí, Mallet, Maringá, Pato Branco, Pitanga, Ponta Grossa, Prudentópolis, Roncador, União da Vitória (Paroquia Sao Basilio Magno – fundada em 31/07/53 – com 14 comunidades), Vera Guarani (Paróquia da Natividade de Nossa Senhora – fundada em 1953). Em Santa Catarina: Canoinhas, Iraputã. Em São Paulo: São Paulo. Reitorias em Antônio Olinto e Apucarana (PR) e Mafra (SC). Seminário Menor em Mallet e Noviciado Basiliano em Ivaí.

Fontes:

KHATLAB, Roberto. As Igrejas Orientais, católicas e ortodoxas, tradições vivas. São Paulo: Ave Maria edições, 1997. 256p. [O autor deste livro é o adido cultural da Embaixada Brasileira no Líbano e gentilmente colocou sua obra à disposição desta página para reprodução e resumo, e a ele agradecemos].

?Viagem do Papa à Rússia fica mais distante? – Folha de São Paulo, 28/06/2001, pag. A14.

?Giving light to church’s dark era? – The Dallas Morning News. 22/06/2001

Correspondência particular com o Sr. Marcos Roberto Leão, de União da Vitória (PR) a quem esta página agradece as informações prestadas.

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A Igreja Caldeana Católica

 

A consolidação da doutrina católica foi um processo lento, ocorrido durante séculos, em que não foram poucos os percalços. Praticamente desde o tempo de Cristo começaram os ensinamentos que desviavam da doutrina, ou seja, as heresias. Uma das heresias mais fortes dos primeiros tempos do Cristianismo foi oriunda dos ensinamentos do presbítero Ario, daí seu nome de Arianismo. Tal doutrina afirmava que Cristo era uma criatura perfeitíssima, a maior de todas as criaturas, mas não era Deus. O Arianismo foi condenado no Concílio de Nicéia no ano 325, mas permaneceu forte por muito tempo. Segundo o historiador Edward Gibbon, em certo momento ele chegou a ser a doutrina das multidões em Constantinopla, então capital do Império. Mas o arianismo foi teimosa e corajosamente combatido por um grupo no qual se destacou o Patriarca de Alexandria, Atanásio, que pelos seus esforços de defender a sã doutrina foi canonizado Santo Atanásio. E seus esforços foram recompensados, as conclusões do Concílio de Nicéia prevaleceram e o mistério da Incarnação foi afirmado, ou seja, Jesus era Deus, consubstancial ao Pai, como rezamos no nosso Credo.

Já que Cristo é Deus, foi se popularizando entre os fiéis chamar Maria de ?Mãe de Deus?, em grego, Theotokos. Um problema surgiria a partir daí, quando um monge chamado Nestório, de Antioquia (atual Turquia) foi escolhido pelo Imperador para ser Patriarca de Constantinopla pela fama de sua eloqüência.

Esclarecemos que nos princípios da Igreja foram estabelecidos cinco patriarcados. Um patriarca é eleito por um sínodo, ou seja, uma reunião de bispos sob sua jurisdição. Jesus disse ?Ide e pregai?, e os patriarcados se estabeleceram de acordo com tal ordem. Um no centro do mundo, Jerusalém, a cidade onde o Salvador morreu e ressuscitou. Ao norte, Constantinopla (hoje Istambul, Turquia); ao sul, Alexandria (Egito); ao ocidente, Roma; ao oriente, Antioquia. Cinco patriarcas com a seguinte ordem de precedência: Roma, Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém. Com os sucessivos cismas que abalaram a Igreja os três últimos patriarcados hoje estão divididos entre vários patriarcas. Mas os dois primeiros têm sucessores reconhecidos: o Patriarca Ecumênico de Constantinopla Sua Santidade Bartolomeu I (Ortodoxo), e o Patriarca do Ocidente Sua Santidade o Papa João Paulo II. Entre a miríade de títulos que o Papa tem (Papa, Sucessor de Pedro, Bispo de Roma, Primaz da Itália, etc) se inclui o de Patriarca do Ocidente. Assim, os católicos latinos também têm um patriarca, apenas nos esquecemos disso pois ele é o mesmo Sumo Pontífice.

