A reflexão abaixo é fruto de ínumeras conversas e entrevistas com alguns membros e ex-membros do Opus Dei no Brasil além de algumas impressões pessoais, e não tem qualquer pretensão teológica ou canônica ou mesmo de esgotar o assunto, mas lança um olhar cristão sobre essa realidade eclesial que tem aparecido com certa frequência na imprensa e despertado tantas e inúmeras dúvidas. Não existe qualquer vínculo neste breve texto com a prelazia do Opus Dei ou qualquer outro interesse que não seja acalmar a tormenta criada por um grupo de ex-membros e trazer um pouco de luz e calma aos lares cristãos sobre o assunto. Que seja de alguma valia para o leitor.

Nem anjos, nem demônios – Uma breve visão cristã sobre o caso Opus Dei

Resumo

O seguinte texto pretende demonstrar como todas as denúncias ocorridas sobre o Opus Dei no Brasil feitas por ex-membros, tratam na realidade de um excesso de enfoque nos dramas particulares e subjetivos de cada dissidente e como acabam por esvaziar completamente a perspectiva cristã do sofrimento, da obediência, da evangelização e da comunidade. Visto sem um devido contexto histórico e de acordo com a tradição católica, com o magistério e até com a palavra de Deus tais denúncias acabam soando apenas como pedra de escândalo para a própria Igreja Católica e se desfazem diante do sentido de santidade cristã quando propõem agressividade, ataque e uma obsessão ativista para acabar com a prelazia. Nessas casos aonde a mitificação e a rotulação se tornam mais fortes, uma breve comparação com a realidade eclesial pode acalmar os ânimos mais alarmados.

1 – Introdução
2 – A mortificação corporal
3 – Massacre mental e erros
4 – Entrega dos bens
5 – Aliciamento de membros
6 – Seita infiltrada?
7 – Conclusão

1 – Introdução

Quando se começa a estudar alguns princípios básicos sobre retórica, se aprende que não existe maneira mais eficaz de convencer uma pessoa sobre qualquer assunto do que iniciar concordando com as opiniões do receptor da mensagem. Preparar o terreno do adversário para então atacar, de dentro pra fora, é uma tática tão antiga quanto a história do Cavalo de Tróia. Após se criar certa empatia e um pouco de admiração fica difícil levantar qualquer esboço de discórdia e refutação. E é justamente assim que os pseudos neo-intelectuais começam suas impiedosas críticas, por exemplo, à Igreja Católica.

“Sou católico, mas discordo da posição da Igreja quanto a isso…”, “Sou católico, mas me dou no direito de não observar a orientação da Igreja sobre aquilo…”, “Sou católico, mas…” nos jornais, nas revistas, nos artigos e nas conversas de bar. Em todo os lugares, mesmos pessoas mais simples que não conhecem nada de oratória, sabem muito bem que para justificar suas atitudes em dissonância com a fé católica é necessário começar invocando sua catolicidade aparente para então se ter algum crédito e ar de sobriedade. “Sou católico” : pronto. O que vier depois dessa afirmação é pura convicção, é pura solidez intelectual e precisa ser aceito. E não é raramente que essas opiniões são divulgadas com ar reacionário dentro da ordem do dia.

É por isso que a mídia dá tanto espaço para essas pessoas ditas questionadoras e incompreendidas simplesmente porque o normal, o comum, o ordinário não dá público. Não é então de surpreender o impacto sensacionalista gerado por um professor Jean Lauand, que se apresenta a sociedade como um homem profundamente católico, defensor da verdade e amante da doutrina quando este se coloca contra uma realidade eclesial da Igreja Católica como o Opus Dei, somado ao fato de ser um ex-membro com 3 décadas de experiência nesta prelazia.

O Opus Dei, Obra de Deus em latim, é uma prelazia pessoal da Igreja Católica fundada pelo monsenhor São Josémaria Escrivá de Balaguer, “sacerdote atento e apóstolo dos leigos para os novos tempos” segundo João Paulo II, e é constituida por sacerdotes e leigos fazendo parte da constituição hierarquica da Igreja, presente em vários países do mundo e conta com cerca de 85.000 membros espalhados pelos 5 continentes e outros 130.000 colaboradores [1]. Chama-se “prelazia pessoal” porque ao contrário das “prelazias territoriais” não está limitado a um espaço geográfico mas a um grupo específico de pessoas. A missão da Obra é dar meios de formação cristã fazendo uma resposta ao pedido da Igreja sobre o chamamento universal à santidade pessoal.

O fundador da Obra, São Josémaria, nos anos em que passou pelo mundo fez da sua vida uma vocação a todos os cristãos para que soubessem viver com uma fé simples e alegre o seu dia-a-dia ordinário, o trabalho cotidiano e os afazeres mais insignificantes com todo o esplendor da fé e do amor cristão. A sua história apostólica se resume bem numa frase: “Meus filhos: aí onde estão nossos irmãos os homens, aí onde estão as nossas aspirações, nosso trabalho, nossos amores — aí está o lugar do nosso encontro cotidiano com Cristo. Em meio das coisas mais materiais da terra é que nós devemos santificar-nos, servindo a Deus e a todos os homens.” [2].

A Obra possui uma estrutura jurídica e organizacional conforme as normas católicas e em unidade com o Código de Direito Canônico e demais Decretos da Igreja. Não há nela nada que não seja aprovado, desde o plano de vida que seguem os seus membros, quanto à forma como agem no mundo. Neste sentido o Opus Dei foi aprovado por todos os últimos 6 papas e tem pelo menos 8 dos seus membros em processo de canonização, o que mostra que leviano não é exatamente um termo apropriado para definir esta prelazia.

Neste sentido o Cardeal e Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro, Dom Eugenio Sales, afirmou em um artigo defendendo o Opus Dei dos ataques recentes, que “o fundador do Opus Dei, São Josemaria Escrivá, elevado à honra dos altares, sempre manifestou plena e integral adesão a todos os Papas com quem conviveu. Seguia o princípio: “Onde está Pedro, aí está Cristo.” Defendeu com afinco a verdadeira liberdade de consciência. Em prol da família, costumava dizer que cada filho é sinal da confiança de Deus a seus pais” [3].

Existem graus variados de comprometimento com a Obra que podem ser de colaboradores a membros supernumerários (casados ou com vocação para o matrimônio), numerários e adscritos (celibatários) e sacerdotes. Todos os membros leigos e sacerdotes buscam viver a santidade e a vida interior inseridos no meio do mundo, e através de um trabalho profissional sustentam a si e às demais despesas financeiras das comunidades aonde vivem. Participam da missa diariamente, rezam o rosário, fazem uma leitura espiritual e seguem suas vidas sob as orientações de um diretor espiritual além de fazerem suas orações mentais durante o dia. Nada que um bom católico dispense de sua vida ordinária, se busca com afinco a presença de Deus.

