Recentemente tive a oportunidade de debater com um amigo protestante (batista) que me afirmava que São Cipriano, entre outros Padres [primitivos], possuía atitudes protestantes. Alegou que em seus escritos conferia a todos os bispos exatamente o mesmo poder e não havia provas de que reconhecesse ao bispo de Roma uma autoridade superior que ao dos demais bispos.

Quem foi São Cipriano?

Nosso Santo foi um importante teólogo africano, nascido por volta do ano 200 d.C. Foi eleito bispo de Cartago em 248 e martirizado em 258. Dele se conservam uma grande variedade de escritos (uma dezena de tratados e 81 cartas). Sobre a sua vida se conserva a obra “Vita Cypriani”, um conjunto de manuscritos atribuídos ao seu diácono Pôncio, e sobre o seu martírio se conservam as “Acta Proconsularia Cypriani”, baseadas em documentos oficiais. Na Antigüidade Cristã e na Idade Média foi um dos autores mais populares e suas obras encontram-se conservadas em um grande número de manuscritos.

Durante sua vida enfrentou dois importantes conflitos. Um sobre a atitude a ser tomada em relação àqueles que, durante os tempos de perseguição, teriam aceito oferecer sacrifícios aos ídolos e solicitavam dos confessores (aqueles que permaneceram firmes a custo de torturas e sofrimentos) certificados que declaravam ter participado de seus méritos. Manteve, com firmeza, que tão grave pecado exigia uma penitência proporcional e que tais certificados não poderiam conferir-lhes uma absolvição automática, mas que a absolvição deveria ser concedida pela Igreja, através de seus ministros (portanto, oriunda de um arrependimento garantido por uma côngrua satisfação).

O segundo problema que enfrentou o Santo foi sobre o batismo dos hereges. Ele não reconhecia o batismo dos hereges como válido enquanto que o Papa entendia que sim, [era válido]. A controvérsia se agravou e São Cipriano não queria ceder (aqui os protestantes alegam que se ele reconhecesse a primazia do bispo de Roma teria cedido imediatamente). Iniciou então a perseguição de Valeriano que resultou no martírio de ambos. Ao final, a postura do Papa prevaleceu [na Igreja].

Que Importância possuem os Escritos de São Cipriano?

Os escritos de São Cipriano (assim como os escritos dos demais Padres da Igreja) são importantíssimos, não apenas para os estudantes de Patrística e Patrologia, mas para qualquer cristão, já que permitem conhecer a fundo o pensamento da Igreja primitiva e a sua forma de interpretar as Escrituras.

Apesar disto, a partir da rejeição da Sagrada Tradição pelos protestantes durante o período da Reforma, estes se agrupam em dois grandes grupos: um que reconhece que os escritos patrísticos são recomendados para o cristão, não como fonte de doutrina dogmática, mas para edificação e cultura geral; e outro (extremista fundamentalista) que, considerando ao máximo a doutrina [protestante] da “Sola Scriptura”, afirma que são escritos “humanos” de pouco ou nenhum valor (demonstram, na maioria dos casos, ignorância da vida e história da Igreja em seus primeiros séculos).

Porém, algo que ambos os grupos compartilham em comum é que nunca ou quase nunca citam os Padres, exceto quando acham que aquilo que [os Padres] ensinam pode “levar peixes para a sua rede”. Quero aproveitar este momento para estudar os escritos do Santo, não apenas quanto aos pontos em que os protestantes costumam citar, mas em sua totalidade, para assim fazer uma comparação justa e não descontextualizada do seu pensamento.

São Cipriano e o Primado de Pedro

O Santo trata deste tema no tratado “De Ecclesiae unitate” (=Da Unidade da Igreja), que é dirigida aos confessores romanos quando estes, junto com Novaciano, se opunham ao papa Cornélio.

