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Um Novo Argumento para a Datação Não-Tardia do Novo Testamento?

Autor: Daniel Iglesias Grèzes

Publico aqui uma nova versão (corrigida e ampliada) de um artigo de 05.04.2015: (…) O termo “cristão” e a datação do Novo Testamento:

O objetivo deste artigo é esboçar um argumento sobre a datação do Novo Testamento (NT) baseado no emprego do termo “cristão”. Até onde consigo enxergar, parece ser um argumento novo e importante, ainda que o presente esboço precise de muitas ampliações e verificações. Tenho a esperança de que especialistas o avaliem e eventualmente o desenvolvam.

O ponto de partida é este: sabemos pelos Atos dos Apóstolos que o termo “cristão” surgiu pela primeira vez na Antioquia, em torno do ano 42:

– Atos 11,26: “E quando [Barnabé] o encontrou [Paulo], levou-o para Antioquia. Permaneceram juntos na igreja durante um ano inteiro e doutrinaram grande multidão. Foi em Antioquia onde pela primeira vez os discípulos foram chamados ‘cristãos’ (Χριστιανούς)”.

São Lucas não esclarece quem conferiu o nome de “cristãos” aos discípulos de Cristo, mas é razoável pensar que inicialmente foram os pagãos quem empregaram este nome e não os próprios discípulos de Cristo nem os judeus. Lembremos que “Cristo” é a tradução grega da palavra hebraica “Messias”, que significa “Ungido”. É provável que o termo “cristão” tivesse inicialmente um sentido depreciativo. Também é razoável pensar que, a partir da sua origem na Antioquia, por volta dos anos 40, o termo “cristão” tenha se difundido lentamente, tanto em sentido geográfico, quanto nos sentidos linguístico e sociológico, até chegar a ser usado em todo o Império Romano, quer em grego, quer em latim, não apenas pelos pagãos como também pelos judeus e até mesmo pelos próprios cristãos.

Pois bem: um fato capital é que em todo o NT o termo “cristão” (no sentido original grego) aparece tão somente 3 vezes: além de Atos 11,26, encontra-se ainda nos seguintes versículos:

– Atos 26,28: “Agripa respondeu a Paulo: ‘Por pouco, com teus argumentos, não me tornaste um cristão (Χριστιανὸν)'” – Aqui, quem usa o termo “cristão” é o rei da Judeia, Herodes Agripa. O discurso de Paulo perante Agripa deve ter ocorrido em torno do ano 60.

1Pedro 4,16: “Mas, se é cristão (Χριστιανός), que não se envergonhe: que glorifique a Deus por portar este nome” – Se a hipótese da origem pagã do termo “cristão” estiver correta, pode ser que este texto de São Pedro ateste uma transição: um termo que inicialmente era usado somente por não-cristãos para se referir aos cristãos, com um sentido depreciativo ou acusatório, logo é adotado pelos próprios cristãos. O contexto apoia esta interpretação: “Bem-aventurados se vos insultarem pelo nome de Cristo, porque o Espírito da glória, que é o Espírito de Deus, repousará sobre vós. Que nenhum de vós tenha que sofrer por ser homicida, ladrão, malfeitor ou fofoqueiro; mas, se é cristão, que não se envergonhe: que glorifique a Deus por portar este nome” (1Pedro 4,14-16). Ou seja: o “delito” é “ser cristão”. Diferentemente dos outros delitos mencionados, não é algo desonroso, mas glorioso.

Em suma: o termo “cristão” é bastante raro no NT. Nos 27 livros do NT a palavra “cristão” aparece só 3 vezes; 2 delas, em Atos: um livro escrito após o ano 60. Ao contrário, para designar os membros da Igreja de Cristo, o NT emprega vários outros termos (discípulos, irmãos, fiéis, santos, crentes etc.), inclusive alguns (como “santos”) logo deixaram de ser usados com esse significado. A palavra “cristão” não aparece nenhuma vez em nenhum dos quatro Evangelhos, em nenhuma das epístolas de Paulo, nem nas de João, nem no Apocalipse etc.