Nestório se tornou patriarca de Constantinopla e logo no começo mostrou-se rigoroso contra as heresias. Em poucos dias destruiu uma capela de arianos e logo depois ocupou igrejas de outros heréticos. No entanto a Nestório desagradava o título de ?Mãe de Deus? dado a Maria, pois isso lembraria o panteão de deuses pagãos. E no final de 428 Nestório pronuncia o primeiro de uma série de sermões bombásticos contra o título Theotokos. Para ele, Maria seria Christotokos, Mãe de Jesus. E ele tinha um ponto, tal título de Maria não consta na Bíblia, em lugar algum! De maneira mais ampla Nestório afirmava que em Cristo havia as naturezas humana e divina agindo como uma, mas não se juntariam para compor um indivíduo. A natureza divina teria se manifestado em Cristo a partir do batismo por João Batista, quando o Espírito Santo desceu dos céus em forma de pomba. Assim Maria deu a luz ao Jesus homem, e não ao Jesus Deus.

Houve uma reação grande, em que fatores políticos importavam tanto quanto religiosos. E quem liderou a doutrina de que Maria é Mãe de Deus foi Cirilo, patriarca de Alexandria, que depois por seus esforços foi canonizado São Cirilo. E no concílio de Éfeso em 431 Nestório e sua doutrina foram condenados. Maria foi estabelecida pelo catolicismo como Mãe de Deus. O Imperador por edito de 435 ordenou que os escritos de Nestório fossem queimados e ele morreu exilado no deserto do Saara em condições miseráveis.

No entanto ele converteu multidões, principalmente no oriente cristão. Esses seus seguidores foram duramente perseguidos pelos Imperadores do Império Romano do Oriente (também conhecido como Império Bizantino). No ano 489 um grande grupo deles migrou para o vizinho Império persa, inimigo tradicional do Império Bizantino. Lá, apesar de perseguições periódicas puderam se desenvolver como Igreja independente de Constantinopla e de Roma, tendo como líder máximo o Patriarca de Seleucia-Ctesifon (atual Iraque).

A Igreja nestoriana não é oficialmente denominada assim nem seus adeptos gostam de chamá-la assim. Esse nome foi dado por seus oponentes monofisitas, que também formaram e formam um outro ramo do cristianismo. Eles se denominam ?Igreja do Oriente?. Mas por comodidade continuaremos chamando-a assim.

A Igreja nestoriana fez um grande esforço de pregação no Oriente, principalmente durante a Idade Média. Havia cristãos nestorianos na China, na Mongólia, na Pérsia e na Índia. Nesta última eles fundaram uma Igreja particularmente ativa, a Igreja Siro-Malabar, hoje quase toda Católica. Mas as perseguições de Tamerlão praticamente extinguiram essa Igreja florescente naquela parte do Mundo. Manteve-se apenas no seu local de origem, correspondente grosso modo ao atual Iraque e parte do Irã, e na Índia.

A história da Igreja Caldeana Católica começa quando das primeiras tentativas de reunificação dos cristãos nestorianos ao catolicismo. Houve tentativas na época dos Patriarcas Mar Sabrisho V (1226-1257) e Mar Uyah-allah III (1281-1371) mas com poucos resultados. Em 1445 o metropolita nestoriano da ilha de Chipre declarou-se separado da Igreja do Oriente e unido a Roma. O Papa Eugênio IV declarou que quem chamasse esses católicos vindos do nestorianismo de ?nestorianos? seria excomungado ? eles deveriam ser chamados de ?caldeanos?. A União da igreja de Chipre não durou muito, mas ficou o nome.

No ano 1450 o Patriarca da Igreja nestoriana editou um regra que o cargo de Patriarca seria restrito aos membros de sua família (como eles são celibatários, geralmente o cargo passava de tio para sobrinho). Isso gerou insatisfações. Um século depois, em 1551, quando Mar Chimun VII foi entronizado sucedendo seu tio alguns bispos se revoltaram e elegeram um Monge, João Sulaka, como Patriarca dissidente. No ano seguinte ele partiu para Roma onde fez sua profissão de fé, e em 1553 o Papa Júlio III proclamou-o Patriarca da Igreja Caldeana, com o nome de Mar Chimun VIII. Surgia a Igreja Caldeana, em comunhão com Roma. João Sulaka foi martirizado em 1555 por um Emir muçulmano a pedido do Patriarca da outra linhagem.

