Respostas Católicas

Uma seita é uma seita: resposta a dave hunt

Um dos métodos apologéticos que mais me tem facilitado o trabalho – na medida de minhas possibilidades – é extrair citações de autores anticatólicos (como Daniel Sapia, Jack T. Chick etc.) e oferecer-lhes uma resposta concisa, bíblica e cristã, seguindo uma ordem e um sistema.

Os assuntos abordados por estes autores percorrem muitas áreas da doutrina cristã, discutindo pontos de interpretação bíblica que dão origem a discordâncias entre a doutrina católica e as doutrinas protestantes.

No entanto, já há algum tempo, está na moda entre os anticatólicos ATACAR a Igreja Católica por outros flancos, não relacionados com a doutrina que ela ensina, mas com AÇÕES que ela realiza como Instituição: o Papa como sucessor de São Pedro e chefe visível da Igreja ou alguns fiéis católicos individualmente.

Estas ações que criticam são várias e, em certas ocasiões, ridículas como fundamento para o ataque de quem as invoca. Basta citar o uso da cruz invertida, que no sentido cristão significa a cruz de São Pedro e que (unicamente) alguns anticatólicos enxergam como símbolo satânico. Outros exemplos são o caso dos padres pedófilos, as peregrinações e manifestações do culto católicos (que apenas na mente de certos fundamentalistas têm significado idolátrico) etc.

Neste artigo, o autor enfoca aspectos mistos (doutrina e ações) e que, sobretudo, se relacionam ao ECUMENISMO que a Igreja Católica vem buscando há algumas décadas, desde que o Concílio Vaticano II abriu o caminho do diálogo interreligioso e da unidade entre os cristãos.

Não me surpreende que existam pessoas que resistam desesperadamente às tentativas de união fomentadas pela Igreja Católica. O que me surpreende é a série de razões, ou melhor dizendo, supostas razões, com as quais acreditam justificar o seu antiecumenismo, propiciando a separação, divisão e ÓDIO entre os próprios cristãos.

Por isso, responderei e comentarei um artigo assinado pelo anticatólico Dave Hunt[1], patrocinado por antiecumênicos de língua espanhola.

Cada citação de Hunt [em preto] terá sua resposta e comentário [em azul], na ordem que tenho seguido em outros artigos. O artigo original encontra-se AQUI .

– A igreja evangélica da atualidade vem sendo enganada como nunca fora anteriormente em toda a sua história. Enfrenta um perigo tão grave que, embora tenhamos abordado antes esse problema, deve novamente ser tratado com um renovado entendimento e um novo vigor.

Para começar, a linguagem da introdução possui um tom sensacionalista. Me faz recordar numerosos discursos de líderes políticos ao povo, com a finalidade de colocá-lo de prontidão.

Faz lembrar George Bush advertindo “do perigo terrorista contra os Estados Unidos” ou Fidel Castro avisando que “os norte-americanos querem invadir a nossa ilha”.

Isto provoca tensão no leitor, que espera que o autor lhe informe salvificamente da “terrível ameaça” que está por vir.

– Se os evangélicos sucumbem diante de semelhante engano, tal como estão a fazer, seu alcance evangelizador se verá submerso em total confusão e pode ser totalmente extinto: uma nova e trágica dimensão da apostasia da qual a igreja e o mundo jamais poderão se recuperar.

Segue em uma linguagem apocalíptica: é o fim, um engano que acabará com a igreja e o mundo!

Sendo Hunt um autor protestante, compreendo que quando diz “igreja” quer dizer “Igreja Cristã”, ou melhor dizendo, aquilo que os protestantes entendem por “Igreja Cristã”.

Primeiro erro: o argumento de Hunt é totalmente ANTIBÍBLICO – a Igreja de Cristo (inclusive como a concebem os protestantes) NÃO PODE CAIR EM APOSTASIA e não pode ser EXTINTA.

Cristo prometeu que as portas do inferno (por mais fortes que sejam) não prevalecerão sobre a Sua Igreja (Mateus 16,18) e prometeu estar com os Seus Apóstolos TODOS OS DIAS até o fim do mundo (Mateus 28,20).

Ou um ou outro: ou Hunt não crê nas promessas de Cristo ou nem sequer as conhece!