Vamos agora dividir o primeiro século da História da Igreja (anos 30 a 130) em dois períodos separados pela destruição de Jerusalém: o “1º Período” (anos 30 a 70) e o “2º Período” (Anos 70 a 130). Recordemos que a maioria dos exegetas atuais sustenta que a maioria dos livros do NT (todos, exceto algumas epístolas de Paulo, sobretudo 1 e 2Tessalonicenses, 1 e 2Coríntios, Gálatas e Romanos) foram escritos no 2º Período. Por sua vez, nosso 1º Período pode ser subdividido em dois Subperíodos: um 1º Subperíodo durante o qual o termo “cristão” não existia e um 2º Subperíodo durante o qual esse termo vai gradualmente se expandindo para uma área geográfica cada vez maior, mas ainda era pouco frequente, pelo menos entre os próprios cristãos.

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Minha tese, que eu praticamente me limitarei a enunciar, mas que deveria ser detidamente avaliada e (eventualmente) ser demonstrada de maneira exaustiva, é a seguinte: na literatura extrabíblica (cristã e não-cristã) do 2º Período, o termo “cristão” é bastante empregado, até se tornar o principal para designar os membros da Igreja de Cristo. Levanta-se, então, um grave problema, que pode ser assim exposto: se, como diz a maioria dos exegetas atuais, o NT – em sua maior parte – foi composto também no 2º Período, como explicar que só apareça nele o termo “cristão”? É bem improvável que isto se explique por mera casualidade. Tampouco convence a explicação de que os hagiógrafos, escrevendo no 2º Período, empregaram uma linguagem arcaica ou deliberadamente evitaram o uso do termo “cristão” por considerá-lo pouco adequado. Este último caso não se encaixa com o que sabemos por outras fontes acerca da terminologia da época. Opino que a explicação mais provável é a de que todos ou quase todos os livros do NT foram escritos no 1º Período.

Direi o mesmo usando outras palavras: o NT é um conjunto de 27 livros, escritos por muitos autores em momentos e lugares diferentes, e com estilos diferentes. Se:

1) a redação da maior parte do NT fosse tardia (digamos, entre os anos 70 e 100, inclusive com algumas epístolas ainda posteriores), como sustentam hoje muitíssimos exegetas;

2) se demonstrasse exaustivamente (além dos textos que apontarei) que na literatura cristã pós-apostólica (do período de 70 a 130) a palavra “cristão” era um termo frequente e “normal” da linguagem dos cristãos para apontarem a si mesmos; e

3) como é um fato patente, no NT a palavra “cristão” aparece apenas 3 vezes e, nessas vezes em que aparece reflete muito provavelmente um sentido arcaico, como um nome depreciativamente aplicado pelos não-cristãos aos cristãos,

então a tese desses exegetas enfrentaria um problema bem grave, pois não há qualquer argumento convincente para explicar essa importante discrepância terminológica entre dois amplos grupos de autores cristãos da mesma época (na hipótese desses exegetas). Isto seria uma razão bem forte para se revisar a datação das obras do NT, atribuindo a estas obras datações bem anteriores àquelas que hoje são habitualmente aceitas.

A seguir, sem pretender demonstrar exaustivamente a minha tese, apresentarei alguns dados ou argumentos favoráveis.

Graças ao precioso livro de Daniel Ruiz Bueno (“Padres Apostólicos”, edição bilingue completa, 5ª edição, Biblioteca de Autores Cristianos, Madri, 1985 – doravante citado como “DRB”), pude comprovar que no texto original grego da “Didaqué” (ou “A Doutrina dos Doze Apóstolos) aparece a palavra “cristão”:

“Mas se não trabalha, comportem-se conforme a vossa prudência, de modo que não viva entre vós nenhum cristão (Χριστιανός) ocioso” (Didaqué 12,4; in DRB, p.90).

Em sua introdução à Didaqué, Daniel Ruiz Bueno sustenta o seguinte:

“A Didaqué (…) é, ao que parece, o mais antigo escrito cristão não-canônico, anterior inclusive a alguns livros do Novo Testamento. (…) Foi altamente venerada nos primeiros séculos da Igreja e exerceu tamanha influência que, simplesmente, não existe obra [cristã desse período] que não guarde, explícita ou implicitamente, algum rastro dela. (…) Redigido este breve antiquíssimo Catecismo quando ainda não havia se encerrado o ciclo da Revelação (…) foi um daqueles livros que passaram um longo tempo rondando o cânon, sendo admitido como inspirado por uns e rejeitado por outros, até que lentamente, mas com um divino instinto que se deve admirar, a consciência geral da Igreja o abandonou definitivamente, deixando-o de fora do número daqueles autores ‘cujos escritos, divinamente inspirados, constituíram para nós, como que uma fortaleza para a nossa saúde, o cânon de saudabilíssima autoridade'” (DRB, pp.29-30).