Nos séculos seguintes houve uma confusão muito grande, com a linhagem de Patriarcas caldeanos se extinguindo e ressurgindo algumas vezes, com Patriarcas nestorianos se convertendo ao catolicismo e vice-versa. Em 1830 o Papa Pio VIII reconheceu o metropolita João Hormez como Patriarca da Babilônia para os Caldeus, com sede em Mossul, atual Iraque, restabelecendo-se então uma linhagem de Patriarcas caldeanos que permanece até nossos dias. Observamos que a outra linhagem de patriarcas, a da Igreja nestoriana, desde 1975 não é mais hereditária.

Hoje está havendo um movimento de reaproximação entre a Antiga Igreja Assiríaca do Oriente (nome oficial da igreja nestoriana) e o catolicismo, através da Igreja Caldeana Católica. No dia 11 de novembro de 1994 Sua Santidade o Papa João Paulo II e Sua Santidade o Catholicós-Patriarca da Igreja Assiríaca do Oriente Mar Denkha IV assinaram na Basílica de São Pedro em Roma uma declaração cristológica comum, estatuindo no que as duas igrejas concordam em termos teológicos, e estabelecendo uma comissão para conciliar as diferenças restantes.

Observamos que ?catholicós? é um título que o Patriarca recebe nas igrejas da mesopotâmia, persa, armênia e georgiana (pronuncia-se ?Cassolicós?).

E em 29 de novembro de 1996 os Patriarcas Mar Rafael I Bidawid (dos caldeus católicos) e Mar Denkha IV (dos nestorianos), junto com seus bispos, assinaram um Decreto Sinodal Conjunto para Promover a Unidade entre as duas igrejas.

Atualização

O Patriarca Rafael Bidawid morreu em julho de 2003, quando o Iraque passava por uma situação difícil pela invasão norte-americana. Um sínodo dos 23 bispos caldeus católicos se reuniu sob muitas privações e nenhum deles conseguiu os dois terços de votos necessários à eleição. O sínodo se encerrou em 2 de setembro, sem decisão.

Pelo Direito canônico o Papa teria o direito de eleger o próximo patriarca caso o sínodo não chegasse a uma decisão. Mas Sua Santidade preferiu convocar os bispos em novo sínodo dessa vez em Roma. O novo sínodo começou em 02/12/2003 e no dia seguinte elegeu o bispo Emmanuel-Karim Delly seu novo Patriarca. Era o antigo bispo auxiliar de Bagdá. Escolheu o nome de Karim III. No mesmo dia o eleito teve uma audiência privada com o Papa João Paulo II e foi entronizado. Depois seu nome foi revelado ao público.

Os desafios políticos são grandes. Os caldeus católicos em outubro se juntaram com os assírios (nestorianos) e os siríaco-ortodoxos e formaram o grupo ?caldeu-assírio?, que quer ser reconhecido na nova constituição iraquiana e quer a administração das regiões onde sua presença é maior.

Resumo:

Igreja Caldeana Católica

Chefe espiritual: Sua Beatitude Karim III Delly, Patriarca da Babilônia dos Caldeus Católicos (desde 04/12/2003)

Sede: Bagdá, Iraque

Fiéis: 500.000

Fontes:

KHATLAB, Roberto. As Igrejas Orientais, católicas e ortodoxas, tradições vivas. São Paulo: Ave Maria edições, 1997. 256p. [O autor deste livro é o adido cultural da Embaixada Brasileira no Líbano e gentilmente colocou sua obra à disposição desta página para reprodução e resumo, e a ele agradecemos].

“Chaldean synod elects new patriarch”. EWTN Catholic News story. http://www.ewtn.com/vnews/getstory.asp?number=41906. (04 dez 2003)

“Chaldean bishops, meeting in Rome, to elect new patriarch”. EWTN Catholic News story. http://www.ewtn.com/vnews/getstory.asp?number=41783. (04 dez 2003)

Yuhannon. “Bishops Elect Chaldean Catholics Leader”. Melkite List. http://groups.yahoo.com/group/melkite. (04 dez 2003)

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A Igreja Siríaca Católica

I

Para falarmos da Igreja Siríaca Católica, precisamos falar da grande controvérsia que deu origem a ela, a heresia monofisita. Advertimos que esta primeira parte deste artigo é baseada no célebre historiador inglês Edward Gibbon, que não é exatamente simpático ao catolicismo. Mas sua erudição e honestidade intelectual fazem dele um guia importante sobre aquela época.