– “O Senhor se dirige a São Pedro e lhe diz: ‘Eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela…’ E embora confira o mesmo poder a todos os Apóstolos depois da sua ressurreição, quando diz: ‘Assim como o Pai me enviou, Eu também vos envio. Recebei o Espírito Santo. A quem perdoares os pecados, estes lhes serão perdoados; a quem retiveres [os pecados], estes lhes serão retidos’, no entanto, para manifestar a unidade, estabeleceu uma cátedra e com sua autoridade dispôs que a origem desta unidade começasse por um. É certo que os demais Apóstolos eram iguais a Pedro, adornados com a mesma participação de honra e poder, mas o princípio dimana da unidade. A Pedro é conferido o primado, para que se manifeste que é uma a Igreja de Cristo… Aquele que não possui esta unidade da Igreja crê possuir fé?… E aquele que se opõe e resiste à Igreja, possui a confiança de se encontrar dentro da Igreja?… O episcopado é apenas um, cujo quinhão é possuído por cada um ‘in solidum’. A Igreja também é uma, a qual se estende com sua prodigiosa fecundidade na multidão, assim como muitos são os raios do sol, existindo um só sol; e muitos os ramos de uma árvore, embora exista um só tronco sustentado firmemente pela raiz; e quando vários arrois procedem de um mesmo manancial: e embora se aumente o seu número com a abundância da água, conserva-se a unidade de sua origem. Separa um raio do corpo do sol: a unidade não admite a divisão da luz; corta um ramo da árvore: este ramo não poderá produzir; fecha a comunicação do arroio com o manancial: ele se secará. Assim também ocorre na Igreja. Iluminada com a luz do Senhor, estende os seus raios por toda a Orbe, porém uma só é a luz que derrama em todas as partes, sem se separar da unidade do corpo; com sua fecundidade e frescor estende os seus ramos por toda a terra; expande enormemente suas abundantes correntes, porém uma é a cabeça, uma a origem e uma a Mãe, abundante em resultados de fecundidade. Do seu parto nascemos, de seu leite nos alimentamos e com o seu espírito somos animados”[1] (Da Unidade da Igreja 4,5).

O texto acima é muito revelador: começa citando Mateus 16,18 e, embora afirme que a todos os Apóstolos foi conferido igual poder, logo traz um “no entanto” apontando que para manter a unidade, estabeleceu o Senhor com sua autoridade uma cátedra sobre Pedro, a quem foi dado o primado.

Pois bem. É difícil enxergar onde o texto pode coincidir com alguma doutrina protestante que se diferencie da doutrina católica. Em primeiro lugar o Santo reconhece que a Igreja é governada por bispos, um dos quais possui o primado, o que implica no explícito reconhecimento da doutrina da sucessão apostólica rejeitada pelos protestantes. A seguir, condena aqueles que se afastam da unidade da Igreja Católica para fundar suas próprias denominações, porém, não é exatamente isto o que os protestantes vêm fazendo desde Lutero? Estabelece claramente que fora da Igreja não há salvação e que “não pode ter a Deus por Pai quem não tiver a Igreja por Mãe”. Para São Cipriano, não pode ser mártir aquele que se afasta da unidade da Igreja porque o sangue não pode remover a mancha da heresia e do cisma.

Nos escritos de São Cipriano é possível encontrar evidências adicionais à autoridade do bispo de Roma sobre a Igreja. A primeira temos quando estoura a perseguição de Décio, em 250. São Cipriano se esconde, mas envia uma carta à Igreja de Roma explicando as razões que o motivaram a fugir:

– “Creio necessário escrever-te esta carta para dar-te conta da minha conduta, da minha conformidade de disciplina e de meu zelo… Porém, ainda que ausente em corpo, estou presente em espírito…” (Epist. 20).

É evidente que nesse momento reconhecia na Igreja de Roma uma autoridade a quem prestar contas, como ele mesmo afirma; do contrário, uma carta dirigida a Roma justificando a sua conduta teria sido desnecessária.

Outra evidência encontramos em sua Epístola 59. Nela vemos como alguns hereges em conflito com São Cipriano recorrem à Igreja de Roma por meio de cartas para que o Papa atue em favor deles. Embora São Cipriano não veja com bons olhos esta atitude, porque segundo o seu critério eles deveriam defender sua posição perante o seu próprio bispo, isto demonstra que inclusive da parte dos cismáticos havia o conhecimento de que a autoridade da Igreja de Roma era superior a das demais e, por isso, apelavam a ela. É notável também como nessa epístola São Cipriano se refere à Igeja de Roma como “a cátedra de Pedro” e a Igreja principal de onde brotou a unidade do sacerdócio: “ad ecclesiam principalem unde unitas sacerdotalis exorta est”.

