• Autor: Anônimo
  • Fonte: A Catholic Response Inc. (http://users.binary.net/polycarp)
  • Tradução: Carlos Martins Nabeto

“Para que, sendo justificados pela Sua graça, sejamos feitos herdeiros segundo a esperança da vida eterna” (Tito 3,7).

* * *

Certo dia, ao ir para a Confissão, encontrei um folheto protestante grudado na tela do confessionário. Sua mensagem básica era a de que podemos ter a certeza da nossa salvação enquanto acreditarmos em Cristo.

Parafraseando esse folheto, argumentava que podemos ter certeza de irmos para o céu, já que Deus nos ama (cf. João 3,16). Apesar de termos pecado e estarmos separados de Deus (cf. Romanos 3,23), Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados (cf. Romanos 5,8). Ao nos arrependermos dos nossos pecados e recebermos Cristo em nosso coração, somos salvos do Inferno (cf. Atos 3,19; Apocalipse 3,20). Esse tratado expressava várias verdades cristãs básicas… mas faltava a plenitude da fé cristã!

Alguns pontos importantes precisam ser esclarecidos. Vamos começar com João 3,16:

  • “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que Nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3,16).

Este versículo é uma declaração concisa e bela da mensagem do Evangelho. Deus nos ama tanto que enviou o Seu único Filho, Jesus Cristo, para morrer na cruz pelas mãos de homens pecadores, a fim de nos salvar do Inferno (cf. Romanos 5,6-11). Nossa salvação é um presente gratuito de Deus comprado por Cristo. Não podemos ganhar o céu pela nossa vanglória (Efésios 2,8). Somos salvos mediante Cristo, crendo em Cristo. Mas o que é “crer”?

Pois bem: João 3,16 não é uma expressão completa da doutrina da Salvação. Nós devemos entendê-la no contexto e plenitude da Revelação. Apenas 20 versículos depois, também está escrito:

  • “Aquele que crê (pisteuon) no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não obedece (apeithon) o Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece” (João 3,36).

Diversas Bíblias traduzem o verbo grego “apeithon” como “obedecer”. Assim, este versículo liga “crença em Cristo” com “obediência a Cristo”. Em outros lugares, São Paulo liga fé com obediência, como na “obediência da fé” (Romanos 1,5); e com boas obras, como na “fé que opera através do amor” (Gálatas 5,6). Também está escrito: “Pela fé Abraão obedeceu…” (Hebreus 11,8). Segundo a Bíblia, “crer” também significa “obedecer”. Nós não acreditamos sinceramente em Cristo se desobedecemos aos Mandamentos de Deus, ou seja, se cometemos pecado (cf. Tiago 2,18-26). O pecado é uma quebra da fé (cf. Números 5,6-7).

Como resultado do pecado de Adão (cf. Romanos 5,12) e através de nossos pecados graves, rejeitamos Deus e merecemos o Inferno – a perda da vida eterna. Devemos lembrar que o Inferno não é o castigo de um Deus vingativo, mas a consequência natural de se rejeitar a Deus, a Fonte da vida e da bondade. Nossos pecados ofendem ao amor de Deus. Não há nada que possamos fazer como criaturas finitas (limitadas) para repararmos essa ofensa infinita (ilimitada). Felizmente, devido à misericórdia de Deus, Cristo nos redime do Inferno através da Sua paixão e sacrifício na cruz. Como um presente gratuito (cf. Tito 3,5), Deus nos perdoa e nos oferece a graça de vivermos com Ele em amizade para sempre, a começar no Sacramento do Batismo (cf. Marcos 16,16; 1Pedro 3,21; Atos 2,38). No banho do Batismo, recebemos a Graça Santificadora, que nos torna justos diante de Deus (cf. Atos 22,16; 1Coríntios 6,9-11).

Pois bem: somos certamente redimidos por Cristo no Batismo, mas podemos [depois] escolher livremente rejeitar este presente através do pecado grave. Como escreve São Paulo:

  • “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Romanos 6,23).

Neste versículo, a vida eterna é o Céu, enquanto a morte é o Inferno – o oposto da vida eterna. O Céu é um presente gratuito de Deus, mas ainda podemos ganhar o Inferno por cometermos um pecado grave (isto é, um pecado mortal). Obedecer à Lei de Deus não nos salva, mas a Lei aponta para pecados que podem nos condenar (cf. Romanos 3,20). Como uma analogia: as minhas liberdades civis são um presente dos meus antepassados, mas se eu cometer um crime, posso ir parar na cadeia. Assim também na Bíblia:

  • “Porque bem sabeis isto: que nenhum fornicador (=quem faz sexo antes do casamento), ou impuro, ou avarento, o qual é idólatra, tem herança no reino de Cristo e de Deus (=Céu). Ninguém vos engane com palavras vãs; porque por estas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” (Efésios 5,5-6).