César Vidal [Manzanares] escreveu o seguinte sobre a Didaqué:

“Datação: Audet a datou entre os anos 50 e 70, enquanto que Adam a situou entre os anos 70 e 90. Quasten, apesar de situar sua compilação entre os anos 100 e 150, não nega a possibilidade de que tenha sido escrita no século I. Nossa opinião – a mesma que é expressa por J. A. T. Robinson – é a de que a Didaqué é uma obra muito antiga, que pode inclusive ter sido redigida antes da destruição do Templo de Jerusalém, no ano 70 d.C. Esta antiguidade explicaria, pelo menos em parte, o fato de ter sido considerada por alguns como um escrito canônico. Quanto ao lugar da redação, os mais possíveis são Síria e Palestina”.

O uso “positivo” do termo “cristão” em uma obra tão breve e tão antiga como a Didaqué parece ser um argumento forte em favor da tese que exponho neste artigo.

Veja também  Resumo dos livros do novo testamento

Nas sete breves cartas de Santo Inácio de Antioquia (dos anos 105 a 110 aproximadamente), o termo “cristão” aparece 5 vezes. Ali, trata-se claramente de um termo da linguagem cristã. É bem provável que Santo Inácio não tenha sido o primeiro cristão a empregar esse termo de bom grado e de maneira habitural, de modo que podemos supor que pelo menos desde o ano 100 a palavra “cristão” era usada frequentemente pelos próprios cristãos. Porém, isso não ocorre no NT; logo, o NT é anterior ao ano 100, pelo menos.

Mas a tese aqui exposta poderia ter consequências maiores. Do ano 42 (quando na Antioquia se começou a chamar os discípulos de Cristo de “cristãos”) até o ano 110 (cartas de Santo Inácio de Antioquia) transcorreram 68 anos. A grande questão a se resolver é esta: quando, dentro deste período de 68 anos, o termo “cristão” foi adotado pelos cristãos como um termo normal para se referir a eles mesmos? Isso pode ter ocorrido bem antes do ano 110.

Quanto à Carta a Diogneto, muito provavelmente é do século II. Como ela emprega muitas vezes o termo “cristão”, isso faz com que seja cada vez mais difícil elevar a data da composição de alguns livros do NT para o século II, como propõem muitos exegetas.

Esta mesma análise se poderia repetir para todas as obras dos Padres Apostólicos. Se o resultado fosse bastante semelhante, provavelmente obrigaria a datar boa parte do NT em épocas bem anteriores às que hoje (sem provas firmes) se costuma a aceitar como certas.

Por outro lado, entre as antigas fontes pagãs, Plínio o Jovem, Tácito e Suetônio se destacam:

– Até o ano 112 d.C., Plínio o Jovem, legado imperial nas províncias da Bitínia e do Ponto, situadas na atual Turquia, escreveu uma carta para o imperador Trajano, perguntando-lhe o que deveria fazer com os cristãos, muitos dos quais havia ordenado executar. Nessa carta, menciona Cristo por 3 vezes por causa dos cristãos. Na terceira vez, diz que os cristãos “afirmavam que toda sua culpa e erro consistia em se reunirem num dia fixo, antes do alvorecer, e cantar em coros alternados um hino a Cristo, como que a um deus”. Nessa carta, bem breve, Plínio emprega 8 vezes o termo “cristão” e dá a entender que já então os cristãos se identificavam com esse nome (o que é confirmado pelas cartas de Santo Inácio de Antioquia);

– Os “Anais” do historiador romano Tácito, publicados no ano 116 d.C., fazem referência aos cristãos no Livro 15, passagem 44, dizendo (no contexto da perseguição de Nero contra os cristãos): “vulgus christianos appellabat” (“a quem o povo chamava ‘cristãos'”). O uso do termo “cristão” por Tácito é bastante consistente com a minha tese, porque seguramente reflete o uso desse termo pelo “vulgo” de Roma até o ano 64;

– Por volta do ano 120, o historiador romano Suetônio escreveu uma obra chamada “Da Vida dos Césares”. No livro dedicado ao imperador Cláudio (41-54), Suetônio escreve que Cláudio “expulsou os judeus de Roma, que continuamente provocavam alvoroços por instigação de Cresto”. A expulsão dos judeus de Roma por ordem de Cláuduo é mencionada também em Atos 18,2. Cristo era um nome novo para os romanos e Cresto era um nome mais ou menos comum; daí a confusão entre Cristo e Cresto, e entre “cristãos” e “crestãos”.