– “Não bastou para eles afastarem-se do Evangelho, em arrancar dos hereges a esperança do perdão e da penitência, em se afastar de todo sentimento e fruto de penitência aos que se envolveram em roubos ou foram manchados com o adultério ou contaminados com o funesto contágio dos sacríficios [aos ídolos], de forma que estes já não rogam a Deus nem confessam os seus pecados na Igreja. Não se contentaram em constituir fora da Igreja e contra a Igreja um conventículo de facção corrompida, para acolher a corja daqueles que têm má consciência e não querem nem rogar a Deus e nem fazer penitência. Depois disto tudo, todavia, tendo nomeado um falso bispo – criação dos hereges – tiveram a audácia de agirem como vítimas e de remeter cartas da parte dos cismáticos e profanos à cátedra de Pedro, à Igreja principal de onde brotou a unidade do sacerdócio; e nem sequer pensaram que aqueles são os mesmos romanos cuja fé abalou o Apóstolo [Paulo] quando lhes pregou, aos que não deveriam ter acesso à perfídia. Por que foram além em anunciar que tinha sido criado um pseudo-bispo contra os bispos? Porque se sentem satisfeitos do que fizeram e com isso perseveram em seu crime, ou se arrependeram e se retrataram, já sabendo para onde deverão voltar. Porque foi estabelecido por todos nós que é coisa razoável e justa que a causa de cada um seja tratada ali onde se cometeu o crime e que cada um dos pastores tem adstrita uma porção da grei, onde cada um deve reger e governar, prestando conta de seus atos ao Senhor. Portanto, os que são nossos súditos não devem andar daqui pra lá, nem devem ferir a coerente concórdia dos bispos com sua audácia astuta e enganosa, devendo defender sua causa ali [no mesmo local] onde pode haver acusadores e testemunhas de seu crime. A não ser que se creia que a autoridade dos bispos estabelecidos na África é demasiadamente pequena para esses poucos desesperados e pervertidos” (Epist. 59, 14).

Na Epístola 67 ocorre algo semelhante: Cipriano denuncia que Basílides, após ter confessado sua culpa, foi a Roma apelar para a autoridade de Estêvão (bispo de Roma) e enganá-lo para que o seu bispado fosse-lhe restituído. Novamente, se todos os bispos tivessem a mesmíssima autoridade, não faria sentido este tipo de apelação ao bispo de Roma e tampouco seria possível que este pudesse restituir algum bispo em seu ministério. No entanto isto não representa nenhuma novidade, pois desde o século I há evidências de que o bispo de Roma disciplinava e ditava sentenças em comunidades em conflito (como no caso dos distúrbios ocorridos em Corinto, em que a comunidade local cede perante a autoridade de São Clemente de Roma).

– “Com todo o cuidado deve-se guardar a tradição divina e as práticas apostólicas e ater-se ao que é feito entre nós, o que [também] é feito em quase todas as províncias do mundo, a saber: que para se proceder a uma ordenação bem feita, os bispos mais próximos da província devem se reunir com o povo em frente ao qual estará o bispo ordenando; e este seja eleito na presença do povo, já que este conhece muito bem a vida de cada um e tem podido observar, pela convivência, o proceder de seus atos. Assim vemos que foi feito também entre vós na ordenação de nosso colega Sabino: foi-lhe confiado o episcopado e se lhe impuseram as mão para que substituisse Basílides pelo sufrágio de toda a comunidade de irmãos e dos bispos que estiveram presentes e dos que enviaram seu voto por carta. Não pode invalidar esta ordenação juridicamente bem feita o que Basílides – depois que seus crimes ficaram patentes e tendo ele mesmo confessado sua culpa – [pretende]: tendo ido a Roma e enganado nosso colega Estêvão – que reside longe e não tem conhecimento dos fatos nem da verdade – quer ser injustamente reconduzido ao episcopado do qual, por justiça, foi deposto. Isto apenas significa que os crimes de Basílides não apenas permanecem, como também aumentaram, já que às suas faltas anteriores foram acrescentados os crimes de engano e impostura. Não se deve culpar tanto aquele que por descuido se deixou surpreender quanto anatematizar a este que o surpreendeu com as suas fraudes. Porém, se Basílides pôde surpreender aos homens, não poderá surpreender a Deus, porque está escrito que ‘de Deus não se zomba'” (Epist. 67, 5).

