A crença na “Sola Scriptura” é dogma fundamental entre os protestantes. Ainda que não a chamem de “dogma”, a doutrina da “sola Scriptura” ou “somente a Bíblia” é de fato um dogma e um dos pilares sobre os quais se sustenta toda a teologia protestante, de forma que, se demonstrada a falsidade desta doutrina, todo o sistema de crenças do Protestantismo cai por terra, em efeito dominó.

O postulado protestante “a Bíblia é a nossa única norma de moral, fé e conduta” não se encontra expresso com estas palavras, nem com outra ideia semelhante em nenhuma parte da Bíblia. Quando pedimos a um protestante fundamentar sua afirmação com a Bíblia, recorre aos mesmos textos clássicos de:

1) 2Timóteo 3,16-17: “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra”.

Este é o principal texto que esgrimem os partidários da “sola Scriptura”, porém, longe de favorecê-los, os contradiz. Antes de mais nada, o versículo citado diz apenas que a Escritura é proveitosa/útil, mas jamais afirma que é a única coisa necessária. A água é proveitosa para vivermos, mas não é a única coisa que precisamos; o alimento é proveitoso para viversmo, mas não é a única coisa que faz falta para vivermos.

Por outro lado, São Paulo empregra como Escritura a Septuaginta (ou a “versão dos Setenta” [LXX]), de modo que a Escritura que o Apóstolo tem perante os olhos e afirma ser totalmente inspirada” é a Septuaginta, a qual possui os 7 livros deuterocanônicos do Antigo Testamento, que os protestantes excluíram de suas Bíblias, de forma que embora o Apóstolo Paulo garanta que todos eles são inspirados, os protestantes negam.

E o que dizer mais da citação? Que ela também refuta a doutrina da “sola Fide”, pois assegura que assim “o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra”.

Outro texto citado por alguns protestantes em favor da sua doutrina da “sola Scriptura” é este:

2) 1Coríntios 4,6: “E eu, irmãos, apliquei estas coisas, por semelhança, a mim e a Apolo, por amor de vós; para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito, não vos ensoberbecendo a favor de um contra outro”.

Como dissemos, este texto é pouco citado porque eles mesmos sabem que não apóia a doutrina da “sola Scriptura”, isto porque simplesmente, como é de seu costume, não citam o texto completo. Eis o texto completo:

  • 1Coríntios 4,3-6: “Todavia, a mim mui pouco se me dá de ser julgado por vós, ou por algum juízo humano; nem eu tampouco a mim mesmo me julgo, porque em nada me sinto culpado; mas nem por isso me considero justificado, pois quem me julga é o Senhor. Portanto, nada julgueis antes de tempo, até que o Senhor venha, o qual também trará à luz as coisas ocultas das trevas, e manifestará os desígnios dos corações; e então cada um receberá de Deus o louvor. E eu, irmãos, apliquei estas coisas, por semelhança, a mim e a Apolo, por amor de vós; para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito, não vos ensoberbecendo a favor de um contra outro”.

Qualquer pessoa de mediana inteligência consegue enxergar que o contexto em que aparece a frase “não ir além do que está escrito” não se refere à Bíblia, à Escritura. O texto fala sobre não julgar antes do tempo, julgar antes da vinda de Cristo, pois só o Senhor é o Juiz. Então ao que se refere São Paulo ao dizer que não devemos ir além do que está escrito? Eis a resposta, segundo a Bíblia:

  • Apocalipse 20,12: “E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante de Deus, e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida. E os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras”.

Quando Jesus vier, os mortos serão julgados segundo “o que está escrito” no Livro da Vida, de modo que aqueles que julgam os seus semelhantes, adiantando-se ao juízo do Senhor, ultrapassam e vão além do que está escrito no Livro da Vida redigido por Deus. Com toda razão afirma São Paulo [no versículo 3]: “a mim mui pouco se me dá de ser julgado por vós, ou por algum juízo humano”, de modo que o texto de 1Coríntios 4,6 nada prova.

Os demais textos bíblicos citados pelos protestantes evangélicos em favor da “sola Scriptura” são demasiadamente frágens, de modo que nem nos daremos o trabalhos de refutá-los.

A ideia de que apenas a Bíblia é suficiente [para o cristão] é rejeitada pela própria Escritura, de modo que ela mesma acaba por combater a “sola Scriptura”.

TEXTOS BÍBLICOS QUE REFUTAM POR SI MESMOS A DOUTRINA DA “SOLA SCRIPTURA”:

  • Mateus 22,29: “Jesus, porém, respondendo, disse-lhes: ‘Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus'”.

O ensino da “sola Scriptura” pode levar ao erro de não compreendê-la, tal como Jesus Cristo afirma aqui. A “sola Scriptura” não garante a compreensão da Bíblia.

  • Lucas 24,26-27: “Porventura não convinha que o Cristo padecesse estas coisas e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras”.

Não bastava a Escritura: Jesus não mandou que lessem a Bíblia; foi necessário que Ele as explicasse. “Sola Scriptura” não basta.

  • Lucas 24,45: “Então abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras”.

Jesus Cristo teve que abrir a inteligência de seus discípulos para que estes entendessem as Escrituras. Por que isso, se a “sola Scriptura” basta?

  • João 5,39-40: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam; e não quereis vir a mim para terdes vida”.

Eles acreditavam que pela Escritura obteriam a vida eterna. Bastou-lhes “somente a Bíblia”? Não, porque não entenderam a Escritura que falava de Jesus Cristo.

