INTRODUÇÃO – Recentes acontecimentos nos levam a tecer algumas considerações

O dia 19 de Fevereiro de 2008 começou para o mundo inteiro com uma excelente, uma magnífica, uma maravilhosa notícia: Fidel Castro finalmente renunciou ao governo de Cuba.

Nós não escondemos nosso entusiasmo e alegria diante desta notícia, uma possível reviravolta na situação de aprisionamento e martírio em que se encontrou Cuba por 49 anos de ditadura e tirania. Nos felicitamos, portanto, junto a nossos irmãos cubanos que sempre lutaram contra o déspota Fidel, sejam aqueles que ainda estão confinados na ilha-prisão, sejam aqueles que estão exilados, sejam aqueles que estão foragidos.

Claro que a renúncia de Fidel não é para nenhum de nós uma grande surpresa, dado que o ditador há um ano e meio, em Julho de 2006, transferiu seus poderes ao irmão, Raul Castro, por motivos de doença. A renúncia na época parecia ser uma questão de meses. Fidel, contudo, não quis abrir mão tão facilmente de um poder que esteve sobre seu controle durante meio século: o poder de ditar a vida dos cidadãos.

A repercussão da notícia foi imensa.

De um lado, existem aqueles defensores do tirano. Estes, obviamente, crêem que a ditadura de Fidel sobre o povo cubano era tolerável e justa, a representação da luta contra a ambição capitalista estadunidense. Isto nos parece um egoísmo tremendo, um absurdo desamor. Com efeito, em nome desta luta contra os EUA, se eximem de considerar o sofrimento daqueles que dia após dia vêem seus direitos fundamentais e sua liberdade serem esmagados pela Ditadura. Quanto egoísmo não levar em conta o sofrimento destes pobres! Mas é claro que a opinião destes defensores seria outra bem diferente se fossem eles a gemerem nas correntes que Fidel impôs ao povo cubano…

Ora, para o Presidente Lula, Fidel Castro é “único mito vivo na história da humanidade”. Lula, como bom comunista, não esconde sua cega admiração pelo ex-governante cubano. Perguntaríamos como poderemos considerar como “único mito vivo da história da humanidade” um déspota que durante 49 anos reprimiu as liberdades fundamentais de seu povo, em nome de um regime caduca e moribundo, desrespeitando assim a dignidade humano, visto que a liberdade com a qual o homem foi dotado por Deus é própria de sua dignidade como ser humano.

Claro que, se fôssemos indagar do Presidente Lula sua opinião sobre a ditadura militar no Brasil, o Presidente não esconderia seu horror e sua rejeição a este momento triste da história brasileira. Mas quando se trata da ditadura de Fidel… ora, porque falar algo contra “o único mito vivo na história da humanidade”? Fidel fez o que fez, reprimiu e matou a muitos, em nome da Revolução, do Marxismo, das lutas sociais, e sejam quais forem os pretextos a apresentar (que são muitos!). Vemos aí novamente o egoísmo, o desamor ao próximo, o não se preocupar com o outro, de que já falamos.

Do outro lado deste debate estão aqueles que sempre lutaram contra o tirano regime castrista. Obviamente devemos diferenciar aí dois grupos de opositores: aqueles capitalistas exacerbados e liberalistas, cuja oposição a Cuba de Fidel se dá por um motivo tão-somente econômico; e aqueles que sempre se opuseram à Cuba de Fidel por verem quantos horrores e desrespeitos à liberdade e à dignidade do homem eram cometidos na ilha-prisão. Não falaremos dos primeiros; comentamos somente que a Igreja, que não condena o capitalismo em si (por ser legítimo o acúmulo de capitais), condena aquelas práticas do capitalismo que propugnam “o individualismo e o primado absoluto da lei do mercado sobre o trabalho humano” (cf. CIC, n.2425). Falemos, portanto, do segundo grupo.

Muitos são os que sempre entenderam sua grave tarefa, como seres humanos, de rejeitar veementemente qualquer regime absolutista, totalitarista e despótico; a isto também se junto o dever do amor ao próximo, que pede um repúdio àqueles que oprimem os irmãos.

Neste grupo destacam-se os cristãos católicos, os quais possuem sérios motivos para rejeitar de forma categórica o regime comunista em Cuba.

1º Motivo: A Igreja sempre condenou o Totalitarismo

A Igreja Católica sempre rejeitou o totalitarismo. Sempre deixou claro que a liberdade do homem é um dom de inestimável valor, e que o Estado não pode desrespeitar ou pautar esta liberdade; o Estado só poderia, porventura, interferir nesta liberdade em casos de manutenção da ordem. “É, porém, desumano que a autoridade política assuma formas totalitárias ou ditatoriais, que lesam os direitos das pessoas ou dos grupos sociais” (Conc. Ecum. Vaticano II, Const. Past. Gaudium et Spes, n.75). E ensinou o grande Papa Pio XI, condenando o regime nazista na Alemanha: “Por isto, não nos cansaremos, tampouco no futuro, de falar francamente às autoridades responsáveis sobre a ilegalidade das medidas violentas que até agora se têm tomado, e o dever que têm de permitir a livre manifestação da vontade” (Enc. Mit Brennender Sorge, n.48, tradução nossa do espanhol).

