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Sobre a imagem do Divino Pai Eterno

Written by Marcos Grillo

 

Por Marcos Monteiro Grillo

Na fé católica, as imagens religiosas têm uma grande importância. Embora os protestantes e iconoclastas em geral (como judeus e muçulmanos) digam que os católicos somos “idólatras”, sabemos que isso não é verdade, conforme explica o Catecismo da Igreja Católica:

“2132. O culto cristão das imagens não é contrário ao primeiro mandamento, que proíbe os ídolos. Com efeito, «a honra prestada a uma imagem remonta ao modelo original» (São Basílio Magno, Liber de Spiritu Sancto, 18, 45: SC 17bis. 406 [PG 32, 149].) e «quem venera uma imagem venera nela a pessoa representada» (II Concílio de Niceia, Definitio de sacris imaginibus: DS 601; cf. Concílio de Trento, Sess. 25ª, Decretum de invocatione, veneratione et reliquiis sanctorum, et sacris imaginibus: DS 1821-1825: II Concílio do Vaticano, Const. Sacrosanctum Concilium, 125: AAS 56 [1964] 132: Id., Const. dogm. Lumen Gentium, 67: AAS 57 [1965] 65-66.). A honra prestada às santas imagens é uma «veneração respeitosa», e não uma adoração, que só a Deus se deve:

«O culto da religião não se dirige às imagens em si mesmas como realidades, mas olha-as sob o seu aspecto próprio de imagens que nos conduzem ao Deus encarnado. Ora, o movimento que se dirige à imagem enquanto tal não se detém nela, mas orienta-se para a realidade de que ela é imagem» (São Tomás de Aquino, Summa theologiae, 2-2. q. 81, a. 3, ad 3: Ed. Leon. 9, 180).”

As imagens sacras, como já foi dito muitas vezes, têm um papel pedagógico (“A imagem é o livro daqueles que não sabem ler.” São Gregório Magno)[1], ajudando os fiéis a vislumbrar os mistérios da fé, além de estimular a vida de oração e de piedade. Servem também para nos inspirar e fomentar as virtudes, como lemos nessas belas palavras do Pe. Júlio Maria de Lombaerde[2]:

“De outro lado, as imagens são verdadeiros livros que ensinam a prática das virtudes. Assim, contemplando a imagem de São Sebastião, nós aprendemos o dever de confessar a nossa fé, mesmo diante dos inimigos da nossa religião.

Contemplando a imagem de São Vicente, aprendemos a prática da caridade e da dedicação ao próximo.

Um São Francisco Xavier nos ensina o zelo das almas.

Um São Francisco de Assis nos mostra o desapego das riquezas.

Um São Francisco de Sales nos prega a mansidão.

Um São José nos indica o valor de uma vida trabalhosa.

Um São Miguel nos recorda a justiça de Deus.

Uma Santa Teresinha nos prega a confiança filial e no amor de Deus.

Contemplando a imagem da Santíssima Virgem, aprendemos a prática da sublime virtude da pureza.

Considerando a imagem do Coração de Jesus, lembramo-nos do amor que Deus tem aos homens.

Fitando a imagem de Jesus Crucificado, aprendemos a sofrer com paciência e resignação.”

Mas, o objetivo deste breve artigo não é demonstrar a veracidade da doutrina católica acerca da veneração dos santos, da Virgem Maria e do uso das imagens sacras no culto cristão, sobre o que há farta bibliografia, além de inúmeros textos na Internet. Nosso objetivo é falar um pouco sobre a imagem do Divino Pai Eterno, uma devoção que teve início há mais de 170 anos, na cidade hoje chamada de Trindade, no estado brasileiro de Goiás. No site oficial do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno podemos ler um breve relato sobre a origem dessa devoção que atualmente reúne milhões de fiéis todos os anos na referida cidade:

“Certo dia, durante o trabalho no campo, próximo ao córrego do Barro Preto, a enxada do lavrador Constantino Xavier acertou algo rígido, que não se parecia com uma simples pedra. Ao lado de sua esposa, Ana Rosa Xavier, ele se deu conta que havia encontrado um belíssimo Medalhão de barro, de aproximadamente oito centímetros, onde estava representada a Santíssima Trindade coroando a Virgem Maria. (…) Demonstrando sua fé, amor e devoção, Constantino e Ana Rosa levaram a Imagem para casa, onde, baseado em relatos da história, um altar foi preparado para abrigar o Medalhão. Ali, a família se reunia com familiares e vizinhos, aos fins de semana, para rezar o terço. Com isso, numerosos prodígios, graças e milagres começaram a acontecer. (…) Cerca de dois anos após o início das orações em torno do Medalhão, Constantino se dirigiu a Pirenópolis, mais de 120 km de distância da região do Barro Preto (atual Trindade), com o intuito de restaurar o objeto sagrado. Para isso, procurou o artista plástico goiano Veiga Valle. Aconselhado pelo artista, Constantino resolveu fazer uma réplica da figura da Trindade Santa coroando Maria em um tamanho maior, esculpida em madeira. Daí surgiu a  Imagem, que se tornou uma forte representação da devoção ao Pai Eterno.” [3]

