A vida humana é uma série ininterrupta de aIegrias e tristezas que alternadamente se sucedem; e, para muitos de nós, os dias sombrios são mais numerosos que os de bom sol. Quem diz viver, diz sofrer.

Na vila de um jovem há já a dificuldade, provações mais ou menos duras, insucessos, mal-entendidos, doenças, sofrimentos fisicos e morais. E onde melhor se reveIa o carater é precisamente em suportar os golpes que o ferem: Sustine! Muitas vezes, os indigentes olham os ricos com inveja, e os estudantes pobres invejam os seus colegas mais afortunados. Parecem não acreditar que cada um de nós tem, sobre a terra, o seu quinhao de aflições – de uma maneira ou de outra.

Há homens que cerram furiosamente a mão e que bIasfemam contra a sua sorte no tempo de sofrimento: são aImas grosseiras. Outros há que, de cabeça baixa e morte na alma, choram o seu destino com impotente resignação: sao almas fracas. E há os ainda que, sofrendo embora nas horas de provação ou de doença, chorando a morte de um ente querido, sabem que o sofrimento viriImente suportado é o fogo que dá ao aço do carater a mais bela têmpera. Pode-se ser pobre e feliz, rico e infeliz ao mesmo tempo. Pode ser-se feliz com um corpo doente, e infeliz com uma saúde de ferro. Pode ser- se cego e feliz, ao mesmo tempo, como melancólico com oIhos de águia.

Tudo depende da maneira como nós deixamos o sofrimento operar em nossa aIma. Utiliza-o então, meu filho, na educação do teu carater. Lembra-te sempre de que uma dor suportada pacientemente aumenta o vaIor de um homem, que aquele que se faz pequeno cresce, que aquele que sabe humilhar-se se eleva, que a cólera dominada torna mais forte: numa palavra, que o sofrimento suportado com Deus torna a alma mais pura e o carater mais nobre.

Um quadro tem sempre Iuz e sombras. O talento do artista consiste precisamente em harmonizar estes dois contrastes e fazer sair deles a beIeza. Deus, que é o nosso Pai celeste, conhece as nossas dificuldades. Foi Ele que permitiu que tal infortúnio nos viesse. Tal infortúnio faz, portanto, parte dos seus designios a nosso respeito. Qual é este designio? Como o poderíamos nós conhecer com o nosso pobre cérebro humano? Punir-nos-á peIos nossos pecados passados? Quererá tornar-nos mais fortes em vista do futuro? Purificarmos? tornar-nos mais sérios? Quererá dar-nos ocasião de fazermos provisao de merecimentos? Não o sabemos. Mas uma coisa sabemos nós: é que a nossa alma deve sair mais pura, mais profunda, mais grave, melhor, numa palavra, do fogo do sofrimento.

A nossa oração, nesses dias sombrios, deve ser esta: Senhor, seja feita a vossa vontade, No bom tempo como na tempestadel Vossa Vontade se faca Senhor, Na alegria ou quando chega a dorl Senhor, vossa  vontade seja feita: Vós sabeis o porque – Minha alma aceita-a!

0 sofrimento suportado sem se queixar é um exceIente meio de desenvolver o carater e fortalecer a vontade. É naturaI que o homem procure livrar- se do sofrimento. Mas, se não o consegue, mau e que procure aIiviar se, lamentando-se e chorando. Procura tu, com todas as tuas forças, resignar-te naquilo gue não puderes mudar, por em paz a tua alma, e terás feito muito para forticares a vontade. A alma de vontade fraca deixa-se reduzir a pó sob o camarteIo do sofrimento. Inversamente, o carater viril, lançará, taIvez, chispas, mas, tal como o aço, torna-se depois mais resistente. “Pode-se mostrar-se tanto heroismo no Ieito da dor, como no campo de batalha”- disse Sêneca.

Isto significa que o sofrimento é a melhor escola do carater. Se te encontrares a braços com a contrariedade, lembra-te das paIavras do barão J. Eotvos: “As  provações da vida não tem o poder de abater aquele que sabe, no meio de atrozes torturas, guardar a confianca na Providência”.  Do fundo da tua alma roga como aqueIe grande cristão: Dai, Senhor, aos outros, caminhos planos nos quais se pode caminhar muito tempo sem fadiga. Dai Ihes os bens que eIes mais desejam. Para mim, peço-vos uma senda pedregosa e áspera, com bom aspecto todavia, que me conduza sempre mais resoluto, e que eu possa seguir com a convicção de que não me perderei”.