Portanto, qualquer tipo de governo totalitarista e ditatorial deve, por uma questão de coerência para com a religião católica, ser veementemente repudiado pelo cristão católico.

Ora, qualquer Estado que tenha a pretensão de possuir poderes absolutos e totais sobre tudo quanto exista sobre a terra está fadado a destruir-se, simplesmente por que está indo contra os desígnios de Deus. O Estado não pode contrariar a vontade de Deus, que fez o homem livre. Esta atitude de pretender um poder absoluto é ainda mais absurda quando, em matéria religiosa, o Estado queira ditar normas e ensinamentos, quando somente à Igreja cabe tal tarefa: “À Igreja, pois, e não ao Estado, é que pertence guiar os homens para as coisas celestes, e a ela é que Deus deu o mandato de conhecer e de decidir de tudo o que concerne à religião; de ensinar todas as nações, de estender a tão longe quanto possível as fronteiras do nome cristão; em suma, de administrar livremente e a seu inteiro talante os interesses cristãos” (SS. PAPA LEÃO XIII, Enc. Immortale Dei, n.16). Portanto, um Estado absolutista e totalitarista estará, invariavelmente, fadado a cair de debater-se no chão até a morte certa.

A História da humanidade o confirma. Ora, as monarquias sempre foram célebres e justas (salvo aquelas exceções de Ries corruptos, que sabemos existirem), formas de governo boas e dignas; mas isto só até o momento em que quis o poder sobre tudo, um poder absoluto. O absolutismo perverteu a monarquia, foi a praga que fê-la cair e que levou os Reis aos mais absurdos desvarios por poder. Um governo monárquico justo e digno como o do Rei São Luís IX, da França, um santo homem, nunca poderá ser comparado ao governo de Luís XIV, injusto e totalitarista, pois impregnado do absurdo absolutismo, que quer poder sobre tudo. As monarquias eram dignas até caírem na tentação do poder, que as matou. O absolutismo foi a doença que fez a monarquia perder seu brilho, de uma forma que hoje ninguém mais acredita nela, e existem até aqueles que ignorantemente pensam que monarquia e absolutismo são a mesma coisa, quando se tratam de coisas totalmente distintas.

A única monarquia que sobreviveu intacta em toda a sua beleza e esplendor foi a da Igreja, cujo governo está entregue ao Vigário de Cristo e representante de Deus na terra, o Papa. E esta sobrevivência se dá porque este governo, o do Papa, não possui outro apoio que não o próprio Deus, que garantiu a não prevalência das portas do inferno sobre a Igreja (Mateus 16,18)

Mas não só isso. Na história recente, vimos a ditadura nazista sobre a Alemanha. O regime nazista, condenado pelo Papa Pio XI na Encíclica Mit Brenneder Sorge, foi vítima, por assim dizer, de uma feia queda, justamente pela sua pretensão de poder tudo sobre todos, uma pretensão errônea e absurda. A União Soviética, com os mesmos idéias de poder tudo sobre todos, experimentou também o tombo.

Todos os Estados totalitaristas e ditatoriais estão condenados a este mesmo fim: a queda. Isto é invariável.

Com o regime comunista em Cuba não será diferente: haverá a queda. Se agora ou depois, só Deus o sabe.

2º Motivo: A Igreja sempre condenou o Comunismo

Mas quanto a Cuba, além do totalitarismo, o cristão católico tem também outro motivo para repudiar este governo ditatorial: o comunismo que é a essência e a alma deste governo.

Ora, é de todos sabido que a Igreja peremptoriamente condenou e condena o Comunismo, ou Marxismo, ou Socialismo, nomes distintos para uma mesma loucura de homens. “A Igreja tem rejeitado as ideologias totalitárias e atéias associadas, nos tempos modernos, ao ‘comunismo’ ou ao ‘socialismo’” (CIC, n.2425).