Atualmente o Opus Dei possui 40 bispos dentro dos mais de 4.500 bispos espalhados pelo mundo e 2 cardeais dentro do Colégio Cardinalício formado por cerca de 113 membros, o que mostra que sua participação na vida eclesial da Igreja é muito limitada e discreta, bem diferente do que pregam os críticos da Obra que pretendem enxergar atrás de sua modesta estrutura, como diz o jornalista John L. Allen que acaba de escrever um livro desmistificando o Opus Dei, uma “imensa máscara de influência inadvertida” [4].

De fato, desde o início da fundação da Obra, São Josémaria já admitia uma forte conspiração contra o Opus Dei. Ele mesmo dizia sobre isso abertamente: “Durante muitos anos, uma poderosa organização da qual prefiro não falar dedicou-se a falsear o que não conhecia. Insistiam em considerar-nos como religiosos e perguntavam a si mesmos: por que não pensam todos do mesmo modo? Por que não andam de hábito ou trazem um distintivo? E ilogicamente concluíam que constituíamos uma sociedade secreta.” E conclui: “não é para estranhar, no entanto, que de vez em quando alguém renove os velhos mitos” [5].

É o que vemos novamente. Gostaria de tentar esclarecer nas linhas abaixo, que muitas das denúncias feitas pelos críticos do Opus Dei não comprometem a catolicidade e a comunhão desta prelazia para com a doutrina da Igreja, com o Magistério e a Palavra de Deus. Quando o professor Jean e seus colegas, a maioria ex-membros do Opus Dei, organizaram-se e lançaram o livro Opus Dei – Os Bastidores, ganharam muito espaço dentro da imprensa brasileira, primeiro por se mostrarem católicos criticando uma prelazia católica e segundo, por se tratar de uma realidade da Igreja que incitou o imaginário coletivo e despertou curiosidade geral graças ao livro O Código da Vinci.

É bom deixar claro que mesmo nas críticas mais duras desses ex-membros numerários, a instituição Opus Dei é sempre preservada como um bem para todas as pessoas que são atendidas e que recebem uma excepcional formação cristã além dos serviços caritativos, e que a imensa maioria dos ataques são deferidos sobre a cultura interna de membros numerários, diretores e dirigentes, que são essencialmente aqueles que residem nas casas da Obra. Eles incluem na base da argumentação anti-Opus Dei a expressão “à margem da Obra” para referirem ao bem que recebem todos os colaboradores, super-numerários e demais participantes que não moram nos centros da prelazia, e como estes nem poderiam imaginar os supostos abusos que acontecem nas residências. Vamos a eles.

2 – A mortificação corporal

Uma das questões que geram mais polêmica e discussão é a questão das penitências e mortificações que fazem parte da vida de alguns membros numerários do Opus Dei tais como o uso do cilício e das disciplinas. Aqui é importante parar e refletir antes de rotular a mortificação como uma prática medieval, e frizar que a Igreja Católica continua acreditando no Céu, no Inferno, no Purgatório, nos Anjos e no Demônio assim como no poder e na importância da mortificação como prática de penitência e piedade. Ela continua acreditando em tudo isso em pleno ano 2006 d.C.

Pode parecer medieval para alguns, mas na realidade essa prática cristã é bem mais antiga do que o período da Idade Média, e se inicia bem antes mesmo do início do cristianismo. O próprio Cristo chegou a mencionar o uso do cilício: “Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidônia os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas se teriam arrependido sob o cilício e a cinza” (Mt – 11, 21). Vale lembrar que o uso do cilício (cinta rígida comportada sobre a coxa que causa desconforto) faz parte da regra de vida de todos os carmelitas e dos cartuxos.

Portanto não vamos perder a perspectiva da fé e deslizar numa crença tola de que o Opus Dei tem nas suas normas internas o uso da mortificação como arma de lavagem cerebral ou de mera coação como se vê tratado na mídia sensacionalista. É São Paulo quem nos previne sobre cair nessa armadilha anti-cristã: “Tomai cuidado para que ninguém vos escravize por vãs e enganosas especulações…segundo os elementos do mundo, e não segundo Cristo” (Col – 2, 8). É evidente, porque sem a ótica da fé, sem uma análise calorosa à luz do evangelho, a cruz é loucura, o amor é malícia e a evangelização é mera captação de pessoas. E mais ainda, numa época hedonista como a que vivemos, em que o prazer é o fim último e o bem-estar ideal de todos, praticar o sacrifício voluntariamente parece realmente insano.

Mortificar-se, contrariar o próprio conforto como maneira de se elevar e de se desprender das criaturas e de si mesmo é como já dito, uma prática tão antiga quanto o cristianismo, e encontra seu sentido no próprio mistério do sacrifício de Cristo na Cruz. Santa Teresinha dizia que um dia sobre a terra sem sofrimento era um dia estéril, um dia sem significando e infecundo. Dessa mesma maneira São Paulo pregava a necessidade de completar no seu corpo o que falta à paixão de Cristo e assim fazer-se co-redentor das almas, oferecendo-se a Deus e plenificando o único e eterno sacríficio de Jesus: “Completo em minha carne o que falta à Paixão de Cristo, em prol do seu Corpo, que é a Igreja” (Cl 1,24). E também pregava a necessidade de se impor a prática da mortificação para que se chegasse a plena certeza da salvação: “Todos os atletas se impõem muitas privações; e o fazem para alcançar uma coroa corruptível. Nós o fazemos por uma coroa incorruptível. …Ao contrário, castigo o meu corpo e o mantenho em servidão, de medo de vir eu mesmo a ser excluído depois de eu ter pregado a salvação a outros” (I Cor. 9 – 25,27). Essa era a motivação dos mártires: chegar a completar com suas vidas o martírio supremo de Jesus pela imitação corajosa de Cristo na cruz e receber a coroa da salvação.

Por isso quando visto pela ótica cristã, o sofrimento tem sim muito sentido porque não é em vão, porque é oração fecunda no solo sagrado do coração de Cristo; e como diria São Paulo da Cruz, “quão feliz o coração, que na cruz abandonado se consome em santo amor pelos amplexos do amado”. É feliz porque tem força de entrega e amor. Sofrimento e mal, na era de Cristo não são mais sinônimos portanto, especialmente quando se sabe dar valor transcendente à dor aceita por amor.

