D. Estêvão Tavares Bettencourt, osb (+2008)

Todas as religiões são boas?

– “Como responder à objeção tão divulgada: ‘Todas as religiões são boas?'”

Para responder à questão, devemos observar a seguinte distinção:

1) Qualquer religião é boa se aquele que a segue está plenamente convicto de que é a verdadeira religião e cumpre os seus preceitos com toda a fidelidade, de acordo com a sua consciência.

Assim, quem de inteira boa fé e de maneira coerente adere ao Islamismo, ao Budismo ou ao Protestantismo, sem jamais conceber dúvida sobre a veracidade da sua crença, pode salvar-se e obter o céu. Contudo, para que isto se dê – repitamo-lo – é necessária uma absoluta boa fé por parte do indivíduo.

Esta boa fé poderá ser um fato em regiões onde a educação e a mentalidade do povo estejam unanimemente imbuídas de certa religião (Budismo, Protestantismo…) sem que haja controvérsia a respeito. A boa fé, em geral, se pode pressupor mais facilmente em gente simples, pouco instruída, do que em pessoas de certa cultura e erudição, conhecedoras da História.

2) Desde, porém, que não haja no adepto de “tal” religião plena certeza de que está de posse da verdade.

Desde que, por meio de conversas, leituras ou coisa semelhante, lhe sobrevenham dúvidas sobre a autenticidade do credo que professa, é obrigado a indagar a verdade. Se, após as suas pesquisas, chegar à conclusão de que outra é a religião verdadeira, estará obrigado a aderir a esta outra. Se, porém, não obtiver resultado claro, deverá seguir o que a consciência lhe disser no momento (Deus, contudo, não se costuma se subtrair a quem O procura sinceramente).

A obrigação de não permanecer em dúvida religiosa é-nos imposta não somente por Deus, mas também pela dignidade humana. Com efeito, todo homem possui uma faculdade – a inteligência – ordenada a apreender a verdade; essa faculdade só se dá por satisfeita quando alcança a verdade. Não há quem não sinta a repulsa natural ao erro, à dúvida; se, não obstante, alguém permanece voluntariamente nestes, violenta ou mutila a sua razão, sua dignidade característica. A natureza humana vem a ser, portanto, a primeira a acusar o indivíduo que, por descuido consciente, pactue com a incerteza, a dúvida, arriscando-se a errar o seu caminho na vida – e perder o seu Fim último.

Embora todas as religiões em geral inculquem a prática da caridade e certos preceitos de Moral natural (desdobramentos do imperativo “Faze o bem, evita o mal”), cada uma delas se norteia por certo Credo. Ora, para que a Religião seja perfeita, é preciso que ela aponte não só a Moral boa, mas também o Credo verídico. Deve-se mesmo dizer que a Verdade tem o primado sobre o Amor, a Moral e o Bem; ilumina-o, dirige-o. A Verdade, porém, é uma só (dois e dois só podem dar a soma “quatro”); por conseguinte, só pode haver uma Moral autêntica e só uma Religião verdadeira; e a esta é que todos têm de procurar, desde que não possuam a certeza de a professar.

Em outros termos: o ideal do homem é agir não somente de boa fé (aderindo sinceramente a uma ideologia qualquer) mas também segundo a verdadeira fé (aderindo sinceramente a uma ideologia verídica ou à Verdade). Contentar-se com menos do que isto equivale a injuriar a nobreza humana e insultar o Autor dessa nobreza, o Criador.

Veja-se a respeito Estêvão Bettencourt, “A vida que começa com a morte”, Rio de Janeiro, 1958, capítulo 8.

 

  • Fonte: Revista Pergunte e Responderemos nº 2:1957 – jun-jul/1957.

 





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