Magistral quanto a isto é o ensino do Sumo Pontífice Pio XI, que tão bem alertava quanto aos males da doutrina comunista:

“A doutrina comunista que em nossos dias se apregoa, de modo muito mais acentuado que outros sistemas semelhantes do passado, apresenta-se sob a máscara de redenção dos humildes. E um pseudo-ideal de justiça, de igualdade e de fraternidade universal no trabalho de tal modo impregna toda a sua doutrina e toda a sua atividade dum misticismo hipócrita, que as multidões seduzidas por promessas falazes e como que estimuladas por um contágio violentíssimo lhes comunica um ardor e entusiasmo irreprimível, o que é muito mais fácil em nossos dias, em que a pouco eqüitativa repartição dos bens deste mundo dá como conseqüência a miséria anormal de muitos. […] Ora, a doutrina que os comunistas em nossos dias espalham, proposta muitas vezes sob aparências capciosas e sedutoras, funda-se de fato nos princípios do materialismo chamado dialético e histórico, ensinado por Karl Marx, de que os teóricos do bolchevismo se gloriam de possuir a única interpretação genuína. Essa doutrina proclama que não há mais que uma só realidade universal, a matéria, formada por forças cegas e ocultas, que, através da sua evolução natural, se vai transformando em planta, em animal, em homem. […] É, pois, evidente que neste sistema não há lugar sequer para a idéia de Deus; é evidente que entre espírito e matéria, entre alma e corpo não há diferença alguma; que a alma não sobrevive depois da morte, nem há outra vida depois desta. […] Aqui tendes, Veneráveis Irmãos, diante dos olhos do espírito, a doutrina que os comunistas bolchevistas e ateus pregam à humanidade como novo evangelho, e mensagem salvadora de redenção! Sistema cheio de erros e sofismas, igualmente oposto à revelação divina e à razão humana; sistema que, por destruir os fundamentos da sociedade, subverte a ordem social, que não reconhece a verdadeira origem, natureza e fim do Estado; que rejeita enfim e nega os direitos, a dignidade e a liberdade da pessoa humana” (Enc. Divini Redemptoris, nn.8-9.14).

Ora, os males sobre os quais Pio XI advertiu os vimos na URSS e ainda hoje em Cuba: totalitarismo, aprisionamento, desrespeito às liberdades fundamentais do homem, etc.

E sobre a condenação ao Comunismo, confirmando todas as palavras do Magistério da Igreja, temos as palavras da própria Mãe de Deus, a Virgem Maria, Nossa Senhora, que em Fátima, no ano de 1917, ano da Revolução Russa, condenou o Comunismo falando dos perniciosos “erros da Rússia”, endossando assim o parecer do Magistério. Ora, Nossa Senhora foi enviada por Deus; a mensagem que trouxe era do próprio Deus. Portanto, condenando o Comunismo, os “erros da Rússia”, Maria trazia a condenação do próprio Deus a esta doutrina errônea, que motivou e motiva tantas aberrações.

Diante de tudo isto, ninguém duvida que é impossível a alguém querer ser católico e comunista ao mesmo tempo. Uma pessoa que defenda, nem que seja a milésima parte da doutrina comunista, se volta contra a Virgem Maria em Fátima, se volta contra o Papa, representante de Deus, e aí abandona a Igreja. Não há como ser católico e defender o comunismo.

Daí uma segunda face do dever do católico de rejeitar o regime totalitarista em Cuba: a rejeição do Comunismo que ali se instalou, Comunismo condenado pela Virgem Maria em Fátima e pelo Magistério da Igreja.

E há ainda um terceiro motivo, do qual já falamos, que é o amor ao próximo, o qual nos faz sentir na pele o sofrimento dos irmãos cubanos e desejar com ardor sua libertação deste regime.

Temos aí, portanto, os motivos principais que levam os cristãos católicos (ao menos os verdadeiros, e não aqueles falsos cristãos) a figurarem entre os principais opositores a Fidel Castro.

CONCLUSÃO – Acabou o regime em Cuba?

É muito cedo para afirmar que o regime ditatorial em Cuba acabou. Como se sabe, o governo foi entregue por Fidel a seu irmão, Raul Castro, que também é comunista. Mas há esperança de que Raul seja menos comunista que Fidel e se abra à redemocratização do país. Contudo, há também o perigo, e este perigo é bem concreto, de que Fidel continue a exercer sua influência mesmo sem ter o governo nas mãos; e isto, não duvidamos, poderá certamente acontecer, o que prejudicará a libertação de Cuba deste regime ditatorial de meio século.

Esperamos, contudo, que a intercessão da Virgem da Caridade do Cobre, padroeira de Cuba, tenha finalmente vencido. A ela, por tantos e tantos anos, recorreram os milhares de católicos cubanos perseguidos pelo regime comunista e ateu de Fidel Castro, que sempre foi “fidelíssimo” aos moldes de regime traçados por Marx e pela URSS. Nos braços da Virgem choraram muitos que tiveram seus parentes assassinados pelo regime, ou aqueles que eram simplesmente impedidos de viver sua Fé Católica com liberdade.

Rezemos, portanto, à Virgem da Caridade do Cobre, para que ela pise na cabeça desta serpente que derrama seu veneno em Cuba já há meio século: o Comunismo, que a mesma Virgem Maria condenou em Fátima, em 1917.

Campina Grande, 24 de Fevereiro de 2008,

Taiguara Fernandes de Sousa.

 “Omnes cum Petro, ad Iesum, per Mariam”

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