– A maior e mais perigosa seita (maior também que todas juntas) não se encontra incluída na lista! A maioria dos especialistas no estudo das seitas se recusam a identificar esta horrenda seita com o que realmente é e a aceitam como uma “igreja cristã”.

Antes de apontar a [igreja] acusada, Hunt PREPARA o leitor para que, desde logo, tenha uma má referência dela. Observemos os adjetivos: “a mais perigosa” e “horrenda”.

Uma seita “maior que todas juntas” não pode, certamente, ser colocada no mesmo saco que as outras. Deve possuir uma importância considerável e, como tal, não poder ser “uma a mais” na “lista de seitas”.

Hunt não apresenta esta “lista de seitas”. Limita-se a nos dizer que “os evangélicos a elaboraram” e, assim, temos que nos conformar com essa sua informação não provada.

– A hierarquia das Assembléias de Deus tem se comprometido em “diálogos frutíferos” com a referida seita, cujos membros agora são considerados amplamente como verdadeiros cristãos nascidos de novo. Em consequência disto, a igreja evangélica enfrenta uma crise sem precedentes que ameaça sua própria sobrevivência.

Notemos que Hunt – talvez inconscientemente – demonstra CLARAMENTE a divisão teológica e de critérios que existe entre os protestantes. Diz que as Assembléias de Deus aprovam algo que ele mesmo não aprova.

Mas que credenciais possui Hunt que o tornam mais digno de confiança do que as Assembléias de Deus? Nada é apresentado!

Repetimos então, para que o sr. Hunt não fique angustiado: se toda a diversidade de congregações protestantes são a Igreja de Cristo, então não acabarão, por mais “ameaçada” que esteja sua sobrevivência.

– O que é uma seita? Em seu livro “O Aumento das Seitas”, Walter Martín define o sectarismo como “qualquer desvio importante do Cristianismo ortodoxo relacionado com as doutrinas cardeais da fé cristã”. Embora Martín não mencione em seu livro, o catolicismo romano é inegavelmente um “gigantesco desvio do Cristianismo ortodoxo” em muitas “doutrinas cardeais da fé cristã”; assim, por sua própria definição, é uma seita.

Para começar, ninguém está obrigado a aceitar inexoravelmente as definições do sr. Walter Martín sobre o que é ou não uma seita.

Da mesma forma, Hunt estabelece uma premissa inicial, segundo a qual “não se pode negar que o Catolicismo é uma seita”.

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Pode ser que haja problema com este argumento: os leitores podem usar seu próprio critério para negar ou não o que Hunt diz, e não se sujeitam às premissas do autor. Assim, PODE-SE NEGAR que o Catolicismo é uma seita.

– O reconhecimento dessa verdade começou com a reforma protestante. Negar que o catolicismo romano seja uma seita é repudiar a reforma e ironizar os milhões de mártires que morreram nas mãos de Roma, como se tivessem perdido suas vidas em vão.

É necessário ressaltar que o sr. Hunt possui um jeito POUCO SÉRIO de enfocar as coisas e de falar mal das outras confissões: quando Hunt quis informar o leitor sobre o que É UMA SEITA, citou um autor. Agora, porém, nos afirma sem qualquer referência bibliográfica, que houve “milhões de mártires assassinados por Roma”.

Por “Roma”, Hunt identifica a Igreja Católica e nos vem dizer que ela “assassinou milhões”, sem sustentar sua afirmação com uma mínima referência.

Para um grande investigador, não custa torcer o nariz para semelhante imprecisão.

– Se Lutero, Calvino e outros reformadores vivessem na atualidade, denunciariam o catolicismo romano como a maior das seitas e a mais perigosa sobre a face da terra. No entanto, o I.I.C. (Instituto de Investigações Cristãs-CRI) juntamente com outros grupos que denunciam as seitas, se recusam a classificar o catolicismo romano como seita.

Sem dúvida, Lutero e Calvino diriam muitas coisas, porém os católicos teriam cuidado; não teríamos RAZÕES DE PESO para crer neles, assim como a Igreja Católica do século XVI também entendeu que não eram merecedores de crédito.

No tocante ao Instituto de Investigações Cristãs não classificar o Catolicismo como seita, deveria o sr. Hunt pedir-lhe os motivos que tem para isso.

