• Autor: Anônimo
  • Fonte: A Catholic Response Inc. (http://users.binary.net/polycarp)
  • Tradução: Carlos Martins Nabeto

– “Nú saí do ventre da minha mãe e nú retornarei. O Senhor deu, o Senhor tirou. Bendito seja o nome do Senhor!” (Jó 1,21).

* * *

Talvez o argumento mais popular contra a existência de Deus seja baseado na questão atemporal: “Se há verdadeiramente um Deus bom, então por que há mal no mundo?” Normalmente, o argumento é o seguinte: “Como o nosso mundo é cheio de coisas más e um Deus todo-poderoso bom jamais permitiria o mal, então Deus não pode existir”. Esse argumento envolve mais emoção – geralmente raiva – do que razão, mas a questão é importante e deve ser considerada. Pode ser formulada de diversas maneiras; algumas serão consideradas aqui.

Primeiramente devemos considerar o significado de “mal”. Existem dois tipos de mal: o moral e o físico. O mal moral é um pecado voluntário, enquanto que o mal físico é um dano natural. Exemplos de males morais são: assassinato, adultério, fornicação, roubo, feitiçaria, aborto… (cf. Didaqué 2,2); exemplos de males físicos são: fome, doença, desastres naturais, morte. Pois bem: o mal não é algo em si, mas a falta de algo que deveria estar presente; por exemplo: uma mentira carece de verdade. Deus não cria o mal, pois não é algo que deva ser criado. O mal é uma imperfeição, falta ou vazio na criação de Deus.

Focando primeiro no mal moral, a questão poderia ser formulada como: “Se há um Deus bom, então por que Ele criou pessoas moralmente más?” Ao considerar esta questão, devemos entender que Deus não cria pessoas más (Gênesis 1,26-31). Sendo onisciente, Deus cria conscientemente pessoas que serão pecadoras, mas conhecimento e controle são coisas diferentes. Deus nos criou com o dom do livre arbítrio: a capacidade de escolhê-Lo ou rejeitá-Lo voluntariamente. Escolhemos pecar – rejeitar a Deus – por desobediência voluntária. Essa rejeição é um vazio no plano de Deus para nós.

Deus quer que nós amemos, mas sem livre arbítrio, não poderíamos amar sinceramente. Não podemos ser forçados a amar alguém. Se Deus nos criasse sem o livre arbítrio, seríamos [na verdade] máquinas vivas e não feitas à Sua imagem e semelhança. Deus permite o mal moral à medida em que Ele nos dá o livre arbítrio. Graças a nós, o mal moral no mundo é o resultado da nossa escolha.

Focando agora no mal físico, a questão pode ser formulada como: “Se há um Deus bom, então por que há dor, sofrimento e morte no mundo?” Talvez uma versão mais difícil seria: “Se existe um Deus justo, por que pessoas boas sofrem?” Pois bem: o sofrimento serve a um propósito no mundo material. A dor nos impede de prejudicar o nosso corpo. Eu não ponho a minha mão no fogo principalmente por temer a dor. A dor da angina pode nos alertar sobre um ataque cardíaco iminente. Os atletas enfrentam extrema dificuldade física e sofrimento a fim de disciplinar os seus corpos para um melhor desempenho nos esportes, sabendo porém que nenhuma dor significa vitória. Mesmo para pessoas boas, o sofrimento não é totalmente um absurdo.

As coisas materiais funcionam de acordo com as leis da Física. Por exemplo: o fogo opera de acordo com as leis da Termodinâmica. As mesmas leis que nos permitem aquecer nossas casas durante o inverno, podem permitir que nossas casas incendeiem até a ruína. Prevenir o mal último exigiria um milagre: uma suspensão das leis físicas. Deus permite o mal físico à medida em que Ele não realiza um milagre após o outro, a fim de fazer cessar o sofrimento, fazendo com que o ordinário se torne extraordinário. As leis físicas também se aplicam às pessoas boas e más (Mateus 5,45).

Talvez a verdadeira questão não seja “por que Deus permite o mal físico?”, mas “por que Deus nos criou em um mundo material?” Alguns sugerem que Deus nos criou em um mundo material imperfeito para que não confiássemos em nós mesmos, mas chegássemos a amar e a confiar no Deus perfeito (2Coríntios 1,8-9). Fomos criados com um desejo e uma fome que só podem ser saciadas por Deus. Esse vazio de felicidade nos chama até Ele. Nas palavras de Santo Agostinho, “porque nos fizestes para Ti, ó Deus, o nosso coração resta inquieto até descansar em Ti” (Confissões 1,1,1). Já Santo Irineu de Lião (190 d.C.) possuía um outro pensamento:

  • “Onde não há esforço, não há apreciação. A visão não seria tão desejável se não soubéssemos o que é uma grande cegueira maligna. A saúde também se torna mais preciosa pela experiência da doença; luz em comparação com as trevas; vida [em comparação] com a morte. Do mesmo modo, o reino celeste é mais precioso para os que conhecem o [reino] terreno. Quanto mais precioso, mais o amamos, e quanto mais o amamos, mais gloriosos estaremos na presença de Deus. Deus, portanto, permitiu todas essas coisas, para que nós, instruídos por todas elas, sejamos prudentes em todas as coisas no futuro e, sabiamente ensinados a amar a Deus, possamos permanecer nesse amor perfeito” (Contra as Heresias 4,37,7).