É por isso que o garoto Francisco de Fátima, com apenas 9 anos de idade e Jacinta, de apenas 7, já faziam questão de, e por iniciativa própria, andar diariamente com o cilício sobre a pele e com mamonas sobre a perna além de colocá-las também em cima da sua cama. Tudo isso, diziam, “para consolar Jesus”. É pelo sentido transcendente do sacrifício e da mortificação que São Pedro de Alcântara andava descalço na neve e dormia enterrado no gelo. É para alcançar o amor de Cristo pelas almas na terra que Santa Catarina de Siena chegava a passar 40 dias se alimentando apenas da Eucaristia. É pelo mesmo motivo que São João Maria Vianney dormia no estrado da sua cama e apenas 2, 3 horas por noite. Que Santa Teresinha não encostava o dorso na cadeira, discretamente.

Vejamos também um exemplo bem atual dentro da comunidade franciscana Toca de Assis, espalhada por todo o Brasil, e que tem como vocação o ideal de pobreza de São Francisco de Assis. Os membros da Toca comem a comida que sobra, quando sobra, dos indigentes que ali são acolhidos; se banham depois dos mendigos e dormem nas camas disponíveis após a boa acomodação de todos os necessitados. Essas pessoas sabem fazer de suas vidas um ato contínuo de amor a Deus e ao próximo porque vivem diariamente em suas peles a abnegação e a contrariedade com a luz da fé.

Vendo a necessidade dessas práticas, compreendemos como um São Maximiliano Kolbe conseguiu trocar a sua vida para salvar a vida de um judeu, pai de família, num campo de concentração; é porque já estava habituado com uma vida de sacrifício, porque já vivia o martírio diariamente que, no momento em que a caridade pediu ele pode dizer um sim heróico. Porque é próprio daqueles que buscam os mais elevados caminhos para Deus, é que não nos faltam exemplos na escola dos santos, de mortificação e de penitência constante. Como diz o próprio Catecismo da Igreja Católica, “o progresso espiritual envolve ascese e mortificação, que levam gradualmente a viver na paz e na alegria das bem-aventuranças” [6].

É preciso portanto entender que para o cristão a mortificação é necessidade, para alguns em menor e para outros em maior grau, partindo de um sorriso que se dá quando se quer chorar, de um alface que se detesta, mastigado alegremente como oração, à uma noite dormida sem conforto oferecendo-a pelos doentes, ou ficar em pé dentro de um ônibus com assentos livres, como fazem as irmãs de Madre Teresa de Calcutá por amor a Deus, pelo Papa, pelas almas mais necessitadas etc. É a própria Igreja quem nos chama a não duvidarmos do poder das obras de penitência, por exemplo, pelas almas de nossos caros irmãos que já partiram desta vida: “Levemo-lhes socorro e celebremos a sua memória. Se os filhos de Jó foram purificados pelo sacrifício de seu pai (Jó 1,5) por que duvidar que as nossas oferendas em favor dos mortos lhes leva alguma consolação?” [7].

Então se não se deseja usar as mortificações dentro da Obra, ou dentro da Igreja, não se use, ninguém perde o Céu por isso. Mas não vamos dizer que essas práticas são más, horrendas e medievais. Não vamos dizer que os membros numerários do Opus Dei não detinham plena consciência das normas sobre mortificação durante seus seis meses de experiência até a completa admissão na comunidade, tempo em que podem muito bem escolher outro tipo de vida. E não vamos negar os apóstolos, os santos e os papas duvidando da doutrina sobre a mortificação, seja ela espiritual ou corporal. Não são mais do que o sacrifício que se faz dentro de uma empresa, dentro de casa, dentro de uma academia, ou de um centro de estética.

O que a sociedade hedonista faz pelo culto ao corpo é o que todo católico que se diz cristão deveria fazer pela saúde de sua alma. É realmente triste que o sacrifício de um pós-operatório de um implante de silicone, de uma lipoescultura ou de uma redução de estômago sejam vistos como verdadeiros e louváveis ao passo que as mortificações cristãs sejam vistas como práticas masoquistas e paranóicas. E sejam vistas de maneira tão sentimentalista e sensacionalista que acabem sendo encaradas como uma suposta polêmica dentro da Igreja.

3 – Massacre mental e erros

Toda vez que uma crítica de um dissidente do Opus Dei inside sobre a falta de flexibilidade e sobre a suposta lavagem cerebral praticada sob as atitudes de um membro, penso que estou diante de uma comunidade que tem a santificação como meta principal realmente. E quando penso em santidade penso obviamente nos exemplos dos santos. Santa Teresa d’Àvila não hexitava em afirmar que “aquele que obedece não erra”; santo Agostinho dizia que era “melhor errar com a Igreja do que acertar sozinho”.

Isso quer dizer que os preceitos de obediência existentes dentro da obra e que os ensinamentos de São Josemaría não são uma exceção dentro da Igreja quando se toca no assunto. Aliás esse é um ponto de fé de todo fiel que se consagra ao serviço da Igreja. Ok, mesmo pensando que os membros numerários não fazem nenhum tipo de votos religiosos, vivem mesmo assim os conselhos evangélicos com a mesma intensidade e exigência que um bom religioso. Por quê? Porque o valor e a intensidade da pobreza, do celibato e da obediência são observados plenamente dentro da Obra ao ponto de chegarem a fazer parte da vida dessas pessoas. E isso não é nenhum problema. E os numerários sabem bem disso.

Houve e ainda há erros na condução da vida de alguns numerários? Provavelmente sim. É só no Opus Dei que isso acontece? Certamente não. A história da Igreja Católica em muitos momentos se confunde com a história da perseguição de homens e mulheres de ótimas intenções, índole e caráter, e muitos, exaltados à honra dos altares tempos depois. Por um lado isso é péssimo porque mostra o quanto a Igreja é santa e pecadora e o quanto às vezes temos a tentação de crer que é mais pecadora do que santa. Por outro lado isso é ótimo porque somente assim é possível que Deus prove a santidade dessas almas e as faça melhores; é o que o papa João Paulo II chamava de o “mistério da iniquidade”: Deus que permite o mal para que se alcance um bem maior. Santa Teresinha é um caso típico do que procuro explanar.

A história de Santa Teresinha são páginas repletas de perseguição da parte de suas companheiras carmelitas (freiras!) e de provações realizadas a partir dos defeitos e limitações dessas pessoas. Diziam que Santa Teresinha se mostrava santa mas que no fundo era uma pecadora. Diziam que estava sempre sorrindo porque era fraca e dissimulada e não poupavam esforços para colocarem ela contra a madre priora. Sua obra foi difamada e caluniada e o que Santa Teresinha dizia? “Deus me presentou com essas irmãs para me santificar”.