Uma organização séria – como suponho que seja o referido Instituto – não faz as coisas sem motivo; deve pois ter RAZÕES DE PESO, embora não sejam citadas por Hunt.

– Nenhuma seita arrogantemente exige uma total e tão completa entrega da mente e da consciência como o catolicismo romano.

É mentira. A Igreja Católica reiterou numerosas vezes a liberdade de pensamento e a liberdade de deixar a Igreja que qualquer pessoa tem direito. Obviamente, a Igreja adverte que, deixando-a, deixa-se o Corpo de Cristo.

Algumas citações ilustrativas:

Catecismo da Igreja Católica:

1738. A liberdade se exerce no relacionamento entre os seres humanos. Toda pessoa humana, criada à imagem de Deus, tem o direito natural de ser reconhecida como ser livre e responsável. Todos devem a cada um esta obrigação de respeito. O direito ao exercício da liberdade é uma exigência inseparável da dignidade da pessoa humana, sobretudo em matéria moral e religiosa (cf. DH 2). Este direito deve ser reconhecido civilmente e protegido nos limites do bem comum e da ordem pública (cf. DH 7).

Declaração Dignitatis Humanae, do Concílio Vaticano II:

9. O que este Concilio Vaticano declara acerca do direito do homem à liberdade religiosa funda-se na dignidade da pessoa, cujas exigências foram aparecendo mais plenamente à razão humana com a experiência dos séculos. Mais ainda: esta doutrina sobre a liberdade tem raízes na Revelação divina, e por isso tanto mais fielmente deve ser respeitada pelos cristãos. Com efeito, embora a Revelação não afirme expressamente o direito à imunidade de coacção externa em matéria religiosa, no entanto ela manifesta em toda a sua amplidão a dignidade da pessoa humana, mostra o respeito de Cristo pela liberdade do homem no cumprimento do dever de crer na palavra de Deus, e ensinar-nos qual o espírito que os discípulos de um tal mestre devem admitir e seguir em tudo. Todas estas coisas iluminam os princípios gerais sobre que se funda a doutrina desta Declaração acerca da liberdade religiosa.

– Sire acusa os mórmons de seita porque agregam outras revelações à Bíblia, porém Roma agregou novas revelações à Bíblia, mais do que os próprios mórmons!

Fiel ao seu estilo, Hunt continua – sem PROVAR – que “Roma agregou revelações bíblicas”.

Isto é uma flagrante mentira. A Igreja Católica afirma, claramente, que a Bíblia encontra-se completa e que não há revelação universal de Deus fora da Bíblia.

Para ilustrar, eis uma citação extraída do Catecismo da Igreja Católica:

66. “A Economia cristã, portanto, como aliança nova e definitiva, jamais passará, e já não há que esperar nenhuma nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo” (DV 4). Todavia, embora a Revelação esteja terminada, não está explicitada por completo; caberá à fé cristã captar gradualmente todo o seu alcance ao longo dos séculos.

– Consideremos também o livro “A Agonia do Engano”, publicado por Moody. No entanto, esse livro também justifica o catolicismo romano. Na página 65, lemos o seguinte: “O catolicismo romano tradicional […] adere à inerrância bíblica”. Mas o contrário é a verdade: o catolicismo romano nega explicitamente a inerrância bíblica! O parágrafo seguinte reconhece que “a mensagem (do protestantismo e do catolicismo) estão em pólos opostos”, mas não se toma o cuidado de identificar essas diferenças de vital importância.

Mentira! A Igreja Católica não rejeita a inerrância da Bíblia. A Bíblia é infalível se for infalivelmente interpretada. Por isso mesmo, o Papa deve ser infalível (por assistência do Espírito Santo), no momento de definir uma doutrina de fé ou moral com base na Bíblia e na Tradição. É totalmente o contrário do que Hunt afirma! E se a Igreja Católica “nega explicitamente a inerrância da Bíblia”, onde ela afirma isso, em qual documento?

E o que é mais irônico: agora é Hunt quem acusa um autor de “não tomar o cuidado de esclarecer certas coisas”… como se ele, Hunt, podesse atirar a primeira pedra!

Citação ilustrativa do Catecismo da Igreja Católica:

107. Os livros inspirados ensinam a verdade. “Portanto, já que tudo o que os autores inspirados (ou hagiógrafos) afirmam deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, deve-se professar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus em vista de nossa salvação quis fosse consignada nas Sagradas Escrituras” (DV 11).

