• Autor: d. Cristiano Krapf
  • Fonte: Lista “Reflexões”

Certo dia, um padre me surpreendeu com uma introdução diferente ao Evangelho: “Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo a comunidade de Lucas”.

Quando eu era menino, aprendi no catecismo que Deus se revelou aos homens em Jesus Cristo, Filho de Deus por natureza, Palavra de Deus para nós.

Nos tempos do curso científico apareceram algumas dificuldades sobre a inspiração divina da Bíblia, mas os Evangelhos eram relatos fiéis da Palavra de Deus. Os autores eram Mateus e João que contam o que ouviram pessoalmente da boca de Jesus e viram o Cristo fazer, Marcos que apresenta o que ouviu de Pedro, e Lucas que afirma que fez cuidadosa investigação para oferecer informações seguras. Ninguém podia chamá-lo de mentiroso. Menos ainda se podia chamar de mentirosa a Maria, única fonte de algumas informações importantes.

A igualdade de muitos trechos era explicada por tratar-se de relatos sobre acontecimentos reais e ensinamentos do Mestre, escritos por testemunhas oculares e por ouvintes de pregações repetidas dos apóstolos. As pequenas diferenças eram resultado natural da limitação da memória de ouvintes que não tinham câmaras e gravadores.

Muita coisa dependia da memória e da sinceridade dos evangelistas. Como saber se eram dignos de confiança? – Pela inspiração divina, assegurada na promessa de Jesus: “O Espírito Santo vos ensinará tudo o que vos disse”. Assim, a fidelidade histórica dos textos evangélicos era garantida pelo Espírito Santo que iluminou os seus autores, não para escrever novidades, mas para lembrar os ensinamentos de Jesus. No curso de teologia aprendi que não se deve atribuir a intervenções sobrenaturais as coisas que têm explicações naturais. Conheço um sapateiro que recita páginas inteiras da Bíblia sem errar uma palavra: “Dá para ver que não é coisa do outro mundo e os sinóticos contam com palavras idênticas as parábolas e os milagres de Jesus. E não há necessidade de explicações complicadas sobre uma longa história de fontes e cópias, redações e gêneros literários”.

Quanto a João, de memória mais abstrata que gravava melhor o conteúdo teológico, cuidou de apresentar os outros ensinamentos de Jesus e acrescentou reflexões pessoais, facilmente identificáveis no seu Evangelho. A inspiração divina não foi para dispensar o trabalho humano dos evangelistas, mas para garantir que os Evangelhos apresentassem realmente, para todos os tempos, o ensinamento de Jesus, a Palavra de Deus.

Quanto aos problemas com outros textos bíblicos, ainda me lembro de uma boa orientação de um colega: “A Bíblia respeita a liberdade do leitor. Oferece luz suficiente para quem deseja ver, mas contém dificuldades que oferecem uma desculpa para quem não quer crer. Ou, pelo menos, um pretexto”.

As coisas se complicaram com as teorias de exegetas protestantes que negavam o valor histórico dos Evangelhos, chegando com Bultmann ao ponto de jogar a Bíblia na lata dos mitos, com o pretexto da chamada desmitologização. O ponto de partida desta nova exegese é a impossibilidade de acontecimentos sobrenaturais. Milagres não são possíveis. Portanto, não houve milagres, e os respectivos textos devem ser entendidos como lendas.

A atitude destes exegetas não é nenhuma novidade. Tomé também pensava que a ressurreição não era possível. Só acreditou quando viu. Os teólogos e sacerdotes daquele tempo também não admitiam a possibilidade da ressurreição de Jesus. Para explicar o túmulo vazio diziam que os discípulos teriam escondido o cadáver, e Jesus não fez outro milagre para convencê-los. Se naquele tempo já foi difícil, como provar aos incrédulos de hoje que Jesus ressuscitou? Aliás, segundo uma teoria dos escribas de hoje, a ressurreição de Jesus não teria nada a ver com a continuação dos seus restos mortais no túmulo.

Todos os métodos histórico-críticos e teorias sobre gêneros literários, sobre Formgeschichte, Quellengeschichte, Redaktionsgeschichte, têm por pressuposto a redação tardia dos Evangelhos, pois a formação destas lendas e destes mitos exige muitas décadas de comunidades cristãs. Consequência lógica destas teorias é que nos Evangelhos não temos a Palavra de Deus, e nem mesmo as palavras de um certo homem Jesus, mas palavras que alguma comunidade inventou como resposta aos seus problemas e colocou na boca de Jesus.

Naquele tempo, os jesuítas da Gregoriana refutavam bravamente estas teorias que esvaziavam os fundamentos racionais da fé. Agora, nas últimas décadas do século, também a teologia católica, se ainda é permitido falar em “teologia católica”, foi amplamente contaminada pela teologia neoliberal. Estou chamando assim esta tendência, porque suas origens estão na exegese protestante liberal alemã.

A contaminação foi tão avassaladora que não se pode discordar sem ser considerado desatualizado e ultrapassado. Conservador virou palavrão, também na Igreja.