Outro versículo preocupante de São Paulo é:

  • “Porque, se nós pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados, mas uma certa expectativa terrível de juízo” (Hebreus 10,26-27).

Observe que o “nós” neste versículo também inclui São Paulo – um cristão batizado, cheio de fé! Após o Batismo, se pecarmos deliberadamente e permanecermos não-arrependidos, podemos perder o dom da Salvação. No Batismo, recebemos a Graça Santificante em nossas almas por nenhum mérito próprio, mas depois devemos cooperar com essa graça ou a perdemos (cf. 2Coríntios 6,1). Essa cooperação com a graça redentora de Deus é o ensinamento católico sobre o “mérito” (cf. CIC 162; 2025).

Felizmente Deus nos deu o Sacramento da Confissão (Penitência ou Reconciliação), para que possamos continuamente receber o Seu perdão para os nossos pecados cometidos após o Baptismo. Como continuamos a pecar depois de recebermos o Batismo (cf. 1João 1,8-9), devemos nos arrepender continuamente, confessar os nossos pecados e voltar o nosso coração (vontade) novamente a Cristo. O arrependimento não é um evento único em nossa vida, mas deve ser um processo contínuo e diário para nós. Ontem, podemos ter nos arrependido sinceramente e sido perdoados, mas amanhã, por causa da nossa fraqueza, podemos tropeçar novamente no pecado (cf. 2Pedro 2,20-22). Podemos ter certeza de que Jesus nos perdoará tantas vezes quanto perdoarmos os outros (cf. Lucas 6,36-37; Mateus 6,14-15). Por meio deste Sacramento, recebemos graça santificadora e graças reais que podem nos ajudar a resistir aos pecados futuros.

Jesus entende nossa a fraqueza mesmo após o Batismo. Esta é a razão pela qual Ele deu aos Apóstolos o poder para perdoar pecados:

  • “[Ele] assoprou sobre eles e disse-lhes: ‘Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes, os pecados lhes são perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, lhes são retidos'” (João 20,22-23).

Ao longo dos séculos, essa autoridade foi transmitida aos Bispos e Sacerdotes como Sacramento da Confissão. Hoje, os cristãos precisam de perdão para os seus pecados tanto quanto os do século I d.C. Além disso, a autoridade para perdoar ou reter [pecados] implica na confissão oral (exposição) dos nossos pecados, uma vez que o Sacerdote precisa conhecer a natureza dos pecados (cf. Atos 19,18; Levítico 5,5-6).

E embora a nossa salvação pessoal não esteja assegurada, ainda assim temos esperança nela. Na Bíblia, São Paulo usa as frases: “a esperança da salvação” (1Tessalonicenses 5,8) ou “esperança da vida eterna” (Tito 1,2; 3,7). Se tivéssemos a certeza do Céu, não teríamos necessidade da esperança. Esperança não é a mesma coisa que segurança (Romanos 8,24). Segundo o Catecismo da Igreja Católica (CIC):

  • “A esperança é o aguardar confiante da bênção divina e da visão beatifica de Deus; é também o temor de ofender o amor de Deus e de provocar o castigo” (CIC 2090).

Os dois pecados contra a esperança são o desespero e a presunção (cf. CIC 2091):

– O pecado do desespero é a perda da esperança na nossa salvação, deixando de confiarmos em Deus.

– O pecado da presunção é a perda da esperança, confiando em nós mesmos para a nossa salvação ao invés de Deus; ou tomando a misericórdia de Deus como já garantida, sem temor.

Negar a nossa pecaminosidade ou crer que “uma vez salvo, sempre salvo” pode nos levar ao pecado da presunção. No entanto, não devemos passar para o outro extremo e cair no pecado do desespero. A esperança é um equilíbrio delicado entre a confiança na promessa de Deus e o temor ao Senhor (cf. Provérbios 1,7).

Deus quer que todos nós sejamos salvos do Inferno e cheguemos ao conhecimento da verdade (cf. 1 Timóteo 2,4). Através da Igreja de Cristo – a Igreja Católica -, podemos chegar ao conhecimento da verdade (cf. 1Timóteo 3,15; Mateus 16,18). Por meio dos sacramentos, recebemos a graça salvadora de Deus como um presente gratuito. Mas depois devemos cooperar com essa graça, uma vez que temos o livre arbítrio (escolha) de rejeitar a Deus a qualquer momento por séria desobediência, isto é, por pecado mortal. Depois de recebermos a graça redentora de Deus pelo Batismo, devemos continuar a “trabalhar (a nossa) própria salvação com temor e tremor” (cf. Filipenses 2,12). Pela Confissão, podemos pedir a Deus o Seu perdão misericordioso contínuo e mais graças para nos ajudar a resistir aos pecados futuros. Como pecadores, não temos certeza da nossa salvação; mas os cristãos, que fazem uso fiel dos Sacramentos – canais da graça salvadora de Deus – sem desistir, certamente podem esperar pela Salvação.

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