E o exemplo de São Francisco de Assis que após fundar a ordem dos Franciscanos foi afastado da liderança pelos seus seguidores? A ordem que ele havia fundado com tanto amor, abnegação e martírio agora dizia que Francisco não era mais útil. Francisco pertencia aos seus, mas os seus não mais lhe pertenciam. O que este santo homem disse? Com uma fé inabalável que enxergava por trás de tudo a mão governante do seu Deus, livre, despojado, submisso, completamente entregue não hesitou: “Irmãos, de agora em diante, estou morto para vocês. Aqui está Pedro Catani a quem todos, vocês e eu, obedeceremos” [8].

Perto de São João da Cruz, o que São Francisco foi obrigado a passar neste episódio por amor de Deus e da Igreja parece até figurinha. João da Cruz, maior e mais importante místico do Ocidente, tomado pelo espírito profético de reformar o carmelo masculino trazendo a ele mais rigidez e austeridade, fora por isso sequestrado por seus irmãos religiosos (!) e preso em um cárcere na cidade de Toledo na Espanha entre os anos de 1577 e 1578. É claro que para a época essa prática não era assim tão incomum, mas mesmo olhando com os olhos históricos enxergamos em João da Cruz um preso de Deus. Não murmurou com a injustiça, apenas amou porque sabia que Deus lhe tinha dado um povo de irmãos e aceitou o fato e junto com ele, a certeza de que esses irmãos tinham defeitos e limitações. Amou os irmãos aceitando-os completamente. É por isso que soube fazer-se semente e morrer silenciosamente durante esse tempo de privação e então depois dar muitos frutos (João – 12,23); foi nessa época em que amadureceu como poeta e pode escrever os maiores poemas da mística católica.

Poderíamos aqui dar mais mil exemplos e em todos eles veríamos um traço em comum: o amor profundo para com Deus, para com a Igreja e para com os irmãos. Veríamos a passagem “A ninguém pagueis o mal com o mal” (Rom – 12,27) vivido até as últimas consequências. Veríamos a obediência e o silêncio aliados à convicção de que existe um Deus que é justo e que rege o mundo com suas mãos providentes e que não abandona o injustiçado, mas antes o santifica e o aproxima de si pela mortificação da vaidade intelecutal e do orgulho espiritual. De fato foi preso no tormento da cruz que Cristo experimentou a maior liberdade de sua vida; naquele momento estava sem pai, sem mãe, sem amigos, sem roupa, sem defesa, sem nada. E suas palavras foram “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” e assim inocentou seus algozes diante da história. Que exemplo.

É por isso que se a história nos provou alguma coisa é que o tempo se encarrega de demonstrar a verdade. Não é com a rebeldia e com o reacionarismo explosivo que se presta um serviço à verdade porque como diria São Francisco, “a verdade defende-se a si mesma”. Ela não advém do combate, não advém da multiplicação das acusações e dos ataques porque como Cristo disse, tudo o que está sob as trevas será colocado sobre a luz.

Há que se ponderar também, por outro lado, que a formação espiritual do Opus Dei não é recebida apenas de uma pessoa ou de um pequeno grupo. Mas intervêm variadas pessoas já que o que se pretende transmitir não é a espiritualidade de uma determinada pessoa, desta ou aquela, mas sim da que o próprio Deus inspirou e confiou ao Fundador. Além disso qualquer membro pode dirigir-se quando quiser aos diretores da Obra na região, aos vigários do Prelado e inclusive ao próprio Prelado.

Dentro deste exemplo ressalta o exemplo do profeta Gamaliel, fariseu e doutor da lei no tempo dos primeiros cristãos. Homem sábio e ponderado, cansado de presenciar a dura perseguição que seus companheiros travavam contra os apostólos em vão, traçou um pequeno tratado de confiança e adesão aos planos do Senhor através da tolerância e da fé e que se aplica “como uma luva” para o caso que se instala. Vejamos com atenção:

“Homens de Israel, considerai bem o que ides fazer com estes homens. Faz algum tempo apareceu um certo Teudas, que se considerava um grande homem. A ele se associaram cerca de quatrocentos homens: foi morto e todos os seus partidários foram dispersados e reduzidos a nada. Depois deste levantou-se Judas, o galileu, nos dias do recenseamento, e arrastou o povo consigo, mas também ele pereceu e todos quantos o seguiam foram dispersados. Agora, pois, eu vos aconselho: não vos metais com estes homens. Deixai-os! Se o seu projeto ou a sua obra provém de homens, por si mesma se destruirá; mas se provier de Deus, não podereis desfazê-la. Vós vos arriscaríeis a entrar em luta contra o próprio Deus” (At. 5 – 35,39).

Quer dizer, mais uma vez, não é com perseguição que se presta serviço a Deus. É com amor, com paciência, com discrição e humildade, com virtude e suavidade, porque se não é Obra de Deus realmente, como significa Opus Dei, então é questão de tempo para que Deus enterre essa realidade. Críticos do Opus Dei, se existe fé em vossas almas não invistam tanto então na destruição da prelazia, porque se esta obra não provier de Deus será então destruída por sí mesma.

4 – Entrega dos bens

“Eles me pegaram com 17 anos e me largaram depois sem dinheiro, sem família e na rua da amargura”, e outras frases de efeito sobre o traumático evento de desligamento da Obra nunca estão despojados de um mínimo de emocionalismo que facilmente nos desvia do rumo da razão. Gostaria eu de conseguir um espaço na mídia e contar o que a imobiliária que administra o apartamento que alugo faz com a minha renda mensal, mês após mês, ano após ano. Se somasse tudo o que já deixei em custos de aluguel, alimentação, telefone, gás, água, energia elétrica, condômínio e outros serviços básicos, aí eu certamente impressionaria qualquer ser humano em sã consciência. Isso porque no sistema capitalista absolutamente tudo tem um custo econômico.

Por que então acreditar que nas casas onde moram os membros numerários do Opus Dei pode ser diferente? Ou será que lá não existem custos fixos para serem quitados todos os meses? Será que lá é como casa de mãe e pai com espaço suficiente para várias pessoas que não ajudam nas despesas? Evidentemente que não. Como se acredita que uma vaga dentro do corpo de membros do Opus Dei deve ser ocupada somente por aqueles que possuem vocação para tal é que a prática da entrega de bens é vista sem maiores problemas. Quando se entra num serviço para a Igreja dentro de uma comunidade de vida é prática corriqueira se despojar de seus bens para o bem daquela comunidade, como por exemplo na Canção Nova que muitos conhecem, ou na já citada Toca de Assis. Era assim com os primeiros cristãos e é assim até hoje. Todos os membros colocam em comum aquilo que possuem e que ganham para o crescimento e desenvolvimento de todos os irmãos. Esse é o princípio da irmandade e da pobreza cristã e sem elas não existe possibilidade de uma vida em comum.