A confusão atual da teologia faz lembrar o que disse o historiador Jerônimo sobre a situação da Igreja nos tempos do herege Ario: “Ingemuit totus orbus, et arianum se esse miratus est”. Assim como no século quarto o mundo se tornou Ariano, a teologia deste século virou Bultmaniana. O problema principal é o mesmo, é a questão da divindade do Cristo. Só que os novos arianos não negam a divindade de Jesus. Apenas não admitem nenhuma intervenção divina direta na história humana e relativizam palavras como revelação e encarnação, graça e salvação. Não negam que Jesus é o Filho de Deus. Mas o que significa esta expressão? Afinal, somos todos filhos de Deus.

A confissão babilônica destas novas teologias é que usam as palavras com significados diferentes, sem a dimensão sobrenatural. No Brasil, estas teorias foram popularizadas por Leonardo Boff num livro que chegou a ser adotado como manual de Cristologia em escolas de teologia. Este livro ainda apresenta tais teorias como teorias, mas já adota frases ambíguas como esta: Jesus era tão humano, que só podia ser divino. L. Boff acrescentou, com outros escritores latino-americanos, uma mudança de enfoque, de salvação para libertação.

Muitos querem uma teologia que esteja acima das igrejas, num ecumenismo confuso. Outros não querem apenas ultrapassar os limites confessionais, mas também as fronteiras do Cristianismo. Querem uma teologia que esteja acima das religiões. Um exemplo extremo disto temos num livrinho de Ivone Gebara sobre a Trindade.

Aonde pode levar a relativização da revelação se vê também num artigo de revista que propõe que a Igreja venha corrigir alguns erros das tábuas de Moisés, e que mude o sexto mandamento para “Festejarás o corpo”. Quer também que o nono mandamento, que desconfia do desejo, o declare como sacro (ver revista “Sem Fronteiras”, abril de 98). Quer que a Igreja pregue o que agrada, em vez de incomodar com ideais e exigências, mandamentos e proibições.

Muitos aceitam a teoria da redação tardia dos Evangelhos, e outros pressupostos que esvaziam seu valor histórico, sem aceitar as conseqüências mais radicais, e sem perceber que estas conclusões são a razão e a finalidade destas teorias. As explicações complicadas sobre a origem dos textos bíblicos foram formuladas com o propósito explícito de eliminar qualquer coisa que cheirasse a milagre. Sem negar os milagres, para não assustar.

Que estas teorias são mais tendenciosas que científicas ficou claro na reação nada científica dos teólogos neoliberais diante de um documento recente de Qumran com uma prova razoável sobre a existência de pelo menos uma cópia de pelo menos um pedaço do Evangelho de Marcos anterior à destruição de Jerusalém. Como este documento contrariava suas teses, não podia ter valor.

A releitura neoliberal dos Evangelhos encontrou acolhida em muitos livros editados por editoras católicas, e até mesmo em textos para catequese.

Um livro sobre o Evangelho de Mateus, com o título bonito: “Ele está no meio de nós”, está cheio de exemplos do esvaziamento e da alteração do sentido de palavras teológicas fundamentais. Tem um enfoque tão tendencioso que parece um produto da firma Bultmann & Discípulos, com alguns acréscimos católicos e alguns enfoques de libertação. Perguntei ao ilustre exegeta que endossou o livro se ele leu com atenção o que assinou. Ele respondeu que não encontrou nenhuma heresia. Também não achei nenhuma negação formal de um dogma definido, mas o livro inteiro me parece feito para esvaziar a autoridade divina do Evangelho. Apresenta as teses da escola de Bultmann como se fossem verdade estabelecida:

