O mundo atualmente vive uma realidade religiosa bastante peculiar, além do relativismo, que inibe de forma natural a busca pela transcendência, um grande mal assola as Missões e o aprofundamento espiritual; o sincretismo, criando uma nova doutrina, híbrida, pobre na sua fundamentação. No Brasil, este se alicerça principalmente numa “busca” por uma identidade cultural pelos brasileiros descendentes de africanos, reflexo do discurso clichê de que o catolicismo seria uma forma de “europerização”, esquecem, entretanto, que a Igreja levou valores cristãos a cultura pagã do Velho Continente, da mesma forma poderia atuar nas bases africanas, fornecendo uma vida fundamentada na Fé em Nosso Senhor.

O diálogo entre as diversas culturas é duplamente necessário; primeiramente por vivermos numa sociedade plural, sendo essencial uma convivência pacífica e amigável com a diversidade intrínseca ao ser humano, por outro lado, a Igreja, como a Esposa de Cristo encarregada de zelar pelas ovelhas do rebanho de Nosso Senhor, precisa levar a Boa Nova para todos os povos, conseqüentemente se faz necessário que saiba como lidar com as disparidades culturais, usando como forma de evangelização sem perder entretanto, a riqueza que contém na Tradição.O sincretismo vai justamente atacar o segundo pilar, as falsas crenças pagãs serão vistas como parte integral da cultura popular, sendo então intocadas em prol de um zelo com a diversidade, a crença no Deus Encarnado será alvo de relativização, a profissão da Fé será trocada pela manutenção de deuses ocos e vazios, baseando-se numa falsa bandeira de conservação cultural.

Esse pensamento não se fundamenta unicamente num falso respeito pela diversidade, suas bases são bem mais frágeis e corroídas. O então Cardeal Ratzinger disserta muito bem a respeito no encontro de presidentes de comissões episcopais da América Latina para a doutrina da fé, em Guadalajara (México): “O relativismo se tornou o problema central da fé na hora atual. Sem dúvida, já não se apresenta tão somente com seu vestido de resignação diante da imensidão da verdade, mas também como uma posição definida positivamente pelos conceitos de tolerância, conhecimento dialógico e liberdade, conceitos que ficariam limitados se se afirmasse a existência de uma verdade válida para todos. Por sua vez, o relativismo aparece como fundamentação filosófica da democracia. Esta, com efeito, edificaria-se sobre a base de que ninguém pode ter a pretensão de conhecer a via verdadeira, e se nutriria do fato de que todos os caminhos se reconhecem mutuamente como fragmentos do esforço para o melhor; por isso, procuram em diálogo algo comum e competem também sobre conhecimentos que não podem fazer-se compatíveis em uma forma comum. Um sistema de liberdade deveria ser, em essência, um sistema de posições que se relacionam entre si como relativas, dependentes, além disso, de situações históricas abertas a novos desenvolvimentos. Uma sociedade liberal seria, pois, uma sociedade relativista; só com esta condição poderia permanecer livre e aberta ao futuro”. No Brasil, o relativismo será alimentado especialmente pela teologia da libertação, Genésio Boff será o grande expoente; “Quanto mais diversidade melhor. Quanto mais expressões religiosas, mais facetas de Deus que se manifesta de mil maneiras”. Concluí-se que o sincretismo não vem sozinho, ele é reflexo de um mal que já assola as bases a muito tempo, gerando um falso respeito pela cultura em detrimento da piedade da Fé.

O Papa Bento XVI lembrou sobre isso quando se encontrava com representantes da Ucrânia, comentou sobre a necessidade de diálogo com a diversidade cultural, mas que “esse diálogo não deve cair no sincretismo, que põe no mesmo nível todo tipo de valores ou crenças, fundindo-os entre si”, continuou dizendo que “Em nosso mundo, cada vez mais condicionado pelas urgências da globalização, é necessário um diálogo exigente e profundo entre culturas e religiões, não nivelar todas em um sincretismo empobrecedor, mas para permitir que se desenvolvam em um respeito recíproco e que trabalhem, cada uma segundo seu carisma próprio, a favor do bem comum”.

A Bahia é sem dúvida o grande expoente do sincretismo no Brasil e no mundo, entretanto tal realidade é reflexo de uma luta social, ou aquilo que se considera como sendo. Os negros baianos buscam uma identidade cultural que acreditam ter sido destruída ao longo dos tempos, vivenciando uma crença que muitos não mais professavam. A questão nos leva a algumas conclusões; primeiramente falta por parte dos afro-descendentes uma compreensão geral do país, se desvincular de uma ancestralidade ferrenha, agir naturalmente, não criar de forma artificial uma bagagem cultural que não mais se possui, enfim, enxerga-se como brasileiros. O que eles chamam de “europerização” na verdade é um desenvolvimento inato dos que passam a viver a fé em Nosso Senhor. A Igreja fornece a humanidade preceitos, regras, valores, que vão lapidar o ser humano, conseqüentemente é natural que haja mudanças espontâneas que reflitam a vivência da piedade cristã, assim como a pagã Europa se cristianizou, tornando-se o baluarte da Santa Madre, os africanos passaram a absorver não um modelo europeu, mas a fé que modifica, ou melhor, transforma em cristãs atitudes, comportamentos, culturas, que outrora se alicerçavam em falsos deuses.

D. Geraldo Majella, Arcebispo Primaz de São Salvador da Bahia atribuiu as manifestações de sincretismo religioso presentes à “…. falta de conhecimento mais profundo da Religião e da Fé católica. Conseqüentemente, acreditam que qualquer coisa vale, que tudo está bem, que você pode misturar a Fé da Igreja com um outro credo, como se fosse algum tipo de mescla”.

Atualmente a África é um dos locais onde a Igreja mais cresce, reflexo da presença tímida, quando inexistente, do relativismo que mina a piedade religiosa em todos os cantos do Ocidente. Os africanos mostram hoje um catolicismo genuíno, piedoso e alicerçado na caridade, ao mesmo tempo sincero e puro. Se outrora gregos e romanos, com Diana, Zeus, Afrodite, etc, foram evangelizados transformando-se em povo de Deus, hoje a cultura africana, com toda a sua diversidade religiosa (Muçulmanos, animistas, etc) conhece um clero autóctone que vive de maneira integral e ortodoxa a fé da Santa Madre.Atualmente um dos maiores entusiastas do latim, é o Card. Arinze, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina do Sacramento,que na Conferência litúrgica de Gateway disse; “Os Papas e a Igreja encontraram o latim muito adequado por várias razões. É uma língua justa para uma Igreja que é universal, uma Igreja na qual todos os povos, línguas e culturas deveriam sentir-se em casa, e nenhum é considerado estrangeiro.”

Nosso Senhor nos forneceu um exemplo a ser seguido; São Daniel Comboni, um Bispo de profunda fé que se entregou completamente para a evangelização dos africanos, lutou para a criação de um clero indígena, e no Vaticano I levou os Bispos a sobrescreverem a petição em favor da evangelização da África Central (Postulatum pro Nigris Africæ Centralis). Enfrentou problemas de transporte, viu seus irmãos europeus morrerem enfermos, sofreu com o fundamentalismo islâmico, mas em nenhum momento desistiu de evangelizar e difundir a Boa Nova em meio aos africanos, converte-los ao povo de Deus, fazer com que a Igreja crescesse na “Nigrizia” de forma ortodoxa, alicerçando-se no Magistério, a serviço do Sumo Pontífice.

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