– Na página 111 afirma o seguinte: “A igreja católica resistiu muitas heresias a respeito da Pessoa de Cristo e […] os protestantes continuaram afirmando a Cristologia católica”. Mais uma vez isto é terrivelmente falso! A Cristologia católica é totalmente herética. Essa Cristologia nega o papel exclusivo de Jesus Cristo como Mediador entre Deus e os homens, tornando Maria também “mediadora”. Nega ainda a exclusividade da Sua obra redentora, tornando Maria “co-redentora” (o Concílio Vaticano II atribui a Maria “um papel perpetuamente salvador; ela continua obtendo através da sua constante intercessão as graças que necessitamos para a salvação eterna”). E também nega a suficiência da Sua obra de redenção, declarando que o redemido deve sofrer por seus próprios pecados aqui nesta terra ou no purgatório, acrescentando algo ao sacrifício de Jesus sobre a cruz etc.

Com base no acima exposto, tenho sérias dúvidas se o sr. Hunt sabe ao menos o que é Cristologia…

A Cristologia é o ramo da Teologia que estuda Cristo, o Redentor. Ninguém estuda aqui a mediação de outras pessoas e, obviamente, não estuda se Cristo é ou não é o único que pode interceder. A Bíblia ocupa-se de nos ensinar que existem outros intercessores além de Cristo e esperamos que isto não seja novidade para o sr. Hunt.

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Ademais, a Cristologia católica não nega a suficiência da Redenção; ao contrário, a afirma com mais detalhes que o próprio Hunt.

E, seguindo sua linha de ação, Hunt OMITE POR COMPLETO as citações dos documentos católicos que “neguem, afirmem, façam de Maria” etc. etc.

Citação ilustrativa do Catecismo da Igreja Católica:

601. Este projeto divino de salvação mediante a morte do “Servo, o Justo” (Is 53,11; cf. At 3,14) havia sido anunciado antecipadamente na Escritura como um mistério de redenção universal, isto é, de resgate que liberta os homens da escravidão do pecado (cf. Is 53,11–12; Jo 8,34–36). São Paulo, em sua confissão de fé que diz ter “recebido secundum Scripturas” (1Cor 15,3), professa que “Cristo morreu por nossos pecados segundo as Escrituras” (ibidem: cf. tb. At 3,18; 7,52; 13,29; 26,22–23). A morte redentora de Jesus cumpre em particular a profecia do Servo Sofredor (cf. Mt 20,28). Jesus mesmo apresentou o sentido de sua vida e de sua morte à luz do Servo Sofredor. Após a sua Ressurreição, ele deu esta interpretação das Escrituras aos discípulos de Emaús (cf. Lc 24,25–27), e depois aos próprios apóstolos (cf. Lc 24,44–45).

– Todavia, é maior a quantidade de heresias encontradas na Cristologia católica ao apresentar Jesus Cristo como um eterno infante ou como um menino sempre sujeito à sua mãe e perpetuamente pregado na cruz.

Isto já não é falta de seriedade, é verdadeira molecagem.

A Igreja Católica não apresenta Cristo como um “eterno menino”. Basta ver as representações do Cristo adulto ensinando, pregando, fazendo milagres…

Tampouco o apresenta “perpetuamente pregado na cruz”. A Igreja não apenas crê na Ressurreição como também faz da Ressurreição de Cristo um dos mais importantes dogmas de fé da sua Cristologia. Dedica uma Missa e um dia inteiro para festejar a Ressurreição de Cristo.

O Rosário Católico centraliza-se na figura de Cristo e dedica DOIS MISTÉRIOS para refletir sobre o Cristo Ressuscitado e Ascendido aos céus.

Conclusão? Hunt MENTE!