Da mesma forma que se eu resolver sair da casa de meus pais que são o meu sustento, terei de dar duro e começar do zero, assim também todas as pessoas que se desligam de comunidades de vida precisam entender que os bens materiais que alí deixaram já foram colocadas a serviço do bem comum e que não existe como voltar atrás como se faz com um cheque caução. Esse dinheiro de certa forma já nem existe mais. É como mudar de Igreja e querer resgatar todo o dinheiro do dízimo que alí se deixou durante um longo período; é simplesmente ilógico porque esta mesma pessoa de alguma maneira já usufruiu daquela doação através das instalações e da estrutura que participou. Não posso querer o dinheiro pago ao proprietário do imóvel porque já não tenho uma boa relação com ele ou porque não acredito mais nos princípios que regem as relações do mercado imobilário. Não faz sentido nenhum. É claro que é triste, mas não vamos fazer disso uma tempestade em copinho americano, porque dentro da perspectiva cristã a questão já está fechada e não é novidade.

Quando lemos São Paulo, na sua carta a Timóteo, vemos um pequeno testamento de seus bens para que fossem trazidos até Roma antes de seu martírio. Na verdade pode ser resumida em apenas uma capa e alguns livros (2 Tm – 4, 13). Qualquer semelhança ao testamento de João Paulo II não é mera coincidência, que nada deixou com exceção de alguns textos. Santa Teresinha não cansava de dizer em seus escritos: “nada fica nas minhas mãos. Tudo o que tenho, tudo o que ganho é para a Igreja e para as almas”. Mais uma vez não é nada de novo para os santos. Precisamos ser coerentes e responsáveis com as consequências de nossas decisões e se sabemos que não podemos corresponder a tal compromisso, façamos como o jovem rico (Mc – 10, 21) que se negou a vender tudo o que tinha e distribuir aos pobres para atingir a perfeição prometida por Cristo.

5 – Aliciamento de membros

De início parece ser de profunda má fé o uso do termo “aliciamento” para definir a iniciação de novos adeptos à espiritualidade do Opus Dei porque aliciamento é também sinônimo de corrompimento. A forma como é realizada a aproximação de novas pessoas dentro da Obra se dá especialmente pelos meios de formação que ela promove e que é um grandíssimo bem a todos os cristãos que a ela se dirigem. Dentro das meditações realizadas semanalmente por um sacerdote da obra é feita uma reflexão, uma espécie de homilia, sobre os sacramentos, sobre as virtudes, sobre a doutrina da Igreja e sobre a santidade aplicada na vida ordinária do leigo e leiga, entre outros assuntos.

Além desse caminho existem também outras dimensões fora do ambiente pastoral da Obra onde qualquer pessoa pode frequentar, desde que exista interesse, como por exemplo através dos eventos técnicos de formação e extensão universitária que são ministradas por pessoas próximas ou da Obra, e que têm como objetivo um desenvolvimento maior de outras áreas do conhecimento humano que a religiosa. Existem ainda outras práticas como palestras e círculos culturais de estudo que estão abertas a quem queira participar. E os clubinhos infantis que contam com diversas atividades do interesse da criança e do adolescente.

É evidente que algumas pessoas que se sentem mais identificadas com tais práticas e atividades podem começar a se interessar mais pela Obra e esses possuem todo o direito a tal. A liberdade de ir e vir é total e não é raro que pessoas não cristãs e não católicas frequentem apenas o que da Obra lhes interessa, um voluntariado, um serviço de caridade ou mesmo algum curso de formação intelectual e técnica. Mas de fato é pelo interesse pessoal de quem frequenta a Obra e pela iniciativa do participante que poderá algum dia surgir o questionamento se neste ou naquele, que apresentam este ou aquele perfil, possa existir uma vocação para se viver o espírito da Obra. Irá partir da sinceridade do aspirante e da retidão do diretor espiritual o discernimento para a possível vocação. Conheço muitos casos de pessoas que até se desanimaram por um diretor espiritual que contrariou seus desejos de entrar para o Opus Dei. De qualquer forma é de se esperar que sempre se requerá um mínimo de inteligência de um possível vocacionado e que por si só seja capaz de discernir também sobre seu futuro.

Ok, então alguém decidiu entrar para o corpo de membros da prelazia. Justamente agora, quando ele não pode mais voltar atrás e descobre toda a farsa por trás da fachada gentil e os “bastidores” desse teatro, quando descobre toda a verdade ele então não tem mais o que fazer. Agora é preciso se contentar com a “manipulação mental” e deixar que a destruição de sua vida prossiga. Será realmente assim como é pregado pelos inimigos da Obra? Definitivamente não. Após o pedido de admissão, que não é feito da noite para o dia, o aspirante à vaga dentro do Opus Dei tem a oportunidade de fazer uma experiência alí dentro durante 6 meses, conhecendo suas realidades, suas práticas e o plano de vida diária até ser completamente admitido. Depois desses 6 meses, se existe desejo em continuar e se vê que existe realmente tal vocação, ele é admitido, porém ainda não definitivamente, e continuará provisória por mais 6 anos, até que seja finalmente incorporado oficialmente como membro de fidelidade da prelazia. Como se vê, a realidade está bem distante dos testemunhos cheios de drama e amargura dos dissidentes ressentidos.

Agora é claro que existem diversas dimensões em qualquer vocação que se desconhece quando se inicia. Santa Teresa d’ Ávila dizia que se Deus houvesse relevado a ela os caminhos que teria de percorrer no seu plano espiritual no inicio da sua vocação, certamente nem teria começado. Assim como um casal que tem a plena consciência de que a vida de matrimônio exige duras renúncias e um compromisso até a morte mas que só descobre o valor dessas palavras após anos de casamento e de rotina e dificuldade. Pode ser que não tenhamos plena consciência de cada pormenor e de cada labuta do futuro no momento de nossas decisões, mas podemos procurar saber o essencial e os princípios que são vinculados a tal escolha e tenho plena certeza de que os novos membros têm esse conhecimento.

Por certo não estamos diante de uma prisão ou de uma sociedade secreta como dizem. Sociedades secretas não possuem estatuto, livros e biografias sobre o fundador e a instituição, não possuem site (www.opusdei.com.br), etc. E não somente isso, mas como já dissemos,  pertence à Igreja Católica.