Quanto mais pensamos, [vemos que] sofrimento e sacrifício podem nos ajudar a superar o nosso egoísmo. Deus é Santo, então a Sua criação é separada Dele e, portanto, imperfeita.

O Livro de Jó na Bíblia lida com este problema de uma forma maravilhosamente poética. Jó é um homem justo e temente a Deus (cf. Jó 1,1); no entanto, Deus permite que Satanás inflija contra Jó terríveis desastres e doenças, para testar sua lealdade. Satanás quer mostrar a Deus que a fé de Jó é falsa (cf. Jó 2,3-7). Sob intenso sofrimento, Jó discute com seus “amigos” sobre o sofrimento dos inocentes. No final, Deus entra no debate e responde:

  • “Quem é esse que obscurece os planos divinos com palavras de ignorância? Cinge os teus rins agora, como um homem; farei uma pergunta a ti; responda-me: onde tu estavas quando Eu fundei a terra? Diga-me, se tiveres entendimento” (Jó 38,2-4).
  • “Discutiremos com o Todo-Poderoso pela crítica? Quem deseja corrigir a Deus, responda!” (Jó 40,2).

Deus responde dizendo a Jó que Sua sabedoria e poder estão além da capacidade de compreensão do homem. Também o homem não está no controle do universo: somente suas virtudes não garantem a felicidade terrestre. Jó humildemente encerra o debate com as palavras:

  • “Lidei com grandes coisas que não entendo; coisas maravilhosas demais para mim, que não posso conhecer (…) Portanto, eu nego o que disse e me arrependo em pó e cinzas” (Jó 42,2-6).

A Bíblia sugere aqui que devemos aceitar o sofrimento e confiar em Deus. Mais tarde, na Bíblia, Jesus Cristo responde dessa maneira na Cruz.

Pois bem: para os cristãos o sofrimento e a dor nesta vida podem se tornar alegria e glória na vida eterna. Na Bíblia, São Paulo conecta o mal físico (morte) com o mal moral (pecado):

  • “Portanto, como o pecado veio ao mundo através de um homem (Adão) e a morte através do pecado, a morte se espalhou para todos os homens, porque todos pecaram” (Romanos 5,12).

Através do pecado de Adão (ou seja, o pecado original), todos nós pecamos e sofremos a morte; no entanto, Deus é misericordioso. O Cristianismo oferece esperança, “pois assim como por um homem veio a morte, por um homem veio também a ressurreição dos mortos; pois como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados” (1Coríntios 15,21-22).

A morte de Cristo na cruz preenche o vazio causado pelo pecado. Embora soframos dor e morte pelos nossos pecados, Deus, sendo sem pecado, aceitou, como homem, dor e morte na cruz, para a nossa salvação. O amor envolve sacrifício e Cristo deu exemplo para nós:

  • “Embora Ele (Jesus) fosse Filho, aprendeu a obediência mediante o que sofreu; e sendo aperfeiçoado, tornou-se fonte de salvação eterna para todos os que Lhe obedecem” (Hebreus 5,8-9).
  • “Se alguém vier após Mim, que negue a si mesmo, tome sua cruz e me siga” (Marcos 8,34; v.tb.: 1Pedro 2,20-21; Filipenses 1,29).

Como cristãos, podemos ter esperança na felicidade eterna graças ao sofrimento e a Jesus Cristo. Como São Paulo promete:

  • “Somos filhos de Deus; se filhos, então herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, desde que soframos com Ele, para que também possamos ser glorificados com Ele. Considero que os sofrimentos deste tempo atual não valem a pena comparar com a glória que deve ser revelada a nós” (Romanos 8,16-18).

Em nosso sofrimento, compartilhamos o sofrimento de Cristo (cf. Colossenses 1,24), para que no Céu participemos da Sua glória (cf. 1Pedro 4,19).

Nosso mundo pecaminoso é o infeliz resultado da escolha humana. Mas nem mesmo Satanás pode nos forçar a pecar. Dor, sofrimento e morte são partes integrais do mundo material devido ao pecado de Adão, mas o Cristianismo oferece esperança através do sofrimento de Jesus Cristo. O mal neste mundo não é uma desaprovação a Deus, mas um constante lembrete da nossa necessidade do Deus perfeito da Bíblia (cf. 2Coríntios 1,8-9).

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Leitura Sugerida:
– Boécio. “A Consolação da Filosofia”: uma obra clássica que trata do problema do livre arbítrio humano e um Criador onisciente, escrito no ano 524 d.C.

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