São Cipriano, a Salvação, a Fé e as Obras

Nem por simples casualidade poderíamos ver um protestante citar São Cipriano nesta matéria e, se assim se sucedesse, o próprio Martinho Lutero sofreria um infarto do miocárdio antes de reconhecer o que São Cipriano ensina em “De opere et eleemosynis” (=As Boas Obras e as Esmolas). Aqui ele ensina que, assim como fomos redimidos do pecado pelo sangue de Cristo, também a misericórdia divina proporciona um meio para nos assegurar a salvação uma segunda vez, caso a debilidade e a fragilidade humanas tiverem nos arrastado para o pecado depois do batismo (logo, não veremos São Cipriano ensinando a máxima protestante: “uma vez salvo, sempre salvo”). Afirma o Santo que:

– “Assim como na lavagem da água salvífica o fogo do inferno é extinto, assim também é subjugada a chama pela esmola e pelas boas obras. Porque no batismo se concede a remissão dos pecados de uma vez para sempre e o exercício constante e incessante das boas obras, à semelhança do batismo, outorga novamente a misericórdia de Deus…; aqueles que escorregaram após a graça do batismo podem ser limpos novamente”.

São Cipriano, a Eucaristia e a Penitência

A postura de São Cipriano acerca da Eucaristia é outro ponto que os protestantes não mencionam nem por engano. Ocorre que nos textos eucarísticos de São Cipriano abundam as indicações concretas, ricas em sentido e doutrina, sendo opostas à tendência absolutamente majoritária dos protestantes neste ponto. Para eles a Eucaristia não tem caráter sacrificial e o pão e o vinho não se convertem realmente no corpo e sangue do Senhor, mas são apenas símbolos. Para São Cipriano, da mesma forma que para a Igreja Católica, o caráter sacrificial [da Eucaristia] é indiscutível: na Eucaristia (chamada também pelo Santo de “o Pão da vida” e o “Corpo do Senhor”) se apresenta ao Pai o sacrifício perfeito (Malaquias 1,11) de seu Filho. [Cipriano] também atesta a celebração diária da mesma.

Os textos do Santo também são valiosa fonte de informação a respeito da disciplina penitencial da Igreja; para ele, é necessário que os pecadores confessem os seus pecados na Igreja e sejam absolvidos por intermédio da imposição das mãos do bispo ou do clero. É indispensável que isto seja feito antes de receber a Eucaristia, do contrário profanariam o corpo do Senhor (confirmando o que já se sabia por outros escritos patrísticos – como a Didaqué – e por Orígenes).

Para o Santo, a Eucaristia é celebrada no altar (curiosamente também isto é rejeitado pelos protestantes) e os hereges não podem consagrar.

Revelador é o costume atestado por São Cipriano de se fazer orações e oferecer a Eucaristia pelo descanso eterno dos falecidos; pareceria aqui não estarmos lendo escritos da literatura cristã primitiva, mas um catecismo católico atual.

– “…E por esse Victor, visto que contra a forma prescrita faz pouco caso no concílio pelos sacerdotes, atreveu-se a constituir tutor ao presbítero Gemínio Faustino; não há razão para vós fazer a oblação por sua morte ou se oferecer qualquer oração por ele na Igreja, para que observemos entre nós o decreto dos sacerdotes, elaborado religiosamente e por necessidade, e ao mesmo tempo se dê exemplo aos demais irmãos, para que ninguém chame as moléstias mundanas aos sacerdotes e ministros de Deus dedicados ao seu altar e à sua Igreja” (Carta 1, nº2; HARTEL: CSEL v.3 p.2 pg.463s, L. BAYARD, Saint Cyprien. Correspondance (Paris 1945), ML 4,399 A – B: epist. 66).

Observe como aqui São Cipriano deixa implícito o costume de oferecer a Eucaristia pelos defuntos. Neste caso em particular o oferecimento da Eucaristia é negado em virtude da violação das decisões conciliares, por ter Victor ordenado Gemínio Faustino como presbítero.

– “Finalmente, anotai também os dias de suas mortes para que possamos celebrar as suas comemorações entre as memórias dos mártires: como Tertuliano, nosso fiel e devotíssimo irmão, que com solicitude e cuidado reparte entre os irmãos sem nada economizar em sua atividade e que nem do cuidado com os cadáveres tem se esquecido ali, escreveste e continua a escrever para me dar a saber, entre outras coisas, os dias em que os nossos queridos irmãos partem do cárcere para a imortalidade, ao final de uma morte gloriosa, para que celebremos aqui as nossas oblações e sacrifícios em comemoração a eles, para que celebremos prontamente convosco, com o amparo de Deus” (Carta 12, nº 2; HARTEL, 503s, BAYARD, ML 4,328 b – 329 a: Epist. 37)