Citação ilustrativa do Catecismo da Igreja Católica:

654. Há  um duplo aspecto no Mistério Pascal: por sua morte Jesus nos liberta do pecado, por sua Ressurreição Ele nos abre as portas de uma nova vida. Esta é primeiramente a justificação que nos restitui a graça de Deus (cf. Rm 4,25), “a fim de que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova” (Rm 6,4). Esta consiste na vitória sobre a morte do pecado e na nova participação na graça” (cf. Ef 2,4–5; 1Ped 1,3).. Ela realiza a adoção filial, pois os homens se tornam irmãos de Cristo, como o próprio Jesus chama seus discípulos após a Ressurreição: “Ide anunciar a meus irmãos” (Mt 28,10, Jo 20,17). Irmãos não por natureza mas por dom da graça, visto que esta filiação adotiva proporciona uma participação real na vida do Filho Único, que se revelou plenamente em sua Ressurreição.

– Conforme esse ensinamento, também podemos sofrer pela salvação de outros (a constituição apostólica de 1 de janeiro de 1967, Indulgentarium, Doctrina, #1678, insta aos católicos para que “cada um carregue sua própria cruz em expiação por seus pecados e pelos pecados dos outros […] assistindo aos seus irmãos para obter a salvação de Deus”). Para os protestantes, esta é uma das heresias mais vis.

Parece que Hunt nunca leu o versículo de Mateus 16,24. É Cristo quem nos insta a carregar nossa cruz, não a Igreja Católica. Esta apenas repete as palavras do Redentor.

A Cruz é um instrumento que impõe sofrimento e é possível, efetivamente, sofrer pela salvação de outros:

“Com efeito, à medida que em nós crescem os sofrimentos de Cristo, crescem também por Cristo as nossas consolações. Se, pois, somos atribulados, é para vossa consolação e salvação. Se somos consolados, é para vossa consolação, a qual se efetua em vós pela paciência em tolerar os sofrimentos que nós mesmos suportamos. A nossa esperança a respeito de vós é firme: sabemos que, como sois companheiros das nossas aflições, assim também o sereis da nossa consolação” (2Coríntios 1,5-7).

Agora, se estes versículos bíblicos parecem a Hunt como “uma das heresias mais vis”, o que podemos fazer?

Eu, pelo menos, não aceito a postura de alguém que chama de “heresia vil” a Palavra de Deus, a Bíblia Sagrada.

– O desvio do catolicismo romano do cristianismo bíblico toca diretamente no coração da fé, na própria salvação, afetando assim o destino eterno daqueles que são enganados. O catolicismo romano rejeita a salvação pela fé e prega um falso evangelho de obras que não pode salvar.

Aqui, desonestidade e mentira estão juntas.

Hunt parece querer afirmar que, para a Igreja Católica, a fé não possui qualquer importância para a justificação e que, pelo contrário, as obras são A ÚNICA COISA que a Igreja estabelece como causa da justificação.

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A Igreja Católica, porém, atribui TANTO À FÉ COMO ÀS OBRAS um papel no processo de justificação.

Para a Igreja, nem a fé nem as obras são suficientes, se consideradas separadamente, para a justificação; devem estar juntas, como aponta São Tiago 2,24.

Citações ilustrativas do Catecismo da Igreja Católica:

1996. Nossa justificação vem da graça de Deus. A graça é favor, o socorro gratuito que Deus nos dá para responder a seu convite: tomar-nos filhos de Deus (cf. Jo 1,12–18), filhos adotivos (cf. Rm 8,14–17), participantes da natureza divina (cf. 2Ped 1,3–4), da Vida Eterna (cf. Jo 17,3).

2001. A preparação do homem para acolher a graça é já uma obra da graça. Esta é necessária para suscitar e manter nossa colaboração na justificação pela fé e na santificação pela caridade. Deus acaba em nós aquilo que Ele mesmo começou, “pois começa, com sua intervenção, fazendo com que nós queiramos e acaba cooperando com as moções de nossa vontade já convertida” (Santo Agostinho, Grat. 17)

– Para eles, a salvação não se encontra em Jesus Cristo, mas na igreja através da obediência aos seus editos e sacramentos.

MENTIRA! A Igreja enfatiza – muito mais do que Hunt – que a salvação encontra-se em Cristo. Os sacramentos são meios instituídos por Cristo para nos aproximar da sua Graça e, com ela, à Salvação.

Gostaria que Hunt provasse que a Igreja ensina SER ELA MESMA A FONTE DA SALVAÇÃO!

