Quando o Papa Paulo VI lançou o novo Missal (Ordo Missae = Ordinário da Missa), em 1971, um Bispo francês chamado D. Lefebvre, junto com o Bispo de Campos (D. Castro Mayer) recusaram-se a celebrar e ensinar a Missa nova.

O seminário de Campos e o da Sociedade Sacerdotal São Pio X (em Ecône, na Suíça; é a congregação fundada por D. Lefebvre, abreviada SSPX), assim como alguns mosteiros (especialmente o mosteiro beneditino de Le Barroux, na França) continuaram a celebrar a liturgia antiga.

Em 1984, porém, D. Lefebvre e D. Castro Mayer, desrespeitando um acordo que haviam firmado logo antes com Roma (que permitiria a eles consagrar um bispo para atender às comunidades tradicionalistas), consagraram, juntos, três bispos.

Este ato foi considerado cismático pelo Santo Padre, por ser uma desobediência direta a uma ordem explícita e conhecida, e – principalmente – por ser um ato que estabelece, na prática, uma hierarquia paralela à da Igreja.

O mosteiro de Le Barroux, assim como vários sacerdotes ligados anteriormente a D. Lefebvre, romperam neste momento seus laços com ele, preferindo – com razão – manter-se submissos ao Santo Padre. Afinal, Papa é Papa, e é verdade revelada que sem submissão ao Papa o Inferno é certo.

O Santo Padre, então, para abrigar a estes sacerdotes oriundos da SSPX e outros, de várias congregações, que queriam continuar a celebrar apenas a Missa antiga, estabeleceu a Fraternidade Sacerdotal de São Pedro, ou FSSP. É uma congregação que tem como carisma a celebração da liturgia antiga, e está em plena comunhão com Roma. Ele também pediu aos Bispos que proporcionassem, “ampla e generosamente”, a celebração da Missa antiga aos fiéis. Isto poderia ser feito chamando uma congregação com este carisma (depois da FSSP, mais de 50 outras foram estabelecidas, todas em união com o Papa) ou simplesmente pedindo a um padre diocesano que celebrasse a Missa antiga.

Aqui no Brasil, infelizmente, apenas o santo Bispo de Anápolis, D. Pestana, que Deus o guarde sempre fiel, tem em sua diocese a Missa antiga celebrada costumeiramente como o Papa pediu. No Rio há apenas uma celebração por ano, no Outeiro da Glória, em comemoração do aniversário do príncipe D. Bertrand de Orléans e Bragança (ligado à TFP). Em SP o pessoal da Associação Montfort conseguiu um padre em situação canônica regular que celebra para eles, mas não é nada oficialmente permitido – ou proibido – pela diocese. Os Padres de Campos, discípulos de D. Castro Mayer, voltaram recentemente à plena união com a Santa Sé, e têm algumas outras Missas espalhadas pelo país além do seu território ordinário (superposto à Diocese de Campos). A SSPX (discípulos de D. Lefebvre) não aceitou o acordo.

Quais são as diferenças básicas entre a SSPX e a FSSP?

Basicamente, a FSSP – como os Padres de Campos agora – está em união com o papa, e a SSPX não. O que significa isso?

A FSSP é parte legítima e integrante da hierarquia da Igreja; a SSPX não; eles alegam “emergência” para justificar sua ação em situação canonicamente acéfala.

Os casamentos e absolvições ministrados pelos padres da FSSP são válidos; os ministrados pelos padres da SSPX não o são; as absolvições dadas por eles só são válidas se a pessoa estiver correndo perigo iminente de vida, tipo se o avião estiver caindo. As Missas celebradas por ambos são válidas; as celebradas pelos padres da SSPX, porém, são ilícitas.

A FSSP depende, como qualquer outra congregação, da autorização do Bispo para abrir uma capela ou assumir uma paróquia em alguma diocese. A SSPX está pouco se lixando para o Bispo, agindo como uma “concorrência”. Eles vão e abrem a capela. Se o Sucessor dos Apóstolos reclamar, mandam lamber sabão.

A FSSP – como os Padres de Campos – está sob a autoridade do Santo Padre. Por exemplo, há poucos meses o Santo Padre retirou o superior que eles haviam (re)eleito e nomeou outro (Pe. Devilliers, um excelente sacerdote, que foi o responsável pela extraordinária difusão da FSSP nos EUA. Aliás, nos EUA a FSSP tem mais vocações que todas as arquidioceses somadas). A SSPX não está sob autoridade nenhuma que não a deles mesmos. O triste resultado desta situação é que a SSPX – ou melhor, seus superiores e alguns sacerdotes – tem frequentemente feito coisas que D. Lefebvre não aprovaria, como celebrar segundas núpcias (alegando a nulidade do matrimônio anterior, que só o papa pode declarar), pregar uma posição extremamente rigorista em alguns pontos (proibindo ver TV, por exemplo – eu não tenho TV nem quero ter, mas não é o caso de afirmar, como eles fazem, que ver o que quer que seja na TV é pecaminoso) e laxa em outros (como a questão das segundas núpcias), declarar que a Missa antiga celebrada por um padre da FSSP (ou qualquer padre que não da SSPX) ou a Missa nova celebrada por qualquer padre (inclusive o papa) não cumpre o preceito da Missa dominical…

A FSSP, exatamente por estar sob a tutela direta do Santo Padre, é muito mais sólida doutrinariamente. A SSPX, por outro lado, já deu origem a vários grupos sedevacantistas (que acham que João Paulo II não é o Papa de verdade; alguns acham que o papa “verdadeiro” é fulano ou beltrano, outros acham que não há papa), grupos pseudo-carismáticos reunidos em torno de videntes, etc.

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