  • Atos 8,29-35: “E disse o Espírito a Filipe: ‘Chega-te, e ajunta-te a esse carro’. E, correndo Filipe, ouviu que lia o profeta Isaías, e disse: ‘Entendes tu o que lês?’ E ele disse: ‘Como poderei entender, se alguém não me ensinar?’ E rogou a Filipe que subisse e com ele se assentasse. E o lugar da Escritura que lia era este: ‘Foi levado como a ovelha para o matadouro; e, como está mudo o cordeiro diante do que o tosquia, assim não abriu a sua boca. Na sua humilhação foi tirado o seu julgamento; E quem contará a sua geração? Porque a sua vida é tirada da terra’. E, respondendo o eunuco a Filipe, disse: ‘Rogo-te, de quem diz isto o profeta? De si mesmo, ou de algum outro?’ Então Filipe, abrindo a sua boca, e começando nesta Escritura, lhe anunciou a Jesus”.

O Espírito Santo conduz Felipe a explicar a Escritura ao eunuco da rainha. Vemos claramente que a “sola Scriptura” não é verdadeira e tampouco a Bíblia se interpreta a si mesma, como garantem os protestantes.

  • Atos 18,24-26: “E chegou a Éfeso um certo judeu chamado Apolo, natural de Alexandria, homem eloquente e poderoso nas Escrituras. Este era instruído no caminho do Senhor e, fervoroso de espírito, falava e ensinava diligentemente as coisas do Senhor, conhecendo somente o batismo de João. Ele começou a falar ousadamente na sinagoga; e, quando o ouviram Priscila e Áquila, o levaram consigo e lhe declararam mais precisamente o caminho de Deus”.

Priscila e Áquila precisaram expor a Apolo, com mais clareza, o Evangelho, apesar de Apolo ser “homem eloquente e poderoso nas Escrituras”. Novamente, “sola Scriptura” não é suficiente!

  • 2Pedro 3,16: “Falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição”.

Por que os ignorantes torcem as Escrituras? Porque há nelas pontos difíceis de entender. Mas como? Os protestantes não dizem que basta apenas a Bíblia e que ela interpreta a si mesma? Resta claro tratar-se de uma inverdade.

Finalmente, o texto que os nossos irmãos protestantes jamais citarão:

  • 2Pedro 1,20-21: “Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo”.

Depois de considerar o texto anterior, os protestantes evangélicos garantem que basta pedir o Espírito Santo a Deus, para que possamos interpretar a Bíblia corretamente e sem erro. Citam os seguintes textos bíblicos para fundamentar sua afirmação:

  • João 14,26: “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito”.
  • João 16,13: “Mas, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir”.
  • Lucas 11,13: “Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?”

É verdade que Deus concede o Espírito Santo, porém o Paráclito possui muitíssimos dons e, curiosamente, a Bíblia jamais menciona que o dom de interpretar a Escritura seja um deles. Menciona o dom de interpretar línguas, nada mais:

  • 1Coríntios 12,4-11: “Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um, para o que for útil. Porque a um pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência; e a outro, pelo mesmo Espírito, a fé; e a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar; e a outro a operação de maravilhas; e a outro a profecia; e a outro o dom de discernir os espíritos; e a outro a variedade de línguas; e a outro a interpretação das línguas. Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer”.

Os Apóstolos e a Igreja foram e são conduzidos até hoje pelo Espírito Santo à verdade completa. De que forma?

  • Atos 15,1-2.22-23.28: “Então alguns que tinham descido da Judeia ensinavam assim os irmãos: ‘Se não vos circuncidardes conforme o uso de Moisés, não podeis salvar-vos’. Tendo tido Paulo e Barnabé não pequena discussão e contenda contra eles, resolveu-se que Paulo e Barnabé, e alguns dentre eles, subissem a Jerusalém, aos apóstolos e aos anciãos, sobre aquela questão. (…) Então pareceu bem aos apóstolos e aos anciãos, com toda a Igreja, eleger homens dentre eles e enviá-los com Paulo e Barnabé a Antioquia, a saber: Judas, chamado Barsabás, e Silas, homens distintos entre os irmãos. E por intermédio deles escreveram o seguinte: ‘Os apóstolos, e os anciãos e os irmãos, aos irmãos dentre os gentios que estão em Antioquia, e Síria e Cilícia: saúde. (…) Na verdade pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, não vos impor mais encargo algum, senão estas coisas necessárias”.

Diante do grave problema dos Judaizantes, que queriam impor a Lei de Moisés aos cristãos, o Apóstolo São Paulo e Barnabé não invocaram o Espírito Santo para interpretar o que dizia as Escrituras. Pelo contrário! Se reuniram com os demais Apóstolos e com toda a Igreja no Concílio de Jerusalém. É assim que a Igreja, com a assistência do Espírito Santo, vem fazendo nestes 2000 anos.

Invocar o Espírito Santo para interpretar corretamente as Escrituras não é garantia de que não haverá erro em seu entendimento, basta enxergar os fatos que provocaram a existência, hoje, de mais de 70.000 seitas protestantes, cada uma delas “inspirada pelo Espírito Santo” e cada uma delas com uma interpretação diferente da Bíblia em relação às demais, e com diferentes doutrinas.

A “sola Scriptura” não pode levar os protestantes à única Fé.

A “sola Scriptura” somente produz divisão e um sem-fim de doutrinas.

A “sola Scriptura” é [mera] doutrina humana!

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