O sincretismo surgiu de uma mentalidade indiferentista e empobrecedora, reflexo do relativismo religioso, defensor da unidade transcendental de todas as religiões. Muitas vezes é também ratificado por ser compreendido como uma maneira de reverenciar a cultura, como atestado de caridade com a diversidade. O modernismo, com suas arquitetações maquiavélicas, conseguiu deformar o conteúdo da inculturação, que evangeliza e dissemina a fé, numa positiva absorção de elementos culturais compatíveis com a Verdade, transformando-a no sincretismo que tende a banalizar e profanar.

A Igreja sempre foi consciente a respeito da diversidade cultural, dessa forma, de maneira sapiente, instituiu os moldes da inculturação. Os trabalhos missionários em países submersos na escuridão teriam o direito de utilizar facetas das características nativas como métodos práticos de evangelização. Esses meios autóctones deveriam passar pelo crivo da fé cristã, sendo execrado tudo que fosse oposto ao lícito e aceitável. Tais ferramentas não tendem ao sincretismo, ao contrário, santificam as culturas, levam a Revelação que “se encarna nelas, superando os elementos culturais das mesmas que são incompatíveis com a fé e a vida cristã e elevando os seus valores ao mistério da salvação que provém de Cristo.” (Pastores dabo vobis, n. 55)

A história da Igreja nos mostra muitos exemplos dessa mentalidade, por exemplo a evangelização dos povos pagãos. Os beneditinos, de forma impecável, conseguiram utilizar as próprias características da cultura nativa como meios de conversão. Muitas vezes os templos idólatras eram transformados em Igrejas, depois da devida purificarão, e festas pagãs substituídas por dias de santos. Inclusive canto gregoriano nasceu da fusão das melodias judaicas com as utilizadas pelos gentios de Roma. De forma similar, os missionários jesuítas nas colônias espanholas, utilizaram com constância a arte indígena para confeccionar imagens e Igrejas, com certa similaridade visual. Aqui no Brasil, religiosos como Pe. Antônio Vieira e Beato José de Anchieta, foram mestres na conversão de índios porque conseguiam transmitir a universalidade da Verdade da Boa Nova.

O sincretismo usa como premissa a homogeneidade e compatibilidade da fé, igualando crenças e doutrinas diametralmente opostas. Dessa forma, cultos e ritos incongruentes com a Verdade são colocados ao lado da crença cristã, de forma agressiva e destrutiva, “como se tivessem o mesmo valor, pondo em perigo a identidade da fé católica”  (Ad Limina Apostolorum. n. 7)

As relações culturais muitas vezes servem como argumentos para a defesa desse hibridismo. É claro “que devemos estima e respeito às legítimas tradições religiosas, como por exemplo, às autenticamente africanas” (Ad Limina Apostolorum, n.4), mas sem “nivelar (…) num sincretismo empobrecedor” (Bento XVI). As culturas desenvolvidas numa sociedade não-católica devem ser purificadas e exaltadas na fé, utilizando aquilo que de Verdadeiro existe na vivência cultural, reflexo da própria percepção das leis naturais e da Criação, e excluindo as características incongruentes com a Religião. João Paulo II disse aos Bispos do Brasil em 1990, referente a essa problemática e as tradições africanas, que “Nelas podemos encontrar excelentes valores, como o são o respeito pela vida e pela natureza e um amplo sentido do mundo do além, constante ponto de referência da própria vida diária” mas que “é necessário purificar devidamente todos os elementos que forem claramente incompatíveis, por exemplo, com o Mistério da unicidade e transcendência absolutas de um Deus pessoal, ou com aquele relacionado com a Economia da Salvação, em que Cristo é o único Caminho para a redenção do homem; é bom lembrar também todo o tema relacionado com as exigências da Lei moral cristã.”

O sincretismo não pode ser visto como resposta a globalização, ou então como uma política reparadora da Igreja para com os negros, em ambos os casos, estaríamos negociando a Verdade cristã. A concepção sincrética tem em sua origem o relativismo religioso, que interpreta a doutrina e a vivência piedosa de forma destoante da Verdade,  “constituindo uma ditadura (…) que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades.” (Card. Ratzinger). Essa banalização do sagrado concede espaço para o multiculturalismo empobrecedor e ao sincretismo. A visão progressista da fé e sua respectiva compreensão cultural, deram abertura para o “perigo concreto de relativismo e de indiferentismo, de um “ecumenismo barato”, que acaba por se tornar supérfluo (…) que tendem a banalizar tudo” (Card. Kasper).

É necessária a consciência a respeito dos limites da fé que se professa, o conhecimento da fronteira entre o aceitável e o degradante, só com tal embasamento é possível combater a “ignorância religiosa endêmica [que] favorece diferentes formas de sincretismo” (Conselho Pontifício da Cultura). Da mesma forma, tal luta seria incompleta e vã, se não fosse pertinente uma mudança da mentalidade moderna, que ratifica de forma maciça a transformação de tudo que se considera absoluto e verdadeiro, justamente a raiz da proliferação de atitudes sincréticas.

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