Uma questão que creio ser a mais próxima de um debate legítimo é sobre a capacidade mental dos novos membros para decidirem entre uma vida de entrega para a Igreja a partir do Opus Dei. Em geral muitas das vocações acontecem na idade jovem quando estão com 15, 17 anos. Mas então eu me pergunto sobre a questão da idade em outros setores da Igreja, como por exemplo nos seminários. É prática comuníssima que jovenzinhos de 12, 13, 14 anos entrem no seminário para tentarem a vocação como sacerdote dentro da Igreja. Um exemplo disso é o próprio papa Bento XVI que entrou para o seminário com apenas 12 anos, e por isso gostaria de deixar em aberto a questão.

E então chegamos na questão do relacionamento com os pais dos numerários, que de fato fica bastante comprometida a partir da entrada dos novos membros para a instituição. É um foco constante acerca do debate sobre o Opus Dei o drama dos pais dos membros numerários que perdem bastante o contato com seus filhos. Na realidade esta é outra consequência prática completamente natural dentro de uma vocação de completa entrega a Deus, à semelhança dos religiosos. Quantas pessoas que estão em comunidades católicas leigas como a Shalom, entre diversas outras, que só podem falar com seus pais uma vez por semana e onde o contato com a família em dias de festa e feriados são bem restritos também. É próprio da natureza de entrega integral ao ideal desta ou daquela realidade eclesial. É claro, quando a família aceita a vocação, porque não é raro ver uma rejeição total daquele filho ou filha que decidiu por uma vida de serviço à Igreja.

Faz parte do seguimento integral de Cristo a renúncia a si mesmo e até da família, como nos ensina o próprio: “E todo aquele que por minha causa deixar irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos, terras ou casa receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna” (Mt – 19,29) e não podemos perder esta perspectiva cristã. E se analisarmos no campo dos consagrados religiosos veremos então uma distância corporal com os pais ainda maior em alguns casos, como é o exemplo das carmelitas que após entrarem para o carmelo fazem o voto de nunca mais sairem de lá. Digo corporal porque em nenhum desses casos o amor pela família deve desaparecer ou se extinguir, pelo contrário, só pode aumentar na medida em que esses membros se aprofundam no seguimento de Cristo.

De fato, nenhum pai tem o direito de alegar que seu filho foi “captado”, “raptado” ou “levado” por essa ou aquela instituição da Igreja, porque em última instância tal decisão sempre caberá somente ao foro intímo e pessoal do aspirante desta ou aquela vaga em qualquer realidade eclesial. Aos pais cabe todo o dever de buscar informações verdadeiras sobre o Opus Dei, e informando-se se sentirão bem menos alarmados porque como a presente obra, é preciso saber comparar as bases desta prelazia com o restante da Igreja Católica e comprovar sua humanidade por trás de todos os estereótipos nefastos daqueles que criticam e mostram apenas suas versões da verdade.

6 – Uma seita infiltrada?

Infelizmente essa visão é fruto de análises omissas e grosseiras que pretendem apenas corroborar a séria instituição, no plano jurídico, do Opus Dei. Dizer que o Opus Dei é uma seita infiltrada é subestimar a autoridade e a competência de cada bispo de cada diocese onde estão os centros da prelazia. Isso porque pelas normas ditadas no Concílio Vaticano II sobre “prelazias pessoais”, ficou decretado que estas somente podem se instalar em uma diocese estando em plena comunhão e com autorização do bispo local (segundo o cânon 297). E segundo os estatutos do Opus Dei (número 177) só poderá ser criado um novo centro da prelazia desde que exista autorização por escrito deste bispo diocesano, o que praticamente mina os argumentos de que o Opus Dei entra silenciosamente e secretamente nas cidades aonde atua ou que cria “uma Igreja dentro da Igreja”, porque a Obra deverá necessariamente estar sempre em pleníssima comunhão com a diocese local. Vale salientar que todos os estatutos da Obra são públicos no mundo inteiro, aprovadíssimas pela Santa Sé, incluíndo as polêmicas práticas de penitência e o restante das práticas de vida dos membros.

E quanto aos ataques de que o Opus Dei seria uma seita? De início já é muito difícil conseguir definir o que é propriamente uma seita. Em termos genéricos podemos concluir que uma seita é um grupo fechado, fundamentalista, sem doutrina, com uma visão bem seletiva do mundo, que a faz ainda mais coesa e que tem no líder ou no fundador uma figura divina e definitiva. Sob um primeiro olhar e uma interpretação tendenciosa pode-se fazer uma tentativa de rotular o Opus Dei como seita, sim. Mas se nos aprofundarmos em seus fundamentos e na realidade chegaremos à fácil conclusão de que o Opus Dei não é mais do que uma realidade eclesial da Igreja Católica como muitas outras, com erros e defeitos.

O Opus Dei é sem dúvida uma instituição com um espírito próprio e diferente das demais instituições da Igreja, mas dizê-lo fechado é demais. Até porque se alguém realmente deseja encontrar tudo o que diz respeito sobre a prelazia, material e documental, é o que não falta. Por outro lado niguém esconde que é objetivo da Obra crescer em seu número de membros em volta do globo e que hoje conta somente com apenas 85.000 pessoas. Um número muito pequeno se comparado a outros movimentos leigos da Igreja, por exemplo a Renovação Carismática Católica, Focolares, Regnum Christi, até pelo perfil de seu carisma. Existem até metas anuais para que esse grupo se expanda e cresça junto com a Igreja e não faria nenhum sentido se realmente desejasse ficar em alguns míudos secretos e conspiradores. Nesses casos quanto mais enxuto o número, melhor.

Se o Opus Dei for fundamentalista, o é na medida em que a Igreja Católica também o for. Isso porque dentro da Obra não é rezado uma jaculatória sem que cada vírgula esteja em conformidade com a que é recitada no Vaticano. O povo pode estar rezando “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, agora e sempre, amém” há muito tempo, mas dentro da Obra se irá rezar “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio agora e sempre, por todos os séculos dos séculos, amém” porque é assim que se reza na oração oficial da Santa Sé. A interpretação que se dá à bíblia tem de ser necessariamente próxima à que se dá pelo magistério, os costumes têm de ser alinhados à tradição e não pára por aí. Nada do que é dito ou ensinado estará interpretado de maneira conveniente ou tendenciosa, mas a partir do que a Igreja ensina e permite.