No concílio de Éfeso em 431 D.C. foi condenado o nestorianismo, heresia que afirmava ter Cristo duas personalidades, a humana e a divina (ver a história da Igreja Caldeana Catolica). No entanto nessa mesma época estava se desenvolvendo o pensamento diametralmente oposto, de que Cristo teria uma só pessoa, a divina. Um dos campeões dessa doutrina era o monge Eutiques, um idoso e analfabeto arquimandrita (superior) de trezentos monges perto de Constantinopla. O patriarca de Constantinopla Flaviano convocou um sínodo de sua igreja, sínodo este que condenou Eutiques, afirmando que ele teria dito que Cristo não teria derivado seu corpo da substância da Virgem Maria.

Eutiques então apelou para um concílio geral, e nisso foi ajudado por um seu afilhado, que era o principal eunuco do palácio do Imperador, e pelo patriarca de Alexandria, Dioscorus. O Imperador Teodósio convocou então um concílio geral na cidade de Éfeso (o segundo naquela cidade). Tal reunião foi marcada pelo autoritarismo de Dioscorus. Este trouxe do Egito uma tropa de arqueiros e de monges implacáveis que cercaram a catedral onde estavam os participantes do concílio. O concílio condenou os que diziam ter Cristo duas naturezas (?que aqueles que dividem Cristo sejam divididos pela espada?). Eutiques foi absolvido sem hesitação, mas os bispos subordinados a Flaviano não queriam entregar seu patriarca à justiça de Dioscorus, e se agarraram aos joelhos deste enquanto este os encarava com ar feroz, e imploraram misericórdia. Este gritou que eles queriam fazer uma sedição e gritou pelos oficiais. A tal sinal uma turba de soldados e monges com paus, espadas e correntes invadiu a igreja, fazendo os bispos tremendo de medo se esconderem atrás do altar e dos bancos e assinarem um papel em branco em que depois foi escrita a condenação de Flaviano. Este foi entregue à turba, que o monge Barsumas, favorável a Dioscorus, incitava dizendo para vingar as feridas de Cristo. Dizem que o próprio Dioscorus chutou Flaviano. Este, ferido, fugiu, mas morreu três dias depois. Foi vitória dos monofisitas.

A parte derrotada (= católica) no entanto apelou para o Papa Leão I. Convocou imediatamente um sínodo provincial que anulou o sínodo de Éfeso, considerando-o irregular. Mas tão importante quanto o apoio do Papa foi a morte do Imperador Teodósio quando seu cavalo tropeçou e ele foi sucedido por sua irmã Pulquéria, que dominava o marido e era favorável ao partido ortodoxo (= católico). Então Dioscorus caiu em desgraça e os exilados foram convocados. Foi convocado um novo concílio, para o qual os legados papais pediram a presença do Imperador. E os participantes foram levados para uma pequena localidade perto do mar, num morro, onde foi construída uma igreja para abrigar os seiscentos e trinta bispos. O lugar de honra ficou com os legados do Papa e do Imperador. Acusado formalmente, Dioscorus foi reduzido a criminoso. Novos patriarcas de Constantinopla e Alexandria foram eleitos. Dos dezessete bispos de Alexandria, monofisitas, quatro aderiram ao partido católico, e treze de joelhos imploraram a piedade do concílio, dizendo que seriam linchados quando voltassem a sua terra se renunciassem ao monofisismo. Houve pedidos de uma anistia geral mas foram rejeitados. Dioscorus foi condenado entre outros com base em acusações de orgulho, avareza, crueldade, e que gastava o dinheiro da igreja em dançarinas e que seu palácio e seu banho eram freqüentados por prostitutas, principalmente por Irene, um famosa mulher do prazer da cidade, que seria sua amante.

No entanto restavam os problemas doutrinários, e provavelmente a maioria dos bispos era a favor da doutrina monofisita. Por força dos legados papais, em uma votação eles votaram a favor das duas naturezas, em outra voltaram a uma natureza só, entre gritos de que as definições dos pais da igreja eram imutáveis. No entanto o Imperador estava inflexível, e os legados papais também, e uma comissão de dezoito bispos preparou novo decreto, em que Cristo tinha uma pessoa em duas naturezas, que foi aceito relutantemente pelos participantes. E este foi o concílio de Calcedônia.

Nos anos seguintes houve reações violentas. Jerusalém foi invadida, pilhada e queimada, com muitos mortos, por um exército de monges em favor de uma natureza só de Cristo. No Egito o novo patriarca de Alexandria, Protério, esteve em guerra contra seu próprio povo por cinco anos. Quando se soube que um monofisita importante tinha morrido o povo cercou a catedral três dias antes da Páscoa e o Patriarca foi assassinado no batistério, e seu corpo queimado e as cinzas espalhadas ao vento, sob o rumor de que esse assassinato tinha sido inspirado pela visão de um anjo. No seu lugar o povo colocou o monge Timóteo o Gato, monofisita.