Se os Romanos diziam que “é uma virtude romana fazer grandes coisas” – “fortia agere romanun est” – acrescenta-lhe tu que “é  uma virtude cristã sofrer muito”- “fortia pati christianun est”.

Pensa um pouco na tristeza sem nome, no negro pessimismo, na melancoIia indizível, que inundavam no tempo do paganismo, as aImas mais nobres. Hoje não encontro um único ser que não preferisse a morte a tal existência. 0s gosos desregrados dos sentidos davam-lhes o desgosto do mundo e, no entanto, não tinham outros anseios senão esses. Somente um ou dois tiveram como que um pressentimento do Cristianismo, o que os eIevou as mais puras regiões. Quando estão na adversidade, o pagão e o descrente não sabem senão ranger os dentes, ao passo que o cristão suporta a dor pacientemente, e não com o cego fatalismo daqueles. Sem dúvida, o Cristianismo não pode fazer desaparecer do mundo a miséria, o sofrimento e as multiplas tentações que conduzem ao pecado, mas sabe, ao menos, dar lhes explicação, justificar os designios de Deus.

Acaso, sofres tu muito, meu fiIho? És pobre e doente? Teus pais estão na miséria? Suportas duras provações? Pergunta-te onde quererá Deus chegar. Talvez te esteja punindo dos teus pecados passadosl TaIvez EIe queira amadurecer a tua alma para uma vida mais fervorosa, temperar a tua alma como o fogo tempera o aço. Talvez ainda Ele queira aumentar os teus merecimentos para a vida eternal Talvez te conduza através da Existência como o guia da montanha conduz o viandante! – “Porque escolhes estas veredas escarpadas, pedregosas e incômodas”? – pergunta este.— “É preciso assim”- responde aquele – “porque só por estas veredas podemos chegar ao sitio maravilhoso que vamos ver. Pelos caminhos largos e fáceis, em breve estaríamos na planicie”.

“Porque motivo devo eu sofrer tanto”?  – exclamas tu tambem. Mas como podes tu sabe-lo? Só Deus o sabe! Examina bem um belo tapete da Persia: que magnifica harmonia de linhas e de cores! VoIta-o: no avesso não verás senão uma intrincada confusão de fios. É assim a vida. Nós só vemos o avesso. O direito, isto é, o grande pensamento unificante, está na mão de Deus. É o proprio Deus eterno que tece o tapete da nossa existência, e a nossa limitada inteIigencia não pode descobrir as suas intenções. Os seus pensamentos não são os nossos caminhos.

Um dia, Santa Catarina de Sena teve de lutar contra uma tentação extremamente violenta. Tendo-a vencido com dificuldade, lamentava-se ela tristemente : “Onde estáveis, meu Jesus, enquanto a obscuridade invadia o meu coração”? – “Estava na tua alma”- respondeu o Redentor. “ Se eu lá não estivesse, os pensamentos que assediavam o teu espírito teriam penetrado na tua vontade e teriam causado a morte a tua alma”. Quando sofreres, não te assustes então, meu filho. Toda a força do oceano embravecido pode quebrar-se contra um só rochedo!             ~

Nao imites as pIantas que estão direitas enquanto o sol as acaricia, mas que se fecham e se deixam esmorecer, logo que chegou o crepúsculo. O sofrimento é uma obra de arte divina talhada no mármore da tua alma. O que Deus quereria encontrar em tua aIma é o ouro. E o ouro – sabe-lo bem -, não está à superficie; é preciso procura-lo nas profundezas. O mármore deve abafar mais de um soluço sob as marteIadas do escuItor. Mas não vês que,  se o artista ligasse importancia a isso, não poderia nunca fazer dele uma linda estátua,… uma obra-prima?…

Por isso, meu filho, não busques o sofrimento; mas se eIe vier, oIha-o bem de frente.

TOTH, Thiamer – O Jovem de carater – Quadrante – Pags 202- 208.

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