Citação ilustrativa do Catecismo da Igreja Católica:

169. A salvação vem exclusivamente de Deus, mas, por recebermos a vida de fé por meio da Igreja, esta última é nossa mãe: “Nós cremos na Igreja como a mãe de nosso novo nascimento, e não como se ela fosse a autora de nossa salvação” (Fausto de Riez, Spir. 1,2). Por ser nossa mãe, a Igreja é também a educadora de nossa fé.

– […] Outro dos sacramentos é a Missa, a qual o catecismo afirma ser “o próprio sacrifício da cruz, tanto que Cristo continua oferecendo-se a si mesmo […] sobre o altar, através do ministério de seus sacerdotes”. O cânon 904 afirma que “a obra de redenção é levada a cabo continuamente no mistério do sacrifício da Eucaristia”, negando assim o grito triunfante de Jesus Cristo: “Está consumado!”

Bom… Para Hunt pode parecer-lhe que a Missa “nega o grito de Cristo”, “ESTÁ CONSUMADO”, não “É CONSUMIDO”.

A respeito, prefiro citar o estudioso protestante convertido ao Catolicismo, Steeve Ray, que explica:

“Em suma – e creio que fiz este esclarecimento no meu artigo de Ankerberg – há apenas um único sacrifício, um sacrifício eterno, e nós estamos participando nele diariamente nas dimensões de tempo e espaço, no plano temporal. Os protestantes tendem a enredar-se no tempo (eu sei, já passei por isso!) enquanto que os católicos tendem a ver as coisas em termos de tempo e eternidade. O mesmo ocorre quando discutimos acerca da intercessão dos santos. Nos encontramos com protestantes que argumentam: onde a Bíblia diz que devemos rezar aos santos falecidos? O católico se surpreende e responde: onde a Bíblia diz que os santos estão mortos? É apenas questão de perspectiva. Os protestantes tendem a pôr um telhado de estanho sobre suas cabeças; não são capazes de enxergar além da dimensão do tempo – e da esfera temporal – para a eternidade. Para eles, os santos morreram e o sacrifício de Cristo está finalizado e consumado. Para um católico, os santos estáo vivos, porém em outra dimensão (céu), e o sacrifício de Cristo foi realizado há dois mil anos, mas é ainda um acontecimento real e um evento eterno aos olhos de um Deus e de uma Igreja que não estão contidos apenas no tempo, e sem a restrita visão que os protestantes adotaram devido a tradição que herdaram”.

– Quão trágico é admitir que os católicos são cristãos! Muitos evangélicos têm acreditado na mentira de que os católicos romanos crêem e praticam algumas doutrinas periféricas que os diferem dos protestantes, mas que não lhes afeta a salvação.

Nós, católicos, somos cristãos e certamente não dependemos do sr. Hunt para nos considerarmos cristãos. Ao sr. Hunt parece-lhe trágico admitir, assim como em seu tempo pareceu trágico a Ário ver que o Arianismo não “pegava”; como também pareceu trágico a Valdo ver que suas doutrinas não eram aceitas pela Catolicidade; como ainda a Lutero e Calvino lhes pareceu trágico perceber que suas doutrinas davam origem a divisão, confusão e heresias.

Nada disso é culpa dos fiéis católicos!

– Os católicos romanos, da mesma forma que os membros de outras seitas, necessitam ser tratados com compaixão, advertindo-os das mentiras de sua seita e apresentando-lhes o verdadeiro evangelho que pode salvá-los.

Enquanto católicos romanos, estejamos firmes naquilo que cremos. As opiniões pessoais do sr. Hunt são mentira ou não representam a doutrina católica. Não serão pedra de tropeço.

Por outro lado, numerosos apologistas católicos advogam a mesma atitude: tratar os protestantes com compaixão, fazendo-os ver que Cristo fundou apenas uma Igreja, contra a qual as portas do inferno e da DIVISÃO nada podem fazer.

Encerrada a resposta, eu, pelo menos, não encontro em Hunt razões suficientemente sólidas para erguer uma barreira entre católicos e protestantes, impedindo a união ecumênica.

“E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim; para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (João 17,20-21).


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Nota:
[1] Dave Hunt é o autor, entre outras obras, do fantasioso livro “Uma Mulher Montada sobre a Besta”, em que acusa de maneira prepotente a Igreja Católica de ser “a grande prostituta do livro de Apocalipse, capítulo 17” e oferece uma série de acusações anticatólicas carentes de documentação.


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