Sobre o ponto de vista doutrinal, nem precisamos desperdiçar tempo, senão o Opus Dei não estaria até hoje em harmonia com o clero e com o corpo jurídico da Santa Sé. O fato é que a figura de São Josémaria é realmente venerada pelos membros da Obra, e isso ninguém pode negar. Alguns até reclamam que dentro do Opus Dei se fala mais no “fundador” que em Jesus Cristo, e em certa medida é até verdade. Mas se engana quem pensa que o amor ao santo seja um fim em si mesmo, porque um segredo da comunhão dos santos é que todo amor e admiração lançado a eles acaba agindo na realidade como um meio de maior adoração a Deus. Sabemos que os santos são grandes imitadores de Jesus Cristo, amantes das almas, apaixonados pela Igreja e pelo Papa e que amando-os e seguindo seus exemplos não podemos mais do que imitá-los, no seguimento de Jesus e da Igreja. Seguindo um conselho de um santo, acolhemos as palavras de Cristo na vida prática condensada numa imagem mais tangível da perfeição cristã.

Não se pode enganar que este santo, como todos os outros, também erraram em vida e cometeram pecados, haja em vista que até o papa tem o seu confessor. Mas um santo é definido pelas suas virtudes, pela sua entrega a Deus, por suas obras, por sua fé e pelo seu amor a todos. E neste sentido devemos compreender que amar São Josémaria é amar suas virtudes heróicas, sua renúncia de si mesmo, suas obras e sua fé e amor e deixar de lado suas limitações em vida. Provou para o mundo e para a Igreja, através de seus milagres inexplicáveis, avaliados pela Congregação para a Causa dos Santos, por uma comissão com mais de 40 médicos do mundo inteiro, que está junto de Deus e que este mesmo Deus o glorifica em si mesmo e quer santificar sua obra espalhada pela terra. Para mim, este é o maior sinal de que nenhum pecado, nenhuma polêmica, nenhum escândalo jamais poderá prevalecer sobre a graça, sobre o amor e sobre o fundamento de fé e catolicidade que afinal, fundaram o Opus Dei.

7 – Conclusão

Segundo o jornalista já citado, John L. Allen, autor do livro “Opus Dei, An Objective Look Behind the Myths and Reality of the Most Controversial Force in the Catholic Church”, fruto de um ano de entrevistas com pessoas do Opus Dei na Itália, Espanha, Quênia, Estados Unidos, Peru e outros países, além de ex-membros e numa colaboração com a BBC e com a CNN, aponta através de seus estudos em mais de 400 páginas, quatro fatores que contribuiram para que o Opus Dei se transformasse no bicho-papão da imaginação católica e coletiva a nível mundial. Segundo o autor são esses:

“1) O Opus Dei cresceu na Espanha franquista, pelo que sua imagem foi unida muito tempo ao fascismo espanhol;
2) O Opus Dei e os Jesuítas se comprometeram nas “guerras de fronteira” ferozes sobre as vocações jovens na Espanha nos anos trinta, gerando uma rivalidade que seguiu o Opus Dei por onde quer que fosse devido à rede mundial extensa dos Jesuítas;
3) Na era pós-Vaticano II, o Opus Dei tornou-se um símbolo dos esforços mais amplos dentro do catolicismo entre a esquerda e a direita;
4) Na era de João Paulo II, o Opus Dei recebeu um favor papal considerável, gerando inveja em alguns setores e a oposição ideológica em outros. Em outros termos, o Opus Dei representa um tipo de “tormenta perfeita” onde uma combinação de fatores históricos e políticos chocou para investir este grupo com um status mítico não conforme ao seu perfil sociológico real”. [9]

No contexto brasileiro creio também numa teoria que se aloca no terreno mais antropológico, sociólogo e cultural. O espanhol é uma pessoa direta. É rígida. É incisiva, juntam-se 4 ou 5 e começa a falação. O brasileiro é mole. É volátil. É bem flexível, juntam-se 4 ou 5 e em breve chega-se a um acordo, porque é um povo passivo e que “dá um jeitinho em tudo”. Certamente este é um ponto importante, e talvez em algum momento essas diferenças culturais tenham colocado em xeque a plena harmonia entre membros brasileiros e a cultura espanhola dentro do dia-a-dia e do cotidiano interno da Obra, por mais corretos que fossem os espanhóis. Esta é uma hipótese que explica, em parte, o discurso dos ex-membros brasileiros quando estes lançam sua oratória cheia de ressentimento, de ira descompensada, ironia e sarcasmo para com a instituição que até pouco tempo amavam com o coração ao ponto de ficarem lá por anos. Na realidade soa como a esposa divorciada que não perde uma oportunidade de falar mal do ex-marido, após 40 anos de casamento sólido. 40 anos! E depois só linxamento e nenhuma piedade.

Essa tese recorda um famoso episódio em que Santa Teresa d’ Ávila, a grande santa da Espanha, está numa charrete com outras irmãs atravessando um riozinho e que ao serem levadas pela correnteza causando grande trasntorno pergunta a Jesus:
– Por que permitistes isso?
Jesus responde:
– Porque trato assim os meus amigos.
E Teresa arremata:
– É por isso que tendes tão poucos.

A santa espanhola segue seu passo sem olhar para trás e com a cabeça erguida, resumindo bem essa maneira de ser do espanhol. Mas mesmo se essa possibilidade for verdadeira é possível enxergar uma cortina de esperança no futuro que se aproxima, visto que a Obra ainda é bem nova no Brasil e mesmo no mundo, e irá certamente se adequando aos povos aonde chegou como o peregrino que na escuridão caminha vacilante mas segue seu passo determinado. As realidades eclesiais também são como o vinho que vai melhorando com o tempo.

É claro e evidente que no Opus Dei se cometem erros, assim como na Igreja Católica e em qualquer outra instituição aonde existam seres humanos. Isso é incontestável. Minha visão no entanto é que o grande erro dos críticos do Opus Dei, especialmente dos seus ex-membros, é que eles acreditam piamente que estão prestando um serviço à Igreja Católica lavando roupa suja fora de casa. Publicando sites de críticas abertas na internet, livros, indo até a imprensa e divulgando as mazelas que vivenciaram, estes criam somente escândalo, e escândalo nunca foi e nem nunca será um serviço prestado a Cristo. É como nos ensina o apóstolo São Paulo: “Não façais justiça por vossa conta, caríssimos, mas dai lugar à ira (de Deus), pois está escrito: A mim pertence a vigança, eu é que retribuirei, diz o Senhor” (Rom – 12,19).

