Artigos (por Carlos Ramalhete)

São Pedro é um gozador

São Pedro resolveu, mais uma vez, demonstrar seu ilustre senso de humor: Curitiba virou Bariloche, e a visita de seu sucessor ao Rio de Janeiro tornou-se uma rara ocasião de passar frio à vista do Corcovado. Lembrei-me de como, nos anos 70, o alarmismo climático nos prometia uma era glacial, depois substituída por um tal aquecimento global, por sua vez já transformado em uma genérica mudança climática.

Ora, o clima, como o tempo, por definição é algo instável, com ciclos de centenas de anos. Groenlândia significa “terra verde”, pois quando os vikings lá chegaram era essa a cor do que hoje é uma vastidão gelada. Não há como saber ao certo o que virá, qual a próxima etapa desse perpétuo devir. Hoje tiritamos, amanhã suamos, e São Pedro continua rindo de nós e de nossa vã sabedoria meteorológica.

Mais patética que nossos esforços para prever o futuro, contudo, continua sendo a nossa firme disposição de atribuir à ação humana as mudanças do clima ou os deslocamentos das placas tectônicas. É uma tentação compreensível, especialmente quando moramos em um ambiente tão artificial quanto o de uma cidade grande. O chão é revestido de asfalto ou cimento, a luz da lua é substituída pelas lâmpadas de mercúrio, a água vem da torneira e o esgoto desaparece magicamente cano abaixo. O mundo natural, em sua vastidão e incompreensível potência, torna-se algo distante e mais ou menos sob controle. Tamanha é essa tentação que atribuímos à prefeitura as inundações, e às companhias de água e luz as (pouquíssimas) consequências que efetivamente sentimos das secas.

Vivemos, todavia, em um mundo muito mais vasto e selvagem que o que nos é dado ver da janela do carro ou na tela da tevê. Forças em última instância incompreensíveis em sua complexidade afetam vastidões de terra, água, fogo e ar cuja enormidade também, forçosamente, nos escapa à compreensão. Não há comparação que nos faça perceber com alguma dose de realismo o que é o núcleo ardente do planeta ou qual é a relação real entre a força de uma corrente marítima no Pacífico e a temperatura aqui em casa.

Faz todo o sentido do mundo que procuremos não emporcalhar o belo planeta em que vivemos; esgoto tratado, motores sem fumaça e fábricas menos poluentes certamente são preferíveis a seus similares soviéticos. É uma questão, no entanto, de educação: não se suja a casa em que se vive. O planeta tem seus ciclos, e é arrogância achar que possamos afetá-los; no máximo, podemos aproveitá-los.

Alguém mais está planejando fazer fondue?





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