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O tema tratado neste artigo é complexo e eu não sou especialista nas obras dos Padres Apostólicos, muito menos em suas línguas originais, mas senti o dever de lançar no ar esta ideia para que os especialistas possam analisá-la a fundo. Para demonstrar plenamente a tese aqui esboçada, há ainda muito trabalho a ser feito. Um problema é que algumas obras da literatura patrística pós-apostólica não estão datadas com suficiente precisão. Outro problema é que se deveria sempre consultar os textos originais, não apenas as traduções para [as outras línguas] que, em um assunto como este, são apenas indicativas.

O meu argumento poderia se generalizar formulando uma metodologia terminológica de datação do NT, isto é, não há por que deixar de se considerar a palavra “cristão”. Tomemos por exemplo a palavra “católico”: nunca aparece no NT, porém Santo Inácio de Antioquia a emprega em uma de suas cartas para designar a Igreja universal. Certamente Santo Inácio não inventou essa palavra nem essa acepção, de modo que podemos assumir que já existia pelo menos desde o ano 100; com efeito, seria difícil que várias epístolas do NT fossem posteriores ao ano 100 (como propõem muitos exegetas) e, ainda assim, nunca surja nelas a palavra “católico”. E assim sucessivamente podem ser consideradas todas as palavras-chave da “língua cristã”, ou seja, as palavras novas criadas para expressar a novidade radical da mensagem cristã. Se algum de vocês já leu anteriormente um argumento igual a este, eu agradeceria muito que me fosse indicada a citação exata.

É verdade que este argumento não seria o único em favor de uma datação não-tardia do NT, devendo ser somado a um arsenal de argumentos cada vez mais amplo e forte.

Muitos exegetas racionalistas dos séculos XVIII e XIX sustentaram que o NT tinha sido escrito no século II ou talvez até mesmo mais tarde (séculos III e IV). Mas há muitas razões que tornam totalmente impossível uma redação tão tardia, entre elas:

1) a existência de muitos papiros dos séculos I, II e III com textos do NT; e

2) a existência de uma quantia inumerável de citações do NT nas obras dos Padres pré-nicenos. De fato, a partir destas citações seria possível reconstruir praticamente todo o NT.

Além dos argumentos apologéticos tradicionais, existem muitos trabalhos científicos recentes e sólicos (p.ex., as obras de Robinson, Carmignac, Tresmontant, O’Callanghan e Tyede), que sustentam uma datação não-tardia do NT, segundo as mais antigas tradições eclesiásticas. As datas das obras de São Paulo são mais ou menos conhecidas e as cartas de sua própria autoria (“autênticas”) são obviamente anteriores à sua morte (ano 67). Há excelentes razões para pensar que os Atos dos Apóstolos foram escritos por volta do ano 62 e o Evangelho de Lucas, antes dos Atos; e os Evangelhos de Marcos e Mateus, antes do de Lucas.

Há ainda datações absolutas de vários papiros do NT. E os papiros p64, p67, 7Q4 e 7Q5, conforme estas datações, pertencem ao século I. 7Q4 e 7Q5 são papiros de Qumran contendo textos do NT (7Q4 = 1Timóteo 3,16-4,3; 7Q5 = Marcos 6,52-53)[*]. A identificação de 7Q4 e 7Q5 com textos do NT é um trabalho rigoroso, reconhecido por excelentes papirólogos e rejeitado por exegetas em razão de preconceitos ideológicos. A identificação de papiros bem menores do que esses (e com erros semelhantes) é habitual em papirologia. Se não se referissem a textos do NT, ninguém teria questionado esta identificação porque a probabilidade de encontrar outros textos que concordem com estes papiros é baixíssima. A datação absoluta destes papiros é algo bem simples. As cavernas de Qumran foram lacradas no ano 68 d.C., de modo que 7Q4 e 7Q5 são anteriores ao ano 68.

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NOTA:
[*] Para se aprofundar nesta questão, recomendo: Carsten Peter Thiede; Matthew d’Ancona. “The Jesus Papyrus. The Most Sensational Evidence on the Origin of the Gospels Since the Discovery of the Dead Sea Scrolls”, Editora Galilee Doubleday: Nova Iorque-Londres-Toronto-Sidnei-Auckland, 2011.

  • Fonte: http://www.infocatolica.com/blog/razones.php/
  • Tradução: Carlos Martins Nabeto

 


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