Ainda, visto que a Obra não se defenderá em público, porque tem Cristo silencioso na cruz como ideal e porque não quer colocar ainda mais lenha na fogueira, o que se mostrará por algum tempo será somente uma versão dos fatos. Mas bem sabemos que não foi através de panfletaria, como a que vemos agora, que Santa Teresa d’ Ávila, que São João da Cruz (mesmo sendo espanhóis), que Santa Catarina de Siena reformaram cada um a seu tempo suas instituições eclesiais: foi com santidade, respeito, paciência e subordinação como diz o próprio papa Bento. Como diria Santa Teresa d’Ávila: “Falai somente aos ouvidos que precisam ouvir”. Esses santos e tantos outros conseguiram com muito custo e à base de perseguição fazer chegar aos ouvidos de quem precisava escutar o que estava errado e o que precisava mudar, sejam prelados, bispos ou papas. Mas nesta campanha anti-Opus Dei não se fala à Igreja (até porque se fosse assim o material de crítica seria enviado somente aos eclesiásticos), fala-se aos pagãos, aos anti-católicos e aqueles inimigos do catolicismo sedentos de material para continuar a neo-conspiração midiática católica. Sem falar nas redações que esperam ansiosamente qualquer assunto polêmico para faturarem em cima.

Basta conhecer pouco o Opus Dei e um mínimo sobre a Igreja Católica para se ver que o Opus Dei é apenas mais uma realidade eclesial como inúmeras outras, com grandes virtudes e defeitos também. É por isso que, como alguém que analisa de fora, a campanha anti Opus Dei tem sua motivação em rixas pessoais e parece mais vingança que amor à verdade. Percebe-se que as denúncias feitas pelo grupo de ex-membros são sempre cuidadosamente selecionadas para causar maior impacto e esconder o real motivo da perseguição, que soa mais como mágoas e ressentimentos pessoais, aliados claro, a algumas injustiças. Muitas das situações narradas podem até ser verdadeiras, mas fora do contexto se tornam mentiras graves e maldosas. É como uma antiga propaganda do jornal Folha de São Paulo, que enquanto ia narrando várias qualidades de um estadista histórico que levantou a economia de seu país, cresceu a indústria e a educação, e tirou muitos da pobreza, acaba revelando no final com uma imagem, que o narrador se referia a Adolf Hitler, que realmente fez tudo isso. O conceito do comercial dizia: “É possível dizer um monte de mentiras só contando a verdade”, e mostra como ao se perder o contexto, características reveladas isoladamente tornam-se levianas. Existe muita sabedoria neste filme de fato.

O que deveria prevalecer acima de qualquer coisa aqui, é o ensinamento de Jesus sobre a necessidade de comunhão e de unidade a qualquer custo: “Todo reino dividido contra si mesmo será destruído. Toda cidade, toda casa dividida contra si mesma não pode subsistir” (Mt. 12). É por isso que dentro da doutrina católica, dentro da tradição, do magistério e da palavra de Deus o método existente nessas críticas a tornam automaticamente sem fundamento. O que é triste, porque existem dentro das tais denúncias debates legítimos a serem tocados, como a questão da transparência sem perder a identidade da Obra e alguns aspectos da cultura interna, mas que deveriam ser debatidos dentro do Opus Dei e não fora dele.

Essas críticas são apenas destrutivas porque nelas não existe amor e zelo pela Igreja que fiscaliza, cuida e se responsabiliza por obras como a do Opus Dei. Danifica-se um galho, mas é o tronco quem também sofre. É por isso que suavidade e respeito são as palavras que São Pedro pede aos fiéis quando estes quiserem dar as razões de sua justiça (1 Pd. 3 – 14,16). Infelizmente não é o que estamos presenciando, pelo contrário, vê-se agressividade e obstinação.

Gostaria de finalizar divulgando uma séria de publicações já feitas sobre situações mais ou menos análogas às vividas pelo Opus Dei no Brasil e que respondem muito bem a quaisquer outras dúvidas, que evidentemente devem existir, e que não foi possível explanar aqui: West, W.J, Opus Dei (Exploding a Myth), Little Hills Press, Sydney, 1987; Le Tourneau, D., O Opus Dei, Editora Rei dos Livros, Lisboa, 1985 (t.o.: L’Opus Dei, Presses Universitaires de France, Paris, 1984); Thierry, J.J, Opus Dei. Mythe et Réalité, Hachette, Paris, 1973; O. Roegele, A. Bekel e H. Reiring, Opus Dei – Für und Wider; Fromms Taschen “Zeitnahes Christentum”, Band 52, Osnabrük, 1967; Gómez Perez, R., El Opus Dei, una explicación, Rialp, Madri, 1992; Messori, V., Opus Dei – Uma investigação jornalística, Editorial Notícias, Lisboa, 1994 (t.o.: Opus Dei, Un’indagine, Mondadori, Milão, 1994); Berglar, P., Opus Dei. Leben und Werk des Gründers Josemaría Escrivá de Balaguer, Otto Muller Verlag, Salzburg, 1983; Rodriguez, P., Ocariz, F., Illanes, J.L., O Opus Dei na Igreja, Editora Rei dos Livros, Lisboa, 1993; Romano G., Opus Dei – Il mensaggio, le opere, le persone, Edizioni San Paolo, Torino, 2002.

Bibliografia:

1 – João Paulo II. Levantai-vos! Vamos!. Editora Planeta. 2004, pg.121
56,57
2 – Escrivá, Josémaria. Questões atuais do Cristianismo. Quadrante. 1986, pg.113
3 – Dom Eugenio Sales. A campanha contra o Opus Dei. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/jornal/colunas/eugenio.asp>
4 – Allen, John L. Opus Dei, An Objectiv Look Behind the Myths and Reality of the Most Controversial Force in the Catholic Church. 2005. Disponível em: <http://www.zenit.org>. Acesso: 22 de dezembro de 2005.
5 – Escrivá, Josémaria. Questões atuais do Cristianismo. Quadrante. 1986, pg.56
6 – Catecismo da igreja católica. Vozes, Petrópolis. 1995, pg. 463
7 – Catecismo da igreja católica. Vozes, Petrópolis. 1995, pg. 248
8 – Inácio Larrañga, O Irmão de Assis. Paulinas, 2004. pg. 280
9 – Allen, John L. Opus Dei, An Objectiv Look Behind the Myths and Reality of the Most Controversial Force in the Catholic Church. 2005. Disponível em: <http://www.zenit.org>. Acesso: 22 de dezembro de 2005.

Obras consultadas:

– O Livro da Sabedoria dos Apóstolos, Annemaria Hamlin. Ediouro, 2000.
– San Juan de La Cruz – O poeta de Deus, Patrício Sciadini. Palas Athena, 1989.
– O Livro da Vida, Santa Teresa de Jesus. Paulinas, 1983
– A solidão em Santa Teresinha do Menino Jesus, P.P. Di Bernardi. Paulus, 2000

Facebook Comments