  • Nada de inspiração divina ou revelação: a Bíblia é texto sagrado que nasceu da vida de nossos pais. … Assim também nasceu o Evangelho de Mateus: do dia-a-dia das comunidades espalhadas pelo norte da Galiléia e Síria entre os anos 80-90 (pág. 7).
  • Redação tardia do texto: bem depois de 85 (págs. 24-25), entre os anos 80-99 (pág. 84).
  • Autor desconhecido: o Evangelho de Mateus brotou do chão de vida destas comunidades (pág. 31). É fruto de um grande mutirão. Descreve a vivência das comunidades do norte da Galiléia e da Síria (pág 30). O Evangelho de Jesus foi escrito neste clima de briga entre irmãos (grupos do judaísmo). Este, certamente, não foi o contexto de Jesus (pág 28).
  • Muitas coisas não aconteceram como são apresentadas no Evangelho, ou, pelo menos, não se pode saber se foi assim: o livro não diz se alguma coisa aconteceu assim como diz o Evangelho. Vários textos têm a sua autenticidade histórica explicitamente negada. Por exemplo, os capítulos que se referem à infância de Jesus. Assim, como todo o Evangelho, as histórias da infância de Jesus não são biografia (pág. 39). Como muitas outras afirmações do livro, esta pode ser entendida de muitas maneiras, desde a constatação óbvia que faltam elementos que hoje consideramos importantes para uma biografia, como data e certidão de nascimento, até a negação de verdades fundamentais da fé. No livro todo, tantas coisas são apresentadas como invenções da comunidade, que o leitor fica sem saber se algum dos textos evangélicos tem valor histórico. Nem a narrativa da Paixão e Morte merece confiança: “…não se trata de uma descrição histórica” (pág 187).
  • Muitas palavras atribuídas a Jesus não são dele: pelo menos, não se pode saber se são. Não achei neste livro nenhuma palavra apresentada com segurança como palavra de Jesus. Entre outras coisas, o segundo grito na cruz (“Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”) não podia ser de Jesus (pág. 199).
  • Palavras específicas da teologia cristã têm o seu conteúdo diluído e o seu sentido mudado pelo uso impróprio com significados diferentes: “ressuscitar” é seguir esse Jesus, Semeador do Reino, com a prática da nova justiça a partir da misericórdia e da solidariedade (pág. 210). A “salvação” vem quando a humanidade reconhece sua fraqueza e começa a organizar o mundo a partir dos pequenos (pág. 44). Palavras como “revelação” e “inspiração” sumiram. Na teologia neoliberal, estas coisas não são negadas, são apenas dispensadas. A “graça” também sumiu e a “fé” ficou sem graça. As últimas conseqüências da negação da verdade histórica dos Evangelhos, ou de “verdades históricas nos Evangelhos”, podem ser formuladas numa tese extrema: “A fé não se baseia em acontecimentos históricos. Pelo contrário, foi a fé que criou as histórias da Bíblia”. Ou assim: não foi a palavra de Jesus que formou as comunidades cristãs; foram as comunidades que colocaram suas idéias na boca de Jesus. A tese filosófica semelhante seria esta: “Não foi Deus que criou o homem, foi o homem que inventou Deus”.

Segundo Bultmann, a fé é mais pura quando não precisa do apoio de documentos e milagres. Confesso que minha fé precisa destas muletas. Tenho algo de Tomé. Para poder crer no Evangelho preciso saber que foi o próprio Jesus que ensinou estas coisas, e que ele é o Filho de Deus. Não posso basear minha fé e minha vida em ensinamentos inventados por alguma comunidade anônima.

Pessoalmente, tenho certeza que os Evangelhos sinóticos, os atos dos Apóstolos e as cartas de Paulo não foram escritas lá pelo fim do século, mas antes da destruição de Jerusalém, e mesmo antes da morte de Paulo. Não é certeza de fé, mas de estudo e de raciocínio. Não consigo imaginar os Apóstolos tão descuidados que tivessem esperado tantos anos para colocar alguma coisa por escrito.

Não tenho provas, mas os adeptos da Bultmania também não têm, a não ser a prova da impossibilidade. Se não é possível que as coisas tenham acontecido como estão escritas, então concordo que é preciso encontrar alguma explicação diferente. Qualquer explicação serve. Quanto mais complicada, melhor, que fica mais difícil a sua refutação.

Ainda não vi nenhum outro argumento consistente contra a autenticidade dos textos evangélicos. O argumento da impossibilidade parece ser definitivo, mas não tem rigor lógico, nem científico, nem filosófico, nem religioso. Aos que dizem que não é possível, portanto não aconteceu, respondo que aconteceu, portanto é possível. Se é impossível para Deus fazer as coisas acontecer assim como estão escritas no Evangelho, este Deus não me interessa. Este Deus não é Deus.

Admito que, para acreditar em coisas aparentemente impossíveis, precisamos ter razões muito sólidas. O problema do milagre é que só convence a quem está presente, e mesmo aos que o presenciam ainda deixa a possibilidade de fechar os olhos para não ver. Mas Jesus proclama feliz aquele que crê sem ver. Se é que foi Jesus que disse isso a Tomé. Segundo a exegese que está na moda, esta é uma das palavras que não podem ser atribuídas a Jesus. Foram outros que a colocaram na boca dele, ou no mínimo, não podemos ter certeza.

Admiro a capacidade de trabalho e a dedicação de pessoas que, sob encomenda, de repente fabricam trabalhos deste tamanho. O livro tem muitas coisas boas, mas não devia perder tempo com a tentativa de inculcar teorias que estão na moda hoje e serão esquecidas amanhã. Infelizmente, antes de descer aos porões dos museus da história das religiões, ainda vão abastecer por muito tempo os arsenais de uma nova era que procura uma Bíblia sem Revelação e um Cristianismo sem Encarnação.

Não falo para criticar o que já foi feito. Estou preocupado com o futuro. Se fizeram isto com Mateus, o que não farão com João? Não quero condenar um teólogo qualquer que adota opiniões divergentes, mas não posso aceitar que teorias da teologia neoliberal, contrárias às minhas convicções e às tradições da Igreja, sejam publicadas em meu nome, como se fossem ensinamentos da CNBB, doutrina da Igreja. Não posso concordar, não posso tolerar, não posso deixar passar sem reclamar.

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