Depois de trinta anos o imperador Zenão, para acabar com tantas lutas, propôs uma fórmula de conciliação, mas sem muito sucesso. A controvérsia ficou latente, e a qualquer oportunidade reacendia. Naquela mesma época acreditou-se que um anjo revelou aos homens o hino do Triságio (?Santo, Santo, Santo, é o senhor Deus do Universo?). Este seria o hino que seria cantado sempre, continuamente, em todos os tempos, pelos anjos e querubins diante do trono do Senhor. Acontece que logo logo foi adicionada a frase ?que foi crucificado por nós!? e essa frase, que seria depois adotada universalmente, fora acrescentada por um bispo monofisita. E isso gerou conflitos terríveis. Na catedral dois coros rivais cantaram o Triságio, com e sem o acréscimo, um querendo forçar o outro a desistir. Quando seus pulmões não agüentavam mais eles partiram para as pauladas e pedradas. O Imperador Anastácio puniu os católicos, entrando em conflito com o patriarca, que os defendeu. E a multidão invadiu as ruas, aos gritos de ?este é o dia do martírio!?. A multidão tomou o poder na cidade, as chaves da cidade e seus estandartes foram tomadas dos guardas. Nos dias seguintes a multidão pilhou e saqueou e incendiou as casas dos partidários do imperador, cantando hinos enquanto o faziam. A cabeça de um monge amigo do Imperador foi levada na ponta de uma lança. Estátuas do Imperador foram quebradas enquanto ele se refugiava num subúrbio. Depois de três dias o Imperador, sem seu diadema, humilhado, suplicou o perdão de seus súditos no circo. Diante dele os católicos em coro cantaram o seu Triságio, sem acréscimo. E dois ministros foram entregues aos leões.

No entanto a fé monofisita continuou em muitas pessoas. Por volta do ano 540 houve nova perseguição. O patriarca de Antioquia, o monofisita Severo foi destronado e perseguido e fugiu, e seu amigo Xenaias foi estrangulado, trezentos e cinqüenta monges foram massacrados, além de bispos destronados e presbíteros jogados na prisão, mesmo contando com a discreta ajuda de Teodora, a Imperatriz. E no meio dessa miséria surgiu a figura de Tiago (Jacob) al-Baradai, que nas masmorras de Constantinopla recebeu secretamente o título de Bispo de Edessa e Apóstolo do Oriente.  Libertado lançou-se a uma frenética atividade missionária, nas costas de rápidos camelos fornecidos por um simpatizante. Visitou vilas, conventos e cavernas onde os adeptos do monofisismo se escondiam, e teria ordenado oitenta mil bispos, padres e diáconos, que eram ensinados também a odiar o legislador romano. Por conta de seu esforço a igreja monofisita é também conhecida como Igreja Jacobita. Foi ele o organizador da Igreja Siríaca Ortodoxa, não em comunhão com Roma, que existe até hoje. Seus sucessores formam uma linhagem de patriarcas monofisitas de Antioquia. A segunda maior autoridade nessa igreja é o Mafrian (em siríaco: frutuoso, delegado universal), instituído em 630 e sediado em Mosul, no Iraque, na mesma cidade do catholicós nestoriano, inicialmente com jurisdição sobre os fiéis monofisitas no Império Sassânida.

Perseguidos por Constantinopla os monofisitas ou siríaco-ortodoxos acolheram os invasores muçulmanos, que tinham inicialmente uma tirania mais leve. Mas depois houve perseguições e conversões em massa ao islamismo. Sua Igreja existe até hoje. Logo abaixo mencionaremos seu Patriarca e sua Página no Brasil.