Na belíssima imagem, podemos contemplar Deus Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, em seu corpo glorioso (ressuscitado), sentado à direita de Deus Pai, conforme rezamos no Credo Apostólico (“ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus, está assentado à direita de Deus Pai…”). O manto vermelho de Nosso Senhor evoca Seu precioso sangue derramado na cruz por nós. Deus Pai é representado como um ancião, semelhante a Jesus Cristo (indicando a filiação divina do Salvador), de barba e cabelos grisalhos, fazendo menção à autoridade e à sabedoria eterna do Pai. Entre o Pai e o Filho, vemos o Espírito Santo representado sob a forma de uma pomba, conforme lemos no Evangelho (“e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea, como uma pomba; e veio do céu uma voz: ‘Tu és o meu Filho bem-amado; em ti ponho minha afeição’”. Lucas 3, 22). A representação do Espírito Santo aparece entre o Pai e o Filho como uma referência ao amor que une o Pai, o Filho e o Espírito Santo, a Santíssima Trindade. Nossa Senhora aparece ajoelhada, como sinal de sua humildade e submissão incondicional à vontade de Deus, sendo coroada pela Santíssima Trindade como Rainha do céu e da terra (cf. Apocalipse 12), conforme rezamos no Santo Rosário (quinto mistério glorioso). Sob a imagem da Santíssima Trindade e de Nossa Senhora, vemos nuvens douradas (em algumas imagens as nuvens são azuis), evocando o céu, nossa pátria celeste, bem como a ideia de eternidade.

A imagem do Divino Pai Eterno inspira fé e profundo amor pelo mistério da Santíssima Trindade. Nela vemos Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que assumiu a forma humana para nos redimir. Vemos Deus Pai, que deu Seu Filho único para nos salvar e assim nos adotar como filhos e herdeiros Seus. Vemos o Espírito Santo, representado sob a imagem bíblica de uma pomba, evocando o inefável amor intrínseco à Trindade Santa, e que também guia a Igreja fundada pelo Senhor para que não ficássemos a sós por ocasião da Sua gloriosa ascensão aos céus. E finalmente, vemos Nossa Senhora, Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rainha dos cristãos e nossa advogada junto ao Deus Trino.

Evidentemente, a imagem do Divino Pai Eterno não pode ser contemplada de modo racionalista, tampouco de forma iconoclasta. A imagem é uma representação artística de conteúdos da nossa fé, representação essa que tem suas óbvias limitações, assim como as próprias palavras são limitadas para descrever os mistérios da fé. Devemos ter essa imagem como fonte de fé, piedade e amor a Deus e a Nossa Senhora. Ressalte-se também o grande valor da imagem do Divino Pai Eterno para a oração e meditação do Santo Rosário.

Terminamos esse breve texto com essas belas palavras do nosso grande e saudoso Papa São João Paulo II:

“Com particular satisfação, dirijo-me a esta representação do Divino Pai Eterno, na sua atitude de coroar a Beatíssima Virgem Maria. Sei que o povo dessa Arquidiocese, e de todo o Goiás, tem muita devoção ao Divino Pai Eterno, e esta representação exprime muito bem o sentido misterioso da Redenção realizada pelo Deus Homem que, para nos salvar, veio ao mundo, por vontade do Pai, encarnando-se no seio puríssimo da Virgem Maria.

Nisto, caríssimos filhos do Brasil, se resume toda a beleza das insondáveis riquezas do amor de Deus pelos homens, que quis reunir na Igreja Católica todas as ovelhas para que, ao fim dos tempos, constituam um só rebanho com um único pastor!”[4]

NOTAS

[1] NABETO, Carlos Martins. A fé cristã primitiva: coletânia de sentenças patrísticas. Clube de Autores, 2012, p. 277.

[2] LOMBAERDE, Pe. Júlio Maria de. Luz nas trevas: erros e objeções protestantes. Calvariae Editorial, 2019, p. 183.

[3] https://www.paieterno.com.br/santuario/origem-devocao/

[4] http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/homilies/1991/documents/hf_jp-ii_hom_19911015_goiania.html

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