– “Estes, sem levar em conta o temor de Deus e a honra do bispo (visto que me tinhas dirigido cartas nas quais pedias para que fossem examinados os vossos desejos e se conferisse a paz para alguns que caíram, quando encerrou a perseguição e começamos a nos reunir e recolher com o clero), contra a lei do Evangelho e também contra o vosso honorável pedido, antes de ter feito penitência, antes de confessar tão grave e extremo delito, antes que fosse imposta a mão em sinal de penitência pelo bispo e o clero, se atrevem a oferecer ali e dar a Eucaristia a eles, isto é, a profanar o santo Corpo do Senhor, quando está escrito: ‘o que comer o pão e beber do cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor'” (Carta 15, nº 1; HASRTEL, 513s; BAYARD; ML 4,254 A – B, Epist. 10).

– “2)…Pois se quando se trata de pecados menores fazem penitência os pecadores por um tempo devido e, conforme o ordenado na disposição disciplinar, vêm à confissão e recebem o direito à comunhão pela imposição das mãos do bispo e do credo, agora em tempo cruel, quando ainda dura a perseguição, não tendo sido ainda restituída a paz à mesma Igreja, são recebidos à comunhão que se oferece em seu nome e, sem ter ainda feito penitência, nem ter realizado a confissão, nem ter-lhes sido imposta a mão pelo bispo ou clero, se lhes dão a Eucaristia quando está escrito: ‘o que comer o pão e beber do cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor’.
“3)…antes que se tenha extinguido o medo da perseguição, antes de nosso regresso, quase antes do próprio trânsito dos mártires, têm comunhão com os caídos, oferecem e entregam a Eucaristia…”
“4)…saibam estes que, se continuarem por mais tempo nisto, usarei da advertência que o Senhor ordena que use, de forma que seja-lhes proibido oferecer [o sacrifício eucarístico]” (Carta 16, nº 2-4; HARTEL, 518ss; Bayard; ML 4,251 A – 253 B: Epist. 9).

– “Oferecemos por eles sacrifícios, como acordastes, sempre que na comemoração anual celebramos os dias da paixão dos mártires” (Carta 39, nº 3; HARTEL, 583, BAYARD, ML 4,323 A: Epist. 34).

– “Em primeiro lugar, não pode ser apto para o martírio aquele que não foi armado pela Igreja para a luta e cede o espírito ao que não levanta e inflama a Eucaristia recebida” (Carta 57, nº 4; HARTEL, 651ss, BAYARD, ML 3,856 A – 858 A: epist synod. Conc. Carthag).

– “…Ameaça agora uma luta mais dura e feroz, para a qual se devem preparar os soldados de Cristo com uma fé incorrupta e uma virtude robusta, considerando que por isso bebem todos os dias do cálice do sangue de Cristo, para poderem derramar eles próprios o sangue por Cristo” (Carta 58, nº 1; HARTEL, 656s, BAYARD, ML 4,350 A: Epist 56).

– “…Armemos também a [mão] direita com a espada espiritual, para que rechace com fortaleza os funestos sacrifícios, para que acordando da Eucaristia, a [direito] que recebe o corpo do Senhor abrace a Ele mesmo, ela que em pouco tempo receberá do Senhor o prêmio das coroas celestiais” (Carta 58, nº 9; HARTEL, 665, BAYARD, ML 4,357 A). – “…pois é a Eucaristia de onde são ungidos os batizados, o óleo santificado no altar. Porém não pode santificar a criatura do óleo quem não teve altar nem Igreja. Assim, tampouco a unção espiritual pode ser encontrada entre os hereges, visto que entre eles é absolutamente impossível consagrar o óleo e fazer a Eucaristia” (Carta 70, nº 2; HARTEL 768, BAYARD, ML 3,1040 A – 1041 A: epist. Synod. Conc. Carthag).

Paro por aqui o resumo da posição de São Cipriano a respeito da Eucaristia. Isto foi uma pequenina amostra, mas é possível consultar todo o resto em suas cartas, assim como no tratado “Da Oração do Senhor” (=De dominica oratione), onde ele afirma que o pão de cada dia é Cristo na Eucaristia:

– “Porque Cristo é o pão daqueles que tocam o seu corpo. Pedimos, pois, que nos seja dado diariamente, a fim de que vivamos em Cristo e recebamos diariamente sua Eucaristia para alimento da saúde e para que não sejamos separados do seu corpo por algum delito grave que nos proíba o celeste Pão, nos separando do corpo de Cristo”.