II

A Igreja Siríaca Católica começa com tentativas de reunificação dos jacobitas com o catolicismo que começaram depois das cruzadas. Em 1444 em Florença, houve a tão almejada reunificação ao catolicismo. Mas a invasão turca logo depois fez com que essa tentativa durasse pouco. Entre 1563 e 1571 houve uma ativa correspondência entre o patriarca e os Papas Pio IV e V, e em 1583 o papa enviou um legado à igreja jacobita. Em 1656 André Akhidjan foi consagrado pelo patriarca maronita e seis anos depois foi eleito Patriarca Siríaco de Antioquia, enviando a Roma sua profissão de fé. Seu sucessor Inácio Pedro Chaahbadine foi perseguido violentamente pelo Xeque de Istambul, preso, torturado e colocado em marchas forçadas, ao final das quais morreu como mártir da fé em 1702. Depois disso a Igreja Siríaca católica ficou sem Patriarca até 1782. Neste ano foi eleito um único patriarca para as duas comunidades, Denis Miguel Djarve. Foi confirmado por Roma no ano seguinte, mas apenas quatro bispos ficaram com ele. Os outros elegeram um patriarca siríaco-ortodoxo. Assim, desde aquela época há duas igrejas siríacas – a católica e a ortodoxa. Perseguido, o patriarca siríaco católico teve de fugir para o Líbano, onde até hoje no convento de Charfe se encontra o ícone milagroso de Nossa Senhora Libertadora que fugiu trazendo no peito.

Após passar períodos em Alepo-Síria e em Mardin ? Turquia, e oprimida por perseguições, a sede patriarcal se transferiu definitivamente para Beirute no Líbano durante a Primeira Guerra Mundial.

Em 1935 o Patriarca Inácio Gabriel Tappouni foi elevado a cardeal pelo papa Pio XI, tornando-se o primeiro cardeal desta Igreja. Faleceu em 1968.

Em outubro de 1998 foi eleito o novo Patriarca Inácio Moussa Dauod. Mas no final do ano seguinte ele foi nomeado pelo Papa para o cargo de Prefeito da Sagrada Congregação para as Igrejas Orientais. No consistório de fevereiro de  2001 foi elevado a Cardeal, mantendo no entanto o título particular de Patriarca. Devido a seu novo cargo renunciou à liderança da Igreja., Foi eleito portanto a 16 de fevereiro de 2001 o seu sucessor, Patriarca Inácio Pedro VIII.

Note-se que os Patriarcas de Antioquia dos Siríacos Católicos escolhem todos o nome de Inácio. É uma homenagem tradicional a seu antecessor Santo Inácio da Antioquia. Tal tradição existe desde 1444, quando foi eleito o primeiro Patriarca a fazer essa homenagem, ainda quando a igreja siríaca era una e não em comunhão com o catolicismo.

O patriarca Inácio Moussa Daoud visitou o Brasil no início do ano 2000, sendo recebido pelo prefeito de Belo Horizonte e pelo governador de Minas Gerais. A Igreja Siríaca Católica está presente no Brasil na Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte, e também no Mato Grosso do Sul. Durante sua visita o patriarca consagrou Monsenhor ao Padre Luiz Awad, o único sacerdote católico siríaco no Brasil. Note-se que esta Paróquia também atende os fiéis católicos melquitas daquela cidade (ver http://geocities.yahoo.com.br/melquita/enderecos.htm#igrejasiriaca).

A Igreja Siríaca Ortodoxa continua a existir, e seu Patriarca Siríaco Ortodoxo de Antioquia e de todo o Oriente é Inácio Zakka I, com sua sede em Damasco, na Síria. Os siríacos ortodoxos (não em comunhão com o catolicismo) também estão presentes no Brasil e têm uma página em português ( http://www.sirianort-santamaria.org.br).

 

Resumo:

Igreja Siríaca Católica

Chefe espiritual: Sua Beatitude Inácio Pedro VIII, Patriarca de Antioquia dos Siríacos Católicos

Sede: Beirute, Líbano

Fiéis: 100.000

No Brasil:

Uma Paróquia: Igreja do Sagrado Coracao de Jesus (http://geocities.yahoo.com.br/melquita/enderecos.htm#igrejasiriaca) – Belo Horizonte (MG)

 

Fontes:

GIBBON, Edward. Decline and fall of the Roman Empire. Cap. XLVII. Enciclopédia Britânica, 1987. Coleção Great Books of the Western World.

KHATLAB, Roberto. As Igrejas Orientais, católicas e ortodoxas, tradições vivas. São Paulo: Ave Maria edições, 1997. 256p.

Sua Beatitude Dom Moussa Dauod visita Belo Horizonte – Revista CHAMS, abril, 2000, ano IX, n. 90 ? pp. 16 e 17

New Syriac Patriarch of Antioch Elected – http://www.dailycatholic.org/issue/2001Feb/feb27nw1.htm

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