O professor “desencantado” é aquele que, como nós, saiu da Pós-Graduação com todo gás, animado com a carreira, esperançoso de um país melhor. Aí ele se depara com um auxiliar administrativo do DEGASE, que está na turma de filosofia porque receberá um aumento percentual de 7% na sua gorjeta se agregar ao currículo o ensino superior concluído. Este professor, confiante, tenta despertar no dito cujo amor ao conhecimento. Nosso professor acredita que ele é assim porque ainda não experimentou o Thauma grego. Tenta de tudo, mas nada tira o auxiliar do torpor original. Aí ele encontra uma aluna brilhante! Ela é dedicada, perspicaz, voluntariosa, atenta. Tem lampejos de brilhantismo… Meses depois ele descobre que ela está no curso porque quer aprender como convencer seus adversários políticos, como derrotá-los na lida diária do partido. O professor tenta dissuadi-la dizendo que o saber é bom em si, que a recompensa do filósofo é o conhecimento e não qualquer outro motivo extrínseco, por mais nobre que pareça. De novo, não tem êxito. E finalmente, o último suspiro do professor sonhador, é na turma de pedagogia de qualquer instituição privada do país. Lá ele tem a última e derradeira experiência: provas logicamente incompreensíveis, raros períodos dignos de serem ditos “compreensíveis”; argumentação ordinariamente inexistente. É aí que o professor, nosso colega, joga a toalha e grita interiormente: “Tolice! Tolice! Tolice! Quem amará o saber? Onde o conhecimento será recebido? Em que direção, a casa da sabedoria? A minha volta só interesse, mediocridade, utilitarismo”. Este, penso, é o primeiro nível da crise.

E então ocorre o segundo: o professor “desencantado” é chamado à direção da Instituição de Ensino Superior (IES) porque houve muitas “reprovações” na sua turma de Lógica I ou de História da Filosofia III. Ele argumenta que as reprovações foram totalmente justificadas, já que os alunos não cumpriram o mínimo necessário exigido pelas normas do IES, alguns até não fizeram a última avaliação. A reunião se desenrola, o professor toma a esfregada surpresa, mas só vai entender o que aconteceu quando conversa com um colega mais antigo na casa. Ele lhe revela, então, que os professores têm “cotas” de aprovação, e que não soava bem entre os colegas e, principalmente, para a direção, um novato reprovar tanta gente por conta de coisas miúdas, como “nota” e “presença”. Nesse momento a realidade se revela em sua dureza, cruel para com nosso colega: aqui também só há interesse! A Instituição salafrária apaga a última faísca de esperança do professor.

Bem, vocês podem pensar que o nosso amigo é um sonhador. Talvez seja! Talvez por isso tenha se “desencantado”. Mas quem de nós nunca sonhou com um país melhor? Quem nunca desejou um país onde as crianças do 5º ano saibam ler? Quem jamais sonhou com o dia em que sua sobrinha de 16 anos finalmente consiga entender o que leu? Definitivamente, não critico o professor sonhador.Não acho que ele está certo se aderir à prática dos seus outros colegas veteranos, mas mesmo assim não o critico. A questão é estrutural e nenhum professor honesto e sonhador encontrará apoio enquanto houver instituições salafrárias. Cabe ao governo fiscalizar as instituições de ensino, para o bem do Ensino Superior de nossa nação.

Enfim, não lamento o desencanto do nosso professor. Lamento apenas que um país como o Brasil permita que sonhos, como o do nosso colega, morram todo início de semestre…

De minha parte, quero testemunhar que, contrariamente ao que ocorre na maioria das IES do Rio de Janeiro, trabalho em duas instituições onde o apoio da direção ao professor é integral. Não há pressão de aprovação, como ocorre em outras faculdades conhecidas. Lá, a preocupação primeira é que o aluno se dedique e alcance méritos próprios, ainda que se tenha certeza da diversidade intelectual de cada um. Não se espera nota máxima de todos, mas se supõe que todos os aprovados o foram sem facilidades. Orgulho-me disso!

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