São Cipriano e o Batismo

Para o Santo, a concepção acerca do batismo é também muito diferente daquela pregada pela maioria dos protestantes. Para os protestantes de tendência anabatista, que são a maioria (batistas, pentecostais etc.), o batismo é simplesmente um símbolo de fé, não sendo necessário para a salvação além de não operar nenhuma regeneração na pessoa (devemos esclarecer que para os luteranos a postura difere do resto do protestantismo e, inclusive, condenaram a posição dos demais protestantes que não pensam assim; para maiores detalhes, ver a Confissão de Augsburgo). Para os católicos, ao contrário, o batismo é um sacramento; por meio do batismo se entra na Igreja e se nasce novamente. O pensamento de São Cipriano é totalmente consoante com o pensamento da Santa Igreja [Católica] hoje e também da Igreja [Católica] primitiva. Em seu tratado dirigido a Donato, se refere ao batismo como “o sacramento da regeneração” e que através dele se passa da corrupção, violência e brutalidade do mundo pagão para a paz e felicidade da vida cristã. Possui firme convicção que pelo batismo são perdoados todos os pecados passados da vida (os grupos protestantes de tendência anabatista negam também que pelo batismo ocorra a remissão dos pecados).

– “Como me encontrava retido e enredado entre tantos erros em minha vida anterior, dos quais eu não acreditava que poderia me desprender, acabava por condescender em meus vícios inveterados e, desesperado para emendar-me, fomentava meus males como fatos da minha própria natureza. Mas depois que foram apagadas pela água da regeneração as manchas da vida passada e se infundiu a luz em meu espírito transformado e purificado, depois que a infusão do Espírito celestial me transformou em um homem novo através de um segundo nascimento, nesse instante esclareceram-se as dúvidas de maneira maravilhosa” (Ad Donatum, cf. 4: BAC 241, 109).

Conclusão

São Cipriano era protestante? Então tente dar uma resposta positiva para estas perguntas:

1. Os protestantes crêem na sucessão apostólica e que o primado foi conferido a Pedro, instituindo-se uma cátedra em virtude da unidade?

2. Os protestantes crêem que a Eucaristia possui um caráter tal que é o sacrifício perfeito de Cristo apresentado ao Pai sobre o altar, cumprindo-se o profetizado pelo Senhor em Malaquias 1,11 e que o pão e vinho consagrados são realmente o Corpo e Sangue de Cristo (e não meros símbolos)?

3. Os protestantes celebram a Eucaristia pelo descanso eterno dos falecidos?

4. Os protestantes confessam os seus pecados perante o clero e cumprem a penitência imposta por ele?

5. [Os protestantes] crêem que o batismo é sacramento necessário para a salvação e que é a partir dele que se nasce de novo? Se referem ao batismo como o banho de água pela palavra?

Se a todas essas perguntas você, [irmão protestante,] puder responder “sim”, então Cipriano era protestante…

__________
NOTA:

(1) Explica Questem que deste capítulo quarto se conserva uma dupla versão, uma delas com ênfase no primado de Pedro e que em razão disto surgiu uma controvérsia denunciada por Hartel (editor das obras de Cipriano em Corpus Scriptorum Ecclesiasticorum Latinorum. Viena 1866ss.) Dom Chapman provou que estas variações não se devem a uma corrupção do texto mas sim a uma revisão feita pelo próprio Cipriano. Ao revisar o original, teria introduzido as adições. Isto foi confirmado pelas investigações de D. Vanden Eynden, O. Perler e M. Bévenot, porém, estes últimos invertem a ordem das versões considerando como mais antiga a que dá ênfase ao primado de Pedro (esta última opinião parece ser a mais provável para Questen). S. Ludwig, contudo, apresenta o texto do primado como o único autêntico e o outro como uma edição devida a algum discípulo de Cipriano durante o curso de sua controvérsia batismal. G. Le Moile discorda disto.

__________
BIBLIOGRAFIA:

1. BAC 206. Patrología I, Johannes Quasten
2. BAC 88. Textos Eucaristicos primitivos I, Jesús Solano
3. Sítio Católico Mercaba.org, http://www.mercaba.org/TESORO/cartel-patres.htm
4. Sítio Católico del Magisterio de la Iglesia http://ar.geocities.com/magisterio_iglesia/contenido.html

Facebook Comments

Livros recomendados

Dispersão & Outros Poemas (18)A presa de Sharpe (Vol. 5)Poesia Reunida: 1985-1999